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LISTA DE POETAS POR ORDEM ALFABÉTICA DO PRIMEIRO NOME PAISAGENS DE INVERNO (A Alberto Osório de Castro)
Ó meu coração, torna para trás. Onde vais a correr desatinado? Meus olhos incendidos que o pecado Queimou! Volvei, longas noites de paz.
Vergam da neve os olmos dos caminhos. A cinza arrefeceu sobre o brasido. Noites da serra, o casebre transido... Cismai, meus olhos, como uns velhinhos.
Extintas primaveras, evocai-as. Já vai florir o pomar das macieiras. Temos de enfeitar os chapéus de maias.
Sossegai, esfriai, olhos febris... Hemos de ir a cantar nas derradeiras Ladainhas...Doces vozes senis.
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(A Abel Aníbal de Azevedo)
Passou o Outono já, já torna o frio... - Outono de seu riso magoado. Álgido Inverno! Oblíquo o sol, gelado... - O sol, e as águas límpidas do rio.
Águas claras do rio! Águas do rio, Fugindo sob o meu olhar cansado, Para onde me levais meu vão cuidado? Aonde vais, meu coração vazio?
Ficai, cabelos dela, flutuando, E, debaixo das águas fugidias, Os seus olhos abertos e cismando...
Onde ides a correr, melancolias? - E, refractadas, longamente ondeando, As suas mãos translúcidas e frias...
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Il pleure dans mon coeur Comme il pleut sur la ville. Verlaine
Meus olhos apagados, Vede a água cair. Das beiras dos telhados, Cair, sempre cair.
Das beiras dos telhados, Cair, quase morrer... Meus olhos apagados, E cansados de ver.
Meus olhos, afogai-vos Na vã tristeza ambiente. Caí e derramai-vos Como a água morrente.
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QUANDO?
Quando se erguerão as seteiras, Outra vez, do castelo em ruína? E haverá gritos e bandeiras Na fria aragem matutina?
Se ouvirá tocar a rebate, - Sobre a planície abandonada? E partiremos ao combate, De cota, e elmo, e a longa espada?
Quando iremos, tristes e sérios, Nas prolixas e vãs contendas, Lançando juras, impropérios, Pelas divisas e legendas?
E voltaremos, - os antigos, Os puríssimos lidadores, - Quantos trabalhos e perigos! Quase mortos e vencedores?
E quando, ó Doce Infanta Real, Nos sorrirás do belveder? Magra figura de vitral Por quem nós fomos combater.
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E eis quanto resta do idílio acabado
E eis quanto resta do idílio acabado, - Primavera que durou um momento... Como vão longe as manhãs do convento! - Do alegre conventinho abandonado...
Tudo acabou... Anémonas, hidrângeas, Silindras, - flores tão nossas amigas! No claustro agora viçam as urtigas, Rojam-se cobras pelas velhas lájeas.
Sobre a inscrição do teu nome delido! - Que os meus olhos mal podem soletrar, Cansados...E o aroma fenecido
Que se evola do teu nome vulgar! Enobreceu-o a quietação do olvido. Ó doce, ingénua, inscrição tumular.
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Floriram por engano as rosas bravas
Floriram por engano as rosas bravas No Inverno: veio o vento desfolhá-las... Em que cismas, meu bem? Porque me calas As vozes com que há pouco me enganavas?
Castelos doidos! Tão cedo caístes!... Onde vamos, alheio o pensamento, De mãos dadas? Teus olhos, que um momento Perscrutaram nos meus, como vão tristes!
E sobre nós cai nupcial a neve, Surda, em triunfo, pétalas, de leve Juncando o chão, na acrópole de gelos...
Em redor do teu vulto é como um véu! ¿ Quem as esparze - quanta flor! -, do céu, Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?
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Foi um dia de inúteis agonias
Foi um dia de inúteis agonias, Dia de sol, inundado de sol. Fulgiam, nuas, as espadas frias. Dia de sol, inundado de sol.
Foi um dia de falsas alegrias. Dália a esfolhar-se, o seu mole sorriso. Voltavam os ranchos das romarias. Dália a esfolhar-se, o seu mole sorriso.
Dia impressível, mais que os outros dias. Tão lúcido, tão pálido, tão lúcido! Difuso de teoremas, de teorias...
O dia fútil, mais que os outros dias! Minuete de discretas ironias... Tão lúcido, tão pálido, tão lúcido!
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Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho
Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho, Onde esperei morrer, - meus tão castos lençóis? Do meu jardim exíguo os altos girassóis Quem foi que os arrancou e lançou ao caminho?
Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!) A mesa de eu cear, - tábua tosca, de pinho? E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho? - Da minha vinha o vinho acidulado e fresco...
Ó minha pobre mãe!... Não te ergas mais da cova. Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova... Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.
Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais, Alma da minha mãe... Não andes mais à neve, De noite a mendigar às portas dos casais.
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(A João Jardim)
Imagens que passais pela retina Dos meus olhos, porque não vos fixais? Que passais como a água cristalina Por uma fonte para nunca mais!...
Ou para o lago escuro onde termina Vosso curso, silente de juncais, E o vago medo angustioso domina, - Porque ides sem mim, não me levais?
Sem vós o que são os meus olhos abertos? - O espelho inútil, meus olhos pagãos! Aridez de sucessivos desertos...
Fica sequer, sombra das minhas mãos, Flexão casual de meus dedos incertos, - Estranha sombra em movimentos vãos.
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(A Aires de Castro e Almeida)
Quando voltei encontrei os meus passos Ainda frescos sobre a húmida areia. A fugitiva hora, reevoquei-a, - Tão rediviva!, nos meus olhos baços...
Olhos turvos de lágrimas contidas. - Mesquinhos passos, porque doidejastes Assim transviados, e depois tornastes Ao ponto das primeiras despedidas?
Onde fostes sem tino, ao vento vario, Em redor, como as aves num aviário, Até que a asita fofa lhes faleça...
Toda essa extensa pista - para quê? Se há-de vir apagar-vos a maré, Com as do novo rasto que começa...
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FONÓGRAFO
Vai declamando um cómico defunto. Uma plateia ri, perdidamente, Do bom jarreta... E há um odor no ambiente A cripta e a pó, - do anacrónico assunto.
Muda o registo, eis uma barcarola: Lírios, lírios, águas do rio, a lua. Ante o Seu corpo o sonho meu flutua Sobre um paul, - extática corola.
Muda outra vez: gorjeios, estribilhos Dum clarim de oiro - o cheiro de junquilhos, Vívido e agro! - tocando a alvorada...
Cessou. E, amorosa, a alma das cornetas Quebra-se agora orvalhada e velada. Primavera. Manhã. Que eflúvio de violetas!
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FLORESTAS QUEIMADAS
0 correcto é sinuoso. Atravessar o asfalto de olhos fechados economiza tardias agonias sem alvo. Cada palavra gritada tem dicionário diverso. Letras deslizam pelos olhos, o som o dente mastiga, a vogal mordida perfura o tímpano, o " não " salta dos lábios como um rato assassino. Há um jeito de perfumar sentenças, mostrar o mel de virgens letras obscenas. Como os caninos das serpentes, há letras molhadas com o ácido corrosivo do olhar sem brilho. Calada, sei quando ela pensa em nuvens macias ou estrangula insectos com os pés em curva. Faço versos com verbetes alheios. Arrisco confundir finjo com pretendo, loucura com a doçura do momento em segredo, o espelho no teto e a porta fechada. Alienígenas sem lábios, canetas e livros transmitem o que pensam. Nossas palavras ditas ou escritas são ininteligíveis fora deste uni verso de primatas solitários, sem dinossauros nas florestas queimadas.
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AS RETICÊNCIAS
Anseio manobrar a língua dos fatos sólidos e a outra, do sentimento abstracto, explosiva no ódio até a húmida ternura do beijo. Palavras com cores diversas, cinzas e vermelhos marcando sangue na página. Haverá um teclado medindo a tensão de cada dedo, a mágica apaga versos frouxos, letras borboletas voam e pregam mensagens no teto dos amores fugidios. Tenho só um dicionário roto, dedos hesitantes e o sorriso do humor necessário. Meu diário é suposto, foto desfocada da vida em movimento. Tento transmitir apelo, medo, desejo, nas palavras alinhadas, tímidos soldados antes da luta. É raro saber o gosto alheio pelo abstracto alimento. Depois de algumas linhas, o fim vale como vírgula para o futuro ignoto das reticências.
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ONTEM SOBRE ONTEM
Buzino para a pomba gorda na rua empoeirada. Cães não se conformam com as rodas estranhas. Reclinada no banco você se queixa de algo, talvez a salada murcha ou minha ânsia de pontualidade, ou dos franceses vindos para o lanche. Engulo a estrada, quase ultrapasso o caminhão fantasma, mas não enfrento a mão errada na curva rodovia dos actos. Abro o portão electrónico, o carro arrefece a ânsia cega e descansa as válvulas de aço. Seus átomos, prótons e neutrons sustentam sua matéria sem veias e nervos. Escadas, fechos e travesseiros também são feitos com a fórmula da minha carne primata, de peixe e vertebrado. 0 cenário eu construo, não importa se gestos são pensamentos na matéria cinzenta. Circulo e falo, cada palavra é signo, sugere algo abstracto ou sólido aparente, provoca actos da carne ansiosa. Somos os documentos nas gavetas, arquivos, fitas magnéticas. Diante do inquisidor inventamos as respostas. Se o espelho devolve outro rosto, a chave não abre a porta, o desespero enlouquece com a perda do ontem. Aqui, agora, duram milionésimos de segundo. 0 calendário imobiliza o passado. Até o futuro do sonho acordado mora na memória. Sinto a batida da veia com o dedo, o sangue já fugiu do braço, o beijo caiu no abismo, o orgasmo é clarão do incêndio, corre o espermatozóide, abraça o óvulo, inventa olhos e pernas, salta para a mãe apertado nos braços, cresce a cada instante, talvez escreva versos, rugas, cabelos brancos, ontem sobre ontem a humanidade inteira.
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Água
Água, feita de volubilidade mãe das nuvens e do barro. posso senti-la discreta transparente inevitável.
Prisioneira gelada dos refrigeradores, vago itinerário dos peixes, húmido túmulo dos detritos que os homens repudiaram.
feita de angústia, saíste dos olhos para a estrada áspera das rugas.
Ergues tua bandeira vermelha no peito dos apunhalados.
Água, hei-de beber-te comovido na inodora volúpia da tua acomodada transparência.
Embebes de esquecimento os suicidas.
Tuas mãos rudes agarram os continentes, dissolvem os náufragos, projectam no céu os velames e as quilhas.
Bojo surdo e verde cofre de algas e flibusteiros, bactérias e diamantes.
Quero-te agora inerte de presságios, mera adolescente nascida na terra, filha perdida do azul
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Confesso
Tenho oito teleclones, dois em meu quarto, na cozinha, no banheiro... Minha secretária biónica inventa recados quando a solidão permanece em silêncio.
Não registro patentes meu captador holográfico copia átomos, transmigro almas escondidas na massa cinzenta.
Projecto o aparelho, réplica do criador de mulheres com ossos no peito.
Parafísico, uso almofariz e o silício do chip. Pálpebras fechadas, invento carne nas palmas, calor do seio nos lábios e o mundo desaba em minha cabeça.
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Ondas Quânticas
O universo só existe quando observo. Lento voo da asa, teu andar de praia, a nuvem gorda de água desaparecem se eu falho. Penso, alto atravessa e molda um fato. O espelho me inventa, a ruga não sou eu quem traço.
Comprimo o corpo de átomos entro nos túneis de mundo e passo. Você sorri, não acredita no insecto dourado quando eu pouso na face.
Energias quânticas modelam seios e braços. Retrato não reconheço, linhas do rosto, corpo e vontade desmancho, teço de novo, sou co-autor sem nenhum quadro.
Explico o momento, a nave tomba, gotas translúcidas giram prótons e neutrons neste céu de Maio.
Sorriso de cinema vale vinte e quatro passos por segundo, o planeta gira completamente tonto. Dentro deste verso sua boca muda, deslizo de skate no suave das nádegas, aqueço veias no ouro caminho do ventre.
A pequena morte pulveriza meu corpo imortal, o beijo solda lábios, só a memória falece.
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Meu micro
O micro pergunta ansioso, se quero apagar a memória. Gravo SIM nas teclas trémulas.
Algum atirador emérito nomeou Winchester esta redonda massa cinzenta que me alerta falhas ortográficas e acerta a estética das palavras.
Nascido em priscas eras, agora sou traço de luz verde (ou vermelha) nas máquinas bancárias, dono magnético dos disquetes, minha mão direita segura o rato, leva a flecha através das janelas.
O micro ronrona circunvoluções misteriosas, absorve versos que voltam na tela.
Um especialista de sistemas, analiticamente freudiano, soma lapsos, silêncios e brancos, para o diagnóstico cibernético do meu trajecto humano.
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Ciência quântica da formiga
Combino a relatividade geral com o princípio da incerteza. Troco buracos negros por brancos, risco as singularidades, contenho o universo sem limites. O infinito coloco na curvatura do espaço-tempo. No lençol do mundo costuro filamentos, nas margens ponho glúons e quarks, faço a maquete tridimensional teórica.
Modelo em código, não serve para o quarto, nem ajuda o desespero do encontro falho. Sinto sede, fome e orgasmo. Também corto a folha, coloco nas costas, sigo túneis curvos, deposito o alimento para os fungos.
Volto ao sol da tarde, gigantes e poderosos esmagam a cada passo meus irmãos carentes, treino centúrias, cresço além dos ratos e baratas, reconstruo a biblioteca de Alexandria, invento a alma invisível na carne transitória.
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Insectos Alienígenas
Não respondo imediatamente cartas que recebo. Olho-as de lado, descubro outras tarefas, o futuro romperia se eu eliminasse os compromissos.
Nas letras soldo minhas veias, amo os objectos, barcos que me levam pelo dias.
Alheios defeitos doem, porque são espelhos. A sina me levantou em duas patas, a coluna mal sustenta o orgulho da cabeça erguida.
Tenho de lançar raízes, inventar o sonho, amar a fêmea, o filho, a arte. Acabo antes de viajar no cosmos, visitar planetas, comparar insectos alienígenas, talvez melhores.
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As raízes do nosso amor
Amo-te porque tudo em ti me fala de África, duma forma completa e envolvente. Negra, tão negramente bela e moça, todo o teu ser me exprime a terra nossa, em nós presente.
Nos teus olhos eu vejo, como em caleidoscópio, madrugadas e noites e poentes tropicais, - visão que me inebria como um ópio, em magia de místicos duendes, e me torna encantado. (Perguntaram-me: onde vais? E não sei onde vou, só sei que tu me prendes...)
A tua voz é, tão perturbadoramente, a música dolente dos quissanges tangidos em noite escura e calma, que vibra nos meus sentidos e ressoa no fundo da minh'alma.
Quando me beijas sinto que provo ao mesmo tempo o gosto do caju, da manga e da goiaba, - sabor que vai da boca até às vísceras e nunca mais acaba...
O teu corpo, formoso sem disfarce, com teu andar dengoso, parece que se agita tal como se estivesse a requebrar-se nos ritmos da massemba e da rebita. E sinto que teu corpo, em lírico alvoroço, me desperta e me convida para um batuque só nosso, batuque da nossa vida.
Assim, onde te encontres (seja onde estiveres, por toda a parte onde o teu vulto for), eu te descubro e elejo entre as mulheres, ó minha negra belamente preta, ó minha irmã na cor, e, de braços abertos para o total amplexo, sem sombra de complexo, eu grito do mais fundo da minh'alma de poeta: - Meu amor! Meu amor!
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Dia de Chuva no Mato
Chove,
E a trovoada é um batuque incessante, uma estranha batucada.
Os raios são setas de fogo que misteriosamente, em tom de guerra, espíritos do mal lançam da Altura para incendiar a Terra.
O vento Ora violento, ora brando, o vento é o cazumbi dos cazumbis -o deus do mar, do rio e da floresta - que vai cantando e dançando, em tragicómica festa, o seu coro de mil vozes, os seus bailados febris.
As nuvens negras são virgens tontas, quais almas do outro mundo, errando como sonâmbulas pelo céu negro e profundo... E a chuva, constante e forte, é o pranto (parece eterno) dos deuses negros que a Morte sacrificou no Inferno.
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Lamento da Maricota
- "Bom dia, senhor José. Como passou? Passou bem?"
Mas o senhor José virou a cara, rudemente, com desdém. E a pobre Maricota, que passara mesmo ao lado, a Maricota ficou a cismar, a dizer com ar banzado:
-"Aiué, senhor José! Para quê fazer assim? Não se recorda de mim? Pois, então, eu vou ser franca. Agora tem mulher branca, a senhora dona Rosa, a sua mulher casada, a quem chama "minha esposa"; já não quer saber da preta, desprezada, abandonada, a Maricota, coitada!
Agora veste bom fato, estreia lindo sapato; não se lembra do passado, quando usava calça rota e casaco remendado, e sapato esburacado mostrando os dedos do pé...
Aiué, senhor José!
Hoje está forte e contente, a passear na avenida; não lembra que esteve doente, muito mal, quase morrendo, e lhe dei jula de dendo, para lhe salvar a vida, pois nem doutor em Luanda, nem quimbanda no muceque, ninguém o curou, ninguém, senão eu, pobre moleque !
Agora já cheira bem, com boa perfumaria, quer de noite quer de dia; não se recorda, afinal, da catinga, do chulé, no tempo em que lhe dizia: - José, você cheira mal, vá tomar banho, José!
Veio agora de Lisboa, comprou uma casa grande, dorme numa cama boa; nós tínhamos, lá no Dande, a cubata de capim, e dormíamos no luando.
Agora tem dona Rosa, já não se lembra de mim!
Aiué, senhor José, para quê fazer assim!?...
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Não venhas mais ao cais, Menina Negra
Não venhas mais ao cais, menina negra. Que esperas tu ainda? Já sabes a tua sina: o branco que partiu não volta mais!
E tu, olhando o cais, menina negra linda, vês o teu lindo sonho que já finda...
Cantaram o feitiço do teu corpo, nessa noite sensual em que tiveste por lençol nupcial uma folha de palma; cantaram o feitiço do teu corpo, mas não sabias nem soubeste que o branco tem feitiço na alma.
Habituada ao balouço da canoa nas margens do rio Dande, e depois embalada pelo amor, sonhaste viajar num enorme vapor que navega no mar grande e vai para Lisboa!
Ouve, menina negra: mato não é cidade, oceano não é rio, dongo não é navio e o sonho que sonhaste não é sonho, é saudade...
Não venhas mais ao cais, que o branco não volta mais!
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O Menino Negro não entrou na roda
O menino negro não entrou na roda das crianças brancas - as crianças brancas que brincavam todas numa roda viva de canções festivas , gargalhadas francas...
O menino negro não entrou na roda.
E chegou o vento junto das crianças - e bailou com elas e cantou com elas as canções e danças das suaves brisas, as canções e danças das brutais procelas.
O menino negro não entrou na roda.
Pássaros, em bando, voaram chilreando sobre as cabecinhas lindas dos meninos e pousaram todos em redor. Por fim, bailaram seus voos, cantando seus hinos...
O menino negro não entrou na roda.
"Venha cá, pretinho, venha cá brincar" - disse um dos meninos com seu ar feliz. A mamã, zelosa, logo fez reparo; o menino branco já não quis, não quis...
O menino negro não entrou na roda.
O menino negro não entrou na roda das crianças brancas. Desolado, absorto, ficou só, parado com olhar cego, ficou só, calado com voz de morto.
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O Feitiço do Batuque
Sinto o som do batuque nos meus ossos, o ritmo do batuque no meu sangue. É a voz da marimba e do quissange, que vibra e plange dentro de minh'alma, - e meus sonhos, já mortos, já destroços, ressuscitam, povoando a noite calma.
Tenho na minha voz ardente o grito desses gritos febris das batucadas, nas noites em que o fogo das queimadas parece caminhar para o infinito... E meus versos são feitos desse canto, que o vento vai cantando, em riso e pranto, quanto o batuque avança desflorando o silêncio de virgens madrugadas.
Músicos negros, colossos, e negras bailarinas, sensuais, tocam e dançam, cantando, agitando meus ímpetos carnais. O batuque ressoa-se nos ossos, seu ritmo louco no meu sangue vibra, vibra-me nas entranhas, fibra a fibra, sinto em mim o batuque penetrando - e já sou possuído de magia!
A batucada tem feitiço eterno. O batuque de dor e de alegria, que sinto no meu ser, dentro de mim, nunca mais terá fim, nem mesmo alem do Céu e além do Inferno!
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Ode à Avó Capinha
Minha avó Capinha, minha avó Capinha, hoje que morreste (que tristeza a minha!), relembro as histórias que tu me contavas em manhãs de chuva, nas noites de lua... ( E meu ser, magoado, perde-se, flutua como o sonho errante das almas escravas ).
Minha avó Capinha, sou eu que te peço, conta-me o romance, conta-me o sucesso dos teus dezoito anos (ai, onde eu estou!), quando tu dançavas belas batucadas, pelas noites quentes de febris queimadas, na velha sanzala que se incendiou...
Minha avó Capinha, minha avó Capinha, conta-me essa lenda daquela mocinha negra, tão formosa, que numa manhã engoliu um bago de feijão macunde e ficou (que mágoa no meu ser se funde!) para todo o sempre pequenina, anã.
Minha avó Capinha, hoje que morreste, manda-me notícias da mansão celeste: se também há ódios ou há só amor (a descrença enorme do teu pobre neto!), se há um Deus que é branco e outro Deus que é preto, ou um Deus existe sem raça nem cor.
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Poema para a Negra
Deixa que os outros cantem o teu corpo que dizem feiticeiro e sedutor, e, na volúpia vã do pitoresco, entoem madrigais à tua dor.
Deixa que os outros cantem teus requebros nos passos de massemba e quilapanga, e teus olhos onde há noites de luar, e teus beiços que têm sabor de manga.
Deixa que os outros cantem os teus usos como aspectos formais da tua graça, nessa conquista fácil do exotismo que dizem descobrir na nossa raça.
Deixa que os outros cantem o teu corpo, na captação atónita do viço e fiquem sempre, toda a vida, a olhar um muro de mistério e de feitiço...
Deixa que os outros cantem o teu corpo - que eu canto do mais fundo do teu ser, ó minha amada, eu canto a própria África, que se fez carne e alma em ti, mulher!
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Quando surges na noite...
Quando surges na noite, quando avanças porque o som do batuque por ti chama, teu corpo negro é chama que me inflama, quando surges na noite, quando danças...
Quando danças, cantando as esperanças e os desesperos todos de quem ama, teu corpo negro é fogo que derrama febre nas almas que repousam mansas.
Tu vens dançando (tudo em mim se agita) e vens cantando (tudo em mim já grita), quando surges em noite de queimada...
Depois, somos os dois, no mesmo abraço, num batuque só nosso, num compasso mais febril do que toda a batucada!
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