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LISTA DE POETAS POR ORDEM ALFABÉTICA DO PRIMEIRO NOME

Camilo Pessanha

PAISAGENS DE INVERNO

(A Alberto Osório de Castro)

 

Ó meu coração, torna para trás.

Onde vais a correr desatinado?

Meus olhos incendidos que o pecado

Queimou! Volvei, longas noites de paz.

 

Vergam da neve os olmos dos caminhos.

A cinza arrefeceu sobre o brasido.

Noites da serra, o casebre transido...

Cismai, meus olhos, como uns velhinhos.

 

Extintas primaveras, evocai-as.

Já vai florir o pomar das macieiras.

Temos de enfeitar os chapéus de maias.

 

Sossegai, esfriai, olhos febris...

Hemos de ir a cantar nas derradeiras

Ladainhas...Doces vozes senis.

 

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Camilo Pessanha

(A Abel Aníbal de Azevedo)

 

Passou o Outono já, já torna o frio...

- Outono de seu riso magoado.

Álgido Inverno! Oblíquo o sol, gelado...

- O sol, e as águas límpidas do rio.

 

Águas claras do rio! Águas do rio,

Fugindo sob o meu olhar cansado,

Para onde me levais meu vão cuidado?

Aonde vais, meu coração vazio?

 

Ficai, cabelos dela, flutuando,

E, debaixo das águas fugidias,

Os seus olhos abertos e cismando...

 

Onde ides a correr, melancolias?

- E, refractadas, longamente ondeando,

As suas mãos translúcidas e frias...

 

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Camilo Pessanha

 Il pleure dans mon coeur

Comme il pleut sur la ville.

Verlaine

 

Meus olhos apagados,

Vede a água cair.

Das beiras dos telhados,

Cair, sempre cair.

 

Das beiras dos telhados,

Cair, quase morrer...

Meus olhos apagados,

E cansados de ver.

 

Meus olhos, afogai-vos

Na vã tristeza ambiente.

Caí e derramai-vos

Como a água morrente.

 

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Camilo Pessanha

QUANDO?

 

Quando se erguerão as seteiras,

Outra vez, do castelo em ruína?

E haverá gritos e bandeiras

Na fria aragem matutina?

 

Se ouvirá tocar a rebate,

- Sobre a planície abandonada?

E partiremos ao combate,

De cota, e elmo, e a longa espada?

 

Quando iremos, tristes e sérios,

Nas prolixas e vãs contendas,

Lançando juras, impropérios,

Pelas divisas e legendas?

 

E voltaremos, - os antigos,

Os puríssimos lidadores, -

Quantos trabalhos e perigos!

Quase mortos e vencedores?

 

E quando, ó Doce Infanta Real,

Nos sorrirás do belveder?

Magra figura de vitral

Por quem nós fomos combater.

 

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Camilo Pessanha

E eis quanto resta do idílio acabado

 

E eis quanto resta do idílio acabado,

- Primavera que durou um momento...

Como vão longe as manhãs do convento!

- Do alegre conventinho abandonado...

 

Tudo acabou... Anémonas, hidrângeas,

Silindras, - flores tão nossas amigas!

No claustro agora viçam as urtigas,

Rojam-se cobras pelas velhas lájeas.

 

Sobre a inscrição do teu nome delido!

- Que os meus olhos mal podem soletrar,

Cansados...E o aroma fenecido

 

Que se evola do teu nome vulgar!

Enobreceu-o a quietação do olvido.

Ó doce, ingénua, inscrição tumular.

 

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Camilo Pessanha

Floriram por engano as rosas bravas

 

Floriram por engano as rosas bravas

No Inverno: veio o vento desfolhá-las...

Em que cismas, meu bem? Porque me calas

As vozes com que há pouco me enganavas?

 

Castelos doidos! Tão cedo caístes!...

Onde vamos, alheio o pensamento,

De mãos dadas? Teus olhos, que um momento

Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

 

E sobre nós cai nupcial a neve,

Surda, em triunfo, pétalas, de leve

Juncando o chão, na acrópole de gelos...

 

Em redor do teu vulto é como um véu!

¿ Quem as esparze - quanta flor! -, do céu,

Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?

 

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Camilo Pessanha

Foi um dia de inúteis agonias

 

Foi um dia de inúteis agonias,

Dia de sol, inundado de sol.

Fulgiam, nuas, as espadas frias.

Dia de sol, inundado de sol.

 

Foi um dia de falsas alegrias.

Dália a esfolhar-se, o seu mole sorriso.

Voltavam os ranchos das romarias.

Dália a esfolhar-se, o seu mole sorriso.

 

Dia impressível, mais que os outros dias.

Tão lúcido, tão pálido, tão lúcido!

Difuso de teoremas, de teorias...

 

O dia fútil, mais que os outros dias!

Minuete de discretas ironias...

Tão lúcido, tão pálido, tão lúcido!

 

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Camilo Pessanha

Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho

 

Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho,

Onde esperei morrer, - meus tão castos lençóis?

Do meu jardim exíguo os altos girassóis

Quem foi que os arrancou e lançou ao caminho?

 

Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)

A mesa de eu cear, - tábua tosca, de pinho?

E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?

- Da minha vinha o vinho acidulado e fresco...

 

Ó minha pobre mãe!... Não te ergas mais da cova.

Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova...

Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.

 

Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais,

Alma da minha mãe... Não andes mais à neve,

De noite a mendigar às portas dos casais.

 

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Camilo Pessanha

(A João Jardim)

 

Imagens que passais pela retina

Dos meus olhos, porque não vos fixais?

Que passais como a água cristalina

Por uma fonte para nunca mais!...

 

Ou para o lago escuro onde termina

Vosso curso, silente de juncais,

E o vago medo angustioso domina,

- Porque ides sem mim, não me levais?

 

Sem vós o que são os meus olhos abertos?

- O espelho inútil, meus olhos pagãos!

Aridez de sucessivos desertos...

 

Fica sequer, sombra das minhas mãos,

Flexão casual de meus dedos incertos,

- Estranha sombra em movimentos vãos.

 

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Camilo Pessanha

(A Aires de Castro e Almeida)

 

Quando voltei encontrei os meus passos

Ainda frescos sobre a húmida areia.

A fugitiva hora, reevoquei-a,

- Tão rediviva!, nos meus olhos baços...

 

Olhos turvos de lágrimas contidas.

- Mesquinhos passos, porque doidejastes

Assim transviados, e depois tornastes

Ao ponto das primeiras despedidas?

 

Onde fostes sem tino, ao vento vario,

Em redor, como as aves num aviário,

Até que a asita fofa lhes faleça...

 

Toda essa extensa pista - para quê?

Se há-de vir apagar-vos a maré,

Com as do novo rasto que começa...

 

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Camilo Pessanha

FONÓGRAFO

 

Vai declamando um cómico defunto.

Uma plateia ri, perdidamente,

Do bom jarreta... E há um odor no ambiente

A cripta e a pó, - do anacrónico assunto.

 

Muda o registo, eis uma barcarola:

Lírios, lírios, águas do rio, a lua.

Ante o Seu corpo o sonho meu flutua

Sobre um paul, - extática corola.

 

Muda outra vez: gorjeios, estribilhos

Dum clarim de oiro - o cheiro de junquilhos,

Vívido e agro! - tocando a alvorada...

 

Cessou. E, amorosa, a alma das cornetas

Quebra-se agora orvalhada e velada.

Primavera. Manhã. Que eflúvio de violetas!

 

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André Carneiro

FLORESTAS QUEIMADAS

 

0 correcto é sinuoso.

Atravessar o asfalto de olhos fechados

economiza tardias agonias sem alvo.

Cada palavra gritada

tem dicionário diverso.

Letras deslizam pelos olhos,

o som o dente mastiga,

a vogal mordida perfura o tímpano,

o " não " salta dos lábios

como um rato assassino.

Há um jeito de perfumar sentenças,

mostrar o mel de virgens letras obscenas.

Como os caninos das serpentes,

há letras molhadas

com o ácido corrosivo

do olhar sem brilho.

Calada, sei quando ela

pensa em nuvens macias

ou estrangula insectos

com os pés em curva.

Faço versos com verbetes alheios.

Arrisco confundir

finjo com pretendo,

loucura com a doçura

do momento em segredo,

o espelho no teto e a porta fechada.

Alienígenas sem lábios, canetas e livros

transmitem o que pensam.

Nossas palavras ditas ou escritas

são ininteligíveis fora deste uni

verso de primatas solitários,

sem dinossauros nas

florestas queimadas.

 

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André Carneiro

AS RETICÊNCIAS

 

Anseio manobrar a língua

dos fatos sólidos

e a outra,

do sentimento abstracto,

explosiva no ódio até

a húmida ternura do beijo.

Palavras com cores diversas,

cinzas e vermelhos

marcando sangue na página.

Haverá um teclado

medindo a tensão de cada dedo,

a mágica apaga versos frouxos,

letras borboletas voam

e pregam mensagens

no teto dos amores fugidios.

Tenho só um dicionário roto,

dedos hesitantes e o

sorriso do humor necessário.

Meu diário é suposto,

foto desfocada da

vida em movimento.

Tento transmitir

apelo, medo, desejo,

nas palavras alinhadas,

tímidos soldados

antes da luta.

É raro saber o gosto alheio

pelo abstracto alimento.

Depois de algumas linhas,

o fim vale como vírgula

para o futuro ignoto

das reticências.

 

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André Carneiro

ONTEM SOBRE ONTEM

 

Buzino para a pomba gorda

na rua empoeirada.

Cães não se conformam

com as rodas estranhas.

Reclinada no banco

você se queixa de algo,

talvez a salada murcha

ou minha ânsia de pontualidade,

ou dos franceses vindos para o lanche.

Engulo a estrada,

quase ultrapasso o caminhão fantasma,

mas não enfrento a mão errada

na curva rodovia dos actos.

Abro o portão electrónico,

o carro arrefece a ânsia cega

e descansa as válvulas de aço.

Seus átomos, prótons e neutrons

sustentam sua matéria sem veias e nervos.

Escadas, fechos e travesseiros

também são feitos com a fórmula

da minha carne primata, de peixe e vertebrado.

0 cenário eu construo,

não importa se gestos são

pensamentos na matéria cinzenta.

Circulo e falo, cada palavra é signo,

sugere algo abstracto ou sólido aparente,

provoca actos da carne ansiosa.

Somos os documentos nas gavetas,

arquivos, fitas magnéticas.

Diante do inquisidor

inventamos as respostas.

Se o espelho devolve outro rosto,

a chave não abre a porta,

o desespero enlouquece com a perda do ontem.

Aqui, agora, duram milionésimos de segundo.

0 calendário imobiliza o passado.

Até o futuro do sonho acordado

mora na memória.

Sinto a batida da veia com o dedo,

o sangue já fugiu do braço,

o beijo caiu no abismo,

o orgasmo é clarão do incêndio,

corre o espermatozóide,

abraça o óvulo, inventa olhos e pernas,

salta para a mãe apertado nos braços,

cresce a cada instante, talvez escreva versos,

rugas, cabelos brancos,

ontem sobre ontem a humanidade inteira.

 

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 André Carneiro

 Água

 

Água, feita de volubilidade  

mãe das nuvens e do barro.

posso senti-la discreta

transparente inevitável.

 

Prisioneira gelada

dos refrigeradores,

vago itinerário dos peixes,

húmido túmulo dos detritos

que os homens repudiaram.

 

feita de angústia,

saíste dos olhos

para a estrada áspera

das rugas.

 

Ergues tua bandeira vermelha

no peito dos apunhalados.

 

Água,

hei-de beber-te comovido

na inodora volúpia

da tua acomodada transparência.

 

Embebes de esquecimento

os suicidas.

 

Tuas mãos rudes

agarram os continentes,

dissolvem os náufragos,

projectam no céu

os velames e as quilhas.

 

Bojo surdo e verde

cofre de algas e flibusteiros,

bactérias e diamantes.

 

Quero-te agora

inerte de presságios,

mera adolescente

nascida na terra,

filha perdida do azul

 

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Confesso

André Carneiro

 

Tenho oito teleclones,

dois em meu quarto,

na cozinha, no banheiro...

Minha secretária biónica

inventa recados

quando a solidão permanece em silêncio.

 

Não registro patentes

meu captador holográfico

copia átomos,

transmigro almas

escondidas

na massa cinzenta.

 

Projecto o aparelho,

réplica do

criador de mulheres

com ossos no peito.

 

Parafísico,

uso almofariz

e o silício do chip.

Pálpebras fechadas,

invento carne nas palmas,

calor do seio nos lábios

e o mundo desaba

em minha cabeça.

 

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Ondas Quânticas

André Carneiro

 

O universo só existe

quando observo.

Lento voo da asa,

teu andar de praia,

a nuvem gorda de água

desaparecem

se eu falho.

Penso, alto atravessa

e molda um fato.

O espelho me inventa,

a ruga não sou eu quem traço.

 

Comprimo o corpo de átomos

entro nos túneis de mundo

e passo.

Você sorri,

não acredita no insecto dourado

quando eu pouso na face.

 

Energias quânticas

modelam seios e braços.

Retrato não reconheço,

linhas do rosto,

corpo e vontade desmancho,

teço de novo, sou co-autor

sem nenhum quadro.

 

Explico o momento,

a nave tomba,

gotas translúcidas

giram prótons e neutrons

neste céu de Maio.

 

Sorriso de cinema vale

vinte e quatro passos

por segundo, o planeta gira

completamente tonto.

Dentro deste verso

sua boca muda,

deslizo de skate

no suave das nádegas,

aqueço veias

no ouro caminho do ventre.

 

A pequena morte pulveriza

meu corpo imortal,

o beijo solda lábios,

só a memória falece.

 

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André Carneiro

Meu micro

 

O micro pergunta

ansioso,

se quero apagar a memória.

Gravo SIM nas teclas trémulas.

 

Algum atirador emérito

nomeou Winchester

esta redonda massa cinzenta

que me alerta

falhas ortográficas

e acerta a estética

das palavras.

 

Nascido em priscas eras,

agora sou traço de luz verde

(ou vermelha)

nas máquinas bancárias,

dono magnético dos disquetes,

minha mão direita

segura o rato,

leva a flecha

através das janelas.

 

O micro ronrona

circunvoluções misteriosas,

absorve versos

que voltam na tela.

 

Um especialista de sistemas,

analiticamente freudiano,

soma lapsos, silêncios e

brancos,

para o diagnóstico cibernético

do meu trajecto humano.

 

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Ciência quântica da formiga

André Carneiro

 

Combino a relatividade geral

com o princípio da incerteza.

Troco buracos negros por brancos,

risco as singularidades,

contenho o universo

sem limites.

O infinito coloco

na curvatura

do espaço-tempo.

No lençol do mundo

costuro filamentos,

nas margens

ponho glúons e quarks,

faço a maquete

tridimensional

teórica.

 

Modelo em código,

não serve para o quarto,

nem ajuda o desespero

do encontro falho.

Sinto sede, fome e orgasmo.

Também corto a folha, coloco nas costas,

sigo túneis curvos,

deposito o alimento

para os fungos.

 

Volto ao sol da tarde,

gigantes e poderosos

esmagam a cada passo

meus irmãos carentes,

treino centúrias,

cresço além dos ratos e baratas,

reconstruo a biblioteca

de Alexandria,

invento a alma invisível

na carne transitória.

 

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Insectos Alienígenas

André Carneiro

 

Não respondo imediatamente

cartas que recebo.

Olho-as de lado,

descubro outras tarefas,

o futuro romperia

se eu eliminasse os compromissos.

 

Nas letras soldo minhas veias,

amo os objectos,

barcos que me levam pelo dias.

 

Alheios defeitos doem,

porque são espelhos.

A sina me levantou em duas patas,

a coluna mal sustenta o orgulho

da cabeça erguida.

 

Tenho de lançar raízes,

inventar o sonho,

amar a fêmea, o filho, a arte.

Acabo antes de viajar no cosmos,

visitar planetas,

comparar insectos alienígenas,

talvez melhores.

 

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Geraldo Bessa Victor 

As raízes do nosso amor

 

 Amo-te porque tudo em ti me fala de África,

duma forma completa e envolvente.

Negra, tão negramente bela e moça,

todo o teu ser me exprime a terra nossa,

em nós presente.

 

Nos teus olhos eu vejo, como em caleidoscópio,

madrugadas e noites e poentes tropicais,

- visão que me inebria como um ópio,

em magia de místicos duendes,

e me torna encantado. (Perguntaram-me: onde vais?

E não sei onde vou, só sei que tu me prendes...)

 

A tua voz é, tão perturbadoramente,

a música dolente dos quissanges tangidos

em noite escura e calma,

que vibra nos meus sentidos

e ressoa no fundo da minh'alma.

 

Quando me beijas sinto que provo ao mesmo tempo

o gosto do caju, da manga e da goiaba,

- sabor que vai da boca até às vísceras

e nunca mais acaba...

 

O teu corpo, formoso sem disfarce,

com teu andar dengoso, parece que se agita

tal como se estivesse a requebrar-se

nos ritmos da massemba e da rebita.

E sinto que teu corpo, em lírico alvoroço,

me desperta e me convida

para um batuque só nosso,

batuque da nossa vida.

 

Assim, onde te encontres (seja onde estiveres,

por toda a parte onde o teu vulto for),

eu te descubro e elejo entre as mulheres,

ó minha negra belamente preta,

ó minha irmã na cor,

e, de braços abertos para o total amplexo,

sem sombra de complexo,

eu grito do mais fundo da minh'alma de poeta:

- Meu amor! Meu amor!

 

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Geraldo Bessa Vítor

Dia de Chuva no Mato

 

Chove,

 

E a trovoada

é um batuque incessante,

uma estranha batucada.

 

Os raios são setas de fogo

que misteriosamente, em tom de guerra,

espíritos do mal lançam da Altura

para incendiar a Terra.

 

O vento

Ora violento, ora brando,

o vento é o cazumbi dos cazumbis

-o deus do mar, do rio e da floresta -

que vai cantando e dançando,

em tragicómica festa,

o seu coro de mil vozes,

os seus bailados febris.

 

As nuvens negras são virgens tontas,

quais almas do outro mundo,

errando como sonâmbulas

pelo céu negro e profundo...

E a chuva, constante e forte,

é o pranto (parece eterno)

dos deuses negros que a Morte

sacrificou no Inferno.

 

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Geraldo Bessa Victor

Lamento da Maricota

 

- "Bom dia, senhor José.

Como passou? Passou bem?"

 

Mas o senhor José virou a cara,

rudemente, com desdém.

E a pobre Maricota, que passara

mesmo ao lado,

a Maricota ficou

a cismar, a dizer com ar banzado:

 

-"Aiué, senhor José!

Para quê fazer assim?

Não se recorda de mim?

Pois, então, eu vou ser franca.

Agora tem mulher branca,

a senhora dona Rosa,

a sua mulher casada,

a quem chama "minha esposa";

já não quer saber da preta,

desprezada, abandonada,

a Maricota, coitada!

 

Agora veste bom fato,

estreia lindo sapato;

não se lembra do passado,

quando usava calça rota

e casaco remendado,

e sapato esburacado

mostrando os dedos do pé...

 

Aiué, senhor José!

 

Hoje está forte e contente,

a passear na avenida;

não lembra que esteve doente,

muito mal, quase morrendo,

e lhe dei jula de dendo,

para lhe salvar a vida,

pois nem doutor em Luanda,

nem quimbanda no muceque,

ninguém o curou, ninguém,

senão eu, pobre moleque !

 

Agora já cheira bem,

com boa perfumaria,

quer de noite quer de dia;

não se recorda, afinal,

da catinga, do chulé,

no tempo em que lhe dizia:

- José, você cheira mal,

vá tomar banho, José!

 

Veio agora de Lisboa,

comprou uma casa grande,

dorme numa cama boa;

nós tínhamos, lá no Dande,

a cubata de capim,

e dormíamos no luando.

 

Agora tem dona Rosa,

já não se lembra de mim!

 

Aiué, senhor José,

para quê fazer assim!?...

 

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Geraldo Bessa Victor

Não venhas mais ao cais, Menina Negra

 

Não venhas mais ao cais, menina negra.

Que esperas tu ainda?

Já sabes a tua sina:

o branco que partiu não volta mais!

 

E tu, olhando o cais,

menina negra linda,

vês o teu lindo sonho que já finda...

 

Cantaram o feitiço do teu corpo,

nessa noite sensual em que tiveste

por lençol nupcial uma folha de palma;

cantaram o feitiço do teu corpo,

mas não sabias nem soubeste

que o branco tem feitiço na alma.

 

Habituada ao balouço da canoa

nas margens do rio Dande,

e depois embalada pelo amor,

sonhaste viajar num enorme vapor

que navega no mar grande

e vai para Lisboa!

 

Ouve, menina negra: mato não é cidade,

oceano não é rio, dongo não é navio

e o sonho que sonhaste não é sonho, é saudade...

 

Não venhas mais ao cais,

que o branco não volta mais!

 

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Geraldo Bessa Victor

O Menino Negro não entrou na roda

 

O menino negro não entrou na roda

das crianças brancas - as crianças brancas

que brincavam todas numa roda viva

de canções festivas , gargalhadas francas...

 

O menino negro não entrou na roda.

 

E chegou o vento junto das crianças

- e bailou com elas e cantou com elas

as canções e danças das suaves brisas,

as canções e danças das brutais procelas.

 

O menino negro não entrou na roda.

 

Pássaros, em bando, voaram chilreando

sobre as cabecinhas lindas dos meninos

e pousaram todos em redor. Por fim,

bailaram seus voos, cantando seus hinos...

 

O menino negro não entrou na roda.

 

"Venha cá, pretinho, venha cá brincar"

- disse um dos meninos com seu ar feliz.

A mamã, zelosa, logo fez reparo;

o menino branco já não quis, não quis...

 

O menino negro não entrou na roda.

 

O menino negro não entrou na roda

das crianças brancas. Desolado, absorto,

ficou só, parado com olhar cego,

ficou só, calado com voz de morto.

 

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Geraldo Bessa Victor

O Feitiço do Batuque

 

Sinto o som do batuque nos meus ossos,

o ritmo do batuque no meu sangue.

É a voz da marimba e do quissange,

que vibra e plange dentro de minh'alma,

- e meus sonhos, já mortos, já destroços,

ressuscitam, povoando a noite calma.

 

Tenho na minha voz ardente o grito

desses gritos febris das batucadas,

nas noites em que o fogo das queimadas

parece caminhar para o infinito...

E meus versos são feitos desse canto,

que o vento vai cantando, em riso e pranto,

quanto o batuque avança desflorando

o silêncio de virgens madrugadas.

 

Músicos negros, colossos,

e negras bailarinas, sensuais,

tocam e dançam, cantando,

agitando meus ímpetos carnais.

O batuque ressoa-se nos ossos,

seu ritmo louco no meu sangue vibra,

vibra-me nas entranhas, fibra a fibra,

sinto em mim o batuque penetrando

- e já sou possuído de magia!

 

A batucada tem feitiço eterno.

O batuque de dor e de alegria,

que sinto no meu ser, dentro de mim,

nunca mais terá fim,

nem mesmo alem do Céu e além do Inferno!

 

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Geraldo Bessa Victor

Ode à Avó Capinha

 

Minha avó Capinha, minha avó Capinha,

hoje que morreste (que tristeza a minha!),

relembro as histórias que tu me contavas

em manhãs de chuva, nas noites de lua...

( E meu ser, magoado, perde-se, flutua

como o sonho errante das almas escravas ).

 

Minha avó Capinha, sou eu que te peço,

conta-me o romance, conta-me o sucesso

dos teus dezoito anos (ai, onde eu estou!),

quando tu dançavas belas batucadas,

pelas noites quentes de febris queimadas,

na velha sanzala que se incendiou...

 

Minha avó Capinha, minha avó Capinha,

conta-me essa lenda daquela mocinha

negra, tão formosa, que numa manhã

engoliu um bago de feijão macunde

e ficou (que mágoa no meu ser se funde!)

para todo o sempre pequenina, anã.

 

Minha avó Capinha, hoje que morreste,

manda-me notícias da mansão celeste:

se também há ódios ou há só amor

(a descrença enorme do teu pobre neto!),

se há um Deus que é branco e outro Deus que é preto,

ou um Deus existe sem raça nem cor.

 

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Geraldo Bessa Victor

Poema para a Negra

 

Deixa que os outros cantem o teu corpo

que dizem feiticeiro e sedutor,

e, na volúpia vã do pitoresco,

entoem madrigais à tua dor.

 

Deixa que os outros cantem teus requebros

nos passos de massemba e quilapanga,

e teus olhos onde há noites de luar,

e teus beiços que têm sabor de manga.

 

Deixa que os outros cantem os teus usos

como aspectos formais da tua graça,

nessa conquista fácil do exotismo

que dizem descobrir na nossa raça.

 

Deixa que os outros cantem o teu corpo,

na captação atónita do viço

e fiquem sempre, toda a vida, a olhar

um muro de mistério e de feitiço...

 

Deixa que os outros cantem o teu corpo

- que eu canto do mais fundo do teu ser,

ó minha amada, eu canto a própria África,

que se fez carne e alma em ti, mulher!

 

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Geraldo Bessa Victor

Quando surges na noite...

 

Quando surges na noite, quando avanças

porque o som do batuque por ti chama,

teu corpo negro é chama que me inflama,

quando surges na noite, quando danças...

 

Quando danças, cantando as esperanças

e os desesperos todos de quem ama,

teu corpo negro é fogo que derrama

febre nas almas que repousam mansas.

 

Tu vens dançando (tudo em mim se agita)

e vens cantando (tudo em mim já grita),

quando surges em noite de queimada...

 

Depois, somos os dois, no mesmo abraço,

num batuque só nosso, num compasso

mais febril do que toda a batucada!

 

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