Diários de Chernobyl Volume 2 HTML: Diários de Chernobyl

Diários de Chernobyl (Volume2)
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Radiofobia

Depois do acidente de Chernobyl, foram reportados múltiplos casos de distúrbios mentais. Os psiquiatras soviéticos, bem como os pós-soviéticos, diagnosticaram todos eles como Radiofobia.

Nos campos de prisioneiros GULAG de Stalin, tinham poucos comprimidos, então qualquer um que consultasse o médico recebia "Analgin", que era o mesmo comprimido para todas as doenças. Algumas vezes os médicos partiam o comprimido ao meio e diziam aos prisioneiros - "tome uma metade para a febre, e a outra metade para as úlceras". Este é exactamente o mesmo método de tratamento que as vítimas recebem para toda a sorte de distúrbios de Chernobyl, não interessa o que os incomoda, o diagnóstico é "Radiofobia", e o tratamento é sempre o mesmo comprimido inútil.

Setembro, 2006

Belorus

A radiação de Chernobyl envenenou 1/5 do território total do nosso país vizinho a Belorus, a que chamo Bielorrússia. Todos sabem que essa terra está demasiado envenenada para a agricultura, e a radiação ainda vai estar lá quando a presidência perpétua de Lukashenko for história ancestral.

Esta primavera, Luka venceu outro mandato presidencial, aprisionou o líder da oposição, e declarou victória total sobre todos os seus inimigos, incluindo Chernobyl. Ele anunciou solenemente que algumas partes da terra estão agora seguras para as pessoas repovoarem.

Eu queria escrever-lhe uma carta para congratulá-lo pela sua victória, e para propor que a sua administração e as suas famílias se tornem os primeiros habitantes daquelas aldeias mortas.

Eu ouvi que ele obteve sucesso a reunir "voluntários" para essa ideia. Entre aqueles que concordaram em participar nessa experiência estão pessoas que não têm para onde ir, incluindo prisioneiros em condicional recente e refugiados de antigas repúblicas soviéticas na Ásia Central e Chechénia.

Até então, todas as tentativas oficiais de soprar vida nova em Chernobyl falharam, e os únicos resultados tangíveis dos seus esforços são umas poucas páginas de estatísticas selvaticamente optimistas feitas para os relatórios da ONU.

Setembro, 2006

A nossa educação

Chernobyl tem de ser revelado aos jovens e devia tornar-se objecto de estudo obrigatório na escola, porque quanto mais tempo alguém vive, mais se acostuma e gosta das coisas deste mundo. É realmente a juventude que persevera na mudança do curso das coisas, não os adultos que lidam perfeitamente com a hipocrisia do mundo e tiram vantagem do seu erro.

Na União Soviética, a física nuclear era um ramo privilegiado da ciência. Como se estivessem envoltos num novelo, os cientistas desenvolveram as tecnologias nucleares sob vigilância da KGB, sendo os seus estudos focados exclusivamente em Marx e na ciência. As partes humanitárias da educação eram propositadamente ignoradas nos seus currículos. O Estado não precisava de filósofos, precisava de cientistas eficientes e patriotas que não pensariam em passar segredos nucleares à CIA. Eventualmente este cultivo exclusivo da técnica produziu cientistas que não compreendem o processo total da vida e portanto tinham pouca consciência das suas actividades. O sistema de educação soviético não ensinava qualquer respeito pelos seres humanos. Sem amor e respeito pela vida em geral, e pela vida humana em particular, o conhecimento somente conduz à destruição e à miséria.

Ser privilegiado significa ser arrogante, eles não ouvem ninguém que não seja da sua liga. Os projectistas do reactor de Chernobyl foram avisados muitas vezes para não construírem reactores próximos de grandes centros populacionais, mas eles ignoraram isso. Foi-lhes dito que construir reactores sem cobertura era perigoso, mas eles construíram-nos mesmo assim. Ainda construíram reactores do tipo de Chernobyl após o acidente.

Chernobyl é outro tanto um resultado do sistema educacional totalitário falho, onde os templos da aprendizagem eram como um tabuleiro de xadrez. Um professor de ciência nuclear tinha os privilégios de uma rainha, enquanto os professores de história e literatura tinham menos respeito do que um peão. As décadas de apego a fórmulas e slogans repetidos produziu milhões de académicos e técnicos com capacidades desactualizadas e corações de chumbo. Todos estes foram despejados no mercado de trabalho quando o sistema soviético entrou em colapso. Esses mesmos calhaus estão agora de volta - no mundo dos negócios.

A questão é e agora? Será a nova geração de físicos nucleares e técnicos de controlo mais profissional que a anterior? Eu duvido, porque nos tempos Soviéticos pelo menos os estudantes tinham que estudar. Agora na minha parte do mundo qualquer um pode subornar a sua passagem nos exames ou simplesmente comprar o seu diploma. Não há como aprenderem com Chernobyl, porque a verdade sobre Chernobyl está tão escondida deles como do resto de nós e portanto não podem procurar o que lhes falta. A irresponsabilidade de funcionários e desenhadores de novos reactores é encorajada pelo facto de ninguém ter sido punido pelo acidente de Chernobyl. Agora fazem o que sempre fizeram mas desta vez mais descaradamente, e com real cinismo, porque sabem que nunca vão ser responsabilizados pelos seus actos.

Muitos governos são controlados por grandes corporações e tomaram a educação dos dias presentes sob o seu controlo. Eles combinam os seus esforços e trabalham juntos na área da educação ou formação profissional das crianças para NÃO PENSAREM criticamente acerca do que as corporações, governos e regimes andam a fazer, mas para dar aos jovens uma versão "limpa" ou desinfectada dos acontecimentos que dá sempre aos futuros cidadãos e consumidores uma visão "bem estar" do poder e influência dos governos-corporações. Eles cultivam a productividade, eficiência, e sucesso, mas novamente, os assuntos que ensinam o respeito e compreensão da vida humana são suprimidos. Os estudantes estudam apenas para uma profissão específica, são ensinados como ganhar um grau académico e ser mecanicamente productivos – mas sem serem inteligentes.

Todo o moderno sistema escolar é um tapete rolante, os professores à procura de obterem subornos de estudantes à procura de obterem diplomas dos professores. O nosso sistema educacional está na última fase da degradação, permite que a palavra "Absinto" seja removida dos dicionários. Produz médicos que concluem que as crianças de Chernobyl têm QI mais altos que as de áreas não contaminadas, jornalistas que escrevem que Chernobyl foi apenas um pequeno acidente com fogo... E que dizer daquele seminário, em que adoptaram a agenda "Vamos acabar com toda a conversa acerca de Chernobyl"

A própria existência da civilização depende de cérebros escrupulosamente escolarizados, engenheiros talentosos, cientistas inquisitivos e trabalhadores habilitados que dominam a técnica e a desenvolvem para diante, mas como pode alguém que comprou o diploma impulsionar o progresso para a frente? A civilização desvanece. Não admira. Eles apenas conseguem produzir uma ilusão de progresso. É o que fazem com os seus relatórios sempre optimistas. Isto acontece porque os princípios gerais da cultura são suprimidos na educação moderna e tal educação não tem já matéria com que alimentar o talento.

A maioria das instituições sociais estão concebidas para manter as pessoas intelectual e emocionalmente apáticas, o que as torna mais aptas a serem governadas, torna-nos todos subservientes e incompletos, profundamente desprovidos de pensamento, e desesperadamente passivos. Este sistema convém à nossa elite governante, pois tal população domesticada é consistentemente útil às manipulações da classe governante da sociedade. Isto é o sonho de qualquer governo: Tomar sob controlo uma multidão que, como uma manada de animais, possa ser movida de um local contaminado para outro. Mas este é o sonho de um Utopista. Nestes tempos sociedades subdesenvolvidas não podem mais existir, quanto mais sobreviver, com tantas indústrias químicas e instalações nucleares, qualquer sociedade sem mente está destinada ao omnicídio. Contagem regressiva para o Dia do Juízo Final...

Setembro, 2006

Amadores! Não profissionais!

Este é o grito difamatório daqueles que se aplicam à pesquisa de Chernobyl, por ganhos materiais, contra aqueles que a prosseguem pelo desejo de descobrir a verdade ou pelo puro interesse na história de Chernobyl.

Esta difamação assenta no facto de que o ganho pessoal obtido através da pesquisa "na linha do partido" sobre Chernobyl pode apenas ser obtido defendendo os interesses da indústria da energia, e também promovendo em qualquer oportunidade a convicção universal de que todos os que não têm graus ou diplomas nunca podem ser levados a sério. O público em geral, que nada percebe sobre os assuntos da radiação, está orientado dessa maneira e em consequência tem a mesma opinião. Esta é a origem da sua confiança em funcionários governamentais e respeito pelos "profissionais" e desrespeito por "diletantes e não profissionais".

A verdade no entanto, é que para o amador a coisa é o seu fim, enquanto para o profissional como tal é o meio; na realidade os únicos verdadeiros profissionais são aquelas pessoas directamente interessadas em Chernobyl e que dele se ocupam por puro interesse no assunto. A palavra amador vem do verbo latino amare que quer dizer gostar. Um amador faz o que faz porque gosta de o fazer, e não por ser pago para tal. Apenas este tipo de pessoas procederá com inteira seriedade. É deste tipo de pessoas, e não dos auferidores de ordenados e carreiristas, que os grandes feitos sempre têm surgido.

Quanto aos pesquisadores que permanecem sem obter reconhecimento e ficam portanto tidos para sempre por não profissionais, o seu maior problema é que têm de receber acreditação e graus académicos das mãos dos barões nucleares. A este respeito Shopenhauer disse certeiramente que o grande infortúnio de todo o mérito intelectual é que tem de esperar até que o bom seja louvado por aqueles que apenas produzem o mau. ____________________________

Comida de bebé

A questão que frequentemente ponho a mim mesma é por quanto tempo as pessoas vão permanecer na escuridão sobre Chernobyl? A história geral mostra que a compreensão de assuntos complexos tais como o desastre de Chernobyl e suas consequências requer tempo para o seu desenvolvimento. É compreensível que para a indústria da energia a notícia não fosse favoravelmente recebida e muitos querem enterrar a informação na obscuridade.

Não obstante, mais cedo ou mais tarde virão aqueles que discernirão sem inimizade ou favor. Só então os factos ganharão a atenção duma inteligência de ordem superior à de contabilistas e porta-vozes.

O meu lado optimista quer acreditar que a questão vai mais tarde ser gradualmente submetida a exame; luz será direccionada sobre ela, será pensada, considerada, discutida e, eventualmente, no fim o ponto de vista correcto será alcançado. Depois de algum tempo - cuja duração depende da dificuldade do assunto - a população em geral vai começar a compreender o que todo o intelecto incisivo viu imediatamente.

Se nós vamos viver para ver esse dia depende de muitos factores, geralmente, quanto mais alto e mais importante é o evento histórico, menos provável é que haja sobreviventes e testemunhas ainda vivas para alcançar o dia em que a neblina se dissipa e a verdade é revelada a todos. Por exemplo, levou 50-70 anos para que a maioria das pessoas daqui apreendessem a verdade sobre a revolução, fomes e repressões. Parece, que a história somente triunfa sobre males idosos, enquanto os males presentes e recentes facilmente triunfam sobre a história. No caso de Chernobyl, isso pode durar mais tempo, mas o assunto não vai durar para sempre.

Há um benefício especial de que todos com uma cabeça esclarecida têm desfrutado: é ver claramente pelo meio da desinformação geral. Apreende-se a verdadeira natureza das coisas instantaneamente, não em meio século como as almas simples que esperam que o resultado final seja mastigado, digerido e regurgitado para eles nos canais de história da TV.

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O que me impressiona sobre o Velho Chernobyl é a semi-vida de alguns isótopos nucleares. Cem, mil, até dezenas de milhares de anos! "Chernobyl vai durar até à segunda vinda de Jesus", disse Gorbachov numa entrevista.

Nessa primavera os apresentadores de notícias introduziram uma nova expressão: "Velho Chernobyl". Talvez, dessa forma, eles queiram fazer-nos acreditar que Chernobyl é agora história apagada e em breve desaparecerá completamente.

Infelizmente, são apenas as suas vítimas que se vão ainda antes de envelhecerem. Chernie permanece para sempre jovem, para sempre perigoso. As dores de parto do seu acidente nuclear 20 anos atrás são apenas uns poucos segundos na era deste infante eterno.

Eu acredito, que parte da razão pela qual a população em geral não é capaz de ver o problema da extensão da idade dos acidentes nucleares é porque as pessoas apenas podem compreender o tempo quando ele já é passado. Nós estamos ainda muito perto do tempo de Chernobyl para ver toda a escala do seu desastre.

Como uma grande construção que requer um olhar de longa distância para que se veja a forma de toda a estrutura, assim é com Chernobyl: toda a monstruosidade do alongamento da sua sombra só aparecerá depois de muitas gerações. Depois disso, ele não desaparecerá até ao Fim dos Dias.

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Nos portões do sarcófago, escreveria lugubremente o que Dante escreveu sobre a entrada do seu Inferno: "Todas as esperanças abandonem aqueles que aqui entrarem.

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Diz-se, que em terra de cegos quem tem um olho é rei. Se você pode ver verdadeiramente no meio da desinformação geral, então você é como alguém que tem pelo menos um olho, quando todos à sua volta não têm nenhum.

Você é verdadeiramente um rei ou uma rainha, e você vê as coisas como elas realmente são, enquanto o resto acredita no que quer ouvir. Você vê, todos aplicam falsos padrões e são conduzidos por guias cegos, todos a apalpar em redor entre outros que perambulam sem visão, mas você não pode fazer nada para mudar isso. Não há maneira de você ajudar alguém a apreender o que você vê, para isso eles precisarão dos seus olhos.

Setembro, 2006

Novo Elemento (Paródia)

Cientistas de uma república das bananas anunciaram recentemente a descoberta do mais pesado elemento alguma vez conhecido pela ciência. O novo elemento foi baptizado "Govérnio".

O Govérnio (Gv) tem um neutrão, 25 assistentes de neutrão, 88 vice neutrões e 98 assistentes de vice neutrão, dando-lhe uma massa atómica de 212. Essas 212 partículas mantêm-se unidas por forças chamadas "espessões". Os espessões são uma substância ainda inexplorada, cuja característica distintiva é a de possuírem uma grande quantidade de bolsos.

O Govérnio tem uma semi-vida normal de 4 anos; a sua massa irá aumentar constantemente ao longo do tempo, porque durante o ciclo de decomposição, a massa de bolsos dos assistentes de neutrões, vice neutrões e assistentes de vice neutrões aumenta e quando alcança a concentração crítica, a estrutura passa por uma reorganização, durante a qual alguns espessões se tornam neutrões, uma porção dos assistentes de neutrão e vice neutrões troca de lugares. Uma vez que o Govérnio não tem electrões, é inerte. No entanto, ele pode ser detectado, porque entrava qualquer coisa com a qual entre em contacto e entra em reacção com qualquer coisa que tenha electrões e não seja inerte. Uma minúscula quantidade de Govérnio pode causar uma reacção que normalmente levaria menos do que um segundo a tomar levar mais do que quatro dias a completar-se.

Quando o Gv se decompõe, desintegra-se em outros novos elementos: o Aposentádio (Ap) e o Retárdio (Rt), a que alguns chamam Dementio (Dm).

Setembro, 2006

Bloggers e jornalistas

Hoje em dia os media principais têm que batalhar na dura competição com a internet. Os bloggers continuam a ganhar audiência e mais e mais jornais estão à beira da falência. A razão é simples, os bloggers da internet são muito mais objectivos, genuínos, e livres que os tipos que trabalham para as agências de notícias. Repórteres de jornais e apresentadores de notícias perguntam-se frequentemente porque as pessoas vão a blogs na internet. O que eles realmente não conseguem compreender é porque os bloggers farão de graça o que eles, repórteres, não podem realizar por dinheiro.

Basicamente os bloggers fazem um trabalho melhor porque não escrevem por dinheiro. As pessoas começam a escrever mal assim que escrevem pelo pagamento. Um autor só pode permanecer objectivo enquanto escrever pelo interesse nos factos que ele ou ela está a revelar. Autores que escrevem por dinheiro são muito como prostitutas: o seu objectivo é agradar aos patrões dos media e agradar aos gostos do público leitor. Ainda, tal e qual prostitutas, é-lhes impossível receber prazer da sua actividade. Um blogger dedicado nunca procura agradar ao gosto de alguém. Muito frequentemente trabalham em desafio a todas as políticas oficiais e de negócios, escrevendo somente pelo prazer de pensar e compartilhar com outros as suas conclusões pessoais.

Jornalistas e bloggers são tão diferentes. Um verdadeiro blogger não pode escrever para os media, tal como um repórter de jornal não pode "blogar".

Todos os que procurem emprego em qualquer agência de notícias, quer seja jornal ou TV ou rádio, devem estar preparados para seguir todas as instruções de correção política, tais como não ofender minorias étnicas, não ferir sentimentos religiosos, não pisar em nenhum dedão gordo do monstro nuclear, não morder a mão da produção química de alimentos que lhes dá de comer etc...

Com todas essas restrições a mente do jornalista é agrilhoada a uma moldura de limitações e, como pássaro numa gaiola, não se pode mexer. A mente de um blogger é um pássaro livre, voando sem fronteiras, vendo tudo como realmente é. O blogger pode portanto dar voz à sua mente sem constrangimento. A inteligência ou educação básica do blogger não é importante, o que interessa mais é que tal pessoa seja mestra dos seus próprios pensamentos e que o seu intelecto se mantenha em crescimento. Em contraste, a mente de um jornalista atola-se inevitavelmente num lodaçal de ignorância e apatia e portanto degrada-se constantemente.

Se você vai trabalhar para os media correntes, vai ter que obedecer a todas as suas regras. Eventualmente você vai-se sentir como se tivesse recebido um convite para ir a uma discoteca e, uma vez chegado, encontrasse todos a dançar de muletas. Mais tarde você descobre que, tirando aqueles que são naturalmente coxos, até há alguns bons dançarinos que andam de muletas apenas porque têm que alimentar as suas famílias. Se você se juntar à dança dos coxos, dentro de alguns anos vai descobrir que você, também, está coxo e que já não consegue dançar sem as muletas. Parabéns - você tornou-se um jornalista.

Outubro de 2007

Sobre publicação de livros

Há doze anos atrás eu entregava livros a uma prisão. Estávamos também a limpar todos os velhos livros soviéticos da sua biblioteca. O bibliotecário da prisão, que descrevi na história curta "Nikholayevich", chorou ao ver os milhares desses livros a serem levados da sua biblioteca. "Diversas gerações, ' disse ele, 'foram criadas com esses livros e agora nós simplesmente temos que retirá-los de utilização".

Hoje em dia quando ando através das intermináveis filas de livros novos nalguma feira de livros, exactamente como o meu amigo bibliotecário, só consigo suspirar com pensamentos de que em apenas alguns anos nenhum daqueles autores será lembrado de todo. O conjunto da literatura moderna é uma lotaria que nunca teve nenhum bilhete vencedor, porque agora é uma indústria, onde todos estão ocupados a fazer dinheiro da literatura: autores e editores, críticos e anunciantes - todos corruptos - eles mantêm-se unidos, sustentando-se mutuamente, são parte do mesmo sistema e têm todos nada mais que um objetivo: roubar ao público leitor o seu tempo e dinheiro.

Tal indústria prospera no desejo impensado do público de comprar somente livros da lista dos mais comprados - bestsellers. Abra qualquer de tais livros e você vai ver que ele se derrete na sua mente, como algodão doce, sem deixar nenhum gosto. Isso porque não há como publicar os pensamentos de alguém em forma de livro. Este sistema é intolerável para o intelecto, espezinha todas as coisas que pareçam acima do nível comum. o que força os autores a escrever sobre dragões ou discos voadores. Tudo aquilo que seja portador de algum laivo de semelhança com realismo ou pensamento é banido da literatura moderna porque o realismo revela o quão domesticados nos tornámos realmente. A contemplação que tem sido sempre a quintessência da verdadeira poesia ou filosofia deve ser tratada como contrabando, não é para ser posta à venda mesmo ao mais baixo preço, mas prontamente confiscada, imediatamente após detecção. Não há absolutamente forma nenhuma de se publicar um livro sobre Chernobyl aqui. Todos os nossos livros sobre Chernobyl têm que ser impressos na Europa Ocidental e agora com o ressurgimento do monstro nuclear tornou-se difícil imprimi-los em qualquer lugar.

Muito pouca da nossa literatura moderna vai aguentar-se para além do dia depois de amanhã, excepto aquela de autores medíocres: os inventores do novo clamor, com fortes conexões ao "show business", que criam outro período na história da literatura que fará a posteridade suspirar quando fizer luz sobre uma grotesca arquitectura das palavras. Vai empurrar a porta desta estrutura decadente e encontrá-la vazia até ao âmago, nada vivo dentro do sarcófago, nem uma única flor viva se pode extrair desse herbário ressequido de convencionalismos, nem mesmo um vestígio de pensamento para demover os futuros bibliotecários de atirarem os bestsellers do nosso tempo para o latão da reciclagem.

Outubro, 2006

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O nosso mundo civilizado é um grande espectáculo de máscaras, onde o luto das autoridades, os sorrisos dos lojistas, a compaixão dos filantropos e a voluptuosidade dos actores porno são apenas máscaras; não há nada real neles. Um põe a máscara da lei e torna-se um advogado, outro escolhe a máscara do patriotismo que o ou a transforma num político; algumas vezes um político toma os assuntos ambientais por doutrina e então torna-se o ambientalista e assim por diante. Basicamente, por trás da maioria dessas máscaras estão fazedores de dinheiro e falsários, cujas taxas de sucesso como vigaristas são maiores que as suas capacidades para esconder as suas reais faces.

Com os países do mundo acontece exactamente o mesmo: cada um apresenta somente uma face feliz, fabricada por um arrazoado de políticos, estrelas pop, personalidades do cinema, figuras do desporto e celebridades de todos os tipos.

Eles apresentam apenas o jogo das aparências dos seus países, e não podemos aprender nada deles. A real face de um país é revelada quando os levantamentos sociais, greves e guerras partem as suas pequenas máscaras quebradiças em bocados. Ao desfasar dos pratos da balança, por um pequeno instante nós podemos ver os problemas reais. A esse respeito Chernobyl é um completo desastre, a imagem do meu país está manchada por décadas. Nos primeiros 10 anos depois do acidente era-lhes realmente difícil colocarem qualquer máscara numa face tão sombria, mas todos os seus cidadãos se podem agora juntar ao baile-mascarada. A Ucrânia conseguiu a si mesma alguns bons jogadores de futebol, lutadores de boxe, cantores e dançarinos. Não importa quão escura seja a noite, a festa pode simplesmente continuar e voltar a continuar...

Setembro, 2006

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No sistema de prisões Gulag quando os condenados queriam matar algum informador sem que alguém fosse responsabilizado, normalmente enrolavam uma longa corda à volta do pescoço do traidor. Então umas poucas dúzias de pessoas puxavam um lado, e outras poucas dúzias puxavam o outro lado da corda. Dessa maneira, nenhuma pessoa em particular podia ser definida precisamente como tendo causado a morte.

Quanto mais pessoas envolvidas no puxar da corda, maiores as hipóteses de todos escaparem tanto à punição quanto à responsabilidade individual. Esse é o primeiro princípio de todo os crimes colectivos e isso explica porque o número de vítimas de Chernobyl é sempre o mesmo e porque ninguém alguma vez admitiu culpa ou expressou qualquer remorso por esse crime. Havia simplesmente demasiadas pessoas em ambos os lados da corda.

September, 2006

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Hoje, a 16 de dezembro de 2006, notei que o nível de radiação em minha casa era mais alto que o normal. Fui lá fora e medi a radiação em diferentes partes da minha vizinhança. Usei vários contadores Geiger diferentes apenas para ter a certeza.

Mais tarde, através das minhas fontes de informação, soube que o nível de radiação mais alto era resultado dum qualquer trabalho de manutenção no sarcófago de Chernobyl - (abriram parte do seu tecto). Isso deixou-me a perguntar-me se a nova radiação era reflectida ou se tinha sido trazida pelo vento. Nós podemos apenas supor, porque não há nenhuma menção a qualquer evento desses nos noticiários, e o nosso boletim meteorológico diz que os níveis são normais.

Dezembro, 2006

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Em Fevereiro de 2007, um amigo do meu pai morreu de cancro do pulmão. Ele trabalhou em Chernobyl como motorista desde o primeiro dia do acidente nuclear em 1986. No seu funeral conheci outro motorista, colega do falecido. Falámos enquanto esperávamos pelo enterro e aprendi algumas coisas interessantes. Ele disse-me que era o último sobrevivente do grupo de motoristas enviados para Chernobyl. Ele também disse que o território, que está rodeado de arame farpado e é conhecido como a "Zona Morta de Chernobyl", não tem 30 km de raio à volta do reactor, mas na realidade 40-50 km. Ao chegar a casa, verifiquei os meus mapas e sim, apenas um posto de controlo está à distância de apenas 30 km do reactor. A outra dúzia de postos de controlo estão a 45-50 km do ponto zero. Porque é que todos se referem à "Zona Morta" de Chernobyl como tendo 30 quilómetros quando o raio é de facto 45 km? Então e a enorme área para lá deste território? Alguém pensa que o arame farpado pode impedir a radiação de se espalhar? A maneira como os nossos olhos seguem a bola em vez do jogo é realmente assustadora...

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Chernobyl é estranho ao espírito da nossa época, porque a nossa cultura nega toda a miséria e somente aceita sucesso. Somos motivados mais pela esperança do ganho que pelo perigo da perda As pessoas aprendem apenas a procurar o máximo de prazer com o mínimo de pensamento. O realismo não tem lugar hoje e alguém que fale de forma realista soa como um terrível pessimista. A gigantesca máquina de propaganda ensina que a felicidade é obrigatória enquanto a miséria é opcional. O seu incansável mantra é "aproveitar a vida todos os dias, de todas as maneiras e viver, como se não houvesse amanhã.". Eventualmente, isto impede que sociedades inteiras admitam e aprendam com os seus erros. Como resultado, o mundo continua a gerar mais e mais más notícias.

Em todos os tempos, a primeira regra para uma conduta de vida sábia foi expressada por Aristóteles. Ele incita-nos a dirigir o nosso objectivo, não para assegurar o que é mais aprazível e agradável na vida, mas para evitar, tanto quanto possível, os seus inumeráveis males. Agora, essa regra é desconsiderada. Eu acredito que a evasão é a fonte de todos os nossos problemas presentes e futuros. Como se pode evitar males, erros, e falhas negando que tais problemas sequer existem?

Como podem pessoas e sociedades fugir dos problemas se medem a felicidade apenas pelos prazeres obtidos, mais do que pelos problemas evitados? As pessoas esqueceram a importante regra de que alguém que persegue o sucesso sem olhar para trás eventualmente descobre que se enganou a si mesmo. As pessoas tendem a esquecer-se de que não deveriam esperar muito da vida, porque o luto é a única promessa que a vida cumpre sempre.

PS: Se vivermos como se não houvesse amanhã, não haverá.

"O homem prudente não aspira ao prazer, mas à ausência da dor." Aristóteles "Ética a Nicómaco" 1152b10

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Um advogante do nuclear disse-me uma vez - Chernobyl é uma dura lição e ela mostrou ao mundo que não podemos deixar a tecnologia passar à frente do nosso próprio desenvolvimento. A minha resposta foi - cuidado com o que deseja, porque uma sociedade altamente desenvolvida pode não aceitar tecnologia que mata pessoas.

Igrejas de Chernobyl

Há mais de 2.000 vilas e aldeias mortas num raio de 250 kms (155 milhas) em torno do reactor retorcido de Chernobyl. Não há maneira de contar todas as aldeias, porque muitas têm sido sistematicamente demolidas pelas autoridades e algumas estradas estão agora estragadas.

Viajando pela zona morta ainda não vi igreja alguma em ruínas. Os saqueadores são tipos supersticiosos e têm medo de roubar igrejas. Também, membros de comunidades próximas vêm consertar as igrejas abandonadas a intervalos de poucos anos, portanto elas aguentam mais tempo do que todos os outros edifícios na área.

As portas dessas velhas igrejas estão destrancadas. Não há nada valioso dentro, somente alguns ícones baratos, toalhas e uma Bíblia levemente radioactiva - usualmente aberta na página onde a era do absinto é prevista (Apocalipse ou Revelação 8:10,11*). Poucas pessoas conseguem permanecer impassíveis quando sabem que a palavra ucraniana para absinto é Chernobyl. Eu não sou excepção e isso inspirou-me a explorar o lado sagrado de Chernobyl.

Chernie é assombrado por muitos fantasmas, porque há dois exércitos espirituais ainda e sempre em guerra: as forças do bem e do mal. Enquanto as igrejas se aguentarem, a batalha continua. Não é apenas um espaço vazio, como aquelas vilas de mineração de carvão vazias. Chernobyl é mágica, repelente, interessante e assustadora ao mesmo tempo. Alguém que viaje sozinho por Chernobyl nunca sente que ele ou ela está sozinho, há um sempre presente sentimento de se estar a ser observado. O desconforto é real. Esta sensação sobrenatural e desagradável pode ser sentida mesmo pelas fotos e vídeos de Cherny. Os cristãos chamam-lhe: a presença do diabo. .

Eu não acredito que Chernobyl tem a ver apenas com o gosto amargo do Absinto, a estrela caída da Revelação. O nosso Chernobyl é apenas a consequência final da acumulação de erro humano e ganância, cujas causas raiz são também indicadas ao longo de muitos livros do velho e novo testamentos.

Se eu tivesse que trazer à colação umas poucas passagens da Bíblia que explicam as causas de Chernobyl, eu traria como a mais impressionante e apelativa as tentações de Jesus no deserto. Estas não emanaram de um intelecto finito, terrestre, mas outrossim, da mente eterna, absoluta e consumadamente má dum anjo exilado: o próprio Satanás.

Essas tentações são Milagre, Pão e Autoridade. A tentação com Pão é a mais aplicável ao desastre de Chernobyl e a mais difícil de resistir para a raça humana.

"Vedes Vós estas pedras no desolado e brilhante deserto? Ordenai que estas pedras sejam feitas pão - (e a humanidade correrá atrás de Vós. Mostrai às pessoas um milagre e elas Vos seguirão)",sibila o anjo do mal.

Jesus rejeita todas elas, mas a humanidade é demasiado fraca. A ciência sabe como transformar pedras de urânio tanto em armas como em pão. As pessoas abraçaram a visão com entusiasmo desenfreado, ludibriadas pelos truques da alquimia nuclear. Não importam as penalizações da Usura do Tempo e a violação de todos os princípios naturais, as pessoas perseguiram esses milagres maculados, marcharam com armas nucleares em paradas, e gritaram - Hurrah!

Mas depois do reactor explodir, as pessoas perderam o seu entusiasmo. A ciência, também, está frustrada e já ninguém acredita em milagres. O tempo da vontade livre foi-se e a verdadeira violência nuclear começa. Nós podemos fazer pouco para pará-la, porque se lhes tirarmos a espada perdemos também o nosso pão e manteiga, portanto temos que consumi-lo agora para podermos continuar a viver. O segundo advento dos nucleares não tem a ver com milagres, como foi no primeiro - agora, tem a ver com necessidade. Transformar partículas nucleares em comida agora tornou-se uma indústria abastecida pela vontade de viver..

Nas três tentações de Satanás a Jesus nós encontramos, como se misturadas numa só e profetizada para nós, a completa história futura do homem. São-nos mostradas três imagens, unindo nelas todos os futuros problemas axiomáticos, insolúveis e contradições da natureza humana. As sementes desta verdade estão enraizadas profundo e largo dentro da Bíblia; são mais do que algumas passagens espalhadas. Chernobyl é um ícone vital parra a cristandade moderna, e uma amarga fonte de aprendizagem para todos nós.

Apocalipse ou Revelação 8:10 - E o terceiro anjo tocou a sua trombeta, e caiu do céu uma grande estrela, ardendo como uma tocha, e caiu sobre a terça parte dos rios, e sobre as fontes das águas; 8:11 - E o nome da estrela era Absinto, e a terça parte das águas tornou-se em absinto, e muitos homens morreram das águas, porque se tornaram amargas..

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