Site hosted by Angelfire.com: Build your free website today!

 

 

ensaioflorbeladoisentrada    ensaioflorbeladoistopo

 

Ensaio sobre Florbela

(CONTINUAÇÃO)

 

NOVIDADES

MAPA DO SITE

BUSCA NO SITE

LITERATURA

POESIA

BIOGRAFIAS E BIBLIOGRAFIAS

ESPANÕL

FRANÇAIS

ENGLISH

OPINIOES

GRUPOS - GROUPS

FORUNS MIL

PAGINAS AMIGAS

FORUM BRAVENET

JORNAL DE PAREDE

CHATS

JOGOS

E-MAIL

INSERÇÃO DE SITES

MUNDO NOTICIAS

MOTORES DE BUSCA

DOWNLOADS

WEBMASTERS

TRADUCOES

LISTA DE AUTORES

SOLIDARIEDADE

LISTA DE LINKS

 

LIVRO DE VISITAS

 LIVRE D' OR

 GUESTBOOK

 

 

 

 

FLORBELA E A DECADÊNCIA PORTUGUESA

O maior volume da crítica social e intelectual anti – capitalista – monopolista -colonialista existente um pouco por todo o mundo ocidental no período em que Florbela Espanca viveu não sabe exactamente aquilo que quer e dirige-se sobre vários campos; desejos de retorno à ordem feudal ainda que reformulada e / ou ao burguesismo comparativamente inocente do período e ideário da Revolução Francesa, reforço dos saudosismos de diversa índole e dirige-se também contra o avanço ideológico que as conquistas da ciência tinham vindo incutir no processo evolutivo do capitalismo e contra a monopolização da vida económica e das nações que se subsumiam perante outras.

Antero de Quental, por exemplo, participa na aventura ideológica da colonização, agora sem o Brasil, que aliás estava revestida de todo um conjunto de directrizes ditas progressistas e plenas de boas intenções (os socialismos utópicos de St. Simon também aí participaram) e o problema de ir explorar de uma forma mais directa as colónias era de alguma forma incentivado e até fomentado pela classe progressista que embarcava serenamente na ideia repetida do evangelismo civilizacional.

O que se criticava, isso sim, era a inoperância com que tal processo se desenvolvia, entendendo-se que o reforço do colonialismo sob nova face se constituiria no élan necessário para aquisição de um maior grau de independência perante os colonialismos estrangeiros e num retorno progressivo à velha grandeza nacional.

É a época das crises; são várias neste período conforme já referimos incluindo as crises de consciência, e o mundo, para algumas pessoas parece estar à beira da rotura e parece poder assistir-se eminentemente à redução do homem a um nada quase absoluto. Preso nas teias do homem como ser eminentemente social e no apagamento da individualidade absorvida pelo culto do global social feito Nação, os problemas sociais e políticos repercutem-se de formas quase assustadoras no campo da psique individual e levam ao reforço das ideologias e filosofias que pregam a superioridade da diferença contra a uniformidade, mas que no caso português são sempre extraordinárias.

O peso do problema da decadência e da vontade de retorno ao Portugal maior é ainda uma constante na intelectualidade portuguesa, e com uma especial incidência junto dos poetas, vá-se lá saber porquê se não se apontarem razões de escola como o refere indirectamente Jacinto Prado Coelho.

Fazendo um pequeno historial sobre este tema, este autor, leva as origens do sentimento da decadência para além (para trás) da consciência dela mesma agregando-a quer ao saudosismo de Sá de Miranda e Camões, quer ao próprio sebastianismo e estende-o por todo o percurso cultural português, detendo-se, na altura do fecho do seu trabalho, no neo-realismo e em Carlos Oliveira.

A acreditar nestas teses (e teremos que acreditar quanto mais não seja por respeito por tão ilustres personagens) o período de não decadência (ou de sentimento / consciência de não decadência) tendo durado cerca de 100 anos resultou (nesta perspectiva) numa eternização do complexo decadentista no corpo intelectual e pensante português que ainda hoje se vive. Na minha modesta opinião acho que é decadência a mais…para tão pouco tempo de fogo-fátuo.

Haverá assim que pensar que, para além do verdadeiro e profundo sentido da decadência de Portugal como grande Nação, existe já uma apologia do processo decadentista muito antes dele se manifestar como tal. Existe a construção ideológica de um fado nacional que leva à exploração do miserabilismo e à constatação, como o faz Antero do Quental em "Causas da Decadência dos Povos Peninsulares ", de que o destino nacional se pode muito bem integrar numa perspectiva de busca do absoluto algures situado entre o impossível e o inexistente. Florbela Espanca comunga, na sua poesia intimista, desta forma de pensar, tal como o comungaram muitos outros que não foram capazes ou não puderam aceitar a ideia do Portugal pequeno ou subsidiário de outras nações mais fortes.

( Sobre o posicionamento como poetiza de Florbela Espanca ver um texto de Fernando Pessoa).

Regressando em re-directo e para confirmar a Jacinto do Prado Coelho, já em Camões se fala da "apagada e vil tristeza", por esse caminho seguindo J.P.C. até ao sec. XIX (que é o que nos interessa agora) altura em que o romantismo regenerador expresso por Herculano desta forma constitui uma excepção: " (…) Portugal regenera-se porque se irrita da sua decadência. (…)". Ou seja, a famosa regeneração / redenção resulta da sua contrária lógica. Valha-nos isso, ao menos…que a decadência ininterrupta também cansa ( N.A.).

Mas o rol de decadentismo desesperante é retomado logo a seguir pelo texto de J.P.C. que nos atrevemos aqui a transcrever:

"(…) À medida que se aproxima o fim do século XIX, a ideia da decadência preside cada vez mais quer à ficção ( Eça, Teixeira de Queiroz, Abel Botelho, Fialho de Almeida, etc.) quer à poesia. O pessimismo alastra na Pátria de Junqueiro, onde perpassa o doido simbólico, rei destronado, herói feito mendigo e escárnio dos garotos, vagabundo que vela junto ao mar, fitando atónito as águas.

A Índia dos versos de António Nobre é um lugar subjectivo, o Impossível a que aspiram os poetas; nas Despedidas, Nobre traça o painel da decadência ("Anda tudo tão triste em Portugal/ Que é dos sonhos de glória e de ambição?") mas traz-nos a boa nova do regresso do Encoberto ("Virá El-Rei menino do Estrangeiro, / Numa certa manhã de nevoeiro?").

Já no século XX, Álvaro de Campos (heterónimo de Pessoa) explica o vazio de alma de que sofrem os portugueses pelo destino imperial cumprido:"Pertenço a um género de portugueses/ que depois de estar a Índia descoberta/ Ficaram sem trabalho."

Os poetas continuam a instilar nos seus versos uma visão deprimente da história nacional, que se lhes afigura submetida a um destino inexorável:"Somos navegadores pr’além da morte:/ Temos a Índia eterna da saudade/ Rumando para sempre a nossa sorte" (Versos de António Patrício em "Nau-Sombra").

António de Sousa retrata Portugal como um grande senhor decaído: "Dias sem sol e noites sem luar. / Tantos mendigos a bater às portas! / Sombras e um vago aroma a flores mortas: / -Aqui foi Portugal, senhor dos mares!"

Carlos de Oliveira chora o longo sono da pátria no embalo de velhas histórias:"Lá vão naus da Índia, / Lá se vão tesoiros! / e os ventos secando / As laranjas de oiro! // Ama, até quando?"

As imagens obsidentes das aventuras e feitos passados polarizam a insatisfação em face do presente, a ânsia de outra coisa ou dum absoluto inatingível." ( In Jacinto do Prado Coelho, Decadência, Dicionário de Literatura ).

Sobre este aspecto do absoluto inatingível ele funciona assim como que uma meta estendida muito para além das possibilidades de alcançamento humano, processando-se a dialéctica ideológica e poética no bater constante na tecla do "querer ser mas não poder" tão presente no conceito de amor e da vida de Florbela.

No caso português o problema do Ultimato Inglês cai como uma bomba numa sociedade que contava, conforme já vimos, com o desenvolvimento do colonialismo como elemento determinante para a independência nacional (da égide protectora e absorvente da Grã Bretanha) e consequentemente como elemento impulsionador da independência pessoal, ideia esta que se desenvolvia sem sobressaltos de maior desde os tempos do Marquês Sá da Bandeira.

Em 1875 é aprovado o Decreto de emancipação dos libertos nas províncias ultramarinas o que é considerado um marco decisivo na construção da nova ideologia colonialista nacional (de certa forma copiada do ideário francês sobre a matéria) e que a Sociedade de Geografia de Lisboa vinha a desenvolver numa perspectiva educacional global (desde a escola primária até à Universidade, desde as províncias ultramarinas até às regiões do continente) com a particularidade de procurar por esta via desviar os tradicionais fluxos migratórios para a América, redireccionando-as para as colónias.

Não fazer referência a um tal estado de espírito que, de forma mais ou menos directa terá levado ao suicídio de Antero de Quental pós ultimato, parece-nos injusto e até ofensivo para Florbela Espanca, que acaba por beber muito da sua temática depressiva não só neste ambiente psicológico e cultural nacional como bebe neste poeta e filósofo.

Ao mesmo tempo haverá a precisar que, para além das funções de direcção atribuídas nos planos aos colonizadores portugueses, se tem também no programa colonial em conta o reforço cultural dos indígenas com vista à formação de quadros médios e que o esforço educacional dos mesmos (cujo credo é deixado ao cuidado das ordens religiosas no que se refere aos escalões indígenas mais baixos) se vira para a moral cristã evangelizadora, para o respeito pela propriedade privada e pela apologia da monogamia.

As referências de Florbela Espanca ao "ser" decadente português enquanto colectividade nacional não são muito abundantes na sua forma explícita na sua poesia ; em certos passos das mesmas refere até que vive de certa forma alheada das revoluções que se passam pelo mundo, mas em rigor quase toda a sua poesia está eivada de decadência e dos canônes decadentistas interiorizados.

Os sonetos: "Caravelas", por exemplo fazem alguma fusão entre o ser de Florbela e o ser português visto nesta perspectiva, "Prince Charmant" faz uma referência ao sebastianismo e ao nevoeiro (de forma algo irónica mas sempre magoada), "Lembrança" contém um olhar saudoso sobre o ter sido e o desejar voltar a ser Portugal sob forma eufemística, "Mendiga" (uma terminologia recorrente na expressão do destinário nacional) fala da pequenez actual e dos desejos de retorno (neste caso aos livres matagais), "Nostalgia" fala-nos de um país de lenda (ou de lendas) e das riquezas tidas, o "Soneto IX" fala do que se teve e do não ter nada, "Sonho Vago" volta a falar do Desejado D. Sebastião, "O Teu Olhar" faz uma apologia da terra portuguesa no seu todo e interioriza-a, "Navios – Fantasmas" referem um regresso à meninice trazido pelos barcos / Naus agora fantasmas. Pode dizer-se que nenhum poeta passou incólume sobre esta problemática, conforme já vimos acima.

Daniel Teixeira

voltar ao topo da página

voltar à primeira página do ensaio

voltar à homepage

 

FLORBELA E O SAUDOSISMO DAS NAUS

Para demonstrar, de uma forma pouco ortodoxa, reconhecemos, que subjacente ao ideário de Florbela Espanca se pode encontrar mais sobre o sentimento da decadência agregada ao "fado" nacional, resolvemos fazer uma pequena experiência que aqui trazemos em seguida.

A alguns poemas de Florbela que apresentamos em seguida inserimos e substituímos algumas palavras e relacionamos a sua temática com a temática depressivo / utopista das descobertas e da regeneração nacional, via recuperação do Império perdido. Embora nalguns casos tenhamos quebrado a métrica, mantivemos a rima e a estrutura dos sonetos.

É apenas uma experiência, que o facto de sermos organizadores da página nos permite fazer sem consequências imediatas, mas levámos muito a sério esta transfiguração.

 

( Baseado em ) Tarde no mar

Florbela Espanca

 

A tarde é toda de fogo e cada nuvem esbraseia.

O horizonte, esse, é um grosso risco enegrecido.

E aqui, cada vaga revolta sucumbe na areia,

Como se fosse o tremor último de um sino,

 

Pouso o meu manto de arminho na areia

E lá vou, sem parança, sigo o traço do meu destino!

E o sol, nas casas brancas que incendeia,

Vai desenhando mãos sangrentas de assassino!

 

São assim as minhas tardes sem descobertas sobre o mar!

Que vai arremessando do céu rolos de velas

Que Apolo se entretém a destroçar...

 

E, sobre mim, rainha agora sem reino, em gestos balbuciando,

As tuas mãos de marinheiro erguidas e cedo mortas,

São como as asas cansadas do sol, que vão pela tarde agonizando...

 

( Baseado em ) Voz que se cala

Florbela Espanca

 

Amo as pedras, os astros e o luar

Que beija as ervas do atalho escuro,

Amo as águas de anil e o doce olhar

Dos animais, divinamente puro.

 

Amo a hera que entende a voz do muro

E dos sapos o brando tilintar

De cristais que se afogam devagar,

E da minha charneca o rosto duro.

 

Amo todos os sonhos que se calam

De corações que sentem e não falam,

Tudo o que é Infinito e pequenino!

 

Asa que nos protege a todos nós!

Soluço imenso, eterno, que é a voz

Do nosso grande e mísero Destino!...

 

( Baseado em ) I

Florbela Espanca

 

Gostei de ti apaixonadamente,

De ti que foste a vitória, a salvação,

De ti que me trouxeste pela mão

Até ao brilho desta chama então quente.

 

A tua linda voz de água corrente

Ensinou-me a cantar... e essa canção

Foi ritmo nos meus versos de paixão,

Foi graça no meu peito de descrente.

 

Foi bordão a amparar minha cegueira,

Foi na noite negra o mágico farol,

Foram cravos rubros a arder numa fogueira.

 

E eu, que era neste mundo uma vencida,

Ergui a cabeça ao alto, encarei o Sol!

Pois tu, qual águia real navegando, apontaste-me a subida!

 

(Baseado em ) Anoitecer

Florbela Espanca

 

A luz desmaia num fulgor de aurora,

Diz-nos adeus religiosamente...

E eu que não creio em nada, sou mais crente

Do que em menina, um dia, o fui... outrora...

 

Não sei o que em mim ri, o que em mim chora,

Tenho bênçãos de amor pra toda a gente!

E a minha alma, sombria e penitente,

Soluça no infinito desta hora...

 

Horas tristes que vão ao meu rosário...

Ó minha cruz de tão pesado lenho!

Ó meu áspero intérmino Calvário!

 

E a esta hora tudo em mim revive:

Saudades de saudades que não tenho...

Sonhos que são os sonhos dos que eu tive...

 

( Baseado em ) A vida

Florbela Espanca

 

É vão o amor, o ódio, ou o desdém;

Inútil o desejo ou o sentimento...

Lançar a Índia descoberta aos pés de alguém

O mesmo é que lançar flores ao vento!

 

Todos somos no mundo "Pedro Sem",

Uma alegria é feita dum tormento,

Um riso é sempre o eco dum lamento,

Sabe-se lá se um beijo e de onde vem!

 

A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...

Uma saudade morta de um outro Além em nós renasce

Que no mesmo momento é já de Aquém perdida...

 

Sonhar-te a vida inteira eu não podia.

A gente esquece sempre o bem de um dia.

Que queres, meu mar salgado, se é isto a vida!...

 

( Baseado em ) A nossa casa

Florbela Espanca

 

A nossa casa, navegador, a nossa casa!

Onde está ela, navegante, que não a vejo?

Na minha doida fantasia em brasa

Constrói-a, num instante, é o meu desejo!

 

Onde está ela, maresia, a nossa casa,

O bem que neste mundo mais invejo?

O brando ninho aonde o meu beijo

Será mais puro e doce que uma asa?

 

Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos,

Andamos de mãos dadas, nos caminhos

Duma terra de rosas, num jardim,

 

Num país de ilusão que nunca vi...

E que eu moro – tão bom! - dentro de ti

E que tu ainda vives dentro de mim...

 

( Baseado em ) II

Florbela Espanca

 

Meu amor, meu Amado, vê... repara:

Pousa os teus lindos olhos de oiro em mim,

- Dos meus beijos de amor Deus fez-me avara

Para nunca os contares até ao fim.

 

Meus olhos têm tons de pedra rara

- É só para teu bem que os tenho assim -

E as minhas mãos são fontes de água clara

A cantar sobre a sede dum jardim.

 

Sou triste como a folha ao abandono

Num parque solitário, pelo Outono,

Sobre um lago onde vogam nenufares...

 

Deus fez-me atravessar o teu caminho...

- Que contas dás a Deus indo sozinho,

Passando junto a mim, sem me encontrares? -

 

( Baseado em ) III

Florbela Espanca

 

Frémito do meu corpo a procurar-te,

Febre das minhas mãos na tua pele

Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,

Doido anseio dos meus braços a abraçar-te,

 

Olhos buscando os teus por toda a parte,

Sede de beijos, amargor de fel,

Estonteante fome, áspera e cruel,

Que nada existe que a mitigue e a farte!

 

E vejo-te tão longe partido! Sinto a tua alma

Junto da minha, numa lagoa calma,

A dizer-me, a cantar que já me não amas...

 

E o meu coração que tu longe não sentes,

Vai boiando ao acaso das correntes,

Como um esquife negro sobre um mar de chamas...

 

( Alterações da responsabilidade de Daniel Teixeira )

 

FLORBELA E O CÉPTICO MONTAIGNE

 

Ainda sobre a problemática da depressão e do decadentismo, resolvemos também trazer aqui o grande pensador que foi Montaigne e ainda Marco Aurélio e outros que entretanto se possam vir a tornar necessários para o desenvolvimento de raciocínios. O objectivo de trazer tanto uns como outros tem alguns pontos comuns.

Para começar Montaigne pode ser visto em várias perspectivas:

de um lado Michel de Montaigne viveu uma época de crise social com transmutações dos sistemas económico sociais e com reflexos psicológicos importantes (aliás Montaigne poderá melhor ser visto como analista psicológico e antropo - cultural do que propriamente como filósofo nas concepções dos tempos modernos );

em seguida porque alguns dos textos de Montaigne se enquadram perfeitamente dentro do aspecto que temos vindo a tratar ( decadência, tristeza, suicídio, busca do Infinito, etc. ).;

por último, porque Montaigne é apontado como contendo nos seus escritos ( o qual veremos desde já ) muito das concepções defendidas pelos filósofos Estóicos. Florbela refere directamente os Pensamentos de Marco Aurélio na introdução de um dos seus livros em prosa mais emblemáticos (aquele que dedica a seu irmão morto – " As máscaras do Destino") e a sua atitude perante a morte (que não perante a tristeza) contém bastante conteúdo que poderá ser equiparado às concepções estóicas.

Mas comecemos por reconhecer Montaigne:

"Montaigne viveu numa época extremamente conturbada, da qual reflectiu algumas características fundamentais, especialmente as mais contraditórias. A primeira dessas características situa-se no plano económico, social e político das transformações que levaram à destruição da economia feudal da Idade Média e sua substituição pelas actividades manufactureiras e de comércio. A primeira metade do século XVI na França foi marcada por esse processo, notando-se cada vez maior participação do Estado nos assuntos económicos. A família de Montaigne constitui um exemplo típico dessa época em que a burguesia ascendeu ao primeiro plano da história social, sofrendo uma evolução que não se fez sem conflitos profundos." (In Montaigne, Edição Nova Cultural, São Paulo, 1991).

Sobre Montaigne (de Montaigne) recolhemos dois aspectos que consideramos puderem ajustar-se àquilo que temos vindo a desenvolver sobre Florbela Espanca. Pensamos, através da análise da poesia e dos textos escritos (quer romances ou contos quer diário e correspondência) que existem aspectos, pelo menos provisoriamente mais significativos no decurso deste ensaio que importa realçar. Um desses aspectos é o "curriculum" pessoal e temperamental de Florbela expresso numa carta desta ao Dr. Guido Batteli em 27 de Julho de 1930, ano da sua morte.

"Sou uma céptica que crê em tudo, uma desiludida cheia de ilusões, uma revoltada que aceita, sorridente, todo o mal da vida, uma indiferente a transbordar de ternura.

Grave e metódica até à mania, atenta a todas as subtilezas dum raciocínio claro e lúcido, não deixo, no entanto, de ser uma espécie de D. Quixote fêmea a combater moinhos de vento, quimérica e fantástica, sempre enganada e sempre a pedir novas mentiras à vida, num dom de mim própria que não acaba, que não desfalece, que não cansa!"

Por toda a carta / trecho perpassa uma consciência clara do paradoxo ou do absurdo interiorizado. Contudo, se analisarmos numa outra perspectiva também não ficaremos muito enganados. Em certo sentido Florbela é ela mesma e o seu contrário, ou seja, uma personagem que se apresenta como emanação de si mesma e que se representa como se a um espelho estivesse. A linearidade da metodologia referida como sendo dela mesma, Florbela, não é no entanto suficiente para que se obtenham conclusões claras sobre a personalidade de Florbela; em certo sentido o método é esse, ou seja, apresentar um não método, espalhar contradições de forma a deixar bem escondido, mostrando-o em duas faces, aquilo que ela mesma é, substancialmente.

Por isso pode sempre perguntar-se: O que pretende esconder Florbela?! O que não quer Florbela que se saiba dela?! Porque esconde ela desta forma a sua personalidade?! Com tanto empenho?! Mas é bem crível que ela esteja a falar verdade, e tal como diz na sua poesia, não saiba, efectivamente quem é ou como é. Se ela ou o seu reflexo. Mas, como diremos mais à frente citando Florbela e Marco Aurélio:"Isso importa?!"

Ou seja, importa que ela se dispa de todo o mistério que vai construindo sobre si, como pessoa e como poeta?! Pendemos mais para aquilo que Montaigne escreve à frente: " (…) a alma perturbada e agitada confunde-se quando lhe falta um objectivo. Em seus transportes, exige ela, sempre, algo a que culpar e contra o que agir (…)". Mas contra o que age Florbela?! Contra os moinhos de vento que são a sua necessidade de se sentir ela mesma mesmo que o seja de uma forma falaciosa?!

O seu desejo de infinito voga no reino do absurdo e da contradição: pretende ter a verdade como companheira mas aceita uma mentira piedosa, uma meia verdade, porque tem medo de amar…uma mulher que quer amar perdidamente tem medo de amar porque o amor representa para ela algo que ela pensa ou sabe não poder controlar. O seu amor, da forma que ela o entende, da forma terrena e pequenina da realidade, é entrega dela e não partilha e Florbela não quer submeter-se aos ditames desse mesmo amar. Por isso nunca amou…no verdadeiro sentido da palavra. Teve sempre medo de amar…mas cantou o amor como gostaria que ele fosse…

A 16 de Junho de 1916 Florbela escreve a Júlia Alves da Modas e Bordados "(…) o casamento é brutal como a posse é sempre brutal, sempre. Só para as mulheres, aquelas mulheres mais animais que espirituais, é que o casamento não é a desilusão de sempre – mas então nós?". Quer ela dizer, mas então as outras como eu?!

Pois bem, façamos uma pequena exploração psicológica sobre esta questão: Florbela nasceu de uma mulher não casada mas vive em casa de uma mulher casada. Será essa mulher (Mariana) uma mulher animal?! Seria o casamento entre os seus pais adoptivos uma manifestação de posse?! E seria Júlia Alves da "Modas e Bordados" solteira ou mesmo uma mulher espiritual, como o define Florbela?! Há, aparentemente aqui qualquer coisa que não bate certo…

Mas vejamos a carta seguinte do dia seguinte:"Acho o casamento uma coisa revoltante (…) a posse revolta tudo quanto eu tenho de delicado e bom no íntimo da minha alma. Ganha-se um amigo muitas vezes, é certo; um amigo que às vezes é o nosso supremo amparo, mas em compensação quantas mágoas, quantas desilusões! Quantas!"

Florbela tinha-se casado a 8 de Dezembro de 1912, ou seja, cerca de quatro anos antes. Levou assim todo esse tempo para concluir estes pensamentos e escrever esta catalinária contra o casamento e contra o estado de se ser casada e contra a instituição casamento. Convenhamos que aqui também há qualquer coisa que não bate certo…por isso é melhor lermos Montaigne…

DE COMO A ALMA QUE CARECE DE OBJECTIVO PARA AS SUAS PAIXÕES AS MANIFESTA AINDA QUE AO ACASO – MONTAIGNE

"(…)Em verdade, assim como nos dói o braço erguido para bater, se o golpe não alcança o alvo e atinge o vácuo, e assim como para tornar uma paisagem agradável é preciso que ela não se isole no espaço mas antes se apoie a um fundo apropriado e seja vista a distância suficiente,

"assim como o vento, se espessas florestas não se erguem à sua frente como obstáculos, perde sua força e se dissipa" (Lucano)

assim a alma perturbada e agitada se confunde quando lhe falta um objectivo. Em seus transportes, exige ela, sempre, algo a que culpar e contra o que agir.

(…) Vemos igualmente a alma tomada pela paixão, de preferência a não se entregar a ela, enganar-se a si própria criando um objectivo falso ou fantasista, ainda que a expensas das sua próprias convicções. (…)

Que causas não inventamos para as desgraças que nos afligem? A quem ou a que, com razão ou sem ela, não culpamos a fim de ter algo contra o que nos havermos? Em teu desespero arrancas as loiras tranças, rasgas o peito a ponto de o sangue lhe manchar a brancura; são eles a causa da morte desse bem-amado irmão que uma bala mortal tão cruelmente atingiu? Não, volta-se pois, contra outros."(…)

Portanto, e apesar de não termos conseguido saber muito sobre aquilo que se passou realmente com Florbela, parece aplicar-se integralmente aquilo que Montaigne diz. O seu "cansaço" do casamento e da posse não a impediu de se voltar a casar (após um período de concubinato e vida em comum de cerca de 18 meses) em 1921. Ou seja, cerca de cinco anos após o seu desabafo com Júlia Alves da Modas e Bordados, mantendo assim um casamento de cerca de 9 anos com uma pessoa da qual pensou um dia gostar.

Quanto ao amor idealizado por Florbela, um amor impossível de concretização, um amor platónico e observante em que ela, Florbela, é o centro atractivo à volta do qual o processo "amoroso" se desenvolve só pode ser entendido como sendo um amor não – dialogante, ou seja, um amor sem entrega sua e com entrega do outro.

Reclama contra as "esmolas" dos carinhos, exige devoção, sente-se insatisfeita com aquilo que recebe, chama por maior atenção, está sempre insatisfeita com aquela que recebe ou negoceia tolerante e submissa o pouco que recebe…breve, em nossa opinião o amor que Florbela quer é aquele que aprendeu em Soror Mariana Alcoforado e nas suas epístolas, um amor distante onde tudo se pode pedir e nada de concreto se obtém porque a finalidade é precisamente essa. Nada obter mas sim viver um amor virtual.

Estatuto cómodo para uma mulher que não quer, profundamente, amar terrenamente. "Eu quero amar, amar perdidamente! / Amar só por amar: Aqui…além… / Mais Este e Aquele, o Outro e a toda a gente… / Amar! Amar! E não amar ninguém!".

Temos neste início de um dos seus poemas mais conhecidos um conjunto de definições do Amor que começa pelo Amor que se compensa a si mesmo e a si se basta na sua simples e uniforme existência, que se move no espaço e nas pessoas, para se diluir como não sendo amor de amante e para finalizar numa negação e explicitação do amor de que se pretende falar, o amor de ser humano pelos outros seres humanos, ao fim e ao cabo, que é uma forma de, ao amar todos não se amar especificamente ninguém porque o verdadeiro amor à volta do qual Florbela ondeia não se toca, não se vive, é ilusão, é sonho, é nada. É uma amor que não tem objecto substancial.

No conto "As orações de Soror Maria da Pureza" passe o desactualizado título, Maria / Florbela é amada assim:

"O namorado encostado às grades, dizia-lhe:

"Quando te vejo vir ao longe, tenho vontade de te rezar – Avé Maria, cheia de graça – Maria! Toda tu és luz e iluminas-me! Toda tu és expressão e alma imaterial; as tuas formas são espírito revestindo outro espírito, como um manto de rendas sobre um vestido de prata. O teu olhar é mais profundo que os teus olhos, a tua boca é mais pequenina que o teu riso. Tu não pões os pés no chão, eu bem vejo como tu andas, Maria! Vens para mim, da escuridão da noite, num andor coberto de açucenas, como uma aparição, e as flores do jardim acorrem todas à tua passagem, recolhidas e graves, à beira do caminho, de mãos postas, rezando – Avé Maria, cheia de graça – como se passasse a procissão…!"

Este elogio da transcendência (passe também a má qualidade da escrita em prosa de Florbela), daquela que "é" e se representa para além de tudo e que se equipara a Nossa Senhora, é, de facto sintomático do modo de amar adoptado por Florbela. O amor não se concretiza, nunca (o namorado morre algures) e Maria passa a ser Soror Maria da Pureza (que raio de nome) voltando o impulso amoroso (se é que ele existia) para o trajecto conventual agora mais real / ficcionado onde a escritora virtualmente já a tinha metido desde o início.

O seu percurso no Convento é extremamente elogiado; primeiro passa pela fase de ser extremamente doce e obediente e acaba por elevar as orações que faz ao seu amor –noivo - morto a orações conventuais definidas como sendo" orações de amor, sacrílegas, blasfemas orações de pecado, a um noivo morto, rezadas num convento de Toledo, aos pés dos altares, por bocas puras, (…) estranhas orações de pecado!" a serem sancionadas pela ríspida Madre Superiora através de um exclamado "Sagrado Coração do Senhor, ouvi-a!". Qualquer semelhança com orações a um Cristo morto não serão coincidência, acrescentamos nós. E qualquer branqueamento das ditas orações de forma a torná-las, exemplarmente não pecaminosas ou blasfemas também não será despropositado considerar-se. As orações de Soror Maria da Pureza, revestem-se assim de um misticismo electivo em que o mundo se coloca aos pés da "pecadora" e a apresenta como sendo cada vez mais pura precisamente por orar a esse "pecado".

 

Daniel Teixeira

 

FLORBELA E O SUICÍDIO

Não encontramos, quer no seu diário, quer na sua poesia quer na sua prosa quaisquer elementos que nos levassem a pensar que Florbela esteve alguma vez consciente do suicídio em acto. Sobre o seu desgosto da vida, sobre o seu apego sentimental e filosófico à morte, encontramos bastante. Mas nem uma linha em que ela exteriorize uma teoria ou uma justificação sobre o seu próprio suicídio, o que não quer dizer que ela não tenha falado disso, pelo menos, com os seus mais íntimos e mesmo indirectamente numa carta. (Pode ler aqui)

O suicídio é um acto secreto; Antero de Quental premeditou-o, terá inclusivamente respondido à pessoa que lhe vendeu a arma de forma evasiva que a comprava para se defender dos ladrões e depois suicidou-se. Tudo leva a crer que o tivesse mesmo premeditado, tal como Florbela o fez no dia 10 de Dezembro de 1930 à noite, avisando a sua criada Teresa que não ia dormir no quarto do casal, que tinha muitas insónias e dizendo-lhe que não queria ser acordada no dia seguinte sob que pretexto fosse.

Acrescentemos-lhe dois frascos de Veronal que ela terá levado consigo do seu quarto marital e cujos comprimidos terá provavelmente ido coleccionando para obter uma dose suficiente. Contudo, nas vésperas ainda informa as amigas que se vai suicidar no dia seguinte, seu dia de aniversário e que considera tal facto uma prenda de aniversário (a melhor prenda). Ninguém a leva a sério, o suicídio sendo um acto íntimo não se apregoa. Dizer ou não dizer seria o mesmo, teria os mesmos resultados.

Mas, porque é que Florbela quis carregar assim as suas amigas com a responsabilidade de, tendo estas ficado a saber da sua intenção, não terem feito nada para a impedir confirmada depois a verdade das suas palavras?! Talvez porque pensasse que alguém a ia tentar demover?! Que a iam levar a sério numa coisa tão íntima que ultrapassa todas as intimidades de que seguramente falava com as suas amigas. O manejo da morte é complicado…o manejo do suicídio como forma de morte ainda mais.

Voltemos a extractos de Montaigne, agora no Livro II, em "A propósito de uma costume da ilha de Ceos":

" (…) Tendo Filipe entrado no Peloponeso com o seu exército, disse alguém a Damidas que os lacedemónios muito iram sofrer se não pedissem mercê. Poltrão – Exclamou Damidas – que podem sofrer os que não têm medo da morte?! (…)" Nestes tempos, como noutros, a morte é interpretada como sendo o sofrimento que não tem nenhum outro maior que ele. Florbela, através daquilo que nos escreveu inverte os termos…a vida é o sofrimento maior…"Dona morte dos dedos de veludo, / Fecha-me os olhos que já viram tudo! / Prende-me as asas que voaram tanto!" ( in À morte de Florbela Espanca ).

Contudo, este poema interpreta-se melhor se for visto na perspectiva de ser uma prece à morte, que o é de facto. Contudo seria bom esclarecer aqui que a prece, tal como ela é entendida desde a antiguidade, é um pedido de um favor, de algo que se pretende obter demarcando-se dos outros, ou seja, a prece não é igualitária, é elitista. Mas a temática da morte (que não da morte provocada) é uma constante em Florbela. Formular aqui todas a imagens que sobre ela construiu seria quase trazer todos os seus poemas, mas, de uma forma unitária e geral pudemos entender que a morte, para Florbela, é realmente um culminar, um píncaro, o atingimento de um objectivo colocado mais alto.

Ainda Montaigne: (…) "Haja vista aquele menino da Lacedemónia feito prisioneiro por Antígono e vendido como escravo. Instado a um trabalho abjecto, respondeu:"Vais ver quem compraste; seria uma vergonha fazê-lo (tal trabalho), tendo a liberdade a meu alcance." E precipitou-se do alto da casa. (…)" Aqui a morte / suicídio é interpretada como libertação de uma vida abjecta…

"(…) Antíparo ameaçava duramente os lacedemónios a fim de os obrigar a atender a uma das suas exigências: "Se tu nos ameaças", responderam eles, " com coisas piores do que a morte, preferimos morrer." A Filipe, que os advertia de que faria malograr tudo o que empreendessem, observaram:"Quererás impedir-nos de morrer?"

Eis porque se diz que o sábio vive quanto deve e não quanto o poderia; e o que de melhor recebemos da natureza que nos tira todo o direito de queixa, foi a possibilidade de desaparecer quando bem quisermos. Criou ela um só meio de entrar na vida mas cem de dela sair. (…) a morte (…) devemo-la à bondade dos deuses; podem tirar a vida a um homem: não lhe podem tirar a morte. (…)." Eis, aqui, a morte para além de tudo, incluindo para além da própria vontade dos deuses.

Quereria Florbela superar os deuses, ou Deus?! Na sua poesia não faltam afirmações fortes sobre a sua personalidade, afirmações egotistas, afirmações de superioridade: vimos logo atrás que ela não se considera uma "mulher animal" no sentido em que se entenderá facilmente que inclui o facto de não se considerar uma mulher "para a cama", mesmo que isso, esse aparente sacrifício, representasse algum conforto e companhia. José Gomes Ferreira, que a conheceu na Universidade, diz dela que tem uma personalidade excessivamente forte, no seu entender, mais ou menos por estas palavras.

Passar em branco aspectos essenciais relacionados com o tempo em que Florbela viveu tem sido quase uma constante que temos encontrado nas nossas leituras sobre Florbela. Por exemplo não me parece que seja suficientemente referido o facto, não só da coragem, como as dificuldades que Florbela terá encontrado como estudante quer no secundário quer na universidade sendo mulher.

Também não nos parece ter sido dada suficiente importância a uma coisa que julgamos pouco possível ter acontecido: a sua entrada na Escola aos cinco anos de idade. No seu tempo não havia pré-primária, como hoje, e a entrada na Escola processava-se aos sete anos de idade, ou melhor, no ano lectivo em que se fazia 7 anos, desde que eles estivessem completados até um dado período de matrícula.

Ora, Florbela nasceu a 8 de Dezembro de 1894 e completaria 7 anos a 8 de Dezembro de 1901, logo, e pela lógica, entraria na Escola, como aluna regular em Outubro de 1902. Aliás um dos textos que lemos refere que a 11 de Novembro Florbela iniciou os seus estudos numa dada classe no mês anterior, ou seja, em Outubro, como afirmámos.

Colocamos como possível o facto de alguma professora conhecida ou mesmo por conhecimentos paternos ou maternos a mesma ter sido colocada na Escola, como aluna assistente aos 5 anos de idade, mas parece-nos também pouco curial que tal tenha acontecido. Por muito precoce que fosse haveria sempre que contar com a pressão do meio social envolvente. Que não era muito "carinhoso" mesmo entre o mundo feminino.

Nos inícios do nascimento dos alvores do feminismo (finais do Sec.XIX e período entre as duas guerras no século XX) havia correntes anti-feministas que pregavam o regresso das mulheres à sua função de esposas e mães e que combateram arduamente, até com o apoio de sectores ligados à Igreja, essa situação.

Algumas, até, forçadas perante a evidência da emancipação pelo trabalho no período da primeira guerra mundial, e nos países directamente nela envolvidos, em que as mulheres foram "convidadas" a ocupar os lugares deixados vagos pelos homens partidos em guerra, "previram" até para o final do Sec.XX o regresso da mulher ao lar, nas suas concepções feito de uma forma mais dolorosa porque algumas delas estariam já fatalmente imbuídas do "espírito masculino".

Ora, segundo lemos, Florbela terá iniciado em 1903 a 3ª classe, quando pela lógica dos registos que vimos atrás, teria de ter entrado pela primeira vez na Escola um ano antes, para a 2ª Classe, feito aquilo a que se chamava "passagem" e não exame desta classe nesse mesmo ano, podendo assim entrar na 3ª classe no ano de 1903. Achamos "muito" este conjunto de circunstâncias ter acontecido numa sociedade rural quando dificilmente podia acontecer nas sociedades urbanas e para mais ainda com uma filha ilegítima. O beneplácito da Igreja seria sempre coxo e a nosso ver amputante deste conjunto de circunstâncias.

Pretende-se apresentar Florbela como uma menina-prodígio, que até podia ser, mas temos de ter em conta os circunstancialismos da época. O que não deixa de ser curioso, este facto, quando se sabe que a maior parte dos poetas e intelectuais masculinos da época, foram, regra geral cábulas e repetentes quase crónicos.

Deixamos em seguida um texto em francês sobre a situação das estudantes em França, nitidamente mais evoluída neste aspecto do que Portugal neste período.

"Les professeurs ne semblent pas s'être ouvertement prononcés sur la présence des femmes. Cependant leurs premières réactions sont plus négatives que celles des étudiants. Paul Sonday, professeur en Sorbonne, s'écrit spontanément, en voyant les étudiantes arriver : « Pas de femmes !... La science se fait entre hommes ! ». Accueil « pas commode » qui marqua par exemple Melle Sarmiz-Bilcescu, première femme à suivre régulièrement les cours à la faculté de Droit:

« Les dames n'entrent pas », vous répondait l'huissier à la porte. Le conseil de la faculté fut appelé à statuer. « Comment, Monsieur, dit ma mère au secrétaire, dans un pays où il est écrit même sur les portes des prisons : Liberté, Égalité, Fraternité, vous empêcheriez une femme de s'instruire, rien que parce qu'elle est femme ». Ces paroles furent rapportées au Conseil et, quelques jours après, l'autorisation de suivre les cours me fut accordée, mais pas à l'unanimité : nombre de professeurs votèrent contre, et notamment Monsieur le doyen Beurdant.

L'accueil des professeurs fut glacial, l'accueil des étudiants extrêmement respectueux. À la clôture des cours de la première année, Monsieur Colmet de Santerre, professeur de Droit civil, s'adressant aux étudiants, dit presque textuellement : « Nous avons hésité à accorder à Melle Bilcescu l'autorisation qu'elle demandait par crainte d'avoir à faire la police dans les amphithéâtres ; cette jeune fille dont l'assiduité est au-dessus de tout éloge, et la conduite exemplaire, s'est imposée à notre estime, vous l'avez respectée comme une sœur et nous vous en remercions ». Ces paroles ont été couvertes par un tonnerre d'applaudissements.

La notion de respect revient toujours dans les propos tenus par les professeurs. Craignant de voir les femmes perdre leur réputation en partageant les mêmes bancs que leurs étudiants, les professeurs ne manquaient pas de rappeler ces derniers à leur devoir de courtoisie. En effet, les femmes apportent avec elles un parfum d'érotisme jugé pernicieux auquel se grisent les étudiants...et auquel ils n'échappent pas eux-mêmes totalement : « Pour la toilette [des étudiantes], simplicité de bon aloi, mais, il me semble pas de bras nus, qui peuvent, qui doivent donner des distraction aux voisins, et, qui sait peut-être même au professeur ».

Les femmes représentent donc un élément doublement perturbateur, comme « objet de désir » et de curiosité pour les étudiants, mais aussi par la nature propre au sexe féminin : « légère, frivole, inapte à la réflexion ou à l'effort, et bavarde ».

Jusqu'au tournant du siècle les jeunes filles ne peuvent sortir qu'accompagnées d'un chaperon qui les suivaient jusque dans les amphithéâtres. Ainsi Melle Bilcescu assiste aux cours à la faculté de Droit de Paris immanquablement flanquée de sa mère ou de son mari. À partir des années 1900 ces « nouvelles » jeunes filles commencent à s'affranchir de cette tutelle parfois pesante.

En suivant les cours et éventuellement en réussissant les examens, elles bravent les normes sociales et sortent du rôle qui leur est assigné. Elles font ainsi passer « la femme » de l'assujettissement à l'indépendance, ce qui ne va pas sans changer les rapports entre les sexes.

Dans le même ordre d'idée il est amusant de constater que les journaux de l'époque insistent sur la correction de la tenue des étudiantes. Ces recommandations vestimentaires se résument à « surtout pas de féminité ! » Une des images attribuée aux étudiantes est de ne pas être coquette, c'est en fait ce qui lui est recommandé. D'emblée est posé l'antinomie entre le « cerveau » et la « féminité » et l'» étudiante » et la « femme ».

Une étudiante ne peut pas, ne doit pas être coquette, ni même élégante ; ces attributs sont réservés à « la » femme. Être femme et étudiante semble incompatible, c'est ainsi que Colette Yver, dans Princesses de sciences fait dire à un des protagonistes : « Vous demeurez trop étudiante pour être femme ». L'axiome « une femme ne peut être belle et intelligente », ou sa variante « l'intelligence d'une femme c'est sa beauté », s'impose dès l'arrivée des premières étudiantes.

L'hostilité des professeurs s'explique aussi par le conservatisme de certains universitaires. Ces professeurs, âgés pour quelques-uns d'entre-eux, souhaitent véhiculer les valeurs traditionnelles qu'ils ont toujours connues, ils ont du mal à accepter les étudiantes qui dérangent et bousculent leurs certitudes ; de plus, peut-être ont-ils des filles qu'ils n'aimeraient pas voir assister à leurs propres cours. C'est à une double remise en cause à laquelle on assiste : les femmes sont reconnues comme étant intellectuellement les égales des hommes, elles ont les mêmes aptitudes à suivre des cours et à passer des examens et les filles défient l'autorité paternelle et sociale.

Au début du XXe siècle cette situation est loin d'être acceptée, elle dérange encore : en 1902, lors d'un examen un professeur a exclu une étudiante car elle était une femme. En 1911 le journal L'Éclair fait part de l'émotion suscitée, chez les professeurs hommes, par la présence des étudiantes. Leurs représentants au conseil supérieur souhaitent d'ailleurs proposer à leurs collègues un examen approfondi de la situation nouvelle que créée cette affluence d'étudiantes et donc de concurrence pour les hommes.

La même année, Jules Wogue, professeur agrégé, écrit un article assez virulent dans Le Matin, intitulé « Du rôle des femmes dans l'université actuelle ». Il se plaint, comme d'autres professeurs, de « l'invasion » des femmes à l'Université et écrit à propos de leur nouveau rôle d'étudiante : « Qu'était-il jusqu'ici ? Rien ! Qu'aspire-t-il à être ? Trop ! ».

Cette attitude négative devant l'arrivée des femmes n'est cependant pas unanime. Certains professeurs estiment beaucoup leurs étudiantes. Mais un reproche leur est souvent fait : leur manque d'initiative et leur trop grande docilité. Après s'être entendues répéter pendant des siècles qu'elles étaient inférieures intellectuellement ­ l'existence de leur âme étant même mise en doute ­, il est difficile pour ces femmes d'avoir confiance en elle et leur humilité est compréhensive.

Se retrouver assises au milieu des hommes sur les bancs des amphithéâtres et devoir s'imposer parmi eux n'étaient pas chose facile ; il a fallu beaucoup de courage et de ténacité à ces pionnières. En 1934 dans La Française, un professeur de lettres les incite à l'initiative, à « oser » : « C'est une belle génération de femmes averties et vaillantes que nous préparent ces jeunes filles dont, aujourd'hui, l'esprit s'ouvre si largement à toutes les ambitions qu'elles peuvent, et doivent oser. »

Les étudiants semblent, dans l'ensemble, plus favorables à l'arrivée des femmes à l'université. Julie-Victoire Daubié ­ première bachelière en 1861 ­ est acceptée par les étudiants alors que le recteur et le ministre de l'Instruction publique se sont montrés très réticents devant son « audace ». En 1887, Blanche Edwards, première femme interne des hôpitaux en France, est en revanche très mal accueillie par les étudiants qui brûlent son effigie.

Cette réaction violente est une exception, les procès-verbaux des facultés n'en mentionnent pas d'autres. La seule « protestation » devant l'accroissement du nombre des étudiantes aurait eu lieu en 1893. Élevés dans le mythe de la supériorité de l'homme, les étudiants se voient brusquement confrontés à des femmes qui partagent les mêmes cours et les mettent en situation de concurrence aux examens.

À la faculté de médecine ils refusent « les internes en chignon » ; aussi réserve-t-on aux étudiantes des places isolées et regroupées dans l'hémicycle, ce qui leur vaut « l'honneur être bombardées de projectiles par les étudiants ». Ces quelques mauvais tours et les cabales jouées aux étudiantes, ou encore les brouhahas qui accompagnèrent certains examens, demeurent assez rares. Ces manifestations peuvent être interprétées comme un moyen, certes puéril, d'attirer l'attention des étudiantes sur ceux qui lançaient des projectiles ; c'est une façon de « faire la cour ».

L'étudiante comme « objet de séduction » peut être une des raisons qui justifient l'acceptation des étudiantes par les étudiants, mais la raison essentielle est que ces étudiants sont des « hommes nouveaux », des hommes de la Troisième République à l'esprit suffisamment éclairé pour voir l'absurdité de l'inégalité des sexes. Ils désirent voir leurs compagnes, leurs sœurs, leurs amies s'élever à leur niveau. En 1900, lors du Congrès des Étudiants organisé à Paris, les étudiants expriment leurs vœux à l'égard des étudiantes : ils souhaitent que les gouvernements de tous les pays admettent les femmes à suivre les cours et à passer les examens de toutes les facultés et des écoles supérieures.

Beaucoup de sources font ressortir un fait nouveau : la présence des jeunes filles dans les facultés engendre un sentiment nouveau, inconnu de la jeunesse d'autrefois, la camaraderie des sexes. Cette camaraderie vient remplacer le sentimentalisme souvent exagéré des jeunes filles du XIXe siècle. Par cette « franche camaraderie », les étudiantes n'ont plus ces timidités sentimentales effarouchées et rougissantes de leurs aînées et qui caractérisent certains états de l'adolescence. Elles s'en sont libérées, comme elles ont relégué au grenier les falbalas, les dentelles et les volants.

Cette camaraderie débouche souvent sur le mariage ; étudiantes et étudiants se choisissent mutuellement selon leurs affinités intellectuelles. Cette notion d'égalité des sexes est clairement ressentie par les étudiantes, elles ne se sentent nullement désavouées.

Simone de Beauvoir dans ses Mémoires d'une jeune fille rangée exprime ce sentiment : « L'avenir m'était ouvert aussi largement qu'à eux, ils ne détenaient aucun avantage ». Les étudiants ne perçoivent pas les étudiantes comme des rivales puisqu'elles ne prennent pas leurs places à l'université, cette camaraderie tend cependant à s'effacer pour devenir rivalité lorsque les étudiantes munies des mêmes diplômes qu'eux entrent dans le monde du travail, des « carrières ».

Colette Yver dans Les Dames du Palais et Princesses de Sciences évoque cette ambivalence dans les rapports étudiantes/étudiants. Guéménée accepte Thérèse comme jeune fille étudiante mais pas comme épouse ayant une profession. La question du mariage de l'intellectuelle préoccupe les esprits « bien pensants ». Il semblait à beaucoup, que le sexe féminin, venant concurrencer le sexe masculin dans les positions telles que la médecine, le barreau, verrait se dresser devant lui les hommes en ennemis acharnés, ceux-ci se défiant de ces « étranges femmes ».

Il en résulterait le célibat, une renonciation au mariage pour celles qui auraient eu l'audace de s'aventurer dans ces domaines, ou de possibles heurts durant le mariage. Cette nouvelle figure de la jeune fille qu'est l'étudiante, donne aussi naissance au mythe de la « vieille fille » propre à l'intellectuelle. Tant que les femmes étudient et ne travaillent pas elles sont tolérées. Mais lorsqu'elles souhaitent valoriser leurs diplômes, elles sont considérées par les universitaires ­ professeurs et étudiants ­ et par la société en générale comme des intruses, le terme d'» invasion » employé pour décrire leur arrivée prenant alors tout son sens.

En 1930, Gustave Cohen, professeur à la faculté des Lettres de Paris « résume » dans un article des Nouvelles littéraires le phénomène nouveau qu'est l'entrée des femmes à l'Université et la crainte que suscitent ces nouvelles femmes que sont les étudiantes :

Si on me demandait, quelle est la plus grande révolution à laquelle nous avons assisté de nos jours, depuis la guerre, je ne dirais pas que c'est la mode des cheveux coupés, et des jupes courtes, mais l'invasion de l'Université par les femmes, où rarissime au temps de ma jeunesse, il y a trente ans, elles ont été d'abord tiers, puis moitié, puis les deux tiers, au point qu'on se demande avec inquiétude si, après avoir été jadis, nos maîtresses, elles ne vont pas devenir nos maîtres. »

 

Daniel Teixeira

 

Continuação

 

 

 

 

 

 


UK Web Hosting

Desde 25 de Outubro 2003 e quando o contador Bravenet apresentava cerca de 72.500 visitas