Relatório Chernobyl(Volume3)
Página do autor | Cidade Fantasma e Terra dos Lobos | Primavera de 2007 |Reino de Plutão Foto reportagem 2008 |Quatro Estações Foto reportagem | Quatro Estações2010 Foto reportagem | Posfácio | Fotos e vídeos em alta resolução | Relatório Chernobyl(Volume1) | Relatório Chernobyl(Volume2) | Relatório Chernobyl(Volume4)| Glossário| Traduções


******************************

Se as pessoas soubessem acerca de Chernobyl, pensariam duas vezes antes de bombardear instalações nucleares. Está presente um perigo extremo de contaminação nuclear independentemente de os alvos serem centrais de energia nuclear ou instalações de produção de armas nucleares. O nosso mundo tornou-se demasiado pequeno para bombardear reactores atómicos. Bombardear instalações nucleares no Irão para tornar o mundo mais "seguro" é loucura - um oximoro similar a "guerra santa" ou "combater pela paz"

Vamos deitar um olhar retrospectivo às meias-vidas de alguns elementos nucleares como se vivéssemos no passado. Podemos ver a relação dos elementos nucleares com a história do progresso. A meia-vida do Amerício é de 458 anos, e espalhar este tipo de contaminação pelo planeta enviaria a nossa civilização de volta à idade de Shakespeare. A contaminação por Plutónio envenenará a nossa terra por 24,400 anos, o que nos faz recuar para a idade dos mamutes. O Neptúnio-237 tem uma meia-vida extraordinariamente longa de dois milhões de anos, e voltamos a ser macacos novamente

Em contraste a meia-vida de serviço útil para um político pode ser medida em meros meses, e a maioria não consegue ver qualquer problema que exista para lá deste curto período de tempo. Deixem-me terminar com mais um exemplo para explicar quão pequenas e miseráveis são as ambições dos nossos políticos: Se os Romanos tivessem inventado a energia nuclear e mais tarde alguém bombardeasse os seus reactores, esta terra ainda conteria vestígios de radioactividade e ainda teríamos, 2000 anos depois, milícias armadas a guardar os seus depósitos de resíduos nucleares de alto-nível.

Março, 2007

Numa nota optimista

Por estes dias, trabalho na tradução dos materiais dos meus websites para linguagens Europeias. O trabalho de tradução começou em Dezembro de 2006, e em Abril de 2007 mais de 800 páginas foram traduzidas. Isto é importante, porque Chernobyl é o "calcanhar de Aquiles" do monstro nuclear. Estou certa, os nossos esforços não serão em vão.

No que concerne a acidentes nucleares, sempre que aparece algum erro gravoso, ganha notoriedade e recebe o aplauso das mãos dos funcionários, não devemos desesperar mas muito simplesmente entender que eles ganham a vida a partir da Indústria Nuclear. Porque haviam alguma vez de querer que se soubesse toda a verdade? O conhecimento público e a aceitação da verdade significariam o fim dos seus empregos. Eles e o seu complexo nuclear militar têm fortes ligações com os políticos, eles são donos dos media, e eles têm todo o dinheiro do mundo, porque é dinheiro dos contribuintes que os políticos lançam na indústria nuclear. Com tal profusão de meios eles podem suportar dois ou mesmo três "eventos tipo Chernobyl”.

Ainda assim, nós vamos ganhar e eles vão perder. Porque do nosso lado está a infalível tendência do tempo para corrigir conhecimento e julgamento. Leva geralmente várias gerações para que a população em geral reconheça por si própria verdades que aqueles com visão mais clara detectaram à primeira vista. Quanto tempo vai levar, depende de nós - pessoas que já sabem o real estado das coisas e estão prontas para informar as outras. Também depende da dificuldade do assunto e a radiação é um assunto muito difícil e confuso. Contudo, em Chernobyl os factos são por si só eloquentes em relação a uma verdade. Ninguém pode manter acidentes de tal magnitude escondidos do público para sempre, nem mesmo a toda poderosa indústria nuclear.

Estamos no ponto em que a descoberta é inevítavel. As regras do logro e do engano, mais afoitas devido ao sucesso e movidas pela confiança cega dos testas de ferro que as promovem vai chegar ao fim. O absurdo de todos os relatórios oficiais sobre Chernobyl atingiu um tal nível que é por fim óbvio, mesmo para o olho menos perspicaz, que o rei deles vai nu. Podemos portanto deixá-los prosseguir. Nesta altura, quanto mais arrojadas forem as suas declarações melhor... e mais fácil para nós fazer com que tenham que se mexer e... mais fácil pô-los a andar...

Abril, 2007

************************

Durante a Guerra Fria, este período perigoso que poderia ter feito Cherny parecer um “estalinho” de criança, o académico Andrei Sakharov ousou criticar o programa nuclear Soviético. O resultado foram as seguintes - prisões, interrogatórios, desacreditação pública... Sakharov acreditava que os reactores podem ser seguros, quando construídos subterraneamente.

O académico Legasov, que sonhou com um “Instituto das Tecnologias Seguras” foi feito bode expiatório. Foi-lhe diagnosticado câncro, que contraiu em Chernobyl, mas o sistema forçou-o a deixar a sua vida ainda mais cedo, cometeu suicídio no dia do segundo aniversário de Chernobyl.

A imprensa rotulou o Dr Gordon Mac Lead como provocador de pânico depois de ele ter provado que o acidente em Three-Mile Island provocou um aumento da mortalidade infantil.

Em qualquer país, qualquer tempo, ver-se-à que a história é a mesma; quer falemos acerca de Didier Anger preso em França por organizar acções de protesto nuclear, nos anos 60, ou Youri Bandazhevsky, da Bielorrúsia, que estudou as mutações genéticas em Chernobyl e foi sentenciado a 5 anos na prisão, depois de as suas descobertas terem sido publicadas em 1996. Quer tenhamos o assassinato de Karen Silkwood nos EUA ou o assassinato de Hilda Murrell, uma perita em resíduos nucleares do RU... a história é sempre a mesma. Apenas o tempo e o lugar são diferentes.

Contudo, gostaria que alguém tentasse um estudo da trágica história de todos aqueles que, desde sempre, proclamaram ao mundo os perigos da energia nuclear. Eu devia ter condenado a maneira suja com que estes cientistas e pesquisadores, que formam a possessão mais digna de orgulho de várias nações, estavam a ser tratados. Tal história falaria do martírio de quase todos os que foram movidos pelo instinto comum para a nossa auto-preservação, que prestaram um serviço de valor incalculável à humanidade, e que aplicaram todos os seus talentos e forças para avisar as pessoas acerca do perigo nuclear que encaravam.

Tal história mostrar-nos-ia como eles foram atormentados até à morte e aprisionados, como trabalharam sem reconhecimento, sem simpatia, sem seguidores, como perderam os seus empregos e viveram na pobreza, miséria e medo, enquanto a honra, dinheiro e segurança foram roubados pelos indignos. Aprenderíamos como eles se esgueiraram pelos postos de controlo, para trazer fotos e revelar a realidade, como eles investigaram qual é realmente a verdade e não o que é mais adequado ao poderoso complexo industrial/militar. Principalmente, como eles trabalharam sem qualquer hipótese de ter as suas pesquisas alguma vez publicadas. O seu destino foi como o de Esau que, enquanto estava a caçar e a obter veado para o seu pai, foi roubado da sua benção por Jacob... , Essas pessoas são faróis da humanidade; e sem eles a humanidade perder-se-ia em fumo atómico e num infinito mar de erros monstruosos. Eles são o sal da terra, os frutos daquela árvore, a qual Jesus disse que seria cortada e posta numa fogueira quando não desse bons frutos.

O trabalho de qualquer dessas pessoas tal como foi feito, é o objectivo sagrado da sua vida, e o seu propósito é preservá-lo para a infortunada posteridade, que depois deles herdará a terra devastada com pilhas de lixo radioactivo e não terá interesse em mais nada, senão saber - como aconteceu isto e como começou.

Abril, 2007

************************

Para entender como a posteridade será tão desafortunada a ponto de ser purificada à força das escórias da civilização, vamos antever o caminho pelo qual o nosso presente movimento nos está a levar. O futuro da nossa civilização é tão previsível como a vida de um alcoólico falido que não é orientado pela livre vontade, mas é antes arrastado pelas correntes das suas necessidades imediatas.

Até aos anos 80, podemos ser comparados, com respeito à maneira como usámos recursos – a nossa energia vital, a pessoas que vivem dos juros do seu dinheiro: o que gastam hoje, têm novamente amanhã. Mas a partir dos anos 80, a nossa posição é como a do investidor que começa a usar o próprio capital. Chegámos aos 100 por cento do uso da produção natural anual.

Ao princípio mal notamos qualquer diferença, uma vez que a maior parte das nossas despesas são cobertas pelos juros (renovabilidade) das seguranças da natureza; e se o défice é ligeiro, não lhe prestamos atenção. Mas quando o défice vai aumentando, a nossa riqueza natural – como as calotas polares e os glaciares – começa a derreter. O passo está a aumentar exponencialmente, mas a vasta maioria das pessoas não acordou para o facto de que é mais sério a cada dia que passa.

À medida que a bebedeira continua, a nossa posição torna-se menos e menos segura. Já nos estamos a sentir ficar mais e mais pobres, e entretanto ainda não conseguimos prever que esta drenagem dos nossos recursos tem de vir dar brevemente a um fim desastroso. Ninguém se atreve a parar a bebedeira, apesar de a nossa queda da riqueza para a pobreza estar cada vez mais rápida – como a queda de um corpo sólido no espaço - até que por fim não nos sobre absolutamente nada. Quando esta bebedeira acabar, tudo o que vai restar é uma terra devastada e uma enorme ressaca social.

A nossa infortunada posteridade que vai herdar tal terra irá muito provavelmente involuir para caçadores-recolectores. Vão viver em comunidades separadas, em cruel privação. Vão ter que lutar e ajustar-se à nova realidade da escassez. De muitas maneiras eles serão como os últimos sobreviventes que ainda vivem em Chernobyl. Eles são desafortunados e – como todas as pessoas desafortunadas – têm apenas a boa filosofia como substituta da boa vida que perderam.

Maio, 2007

******************

Esta primavera o mercado deu à luz um jogo de computador tipo Chernobyl chamado S.T.A.L.K.E.R.: Shadow of Chernobyl). É um jogo popular e recebeu muita publicidade através do debate sobre se seria avisado transformar uma cena de miséria num jogo de computador. Eu própria não tenho opinião acerca do jogo, mas tenho um alto nível de ansiedade acerca da maneira sistemática pela qual os nossos sistemas políticos e de negócios procuram: (1) manter-nos neste simplificado, completamente artificial, convenientemente construído e convenientemente falsificado mundo de jogos de vídeo, e (2) negar todas as consequências de falhas e miséria humana.

No que eles gostam de perseverar com todo o seu poder é na felicidade universal da manada, segurança, ausência de perigo, comforto e vida mais fácil para todos. Milhões estão agora a perseguir monstros de Chernobyl, nos seus computadores, sem fazerem qualquer ideia de que há um monstro real por detrás do cenário e este monstro pode começar a perseguir todos, a qualquer momento, na vida real.

Maio, 2007

A Era Medieval Atómica

Em Maio de 2007 publiquei o meu livro "The Atomic Middle Ages" (A Era Medieval Atómica). O título do livro deriva da minha forte convicção de que estamos a viver num tempo semelhante à Era Medieval na Europa. Depois dos bárbaros terem conquistado Roma, vários séculos de história simplesmente desapareceram do calendário humano. A igreja tornou-se a mais alta autoridade, a criatividade foi suprimida, e as mentes das pessoas foram envenenadas com bebidas e religião.

Estando sob o jugo férreo das corporações como está hoje, a Europa encontra-se inundada por migrantes estranhos e as mentes das pessoas estão a ser envenenadas por todos os tipos de novos "narcóticos"- ideológicos, religiosos e bioquímicos.

Eu acredito mesmo que um dia as pessoas vão chamar ao nosso tempo A Era Medieval Atómica e o significado histórico de Chernobyl é de que o “sarcófago representa a primeira pedra tumular da nossa era. Permanecerá radioactivo por pelo menos 100,000 anos e irá definitivamente sobreviver a todos os outros sinais da nossa epóca. Vemos que a loucura atómica continua e não é preciso o Nostradamus para prever que os futuros viajantes da terra vão ver paisagens semelhantes á de Chernobyl com mais pedras tumulares.

É claro, a maioria das pessoas não partilha desta ideia porque acreditam elas próprias estarem a viver em tempos progressivos. Mas há setecentos anos atrás ninguém que tenha vivido no que agora chamamos Era Medieval pensou de si próprio como vivendo nela. Na Era Medieval, as pessoas pensavam viver em tempos modernos e acreditavam no progresso humano, tal como as pessoas de hoje.

Globalismo Nuclear

Hoje, mais e mais países do mundo estão a começar a construir reactores nucleares, a abandonar planos para a descontinuação de instalações nucleares velhas ou a abrir discussões sobre a construção de novas instalações. O Renascimento Atómico não deixa dúvidas de que os mundos civilizados tanto de oeste como de leste estão a entrar numa nova “Idade das Trevas” com “pensamento à base de fé” derivado de propaganda escura, violenta e desmiolada e sistemas de crença irrazoáveis.

Parecemos estar a afastar-nos do pensamento crítico de base racional, trabalho árduo, e inovação criativa – e em vez disso aproximamo-nos dum consumismo desmiolado, ultra egoísta e do “nada fazer”, com os nossos líderes a serem controlados por um corporativismo motivado pela ganância. Estamos rapidamente a caminho de um tipo falso ou imitação de democracia que é na realidade fascismo militarista controlado por corporações. Este processo é global.

Constroem-se reactores nucleares como à ordem. A energia atómica está a invadir o nosso planeta tão facilmente como Hitler invadiu a Europa, encontrando fraca resistência agora como então. Essa é uma boa ilustração do que é a globalização, na realidade. A globalização de culturas, na qual diferentes raças e nações se misturam e convivem juntas é outro sinal da Nova Era Medieval.

Não deixem que os media corporativos vos levem à certa e vos façam acreditar que a globalização vai enriquecer intrinsecamente as nações. Sendo baseadas apenas nos interesses económicos, a globalização apenas pode trazer dividendos às corporações, tornando-lhes mais fácil a penetração nos mercados e o estabelecimento de consórcios corruptos; de início poderão elevar-se algumas economias, mas para a vida das sociedades e sua cultura, é diminuição e a longo prazo será também um desastre para as economias.

Para as culturas, a globalização é como o “Round Up” é para as plantas, mata quase tudo, deixando apenas um tipo – “Round Up” ready, consumidores com cabeças de pau, sem qualquer modo de estar especial ou marca que os distinga. São como bens fabricados em massa – todos semelhantes, privados da capacidade para pensar e julgar – bárbaros! Os bárbaros da era digital, cuja agenda é, ver TV, jogar em computadores, adorar praticantes de desportos e reverenciar estrelas de cinema.

A globalização divide a pobreza interna no mesmo grau em que distribui a riqueza externa. Se as pessoas são passivas, como agora, então a globalização vai deitar-nos abaixo, fazer-nos medíocres e vai baixar os nossos valores sociais e morais, a vulgaridade vai-se espalhar por todo o lado, porque é mais fácil ser reles e adoptar os defeitos dos outros é muito mais fácil que adoptar os méritos.

Enquanto a Natureza estabelece largas diferenças entre raças e nações, a globalização ignora-as e apaga-as. A integração mútua compele-nos, a bem da harmonia, a encolher, ou mesmo alterar completamente a nossa forma. Isto exige um acto de auto-negação; rouba-nos a identidade nacional à medida que cada grupo étnico ou nação tem que falsificar cinco sextos de si próprios para ser como os outros.

Irei mais longe e direi que a globalização envolve necessariamente como condição primeira para a sua existência, acomodação mútua e restrição da parte dos seus membros. Isto significa que quanto maior for o conglomerado e quantas mais as nações envolvidas, mais insípido será o seu tom e mais baixos os seus valores. No fim as nações que se tornaram interiormente pobres vêem a ser pobres exteriormente e todo o conjunto se limita a desmoronar, como a antiga União Soviética.

Eu chamo ao nosso tempo “A Idade Medieval Atómica” porque muitos dos seus portentos são reminiscentes da primeira Idade Medieval. O processo de colapso dos estados transcorre paralelamente a uma união universalista. Começaram os processos de retirada e consolidação, similares aos processos de retirada e consolidação durante o tempo do Imperador Diocleciano, e daqueles que lhe sucederam.

Na minha parte do mundo vejo claramente o começo de uma nova feudalização. A multidão de repúblicas separatistas, a viverem por duas décadas sem qualquer sistema monetário ou quaisquer outros atributos de um estado, são lideradas por ambiciosos senhores feudais. Cada um destes aspira a ascender à posição de barão nuclear.

Hoje há enormes transmigrações e deslocamentos de massas de humanidade. Segue-se um novo caos entre todos os povos. À medida que o barbarismo avança, ganhando rapidamente terreno em todo o lado, o número de verdadeiros profissionais e especialistas conscienciosos está em constante decréscimo. A questão que quero perguntar é “Quem irá guardar os desperdícios de alto nível (radioactivo) e quem irá tomar conta das instalações nucleares quando os sistemas automáticos deixarem de funcionar e os políticos ficarem fora de controlo?

Se este processo continua a este ritmo, em breve não teremos especialistas, só uma massa redemoinhante de quase selvagens a ocupar tanto cargos públicos como instalações de alta tecnologia. O que nos espera é um novo barbarismo, mas não será um barbarismo por entre campos e florestas como em Roma, este será um barbarismo no meio de um neo inferno de máquinas de guerra e reactores nucleares.

A cultura espiritual por estes dias, tal como na Idade Média, experimenta o seu período das catacumbas. Hoje não vive nas páginas de jornais e revistas, nem nos salões das universidades ou igrejas. A verdadeira cultura espiritual do nosso tempo foi forçada para o subsolo e vive agora nas cavernas, passagens e labirintos virtuais dos sites da internet.

O meu livro emerge destas catacumbas e reflecte o tom do crepúsculo social que se aproxima. Nem é para deitar abaixo nem procura culpar. Em vez disso a minha intenção é que seja deitado à terra como a semente de uma flor selvagem no meio do joio tecnológico.

************************

************************

Oficialmente, a Era Medieval Atómica começou em 7 de Maio de 1945, com o primeiro teste atómico dos EUA chamado Trinity. Desde então, a obtenção de armas nucleares tornou-se uma prioridade para muitos países. Porque vivemos num mundo onde os estados têm direitos à medida do seu poder, os programas nucleares civis têm sempre tido protecções especiais dos seus complexos militar-governamentais. Ninguém se importa que cada central de energia nuclear custe mais alguns milhões de dólares, libras ou rublos do que a estimativa, e que todas elas tenham levado mais anos a construir. É até mesmo ignorado que, no fim de contas, elas apenas produziram uma modesta proporção do total de electricidade requerida pelos países seus anfitriões. Naturalmente os políticos e os militares desconsideram tudo isto. Tais falhas técnicas não vêm ao caso, afinal, a indústria da energia atómica não tem a ver com electricidade, tem a ver com poder.

Renascimento Atómico

Dos meus jornais locais recentes: "A Europa está a ponto de começar uma nova era nuclear, invertendo duas décadas de políticas direccionadas ao abandono da opção nuclear como fonte de energia no seguimento do desastre de Chernobyl em 1986... A Finlândia está a construir a maior central nuclear, vai abrir em 2010. A Suécia, Itália e os Países Baixos abandonaram planos para descontinuar as suas velhas centrais ou iniciaram discussões sobre a construcção de novas. A Suiça levantou uma moratória a novas centrais. A Polónia concordou em Fevereiro ajudar a construir uma central na Lituânia.. A Bielorússia arranca para o ano com a construcção de uma central que começará a gerar energia em 2014. A Rússia iniciou a reconversão de velhos submarinos e outros navios nucleares para centrais atómicas flutuantes, etc" É claro que a aberta nuclear de 20 anos despoletada pelo desastre de Chernobyl está a chegar ao fim. Força motriz da reviravolta: preços altos do petróleo e gás natural mais a preocupação acerca da fraca confiabilidade nos abastecimentos de combustíveis fósseis provenientes da Rússia. Mas mais que tudo isso a preocupação com o aquecimento global, que é como um Chernobyl global em câmara lenta, uma fusão da qual o passo está a acelerar gradualmente à medida que as calotes polares e os glaciares derretem. A idea de arrefecer a terra com reactores nucleares é avançada por alguns que dizem que os reactores atómicos podem ser um bom substituto para o combustível fóssil, porque apenas contribuem minimamente para as forças envolvidas no aquecimento global. Outros dizem, não é boa ideia, porque construir mais reactores pode apenas levar à fusão em movimento acelerado.

Soluções alternativas tais como as energias eólica e solar ainda não são populares porque não geram tanto dinheiro e poder político. Entretanto nós temos, em absoluto, pouco e precioso tempo de sobra para olhar objectivamente para as opções eólica e solar. Se num futuro muito próximo não for desenvolvida uma solução alternativa, teremos então apenas a escolha entre o aumento do uso da energia atómica ou a dos combustíveis fósseis... a vida apresentará, de facto, uma oscilação mais ou menos violenta entre esses dois poderes, bem como entre dois caminhos, um dos quais leva a Chernobyl e o outro à Atlântida.

No grau em que sejamos felizes de nos afastar de um, nos vamos mais aproximar do outro. A seguir aos acidentes nucleares, quando os terrores da radiação suplantam todos os outros terrores – a dor torna-se apenas um padrão pelo qual regulamos as nossas acções - portanto vamos encerrar as centrais atómicas; mas quando a dor nuclear é aliviada, os furacões e cheias parecerão novamente ameaças mais reais. Depois de algum tempo procuramos abri-las de novo. Se uma solução saudável não for encontrada, vamos andar às voltas neste círculo vicioso até acabarmos num pântano radioactivo.

É tempo das pessoas acordarem e livrarem-se desta atitude despreocupada, tempo para compreender que essa vida serena e sem nuvens dos anos 90 já não está connosco, é um paraíso que perdemos ao jogo; hoje, o interesse da espécie humana em manter-se viva sobrepõe-se ao interesse da vida da natureza; o conflito está a crescer e é realmente tempo de compreender que se continuamos a forçar a natureza, a nossa vitória será um momento breve, riqueza de um minuto. Não mais. Porque a natureza vai voltar muito depressa, e vai ensinar-nos, de uma maneira pronta e rude que de facto não possuímos nada, mas que tudo no mundo está ao seu comando. Vai reclamar o seu inalienável direito com força redobrada ou triplicada, a novos territórios, às nossas casas e negócios, a tudo o que possuímos ou adquirimos e então, quando for demasiado tarde, todos compreenderão finalmente que foram governados pelo embuste e viveram por falsos padrões e que a única maneira de os humanos sobreviverem é vivendo em harmonia com a natureza, não em confronto como nos ensina a filosofia positivista universalmente adoptada.

A falha em reconhecer esta verdade – uma falha promovida por ideias optimísticas – é a fonte de todos os nossos problemas.

Junho, 2007

Nota de rodapé 1: A filosofia positiva (positivismo) é a doutrina filosófica da ciência que ensina que é melhor enfatizar o positivo e não os desapontamentos que são parte ocasional da vida, que o mundo foi feito para ser conquistado, que os únicos que não conseguem são os que não têm esperteza suficiente para ultrapassar as dificuldades que encontram no seu caminho... Em contraste, os Upanishads (uma classe de tratados Védicos que abordam grandes problemas filosóficos) e a Bíblia ensinam que o desgosto é a única promessa que a vida cumpre e a mágoa a única coisa que os humanos realmente possuem...

Capitalismo e socialismo, inteiramente do mesmo modo, foram infectados por este espírito. A principal doutrina dos comunistas, chamada “materialismo dialéctico”, era uma forma de positivismo em que o padrão de mudança na história da esclarecida sociedade socialista consistia de mudanças apenas numa direcção e essa direcção era a do melhoramento. De acordo com esta doutrina, acidentes como o de Chernobyl não podiam acontecer, eram mesmo impossíveis. Mas então, quando realmente aconteceu esta filosofia ruiu, arrastando a União Soviética com ela. Chernobyl minou as fundações da ideologia Soviética. O sistema não pôde reagir, porque este positivismo não era aquele de cariz científico, baseado na razão, crítico, como o do início do Século XX, nesse ponto a doutrina tinha-se degradado na ideologia desastrada e desmiolada de um partido. Apesar de nunca terem admitido a catástrofe, o sistema do materialismo dialéctico não mais podia existir. Eu esperava que Chernobyl tivesse sido o último prego no caixão do positivismo soviético, mas não foi esse o caso. Os fantasmas não estão a morrer, e assim o materialismo dialéctico está a ser convertido numa nova forma de positivismo corporativista. Como um furacão geralmente se dissipa ao atingir uma península, assim é a ilusão quando se encontra com os problemas da realidade; por um tempo desfigura-se e deforma-se, mas à maneira do furacão, o fantasma passa e vai ganhando nova força para continuar o seu caminho...

Interview to "Wirtschaftswetter" online magazine

Perguntas para Elena:

Elena – onde estavas a 26 de Abril de 1986? O que te aconteceu e à tua família nesse dia?

Esse dia não foi diferente dos outros, brincámos nas ruas, tínhamos vento sul, portanto a radiação não era alta em Kiev. Quando os níveis começaram a subir o meu pai mandou-me para fora com a minha irmã, pôs-nos num comboio sem bilhetes. O pânico já tinha começado, e então o comboio estava cheio de crianças. O meu pai diz que nesses dias os níveis de radiação em Kiev eram acima de 1 miliroentgen por hora à altura dos olhos e 20 a 50 miliroentgen no chão. Hoje em dia níveis tão altos só se podem encontrar nos aterros radioactivos em Chernobyl.

A maioria dos habitantes de Kiev fugiram e alojaram-se com parentes até meados de Maio de 1986, então escolas, faculdades, fábricas e outras instalações começaram a exigir os empregados e estudantes de volta, e portanto não tivemos outra escolha senão voltar à radioactiva Kiev.

Onde estão hoje as pessoas de Chernobyl?

As pessoas foram realojadas e vivem agora em diferentes cidades e vilas da Ucrânia – principalmente em Kiev. A reinstalação foi-lhes muito dolorosa. É como o transplante de um membro ou o replantar de uma árvore, que frequentemente não consegue criar raízes num novo local, especialmente se o ambiente for diferente.

A maioria dos evacuados de Chernobyl viviam em áreas rurais e aqui temos uma grande diferença entre a vida das cidades e a das aldeias. Deixem-me traçar alguns paralelos para explicar os problemas.

Linguagem – nas cidades as pessoas falam Russo, nas aldeias Ucraniano. Esta é uma grande barreira.

Ritmo – nas aldeias a vida é estática, nas cidades dinâmica.

Visão do Mundo – nas aldeias deriva do conhecimento da natureza, é orgânica, enquanto nas cidades é determinada pela engenharia, a arte, tendendo a ser mecânica e pragmática.

Atitude – nas aldeias a atitude é telúrica ou orgânica, deriva do e está interligada com o culto dos antepassados e é impossível sem tradições sagradas. A vida na cidade por outro lado é pró-civilização; é uma vontade de deter poder mundial, começando com o reordenamento massivo da própria terra. Uma cidade é internacional por natureza, enquanto uma aldeia é sub-nacional.

Mas o que afectou os aldeãos mais profundamente foi a privação espiritual depois do seu realojamento. A vida nas aldeias é religiosa por natureza sendo assim distinta da vida nas cidades, que é irreligiosa. Uma alma do campo é aquela cujas maneiras gentis foram influenciadas pelo período Cristão da história. Brilha através de tudo com os raios do sol Cristão. Na cidade esses raios foram há muito extintos pelas lúridas prácticas da civilização desendeusada.

Por esta razão muitos dos evacuados de Chernobyl morreram de bebida, saudade e desespero, enquanto outros voltaram às suas casas e morreram de radiação. Aqueles de entre eles que eram jovens e fortes instalaram-se em diferentes locais e vivem agora connosco.

O que irá acontecer de futuro com o reactor? Nunca voltará a ser seguro, pois não?

Não posso prever o que irá acontecer ao reactor. Houveram algumas tentativas para começar a construir novos sarcófagos, mas todas falharam. Tudo o que sei é que enquanto as situações política e económica permanecerem instáveis na Ucrânia ninguém investirá neste projecto de biliões de dólares.

Há quem diga que é agora muito mais seguro viajar pela “zona” de Chernobyl. É verdade? Então e a radioactividade no solo? Poderão voltar a viver lá pessoas?

Viajar é muito mais seguro agora, mas viver ainda não. A natureza vai sarar a terra e eu espero que um dia as pessoas vão voltar a viver nalguns locais.

Elena – no teu website publicas muitas fotos, informação, entradas de diário e pensamentos teus. Do que estás à procura? O que te faz voltar uma e outra vez?

Tenho a certeza que há muitas pessoas pelo mundo fora que fariam este trabalho, mas nem todas têm dinheiro para viajar até aqui e nem todas falam a língua e sabem como obter permissão para visitar Chernobyl ou como passar ao lado dos pontos de controlo. Eu sei estas coisas, porque sou nativa. Chernobyl está ao meu lado e levar este trabalho a cabo é mais fácil para mim do que para pessoas que vivem longe. Chernobyl é também uma parte da minha vida e eu sinto ter uma certa obrigação de falar acerca do assunto.

Espero um dia ter a minha mota reparada e poder continuar a minha história.

O que pensas quando atravessas a fronteira imaginária para a Terra dos Lobos?

Para mim a fronteira imaginária para a Terra dos Lobos é uma ponte a uns 60 km a oeste do reactor. Lá está a aldeia morta de Bobyor (Castor) que estava localizada ao longo da margem do rio. Este lugar é muito belo e ao estar nesta ponte sinto sempre alguma perda do sentido da realidade, que é na verdade uma perda da presença do Tempo.

Normalmente os humanos sentem que o tempo está parado em Chernobyl. É porque o Tempo é aquilo em que todas as coisas passam no entanto em Chernobyl nada muda. Numa vida humana quaisquer dez ou quinze anos é sempre uma quantidade significativa de tempo, algo sempre acontece, enquanto em Chernobyl nada se passa em igual período, assim sinto como estando numa qualquer ponte para o infinito e fico lá por mil anos vendo a mesma imagem, pensando o mesmo pensamento acerca da vaidade da nossa existência e da efemeridade da idade humana, que é apenas um breve instante na decomposição dos isótopos à medida que lentamente, imperceptivelmente, centelham de um elemento para outro.

Sinto nesta ponte, como se estivesse entre dois mundos. Um que estou a deixar para trás é o nosso – o mundo da civilização, onde o eterno desassossego, tumultos e a efémera passagem de cada momento presente é o único modo de existência humana; onde Chernobyl está esquecido porque a maioria das pessoas não são mais que a corporização de impulsos do presente, e para elas o que foi não mais existe.

Quando cruzo a fronteira imaginária eu penso que o mundo que estou a deixar é puramente físico, enquanto aquele em que estou prestes a entrar é metafísico; onde as ruas são sem peões, os balcões sem lojistas e as igrejas sem padres; porque não é nem o céu de Deus, nem o reino de César, é agora o domínio de Plutão, onde tudo – passado, presente e futuro fluem juntos e existem como um.

Também penso acerca da vida que em tempos fervilhou em Chernobyl, - acerca da vulgar vida humana, em que algumas pessoas construíram carreiras, outros lutaram contra moinhos. A vida em que alguns escavaram fortalezas subterrâneas, enquanto outras erigiram castelos de ar. A vida em que alguns semearam as sementes que nunca viram rebentar, outros colheram a colheita que não semearam… Agora, todas as suas perseveranças, feitos e paixões são só uma pálida sombra no muro.

Acreditas que ainda se vai falar de Chernobyl daqui a 10 ou 20 anos?

As pessoas não podem esquecer Chernobyl completamente. Porque é um território de tão vasta dimensão, envenenado com radiação, que vai sempre lá estar para relembrar.

És contra a tecnologia nuclear?

A tecnologia nuclear põe uma sentença de morte sobre o mundo; é muito perigosa em mãos humanas.

O que gostarias de dizer às crianças, nascidas nos últimos 15 anos? E aos pais delas?

Não se sintam esquecidos, o mundo sofre por vocês.

Não fixem o olhar no Abismo do vosso infortúnio porque, como disse Nietzsche, se olharem muito tempo para o Abismo, o Abismo vai olhar para vocês.

O sentido disto é que vão limitar-se a vós próprios ao pensarem acerca de coisas infinitas, tais como o tempo, o universo, e a estupidez humana.

Elena, ainda és uma optimista?

Sou uma alegre pessimista.

Astrid Wehling/Wirtschaftswetter/October 2007

próxima página