Margin: Exploring Modern Magical Realism/O MEU MUNDO NÃO É DESTE REINO, Um excerpto por João de Melo, no português (parte dois)

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Margin: Exploring Modern Magical Realism
U M   E X C E R P T O   ~   P A R T E   D O I S
O MEU MUNDO NÃO É DESTE REINO
p o r   j o ã o   d e   m e l o   ~   l i s b o a ,   p o r t u g a l

NOTA AOS LEITORES: Esta história está em duas porções.
Se você desejar imprimir a história inteira,
recorde imprimir ambas as peças. A ligação
à primeira parte está perto do fundo desta página..

C A P Í T U L O    1 2

A RESSURREIÇÃO DE JOÃO-LÁZARO OCORREU NO DIA
DA VISITAÇÃO DOS MORTOS E FIÉIS DEFUNTOS, E MUITA
GENTE TESTEMUNHOU O FACTO COM OS PRÓPRIOS OLHOS
DA CARA. HAVIA MÃES ESTENDIDAS SOBRE AS SEPULTURAS
CHORANDO OS SEUS ANJOS, POMBOS-DE-LEITE, E

ardidas mulheres trementes e em pânico falavam convulsamente com a terra, onde para sempre dormiam velhos maridos cor de cera; havia mãos trabalhando os galhos do buxo e as raízes das rosas e das açucenas; e os mausoléus, abertos como sacrários ao domingo, respiravam o cheiro das velas c das essências de fumo; havia ainda o indecifrável cochichar das preces fúnebres, tão monótono e antigo como a própria respiração das pedras. De forma que o silêncio era apenas um ser vegetal a quem as mãos podavam as raízes, e os soluços dispersos eram negros, como a grande ave negra da morte -- da morte fatigada e aflita.

Quando apareceram os primeiros sinais da ressurreição de João-Lázaro, padre Governo servia-se metodicamente do hissope, de cova em cova, e o seu latim trucidado nalgumas sílabas flutuava por ali como um nevoeiro sonoro acima dos vultos: requiem aeternam dona eis, Domine: et lux perpetua luceat eis. Ele interpelava Deus e os homens de modo tão terrível que o vento de Novembro, soprando em rajadas esparsas, largava assobios no corpo dos ciprestes e das canas-da-índia. Tratava-se de um vento amargo, sibilino como o som do pranto das mulheres. Dera uma volta completa a todos os canteiros do cemitério. Aspergira a terra, e em latim advertira de novo a memória dos vivos e dos mortos contra as luxúrias deste mundo, pois estava escrito na sabedoria de Deus que todo o ser por Ele criado nascera do pó e ao pó regressaria um dia, tal como todo o alimento regressa ao seio materno da terra da nossa criação: memento horno quia pulvis es et in pulverem reverteris. Depois, caminhou para a capelinha da essa, trôpego, de rosto muito fechado pela surdez, e rodeou-se de cruzes, opas, estandartes roxos. Orou aí com voz melíflua, feita de sons líquidos e de sílabas pardas, acompanhado de perto pelo responsório dos fiéis. Ele requiescava em paz os mortos e os aflitos da morte, recitando para eles os salmos dos poetas hebraicos:

Dies irae, dies illa
Solvet saeclum in favilla:
Teste David cum Sibylla

........................................

Estava um tempo de vinagre, o húmido e opressivo tempo de uma ilha erma, com vento e nevoeiro, e o frio enrolava as ervas e torcia os ciprestes até à forma geométrica dos cones, quando nisto as pessoas gritaram de pavor, em coro, junto ao muro das suas lamentações, e dali desataram a correr à procura do padre: nesse exacto momento, como por milagre de Deus, a terra começou a respirar com vida, crescendo em fole e descendo devagar, e abriu-se com estrondo. Era uma enorme arca esquecida e mágica abrindo-se com um ruído de peças apodrecidas, e viram sair do fundo dela um homem baixo, de grandes e sumptuosas barbas ruivas, tecidas de fios e novelos. Tinha, esse homem, os olhos tão brilhantes como uma fosforescência e os cabelos, caindo em ondas sobre os ombros, assemelhavam-no tanto com os retratos de Cristo que as pessoas logo pararam de correr e começaram a ajoelhar em terra, crendo enfim na sua aparição. Jesus da Galileia costumava visitar os tristes, é certo, nas suas peregrinações terrenas. E operara prodígies com os paralíticos e os famintos, e repartira o pão e os peixes, andara sobre as ondas e devolvera a vista aos cegos, a saúde aos leprosos e a vida aos mortos. Jesus fora a água dos sedentos, o alimento dos pobres e a roupa dos nus que carregavam pelas veredas e pelos desertos a sua bolsa de desgraça. Mas estava agora ali, na frente daquele povo ainda incrédulo, a quem olhava com a safira de uns olhos salinos e mansos de misericórdia. Parecia um olhar de cordeiro luciferino, como outrora, quando expulsara os vendilhões do templo. E as mãos muito grandes, quase transparentes, tinham esguios dedos nodosos e rosáceos como nas imagens dos altares, ao passo que a carne, suave, de criança em corpo de homem, assegurava a todos que persistia a possibilidade de um novo nascimento dos mortos.

Padre Governo fora chamado à pressa a vir testemunhar aquela aparição, quando precisamente recitava o salmo dos poetas hebraicos. Saindo da capela funerária, coxeou ao encontro daquele desconhecido e ficou perante ele extasiado. A sua boca abriu-se, de forma a notarem-se-lhe as crateras sem dentes, e quedou mudo e aflito durante um largo momento, enquanto o corpo se lhe cobria de uma espuma de suor -- o estranho suor azul que perlava a sua testa de gotas e pingava através dos pequenos espaços entre as rugas. Então, estando frente a frente, como no ano da peste, não se reconheceram. Mas João-Lázaro sorriu-lhe com bondade e, abrindo muitos os braços, convidou-o para um amplexo sagrado. O corpo do padre reagiu de pronto, com um calafrio de terror, porque, pensou, se abraçasse o homem vindo da morte, abraçaria inevitavelmente a morte dele e veria logo o fim dos seus dias. Ante essa possibilidade, compreendeu mesmo que não estava ainda preparado para morrer. De modo que lhe veio uma súbita tentação de gritar e fugir para muito londe dali. Estava, porém, tão velho e acabado nas suas forças que as pernas lhe desataram a tremer e lhe latejaram fortemente as veias do pescoço, a ponto de admitir que estivesse na iminência de lhe dar um colapso. Dentro do seu espírito voava uma nuvem de aflição e deslumbramento, uma espécie de calma a desfalecer, misturada com toda a desordem dos sentidos. Ia decerto fugir à frente da morte, fugir do seu abraço, porque de novo o medo transparecia e lhe inundava o rosto de suor, quando reparou que as suas ovelhas humanas, tão aflitas quanto ele, tinham ajoelhado e oravam, e o sorriso de João-Lázaro continuava ainda imóvel, seráfico, a convidá-lo para o tal amplexo sagrado. Teria mesmo de interpelá-lo?

Num instante, admitiu que já tudo lhe havia acontecido na vida: o milagre das crianças sábias e iluminadas por Deus, ao tempo da sua nomeação para a freguesia, o mistério do choro dos animais, a cura da peste, o desaparecimento do corpo de Sara, a santa, raptado pelos anjos que desceram das folhas da figueira, a chuva dos noventa e nove dias consecutivos e, por fim, a ressurreição daquele estranho ser luminoso e luciferino. Podia mesmo morrer, porque nada de mais prodigioso viria certamente a acontecer nos seus dias. Precisava apenas de um derradeiro alento espiritual para lograr compreender o segredo de tais e tantos sinais divinos. Não podendo colhê-lo de quem o rodeava, inspirou-se na terra.

Olhou a Ilha que subia em anfiteatro até às montanhas, mesmo em frente dos seus olhos, e admirou a majestosa grandeza do Pico da Vara, onde mais tarde viria a cair o avião, e depois as nuvens eternas que corriam como fadas, sendo de um vidro macio a flutuar por cima dos montes, e cuja marcha para o sul tinha a oscilação de todas as formas adormecidas. Do outro lado, à sua esquerda, o mar branco do curador Cadete, o mar dos Açores, rugia no desespero dos seus cavalos do Apocalipse, e havia deuses à superfície, armados de tridente, cujos cavalos, brancos, alados e volumosos, removiam o próprio seio da água. Os deuses iam de pé nos seus velozes carros de guerra e o mar ficava tão branco, nessa passagem, como a ira dos ventos cruzados. Esmagado pelo rolo de uma tal aflição, decidiu interpelar o homem. Já uma espécie de resignação física acalmava o tremor das suas pernas e fazia abrandar a violência e o calor das glândulas sudoríferas:

"Dize-me, bom homem: quem és e donde vens?"

Então, uma longínqua voz branca, coleante como uma cobra a desenrolar-se do seu ninho, saiu de dentro do homem e ouviu-se com perfeita distinção, a tal ponto que o padre acreditou no fim da surdez e na claridade dos saudosos sons do mundo:

"Sou João-Lázaro, o que um dia morreu para regressar do futuro" -- respondeu o outro. E explicou, assaz docemente, que estava ali enviado pela sabedoria dos povos e nações, a fim de anunciar as alegrias efémeras da vida e suavizar o sofrimento dos homens da Ilha.

"Trago junto de vós a ciência experiencializada dos povos, à qual chamam progresso e crescimento" -- acrescentou com humildade.

O espanto. O espanto é uma mola que salta, tal como explodem a flor, a esponja ou os cogumelos ao nascer; uma mola que escancara as bocas e alarga as narinas, o volume dos olhos, as inesperadas rugas da testa. É um animal doente de icterícia, o espanto, verde e bilioso animal do mês de Novembro, ao passo que a voz branca de João-Lázaro estava agora ainda mais iluminada por dentro e passou subitamente a discorrer, para aqueles homens e mulheres, tão maravilhados de o ouvirem, sobre os fabulosos mundos longínquos da grande imaginação dos poetas e talvez dos loucos; dos mundos em que os homens não são as criaturas tristes e apagadas de uma Ilha, mas os criadores da alegria; onde as máquinas são movidas à electricidade dos relâmpagos, e a paz e a guerra usam de tal maquinaria como a precisão do Sol e do Inferno, e onde os dias de Maio anunciam sempre o repouso das grandes fadigas. E, isto dizendo, os homens e as mulheres começaram a erguer-se devagar e foram-se aproximando de João-Lázaro. O rosto assentava de perfil na paisagem, suave como a brisa que cintilava no seio das árvores.

Não tardou que o seguissem em cortejo pelas ruas da freguesia, sem sequer saberem que estavam caminhando: uma coisa assim acontecera apenas uma vez na história da Achadinha, quando o bispo de Angra ali viera crismar toda a população. Foram recebê-lo ao cimo do Caminho Novo, para onde transportaram estandartes, guiões, flores, florinhas e florzinhas. Rodearam essa visita de tal majestade que o menor gesto do prelado era logo interpretado como uma bênção. O bispo usava de uma solenidade só comparável à de um papa ou do próprio Cristo da ressurreição, com a sua barretina roxa, o grande anel de safira e as vestes largas que o transformavam numa espécie de dama volumosa e régia, de tal sorte que as pessoas seguiam-no em silêncio até à igreja e soluçavam de comoção. Quanto a João-Lázaro, ao descer a estrada velha, acenava com brandura às pessoas que o observavam das janelas. Um sorriso de quartzo leitoso, gordo e imóvel, assemelhava-o, em dignidade, a um excelso e grandioso patriarca bíblico, vestido com o seu perfeito burel de estamenha, cheirando a almíscar e pousando suavemente no solo as sandálias de taniça, como no tempo em que o tinham vestido e calçado para esconjurar a peste. Passados tantos anos sobre esses acontecimentos, era espantoso ver como o seu porte se enchera de nobreza, pois a antiga condição de mendigo fora abolida da memória de toda a gente e o corpo possuía não o tom baço de outrora, mas a incandescência secreta e nervosa do fogo. Não obstante isso, os cães reconheciam-no, porque vinham lamber-lhe as mãos e uivavam em delírio. Também o saudavam as crianças de colo, ao estenderem na sua direcção os braços e um sorriso ainda sem memória. Não o reconheciam, porém, nem os velhos nem as pessoas de meia-idade, porque tinham perdido por completo o conhecimento do seu nome. E aliás, João-Lázaro jamais existira em qualquer parte do mundo, antes da ressurreição. Seria, conforme pensavam, um qualquer estrangeiro louco, chegado não se sabia de onde, que falava estranhamente da transformação das coisas, de outros desconhecidos lugares, nomes e poderes, como a electricidade, a rádio, os motores e o telégrafo. Ouviam-no maravilhados e incrédulos, sem entendimento algum das coisas por ele nomeadas, mas presos ao calor macio e ao veludo absurdo da sua voz branca, como de um íman invisível.

"Onde estão os comboios brancos?" -- inquiriu ele, a dada altura, voltando-se para a multidão.

Comboios brancos?!, pensavam. Mas que comboios? Eles não sabiam, não eram coisas que pudessem ser vistas numa Ilha tão longínqua do mundo como aquela, jamais tinham ouvido falar de comboios, o que eram?, brancos ainda por cima, porque brancas eram as baleias às vezes, quando passavam ao largo e à vista das próprias crianças ou vinham morrer e apodrecer na costa, e as nuvens eléctricas também, na véspera das chuvas eternas, e branco era o mar, o mar dos Açores, na opinião do curador Cadete, como branca fora sempre a voz de João-Lázaro, não os comboios.

"E os navios? E os aviões? Não chegaram ainda aqui os navios e os aviões?"

Navios, aviões, comboios brancos, nada disso passara por uma Ilha tão distante do mundo. As casas tinham tectos de colmo e adobes de argamassa; eram os caminhos batidos a cascalho e entulho e lama encaroçada, e dóceis os cavalos e os bois, mas não existiam nem navios, nem aviões nem comboios. Da Ilha saía-se nas naus veleiras dos corsários e navegadores errantes, guiadas pelo astrolábio e por ventos de feição. João-Lázaro inquiriu então se sabiam da existência de outros povos e suas linguagens, e experimentou falar o dialecto das sereias, a língua dos saxões e dos gálios, e cantou a música e a poesia dos gregos e dos troianos. Invocou a civilização dos comerciantes fenícios, dos guerreiros arménios, dos camponeses eudónicos e dos pastores beterastas. Falou-lhes de cidades e de terríveis países -- mas eles apenas tinham ouvido falar do Egipto e das cidades de Jerusalém e Babilónia, lugares da Bíblia. Sabiam também falar dos papas e dos bispos, dos reis conquistadores, das rudes cousas da navegaçom e dos segredos de bem marear em qualquer rota. O seu olhar assustado datava ainda do tempo dos naufrágios e do último terramoto, sem esquecer o eclipse solar e a profecia das águas bíblicas que tudo haviam de submergir um dia e não deixariam pedra sobre pedra nem criatura viva ao cimo da Terra. Eram homens e mulheres esquecidos, habituados a olhar em redor e a tudo medir pelo sentido giratório do Sol que lhes dava a visão do mar e do tempo. Da ciência, tinham a das marés, dos ventos e das grandes chuvas eternas, e conheciam cientificamente o ciclo dos pomares e das searas, a idade do cio nos animais, os sermões de fogo da sua muita fé nos santos. Quanto a instrumentos e máquinas, tinham os carros dos bois, os arados, as albardas dos jumentos, as grades e ancinhos, os sachos, as foices de ceifar, as serras com que guilhotinavam pacientemente as árvores vivas, o cadafalso de cada animal condenado à servidão dos homens, a infinita presteza das infinitas coisas do trabalho, a começar na fadiga das ferramentas de carpina até às aduelas e à obra dos vimes. Tinham também as mãos, e novamente as mãos e as mãos. A isto contrapunha de imediato, e com grande agilidade de pensamento, João-Lázaro: as máquinas mecânicas da lavoura, os relógios, as assustadoras vantagens da electricidade em todas as formas de aplicação, e supunha ele que um dia qualquer pessoa estaria comodamente sentada na Achadinha e falaria através dos fios com outra pessoa de outro continente, ou ouviria a rádio pelo sistema da telefonia sem fios. E explicava também o miudinho sistema das máquinas que tudo executavam sozinhas, precisamente porque essa força oculta, a electricidade, fora dotada de inteligência e discernimento, a fim de poder substituir o homem nas mais complexes e custosas operações.

"A inteligência da electricidade está absolutamente provada pelo estado superior da inteligência electrónica. As máquinas falam, as máquinas lidam com os números, descobrem e tratam as doenças. Os próprios comboios brancos voam comandados por essa inteligência consumada, como voam os aviões e os pássaros."

As pessoas ficaram assustadas com a revelação de tantas coisas ocultas e omissas na sua sabedoria e perseguiramno com perguntas: então era verdade que os aviões se sustinham no ar, de ventre para baixo, como os milhafres? Então era certo que os comboios brancos voavam?

Sem dúvida que sim. Voam através de desérticas paisagens sem princípio nem fim, levando gente de reino para reino" -- asseverou João-Lázaro, que não estava no seu tempo mas havia regressado do futuro para ensinar à gente da Ilha a ciência experiencializada dos povos e nações, à qual chamam progresso e crescimento.

Aos poucos, rodeou-se de gente mais e mais maravilhada com as suas revelações. Passou mesmo a ser disputado por famílias inteiras que lhe ofereciam casa e mesa e todos os confortos só dispensados, em regra, a pessoas notáveis e em extraordinárias ocasiões. Falava-lhes invariavelmente dos aparelhos voadores que atravessavam o espaço cósmico num número de horas não superior ao dos dedos das mãos, assim da noite para o dia, idos dos tórridos climas sem respiração para os lugares gelados; dos comboios brancos, dos comboios subterrâneos que voam por debaixo das maravilhosas cidades do mundo através de túneis e silos gigantescos, como os ratos e as bichocas; dos automóveis, das debulhadoras e outras máquinas agrícolas -- asseverando enfim que estava próximo o tempo da grande revolução insular contra os tiranos, contra os mixordeiros e os padres, a grande revolução do homem sobre a obrigação de trabalhar e sofrer até à morte miserável e injusta.

"As pessoas têm pois de preparar-se para a mudança. Terão de assumi-la como bem e como força transformadora." E explicou: "As revoluções fazem-se das mais desvairadas maneiras, umas vezes contra Deus, outras contra os homens na sua qualidade animal."

E as pessoas, fulminadas no centro nervoso da sua fé:

"Contra Deus se fazem revoluções? Que revoluções?"

"Pois bem, meus amigos: não contra o Deus visível, mas contra os deuses ausentes que adorais," respondeu ele de modo abstracto, no que as pessoas não houveram logo completo entendimento. Mas eis senão quando caiu no silêncio a voz de um rapaz, uma voz eufórica e vagamente feminina na sua malícia, e disse lá de trás, escondida na multidão:

-- Pois claro que é preciso fazer uma revolução contra o padre e contra o regedor!

Disputado alvoroçadamente na sua sabedoria, João-Lázaro visitou, um dia, o curador Cadete no consultório e começou por ouvi-lo discorrer sobre a sua experimentada arte de curar enfermidades. Cadete mostrou-lhe a fabulosa bola perpétua, inventada por um monge do Tibete, onde lia cientificamente os sinais cósmicos, anunciadores do futuro e da morte. Fez pequenas e rápidas demonstrações com o alambique de destilar ervas aromáticas, deu-lhe a cheirar algumas das milagrosas essências da sua invenção e obrigou-o a provar remédios e substâncias inofensivas, desde a pílula de alho com unha-do-diabo, para o ácido úrico, e a alfavaca-de-cobra cozida, para as hemorróidas internas, até aos unguentos lixivinos e à mistela das doze poções vegetais, cujo efeito menor era o de substituir o processo de degradação de qualquer animal espermático envelhecido ou fatigado por uma nova alegria pecaminosa. Tinha um vago sabor a amêndoa curtida, e João-Lázaro ficou pensativo e calado com o pesar que lhe suscitavam essas coisas tão primitivas. Daí a pouco, falava ao Cadete nos métodos científicos da cura pela medicina, através de infindáveis, complexes e sensíveis máquinas de auscultação, raios X, das operações cirúrgicas ao ínfimo nervo do sistema raquidiano, e desdenhou sem crueldade de algumas esquisitas e mortais enfermidades, como a tuberculose, o volvo maligno e a leucemia primária, doenças essas há muito já ultrapassadas pela ciência, dizia. Prestou ao curador tão copiosas informações a respeito dos novos produtos da quimioterapia que Cadete foi lentamente perdendo a cor e o entusiasmo e ficou em breve transido de terror. Apoderou-se mesmo do seu espírito uma sensação de definitivo esmagamento físico. E, quando João-Lázaro lhe assegurou que todos os seus métodos e formas de pensar estavam obsoletos, porquanto as doenças a que se aplicavam já não existiam no mundo, o curador, que tinha, até então, o poder de tudo sarar e o segredo de expulsar o Demónio do lugar dos anjos do corpo em qualquer vulgar possesso, reconheceu em si um ignorante. Entristeceu de modo tão visível, que João-Lázaro começou a sentir-se mal e pensou:

"Ele tem lágrimas na boca, e a sua voz já está a soluçar."

Então, deu uma volta completa ao consultório e começou a ler os escritos encaixilhados e dispostos ao longo das paredes. Mesmo por cima da sua cabeça, havia uma lousa suspensa por um barbante, e João-Lázaro considerou por um momento a rigorosa inscrição que ela continha:

Começou, porém, a encher-se de uma vaga piedade por aquele homem mortalmente equivocado com o sentido da vida e continuou a ler em volta: POIS O BRANCO NÃO É A MAIS ANTIGA COR DO MUNDO? -- disse-o Bárbaro, e é provado! Havia ainda outros dizeres, entre os quais a fabulosa descoberta marítima de Cadete, encaixilhada em três versões de tamanho crescente, como se cada uma delas fosse sucessivamente mais profunda do que a anterior:

          o mar é branco
               O Mar é Branco
                    O MAR É BRANCO

"Doenças assim" -- considerou subitamente João-Lázaro apontando para as inscrições suspensas -- "são produto de imaginações inquinadas."

Como os soluços dele se debulhassem já com renovada intensidade, encheu-se de nova aflição, pois tinha pela frente não um homem apanhado em flagrante delito contra a civilização, mas essa espécie macia e equívoca de animal quebradiço e já sem espinha. Recomeçou então as suas explicações terapêuticas:

"Não existem possesses do Demónio, pela razão simples de que o Demónio não existe. São pessoas descontroladas nos nervos, por obra da religião dos padres, e acometidas de crises histéricas, essas de que fala. A histeria é um estado inefável, supre-se pelo tratamento psíquico. O tratamento psíquico estuda a mente na sua parte oculta, pelo processo da ogiva e através de reacções lógicas aos estímulos do choque."

O curador deixou logo de o ouvir e fez um enorme gesto desolado em volta, um gesto que pretendia destruir tudo, varrendo imaginariamente os objectos para o chão. Lançou à bola perpétua, às tinas e retortas, às caixinhas de ervas e ao alambique um olhar de piedade misericordiosa, após o que se deixou cair no primeiro banco e pensou:

"É agora que eu vou morrer."

Com efeito, tinha já decidido renunciar de vez à existência. Se desaparecesse para sempre, ficaria ao menos na memória dos seus objectos e no espírito das pessoas em quem tinha praticado o bem ao longo de tantos anos de curadoria. Elas, sim, torná-lo-iam eternamente amado. Podiam vir até a erigir-lhe uma estátua, como lembrara o poeta e dentista Francisco Heitor, no dia em que reconhecera publicamente o seu génio criador. A não ser a morte, que outra coisa tinha já sentido na vida?

Não era verdade que ele tivesse absorvido a ciência e o sopro mágico do sábio Apanaguião, monge do Tibete e inventor da bola perpétua, segundo lhe garantira Bárbaro, o peregrino. Nem era decerto verdade que as pessoas se curavam à distância, no simples acto de invocar o seu nome, quando algum mal as apoquentava. Mas, então, como era possível que tivessem acontecido todas essas coisas? Alguém inventara essa fábula? Talvez fosse apenas produto exclusivo da sua louca imaginação de antigo capador de bois, porque entretanto, como lhe garantia João-Lázaro, homem do futuro, vindo directamente da morte, nascera no mundo um novo génio da sabedoria para o derrotar da forma mais lapidar. Que podiam, enfim, contra tal poder, as suas ervas e essências, os defumadouros, as beberagens e o provado engenho da bola perpétua? Que podia contra a nova euforia do mundo de João-Lázaro o seu velho desespero de tantos anos? Nada, nada. E outra vez nada.

Morreria, porém, com o mundo, cujo fim estava igualmente muito próximo. Com efeito, a humanidade tinha cumprido já todos os ciclos da sua existência na Terra. Ia começar a devorar-se. Ia iniciar o processo da sua longa, lenta, inevitável extinção. Sabia que era esse, e não outro, o destino do mundo, do homem -- e de ambos.

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Rev'd 2003/08/25