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LISTA DE POETAS POR ORDEM ALFABÉTICA DO PRIMEIRO NOME

Resumo, tão fiel quanto possível, do acto de nascimento

e vida de uma carpa. 


Miguel Henriques (-) 2001/12/02

Olá, Config, bem-vindo ao nosso debate. Às minhas "velhas" amigas Brincalhona e Olga, as minhas cordiais saudações e gratidão pelo que com elas vou aprendendo.
Pegando na parte final do teu post "... e que o mundo que lê se interesse por mais do que aquilo que o escritor lhe oferece como serviço mínimo.", trouxe-me à mente um dúvida que há muito me intriga: porque é que, hoje em dia, alguns escritores, consagrados até, não usam a clássica pontuação, nem a frase curta, como nos ensinaram na escola?
Vejamos, por exemplo, o seguinte trecho de José Saramago, em Memorial do Convento: "Quando Blimunda acorda, estende a mão para o saquitel onde costuma guardar o pão, pendurado à cabeceira, e acha apenas o lugar. Tacteia o chão, a enxerga, mete as mãos por baixo da travesseira, e então ouve Baltasar dizer, Não procures mais, não encontrarás, e ela, cobrindo os olhos com os punhos cerrados implora, Dá-me o pão, Baltasar, dá-me o pão, por alma de quem lá tenhas, Primeiro me terás de dizer que segredos são estes, Não posso, gritou ela, e bruscamente tentou rolar para fora da enxerga, mas Sete - Sóis deitou-lhe o braço são, prendeu-a pela cintura, ela debateu-se brava, depois passou-lhe a perna direita por cima ..."
Pergunto: porque é que o discurso directo não é precedido de travessão, em diferente parágrafo?
Já agora, porque é que também não grafam minúscula, após a vírgula, mesmo tratando-se de discurso directo?
Agradecia que, se possível, discorressem sobre isto que, confesso, me tem trazido um pouco confuso.
Obrigado.

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  Re: Miguel Henrique 

Config
(-)
2001/12/03 01:04

Caro Miguel Henrique,
O problema da pontuação e do respeito pelas regras mais elementares da gramática começa a pôr-se, a meu ver, com o aparecimento da poesia não - rimada mas ritmada. A cadência ( a bateria que viverá na cabeça do escritor ) força-o a um discurso que não pode sofrer as tradicionais quebras da pontuação.
Em certo sentido trata-se de aproximar a prosa da poesia fazendo aquilo a que vulgarmente se chama prosa ritmada e ás vezes rimada.
O sistema não é novo ( pelo menos não foi o Saramago que o inventou ) e lembro-me de ter lido, há alguns anos, um escritor americano ( terá sido o Inverno do nosso descontentamento do Steinbeck ?) que utilizava como separadores ponto e virgula fazendo um parágrafo quase em cada meia página.
Ora, o Saramago, neste caso, e outros escritores, fazem um artifício técnico que pretende demonstrar que a escrita é corrida, ou seja, pouco revista, e que as palavras são escritas quase como se fossem ditas. O Fernão Mendes Pinto, na sua peregrinação, usou e abusou ( na altura da sua descoberta considerou-se que ele era um mau técnico da escrita ) das frases longas.
A intriga não será pois assim tão grande ( eu mesmo, por vezes, abuso ) mas demonstra que existe uma tentativa de fusão entre a forma como se fala e a forma como se escreve, no caso do Saramago subordinando a forma como se fala ás necessidades da escrita e do estilo que lhe é próprio.
Não estou muito à vontade para falar no teu exemplo porque não sou um grande fã do Saramago ( embora não tenha nenhuma vontade de lhe ir roubar o Nobél - como ele diz ) mas já em Fernando Namora os parágrafos eram longos ( e excessivamente introvertidos - ciciados ) e mesmo o Urbano Tavares Rodrigues com a limagem constante e intensiva que faz da palavra ( ao ponto de quase rebentar com ela ) utiliza frases longas.
A gramática, como conjunto de regras, pode aparecer como um espartilho, e, para te ser franco, nunca gramei muito esse capítulo e a maior parte daquilo que aprendi foi à força de porrada; já sou do antigamente e a reguada era um "incentivo" à aprendizagem.
Cumprimentos e até à próxima
 

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 Re: Miguel Henrique 

 

Olga
(-)
2001/12/03 04:45

Olá Miguel. Parece-me que no Saramago é propositado. Criou outra forma de escrita. Ao princípio eu confesso que também tive uma certa dificuldade. Depois resolvi encaixar-lhe uma certa música na leitura e tornou-se tudo mais fácil. Há música na escrita de Saramago. Estávamos habituados a outro género por culpa talvez do próprio ensino que nos deram. Os pontos, vírgulas e parágrafos tinham de estar sempre no devido lugar. Hoje a escrita é muito mais solta e ai está o Saramago a obrigar-nos a aprender a lê-lo. Saudades.

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Re: Miguel Henrique 

 

Brincalhona
(-)
2001/12/03 08:23

Olá...cá estou para mais uma pequena "achega" e sobretudo para expor o que penso sobre a questão que colocaste. Saramago também não será um dos meus autores preferidos, embora eu eleja algumas obras dele. Há anos, quando li Memorial do Convento, dei comigo quase com dificuldades de respiração uma vez que, sem pontuação, e interiorizadas técnicas de leitura, o texto avançava debaixo dos meus olhos sem me dar tréguas. Custou-me, sim tive dificuldade em aceitar....esta liberdade linguística. Mas, tal como a Olga, também eu tentei adaptar-me e apanhar a musicalidade do texto. Quanto aos espartilhos, quer na poesia quer na prosa, sabemos que a 1ª vez que se tentou quebrá-los sob a forma de princípios ( e sobretudo na poesia), regras, foi com o movimento das Arcádias no séc. XVIII, concretamente no ideário da Arcádia Lusitana. Embora a referência do Config a Fernão Mendes Pinto confirme igualmente essa situação...mas sabemos que ele nunca foi paradigmático na sua época, antes pelo contrário...Outras circunstâncias prendem-se com o que o Config dizia " A cadência ( a bateria que viverá na cabeça do escritor)..." e que o levam a adoptar um determinado ritmo frásico..vejamos o caso do chamado romance de corrente de consciência, reparem que este tipo de romance nem sempre é de fácil leitura porque, normalmente, não segue as regras clássicas quer a nível prosódico quer a nível de intriga.
Pela minha experiência profissional, tenho dificuldades em lidar com os "atropelos" gramaticais ( não por achar que a língua seja um organismo estático...porque não o é....) porque numa sala de aula a abordagem da estrutura da língua surge ( é inevitável para uma relação forma/conteúdo) e perante jovens curiosos que contestam , muitas vezes, o uso da prosódia, mas que os programas contemplam ( a correcção dos exames nacionais prevê cotação ...ou falta dela...para "punir" exactamente isso - ex.: uso indevido da vírgula entre o sujeito e o predicado ou ainda entre este e o complemento directo...etc. etc...) fica-se um pouco à toa...isto é, diz-se-lhes que as regras são estas....mas depois diz-se-lhes também que um escritor usa a sua liberdade ,que quebra as regras, uma vez que um escritor, como tal, deverá exactamente quebrar "status quo", ser marginal, numa palavra, ser incómodo e não estar "engagé" com o sistema! A sagacidade dos jovens é cruel....:))) dizem: " Pois....mas ele é Prémio Nobel.." e eu respondo:" Pois...." Mas encarando a produção literária como uma forma de arte, que o é, devemos estar abertos a diferentes formas quer a nível sintáctico quer a nível semântico, só assim o Homem se liberta de amarras...
Cumprimentos a todos!!

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Re: Miguel Henrique 

 

Miguel Henriques
(-)
2001/12/03 21:46

Olá, Config! Esta coisa de tratar as pessoas que nos merecem toda a consideração por nicknames ou pseudónimos ou lá o que é, deixa-me um tanto ou quanto confuso. Bem preferia ver-lhes o rosto e retribui-lhes a amabilidade com um sorriso de gratidão que bem o merecem. Mas adiante...
Efectivamente, essas liberdades de escrita conhecia-as e, bem que se justificam, em meu entender, para os poetas, em que a rima, por exemplo, pode ser castradora, mutiladora da expressão, uma espécie de mordaça. Agora, para os prosadores...! Que a inexistência de pontuação ou apenas a sua falta podem facilitar a cadência, o ritmo, etc., etc., parece-me um tanto ou quanto absurdo. Chego a pensar que é mas é uma boa desculpa para quem nunca dominou as regras da pontuação! Senão vejamos:
Não é precisamente o solfejo, a pedra angular de qualquer peça musical que se preze? Haverá algo de mais limitativo que o compasso? Não serão as quebras de pontuação, na prosa, que marcam a cadência, os tempos, as emoções...
E, no entanto, ninguém se atreve a imaginar música sem solfejo. Ou será que... eu sei lá!
Agora já me não custa acreditar é que, assim, sem pontuação, os autores retiram do texto toda a objectividade, deixando ao leitor uma grande margem para a sua recriação.
Porém, continuo a preferir o meio termo: embora uma linguagem polissémica, é certo, mas com um mínimo de objectividade para que se possa fazer entender.
Quanto ao Nobél ou Nobel, Config, aqui, acho que o Saramago tem razão. Aqui respeita as regras gramaticais que lhe ensinaram: é que todas as palavras graves terminadas em el ou er são graficamente acentuadas. P. ex.: cadáver, automóvel, verosímil, Alcácer... Logo, Nobel, sem acento gráfico, só pode ser aguda, como p. ex.: funil, colher (de sopa), papel e... Miguel!
Um abraço.
P.S. já agora, um reparo: o meu nome é Miguel Henriques (plural), ok?

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Re: Miguel Henrique 

 

Miguel Henriques
(-)
2001/12/03 22:02

Olá, Brincalhona!
Reconheço a dificuldade em que estes Saramagos, Garcias Marquez, etc., etc., meteram os profs. É caso para dizer que é como Frei Tomás: olhem para o que ele diz, não olhem para o que ele faz!
É por essas e por outras que, quando, há dias, eu observava a um amigo meu que o nome predicativo do sujeito devia concordar em número e género com o sujeito, ele, muito espantado, perguntou:
- E o que é lá isso do nome predicativo do sujeito?
É claro: depois, ninguém sabe colocar as vírgulas onde deve ser; umas vezes põem-nas a esmo, outras nem sequer as põem, para acabar com as dúvidas.
Quanto à questão sub judice, reitero o que disse há pouco, em resposta ao nosso amigo, Config.
Beijinhos.

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Re: Miguel Henrique 

 

Miguel Henriques
(-)
2001/12/03 22:14

Olá, Olga, se calhar, o Saramago bebeu no outro Nobel, o Gabriel Garcia Marquez. Aqui há uns tempos, li o "O Outono do Patriarca", edição do Círculo de Leitores, e, olha, disse mal da minha vida. Estava a ver que o não conseguia acabar.
Já sei que os engraçadinhos já estão a piscar o olho, danadinhos de gozo, a dizer que aquilo foi escrito para ser lido por pessoas inteligentes! Mas, enfim, eu sou como sou e, provavelmente, o Criador, na hora de distribuir argúcia, sabedoria, ter-se-á distraído e esqueceu-se de uns quantos... A verdade é que o achei intragável e, francamente, cheguei ao fim sem ter percebido patavina. Cada página transformara-se, para mim, num sacrifício. Como diz a nossa amiga Brincalhona, chegava-me a faltar o ar. E, em anóxia, eu não consigo raciocinar!
Afinal, Olga, o nosso debate sempre parece ter mais nível que certos outros que por aí grassam!
Beijinhos.

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Re: Miguel Henrique

 

Config
(-)
2001/12/04 00:30

Embora a Olga e a Brincalhonha, nunca me tenham dado o gosto de me escrever directamente, vejo que, pelo menos, vão prestando uma atenção que eu não julgo merecer por aquilo que escrevo neste fórum ( se não tivesse acento era forúm ) pelo que respondo aos três por esta via ( nem sei se há respostas para dar ou se há apenas considerações a tecer ).
Dou a mão à palmatória na história do Nobel porque a bagagem do Miguel neste capítulo deixou-me de rastos. E eu que levei toda a vida a pensar Nobel na segunda sílaba, vejo, através do Saramago, destruídos alguns sonhos da infância e da juventude que incluíam o referido prémio, não para ganhar, mas para admirar no tempo em que eles eram mais admirados do que são hoje.
Em relação aos três eu falei no ritmo e na musicalidade por uma razão que na altura não referi porque os textos estão a ficar excessivamente longos e acho que começam a dar sono.
Os primeiros gramáticos foram simultaneamente professores de música ( de solfejo ) e indiferentemente ensinavam uma coisa e outra. A razão era porque se tratava, naquele tempo, de enquadrar tanto os sons como as palavras ( que eram sons ) - não vou falar dos fonemas nem dos morfemas senão nunca mais saímos daqui.
Pela lógica desses gramáticos / musicais e vice - versa, as regras de enquadramento das notas musicais e das sílabas, não sendo as mesmas, tinham uma teoria comum.
É claro que o período em causa era um princípio e segundo parece os resultados não foram de todo maus. Coisas que não interessam para o caso, como a carga religiosa medieval deram origem aos ainda famosos ( e tão mal imitados ) cantos gregorianos ao mesmo tempo que deram origem à criação de autênticos compêndios sobre a arte de escrever que levou ao exagero ilustrativo dos fazedores de livros conventuais.
Com isto quero dizer que as artes sempre estiveram ligadas e que é possível ver-se numa pintura um conjunto de regras que não sendo gramaticais fazem a organização das regras com que a pintura se coze.
Já no que se refere ao bom português que se deve ensinar nas escolas eu acho que é preciso um ponto de partida e que enunciar excepções não fica nada mal; as pessoas que fazem as excepções em princípio fazem-nas porque ultrapassam a regra, não porque ficam abaixo dela, ou seja, não o fazem porque não sabem que a regra existe mas porque sabem que ela é contornável.
E não digo mais por hoje bastando acrescentar que, e revendo o texto do Miguel, que o Saramago afinal, apesar de transgredir as regras gramaticais, sabe, ( e fez furor em Portugal ) que Nobel se acentua tonicamente na última sílaba.
Mas sobre o português ilustrado e o português comum haveria muito a dizer...

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Re: Miguel Henrique 

 

Mayyahk
(-)
2001/12/04 01:41

Estou a apreciar bastante a discussão que aqui decorre, e este seu «post» em particular, meu caro Config, é precioso. Agradeço-lhe porque já estou como o outro que dizia: «hoje já aprendi qualquer coisa». 

Não tenho nada para acrescentar à discussão, mas gostaria de aqui deixar transcrito (espero que sem erros) um poema de um outro autor esquivo a vírgulas: Ruy Belo. Não foi nobeliado (será permitido escrever assim?) como o Saramago, mas acredito que vale a pena lê-lo… E o poema, enfim, fala do Natal, de Herculano, parece-me muito a propósito.

As minhas saudações a todos os participantes!

POEMA DE NATAL
de Ruy Belo

É dia de natal a festa da família um deus nasceu
não me sinto sozinho mas estou sozinho
toda a minha família sou só eu
Levo nas algibeiras alguns versos e caminho
quando sinto de súbito o desejo de reler o herculano
a única pessoa que nos livros e na vida hoje me faz falta
única companhia para o meu natal
Entro nas poucas livrarias de peniche
e gasto em livros de herculano o dinheiro que tenho
O herculano entre outras coisas bem sabia distinguir os tempos
sabia o que num tempo é distinto de outro tempo
tinha muitos amigos entre os seus e meus antepassados
e deu sempre à verdade o que os demais costumam dar à vida
Era casmurro abandonou um dia as casas de má nota
deixou o parlamento e a vida literária
e procurou no campo a companhia
de árvores bem mais que os homens verticais
Tinha mau génio fulminava com os olhos
franzia a testa e não havia nada que fazer
era teimoso o velho como antero lhe chamava
Penso nele e caminho pelas ruas de peniche
e só vão a meu lado uma má música daquelas
que ferem os ouvidos nestas quadras do natal
e a fotografia num jornal de um elevado dignitário da hierarquia
para quem o mistério do natal não sei bem que mistério ou que natal
encerra o verdadeiro humanismo novo
frase que me provoca comoções
porquanto as aliterações são dos meus pratos favoritos
Vou encerrar-me em casa a sós com o herculano
que tanto quanto sei não era humanista
ou que se porventura o era o não sabia
ou não dizia ao menos ser tal coisa como
se duvidássemos que o fosse se é que o era
É dia de natal estou sozinho e penso ler o herculano
que há tanto ano já não me fazia
a falta que me faz precisamente neste dia
em que só me faz falta a sua companhia
Vamos para minha casa ó herculano
vou fechar as janelas acender a luz
e aguardar contigo o fim do ano
Prefiro-te herculano a músicas e altos dignitários pois
nem talvez tenha já a convicção de quem anualmente
escreve pontual se não contente o seu poema de natal

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Re: Miguel Henrique 

 

Olga
(-)
2001/12/04 04:25

Olá Confing, não te responder porquê? Todos os amigos são bem vindos. Só não entendo porque arranjam vocês sempre pseudónimos. Eu sou mesmo OLGA. É o meu nome há 64 anos. Concordo com o Miguel isto de nos comunicarmos através de um computador é um pouco.... Não podemos olharmo-nos uns para os outros. Paciência. Qualquer dia descrevo-me dos pés à cabeça e vocês ainda se vão rir todos um pouco. Só para vos descansar por hoje só digo que tenho 1.64m. e só peso 55 Kgs. Se estavam à espera de alguma baleia, calma. Beijos para todos. Tenho de ir dormir. Já é tarde não é?
 

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Re: Miguel Henriques 

Miguel Henriques
(-)
2001/12/04 21:57

Olá, Mayyahk, já nos conhecemos, creio eu, doutras paragens.
Ao ler o poema transcrito, de Ruy Belo, que, diga-se de passagem, eu não conhecia, só fiquei a saber que era um poema, porque assim foi identificado. De resto eu diria ser mais um trecho de prosa musicada, sugerindo-me uma boa letra para "rap". Estilos...
Pessoalmente, continuo a preferir aquela harmonia, a sonoridade (alguma rima, pelo menos), a estética, a densidade da frase curta, etc., da poesia tradicional. Gostos...
Foi bom teres aparecido.

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Re: Miguel Henrique 

 

Config
(-)
2001/12/05 01:29

Olá Olga ( ou OLGA com força e convicção);
Depois de ter escrito o texto que escrevi dei uma volta pelos fóruns e descobri uma resposta sua ( ou tua ) numa história que eu realmente não deveria sequer ter começado a responder. Mas o Sr. em causa fez-me lembrar um professor meu que era uma seca tremenda e que fazia discursos em nome da Escola quando da vinda de algum dignitário os quais éramos obrigados a ouvir, por força das circunstâncias, e descarreguei ( será o melhor termo ) aquilo que me ia na alma.
Paciência...terei oportunidade de aproveitar melhor e recuperar aqueles momentos perdidos.
Sobre a parte dos pseudónimos, eu agarrei neste porque faz parte de um login de um outro site e fi-lo, não porque tenha receio que me descubram a careca ( que existe de facto ) mas porque pensei que deveria ser assim mesmo. Quase 100% dos fóruns são preenchidos com pseudónimos, alguns de franco mau gosto e na minha ingenuidade ( ando nisto há muito pouco tempo ) até pensei que era obrigatório sob risco de ser expulso da Ordem.
Sobre outro assunto, o nosso amigo Miguel, cuja permanência verifico - e sei que ele vai ler isto - defende a tese de que as coisas devem ser aquilo que elas são ( o que não fica mal a ninguém ) mas, e falando sobre o poema do Ruy Belo, há ali como que uma exigência de clareza e distinção, que, fazendo parte de uma corrente tão válida como outra qualquer, começa a assustar-me.
Não gostaria de fazer ( ou de participar na feitura ) deste ( ia dizer ponto de encontro mas arrependi-me ) grupo num género de polémica entre o bom senso e o bom gosto, pelo que apelo ao Miguel, aqui deste fórum, que seja ( ou que procure ser ) menos radical no que se refere à Gramática no seu todo.
Eu compreendo perfeitamente que as coisas devem obedecer a um mínimo de regras sob risco de deixarem de ser elas mesmas, e aceito até um meio - termo ou compromisso, entre o gramaticamente correcto e aquilo que não é gramaticamente correcto.
Haverá assim que distinguir entre aqueles que não utilizam as regras e disso fazem alarde, como se do rompimento das regras, por si, resultasse forçosamente alguma coisa de bom e aqueles que rompem as regras porque algumas delas são mesmo anacrónicas ou não se adaptam àquilo que se pretende.
A forma e conteúdo vivendo num grau de interdependência nunca poderão ser limitativos um do outro, sob risco de cristalização. Ora, o mundo corre tão depressa que já temos alguma dificuldade em aparar-lhe as inovações e as descobertas. Mais difícil ainda se torna a causa quando se pretende que essas inovações sejam aparadas de uma maneira específica e não da forma que elas vêm.
É assim como que aparar com um cesto de vime uma chuva repentina.

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Re: Miguel Henrique

Config
(-)
2001/12/05 02:06

Olá amigo Mayyahk,
Na minha opinião trata-se de um excelente poema de um poeta excelente. O Alexandre O'Neill tinha ( e tem mesmo depois de desaparecer ) um poema sobre os olhos do cherne que, inicialmente eu só compreendi pela sua harmonia e musicalidade. Mais tarde, vi uns olhos de cherne ( e de outros peixes mortos em exibição nas vitrinas ) e vi que, realmente, o cherne tem uns olhos mesmo tristes, uns olhos de quem não tem esperança nem perspectivas na vida. São uns olhos que servem exclusivamente para ver aquilo que ali está, logo ali, mas são uns olhos vencidos, sem esperança.
E isto leva-me à ironia do Ruy Belo. O Alexandre Herculano leva-o a passar uma noite de Natal que ele quer autêntica e real e não aquela noite de Natal pré-fabricada, standarizada, irreal porque não corresponde ao estado de espírito das pessoas ( de todas as pessoas que passam a noite de Natal ).
Lá por ser Natal não sobe o ordenado mínimo, por exemplo e lá por ser Natal não se acabam os problemas e o ideal seria fazer repetir o tal chavão, mas acrescentado, " que todas as noites sejam noites de Natal ou então que não seja nenhuma de forma forçada ".
Cumprimentos e, pela minha parte, acho que deves, se quiseres e puderes, ficar connosco.

Nota para todos: apareceu uma gralha que não tem nada a ver comigo que me meteu uma série de símbolos onde eu queria dizer " vime " no texto para a Olga. E já agora as minhas desculpas ao Miguel Henriques por lhe ter chamado Henrique ( sem "s" ).

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Re: Miguel Henrique 

Config a Config
(-)
2001/12/05 02:15

E apareceu segunda vez a gralha. Será que a censura não deixa passar um termo simples como %$&#$#&!? ? Para a hipótese de voltar a acontecer trata de um cesto feito com um material vegetal elástico como as canas mas em forma de bambu. Será que este entra?

 

Rap, rap, rap, rap, rap, rap, rap, rap

Mayyahk
(-)
2001/12/06 01:03

Olá Miguel, como estás?

Quando li a tua associação da poesia do Ruy Belo à música rap tive uma reacção semelhante àquela que teria a distinta senhora vestida de amarelo - a que aparece nos anúncios da Ferrero-Rochet - se o Ambrósio, após o «apetece-me algo», sugerisse à dita senhora um bacalhau com batatas seguido de uma feijoada à transmontana.

Porém, vendo bem as coisas, a feijoada e o bacalhau são bem mais saborosos, saudáveis e nutritivos que bombons, ainda que icterícios, ainda que em pratas da Ferrero-Rochet, ainda que anunciados por distintas senhoras vestidas de amarelo, de sorriso largo como um alguidar sem cáries, do alto do por baixo do seu grande chapéu cor de canário.

E não consigo agora imaginar outro poeta mais adequado para a música rap que o belo e nosso Ruy Belo, que lá no meio dos anjos onde deve estar, pelo menos o Eugénio de Andrade assim o afirma, se calhar ouve música rap e diverte-se a ver a miudagem a dançar o dito rap, cinco braços e oito pernas desengonçando-se para cada lado, e ele, o Ruy, chateado, farto de anjos atafulhados de penas, que insistem em tocar Mozart, Mozart, Mozart, e mais nada.

Mas acho também, Miguel, que tudo isto só é possível porque o Ruy se farta de fazer rimas que não vemos, porque as mete no meio dos versos e não no fim, porém as sentimos como música, seja lá rap ou outra maluquice qualquer, e ainda porque, mesmo sem vírgulas - sem vírgulas mas com o coração aos pulos! - cria ritmos com as palavras, seja porque vai buscar os ritmos que já hão nos recantos das palavras, seja porque faz saltar os ritmos que nascem quando as palavras mordem o rabo das palavras que lhes aparecem à frente, seja por outra coisa qualquer que os doidos dos poetas sabem inventar mesmo que o não saibam.

E assim se esquece duas vezes o Ruy da pobre gramática, uma porque não virgula de todo, outra porque se esqueceu de todas aquelas fórmulas de encaixar poemas que aparecem nas gramáticas, e que dizem que os sonetos sáficos se acentuam nas sílabas quarta, oitava e décima, porque se for na décima e sexta, afinal já não são sáficos, mas heróicos.

Bom Miguel, e se conseguiste aturar este «post» até fim, digo-te o que me estava mesmo à apetecer era topar com um puto reguila do rap a recitar o Ruy com aqueles ritmos do raio que os partam. É pá, seria belo.

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Entram Alexandre O'Neill e diversos peixes


Caro Config, tudo bem contigo?

Li atentamente o teu «post», mas confesso que logo fiquei de olhos nos olhos do cherne do Alexandre O’Neill! Bom, e fui à caça, aliás, à pesca… Será este?



SIGAMOS O CHERNE!
(Depois de ver o filme «O Mundo do Silêncio»
de Jacques-Yves Cousteau)


Sigamos o cherne, minha Amiga!
Desçamos ao fundo do desejo
Atrás de muito mais que a fantasia
E aceitemos, até, do cherne um beijo,
Senão já com amor, com alegria…

Em cada um de nós circula o cherne,
Quase sempre mentido e olvidado.
Em água silenciosa de passado
Circula o cherne: traído
Peixe recalcado…

Sigamos, pois, o cherne, antes que venha,
Já morto, boiar ao lume de água,
Nos olhos rasos de água,
Quando, mentindo o cherne a vida inteira,
Não somos mais que solidão e mágoa…



Não conhecia este poema. É belíssimo. O Alexandre O’Neill tem uma música e um humor tais que fazem parecer a tristeza um privilégio. Nisso, é parecido com o Ruy Belo, sem deixar de ser tão diferente.

A propósito de peixes e olhos, descobri um outro poema deste nosso, este outro nascido cerca de vinte anos depois da escrita do SIGAMOS O CHERNE! (presumo pelas datas de publicação), e desta feita envolvendo uma carpa…


A CARPA
Sobre uma colagem de Marina Obo

Fundolho escamado superficiando olho prà carpa.
Vem do fundo do olho que foi ao fundo.
Movindo das profundas move manualetas, num abr’olhos
de peixespanto.
Dizque tacteia águas que estão na água,
trevas que estão na terra. Podeserque.
Carpabricolada, reactiva nossa gula das jóias,
tão segura da sua completude está,
tão cor é na desluz que a encerra (escrínio).
Nada nadando, a carpa vem ao de cima
devolver o olhar com que a vimos.
Olho na carpa de olhos em nós. Por ela e por nós.
Peixespelho, troço de maravilhoso,
atenção!,
a carpa vai fechar a luz.
Fechou. Agora, no escuro, a carpa travestindo-se
para novos feéricos espectáculos pela mão de Marina Obo.
Oh, as carpas amestradas!


Este é tramado de transcrever: palavra sim, palavra não, aparece uma palavresquisita. Espero não ter cometido erros. Tenho curiosidade em saber como se vai comportar o programa censor do Clix em relação às palavras inventadas pelo O’Neill… Será que corrige automaticamente? É verdade, há maneiras de ultrapassar os instintos censórios do Clix em relação aos palavrões. Por exemplo, separando as letras com pontinhos. A palavra vime - era esta que estavas a tentar?, já não me lembro bem - pode ser escrita assim: v.i.m.e. É estúpido, mas resulta (espero).

Cumprimentos (para ti e para todos)
 

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Re: Miguel Henrique 

 

Brincalhona
(-)
2001/12/06 13:11

..claro que estás incluído no fórum ( sem acento porque é uma palavra latina....rss).....Uma vez mais venho apenas dizer: olá, estou presente! Não me é possível adiantar mais porque outras tarefas, talvez menos apetecíveis, me esperam.....gostaria imenso de discutir aspectos que achei interessantíssimos....mas preciso de tempo!!! Apenas acrescentaria que sou uma admiradora do Ruy Belo, tal como do Alexandre 0'N...poetas esquecidos! Parabéns.....Conf.

 

  Re: Entram Alexandre O'Neill e diversos peixes

 

Brincalhona
(-)
2001/12/06 13:13

...os parabéns também são para ti!!!! :-)))
 

  Re: Miguel Henrique

 

Brincalhona
(-)
2001/12/06 13:14

e para ti!!!! rss
 

Re: Miguel Henrique 

 

Brincalhona
(-)
2001/12/06 13:16

.e para ti......ai....isto é mesmo em série....falarei mais tarde....

 

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Re: Entram Alexandre O'Neill e diversos peixes 

 

Config
(-)
2001/12/07 01:04

Parabéns Mayyahk,
Encontras-te não uma, mas duas pérolas autênticas. O segundo não conhecia, de facto, e lamento não o ter conhecido antes.
A palavra não era vime ( que penso que passa ) mas v.e.r.g.a. que o maldoso do censor não sabe, provavelmente, tratar-se de uma matéria em tudo muito diferente daquela que ele provavelmente quer censurar. Mas os censores sempre foram pouco ilustrados e ao cortarem cortam pela raiz, ou seja, cortam pelo total aquilo que em dados contextos até não está mal. Mereciam umas vergastadas ou uma ver_gas_ta_das ( todo o cuidado será pouco ).
Por hoje não tenho muito tempo porque as ligações estão a cair com uma frequência inusitada. Mas vou reler ( copiei ) A Carpa com muito mais atenção e volto a escrever.
Entretanto um abraço para todos
Config ( eu logo digo o meu nome, um dia destes ).

 

 Re: Entram Alexandre O'Neill e diversos peixes

 

Olga
(-)
2001/12/08 03:50

Olá, olá a todos. Isto é só para vos cumprimentar. Andei no laréu". (Também tenho direito) e só cheguei hoje. Mesmo assim não resisti, tive que vos vir espreitar. Um beijo para cada um.

 

Re: Entram Alexandre O'Neill e diversos peixes

 

Config
(-)
2001/12/09 00:09

Acrescento desde já algo que na primeira resposta que te dei não tive tempo de desenvolver por que também não tive assim tanto tempo para ler o poema do O'Neill ( o da carpa ) on-line porque as ligações telefónicas andavam pelos ares alheadas.
A primeira coisa que me parece ser indispensável dizer é que se trata não propriamente de um poema confuso mas de um poema profuso.
Em termos técnicos ( custa dizer este termo mas é verdade ) existe uma tal profusão daquelas coisas muito chatas como a polissemia, a ambiguidade propositada, uma dispositio barroca, etc. que só pode ser entendida como um tremendo gozo desse grande gozador que foi o A.O'Neill.
Calculo até ( Podeserque) que nos últimos momentos da sua vida e no final da doença prolongada que o vitimou, quando as visitas dos dantes abundantes amigos rarearam até quase desaparecerem, o O'Neill tenha gozado nos momentos mais lúcidos e mais reais de si, com essa situação e se tenha lembrado das efemeridades como a da carpa.
Quanto ao poema, é um trabalho que se pode considerar de grande fôlego, assim como será com certeza inalcançável, por mim, analisá-lo profundamente e com alguma completude.
Mas sempre te digo que, forçado pela circunstância da efemeridade destes textos aqui escritos, abri uma página na Clix (http://planeta.clix.pt/artes-e-letras) onde procurarei, com a ajuda de todos aqueles que quiserem colaborar - eu só tomei a iniciativa, não sou dono de nada ) tornar mais perene e profundo aquilo que aqui só se consegue discutir pela rama.
Cumprimentos e um grande abraço para todos
Config

 

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 Re: Entram Alexandre O'Neill e diversos peixes

 

Mayyahk
(-)
2001/12/10 02:37

Olá Config. Fui visitar a página http://planeta.clix.pt/artes-e-letras, mas o servidor parece uma fila de supermercado em dia de São Vencimento. É o Clix que está pouco generoso ou é a minha ligação à rede que está a precisar de reforma? O rosto da belíssima Vénus de Botticelli da página de abertura esteve quase uns bons cinco minutos a nascer!… 

Não obstante, já estive a ler a tua interpretação dos neologismos de O’Neill. É curioso o trabalho que fazes de transformação do poema original para prosa poética. Aliás, é mais que curioso, é divertido e instrutivo. Um dia destes tenho de experimentar!

Identifico-me com o significado que dás aos neologismos. Foi com o significado que apontas que senti aquelas palavras quando li o poema. Excepto uma: carpabricolada. Eu não fazia a mínima ideia que bricola tem o significado de freio, e a associação que fiz foi ao galicismo bricolage, provavelmente até induzido pelo Sobre uma colagem de Marina Obo que acompanha o título do poema. Ah, mas indo ao dicionário de francês ainda arranjo outra pista que poderá ser de considerar. O verbo bricoler tem entre os seus significados o de seguir para a direita e para a esquerda, o que lembra a locomoção de um peixe! (Foste tu que falaste em polissemia, ambiguidade propositada, etc., por isso agora não te queixes…) 

Já é um pouco tarde, mas ainda quero felicitar-te pela tua iniciativa. Se a minha ajuda poder ser útil, e embora o meu tempo livre seja escasso, nem precisas gritar muito alto que apareço. Espero que a tua página te dê tanto gosto quanto o trabalho que decerto irás ter!

Cumprimentos a todos!


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Re: Entram Alexandre O'Neill e diversos peixes 

 

rdionisio
(-)
2001/12/10 05:49

(só uma observação: já cá não vinha há uns tempos, o pessoal animou!) fixe.

 

Re: Entram Alexandre O'Neill e diversos peixes 

 

Config
(-)
2001/12/10 23:30

Agradeço as tuas palavras de apreço em relação à página, lamento que tenhas tido esse trabalhão / tempo para entrar mas ao que me parece a coisa estava mesmo difícil ontem. Tive que fazer dois recarregamentos porque o sistema da Clix ainda me parece bastante instável. Primeiro quando devia renovar o que era acrescentável eliminava o resto que lá estava e depois recusou-se, pura e simplesmente, a aceitar correcções ao mal que estava feito pelo que tive de recarregar desde a primeira letra até à última, de novo como se fosse a primeira vez. Acresce que se não tem acesso aos ficheiros através de uma zona chamada normalmente de webmaster o que ainda dificulta mais as coisas, mas penso que a situação melhorará.
Não fui original ao transformar o poético em prosa poética ( a Brincalhona como professora de português que é deve fazer isso todos os dias, ou pelo menos de vez em quando ). Aliás, há um texto do Memorial do Convento ( o tal que o Miguel Henriques apresentou num outro excerto ) em que, num manual ou do 11º ou do 12º se faz a " correcção " exemplificativa do estilo do Saramago ( já começo a gostar um pouco dele - o que não sei se será um mau sintoma ).
Agora sobre a bricola ( a carpabricolada ) há uma série de indícios a meu favor embora não sejam de descartar todas as hipóteses incluindo essa do movimento natatório.
As coisas ( as palavras e as ideias ) estão de tal forma ligadas que muita coisa é possível, e quando se trata de recriação, é bom que ela seja isso mesmo ( uma forma de ver dada sobre aspectos dados ).
Em apoio do freio vem o seguinte:
1º trata-se, finalmente, de uma carpa amestrada;
2º Brico é um elemento usado em composição para indicar a ideia de ranger os dentes;
3º Bricomania, é o hábito, mania de fazer ranger os dentes;
4º Num dicionário de francês bricole é um substantivo que quer dizer: o ricochete ( daí o teu andar de um lado para o outro ) mas também quer dizer a correia de segurar ( cavalo) e outras coisas como ninharia e dificuldade.
Ora, e sem querer fazer um longo discurso, deixa-me dizer-te que, o bestiário de O'Neill é quase tão competitivo como o de José Cardoso Pires. Temos a formiguinha, o cherne, a carpa etc. mas, temos este, que é uma " História da Moral " que me leva a inclinar-me ainda mais sobre o freio ou sobre a amestragem. Segue:

Você tem-me cavalgado,
Seu safado!
Você tem-me cavalgado,
mas nem por isso me pôs
a pensar como você.
Que uma coisa pensa o cavalo;
outra quem está a montá-lo.

(Poesias completas )

Há mais coisas que não cabem aqui mas sempre te digo que existe uma tentativa de identificação homem / peixe que é uma história quase tão longa como as mil-e-uma-noites.
Sobre a página, e seguindo as tuas palavras, não te faças rogado; ela não é minha, conforme disse na sua apresentação.
Espero que dela tiremos todos algum proveito.
Um abraço e até sempre que queiras.
Config, ( por enquanto ).

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 Re: Entram Alexandre O'Neill e diversos peixes

 

Mayyahk
(-)
2001/12/24 00:01

Olá!

Já não vinha a este fórum há vários dias e reparo que a nossa carpa anda muito abandonada (ao contrário da http://planeta.clix.pt/artes-e-letras que já conta com várias participações - parabéns Config!)

Assim, e além dos meus votos de um bom Natal, aqui deixo um soneto cárpico (em que era também para entrar um cherne, mas que com a pressa me esqueci do bicho.)


SONETO A PROPÓSITO DA CARPA DO O'NEILL

De vários fios as águas são fiadas,
de fios de frio tecido em escuridão,
de fios de vozes pias piando nadas,
de fios de cego nó atado em não.

E fiando os fios da água há a carpa
desbricolada em olhar peixespanto,
que manueleta os líquidos quais harpa
de cordalágrimas do teu repranto.

Olhos na boca tua de peiximundo,
boca nos olhos teus de peixescravo,
ei-la movindo-se do fundo fundo…
bom peixespelho, a carpa és tu meu bravo!

(E goza agora o veres-te em olhos crus
que um dia a carpa irá fechar a luz.)


Sei que não é lá muito natalício, mas enfim… 

Abraço!

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Re: Entram Alexandre O'Neill e diversos peixes 

 

Config
(-)
2001/12/24 03:04

Amigo Mayyahk
Não se tratará, em rigor, de um poema natalício, mas faltará definir o Natal de cada um para se saber ao certo. Para mim foi uma excelente prenda da Natal este teu soneto que vem mesmo a calhar naquela altura em que as pessoas se sentem mais sozinhas (dizeque).
É realmente extraordinário e não se trata somente de elogiar as construções de palavras mas também a musicalidade ( fios de vozes pias piando nadas, de vários fios as águas são fiadas e outros que não vou repetir senão para mim mesmo).
Não só gostas de poesia como és um bom poeta - e levantar-se-iam vozes contra o soneto/ forma, mas tenho uma colecção de sonetos que talvez por o serem são melhores que muita poesia solta - porque o problema, a meu ver, não está no modelo utilizado mas sim na forma como se o utiliza e naquela conjunção que se consegue ( ou não se consegue). Tu conseguiste! Parabéns!
Não digo mais nada sobre os restantes assuntos: quero gozar a leitura do teu soneto. Obrigado!
Config



 

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