Adolfo Luxúria Canibal
Homem forte e voz dos Mão Morta, ele é
um anti-sistema por vocação. Abdicando de anestesia, coloca
o dedo nas feridas que mais fazem sangrar o desporto. Sem receios. Ele
sempre foi assim rebelde com ousadia na ponta da língua...
O
desporto como tema de conversa. Adolfo desenvolto, atirando a alma para
o pensamento. Sem rodeios. “A impressão geral que eu tenho
é que o futebol português é um grande antro de sacanice,
de corrupção e de jogos de interesses! Não sou
adepto de nenhum clube! Se há lobbies no futebol? Claro que sim!
Há grandes lobbies no futebol!” Competitivamente, como
português que é, disserta sobre a Selecção,
quando questionado sobre as reais possibilidades da equipa das quinas.
“Se for a equipa que foi ao Europeu anterior, e jogando com o
factor casa, temos equipa para poder ganhar o Europeu, mas se for a
equipa que era a mesma que foi a este último Mundial, esses podem
ficar em casa...” Pensador por natureza, Adolfo reflecte sobre
o futebol enquanto desporto, deixando as pisadas do seu raciocínio
sobre a importância do desporto-rei para todo um povo. “O
futebol pode funcionar como o ópio do povo. Quando as querelas
internas e os fait.divers servem para escamotear os problemas concretos
que as pessoas vivem, e fazem esquecer a resolução desses
problemas, aí o futebol funciona como ópio relativamente
a problemas gritantes que existem...” A terminar, surge a droga
abraçada ao desporto. O doping. “O uso de estupefaccientes
está ligado à tensão e à necessidade de
obter resultados que o desporto, sobretudo o desporto comercial e profissional,
incute no atleta, que se vê quase obrigado a ultrapassar os seus
limites físicos, e a ultrapassá-los pelo uso de matérias
químicas que o podem levar a isso. Tem de haver um
controle efectivo sobre essa matéria...Um ser humano em alta
competição é alguém que não tem a
capacidade ou que não está em situação de
ter capacidade - de decidir. É uma pessoa que está numa
posição de vulnerabilidade extrema, às pressões
do treinador, da equipa, dos dirigentes, do país, dos patrocínios...Ele
é praticamente empurrado e se não tiver a lei a dizer
'Isto é proibido!', ele não tem qualquer defesa para fazer
face a essas pressões! Ele precisa dessa proibição
para ter o mínimo de defesa! No desporto acima de tudo os interesses
são económico-financeiros! Hoje em dia no desporto profissional
o que conta é o lucro...”, finaliza, os neurónios
destilando veneno...
Pedro Barny
Éric Cantona
The King, como é apelidado pelos fans do clube
mais rico do mundo - o Manchester United - onde conseguiu ser o primeiro
estrangeiro de sempre a ostentar no braço a braçadeira
de capitão. Dele alguém disse ser “a mistura explosiva
de Rimbaud com...John Rambo!”
Expulso
do ventre de sua mãe em 1966, cedo demonstra que o Futebol lhe
está na “massa do sangue”, que a bola é apenas
um prolongamento do seu corpo. Inicia-se num clube local e de pequena
dimensão- o So Caillols- de onde se transfere com apenas 16 anos
para o Auxerre. Estreia-se um ano mais tarde na equipa principal. Em
87, explode a primeira bomba, o primeiro sinal de que Éric é
mais que um jogador explosivo. É também um homem explosivo.
Cantona é suspenso pela Federação Gaulesa depois
de ter agredido a soco...o Guarda-Redes da sua própria equipa!
O mundo começa a conhecê-lo e os mais conservadores olham-no
de soslaio. Os casos sucedem-se a uma velocidade vertiginosa. Em 88,
já no O.Marselha, insulta o seu treinador Henry Michel e é
novamente suspenso pela Federação Francesa. Em 89, chuta
a bola e atira a camisola de jogo propositadamente contra um árbitro
e para não variar volta a ser suspenso! Em 90, agride um companheiro
de equipa e...é suspenso! Em 91, atira novamente a bola contra
um árbitro. Suspenso de novo. Desta vez, pena a dobrar. Por quê?
Simplesmente porque quando interrogado no âmbito do inquérito
disciplinar chama idiota a cada um dos membros da comissão disciplinar!
Em 93, já com a camisola flamejante dos “Red Devils”,
depois de fugazes mas marcantes passagens pelo Sheffield Wednesday e
pelo Leeds United, é expulso num jogo frente ao Galatasaray,
na Turquia, e agride alguns membros da Polícia local.
A UEFA suspende-o por quatro jogos. Em 94, é expulso duas vezes
em quatro dias e é preso nos Estados Unidos após aplicar
golpe de Kung-Fu sobre um dos membros da Comissão Organizadora
do Mundial. Em 95, volta a mostrar os seus dotes na arte do Kung-Fu,
desta vez sobre um adepto que assistia em Manchester a um jogo frente
ao Crystal Palace! É suspenso por oito meses e condenado a 120
horas de Serviço Comunitário. Em 97, anuncia a sua retirada
do Futebol aos 30 anos, deixando atrás de si um rasto de talento
e...de polémicas!
Assim é Éric Cantona. Os seus actos falam por si. As suas
palavras também. “Jogo com paixão e fogo. Sei que
por vezes o fogo queima demais, mas se assim não fosse não
estaria a ser eu mesmo!”e “ tento criar entretenimento dentro
de campo. Tento ajudar as pessoas a distraírem-se, a abstraírem-se
dos seus problemas, nem que seja apenas por 90 minutos. Só queria
que a sociedade o pudesse fazer para sempre!”.
Dele o seu compatriota Michel Platini disse “ter tudo que um Jogador
de Futebol precisa de ter: estilo, elegância, subtileza e força
natural”. E disse mais. “ Quando a sua técnica é
completada com poder, com força, torna-se irresistível!
Os sentimentos de felicidade e de amor-próprio são tudo
para ele. Ele tem de se sentir acarinhado, venerado.” Johan Cruyff,
o mítico holandês, afirmou um dia que “Cantona é
um dos poucos jogadores no mundo de quem se pode esperar o inesperado”
e para “Sir” Alex Ferguson “ a contribuição
que ele deu para o Manchester nunca poderá ser mesurável.
Não tem preço.” Talvez por isso, Éric já
decidiu e comunicou ao mundo: “Não voltarei a pisar o relvado
de Old Trafford enquanto for vivo, mas quando morrer quero ser cremado
e que as minhas cinzas sejam depostas lá! Já deixei de
amar o Futebol, mas o United é o clube da minha vida. Quando
ouço os Fans ainda a entoar o meu nome, sinto uma emoção
indescritível. Arrepiante...”
Pedro Barny