CANTARÃO OS GALOS Cantarão os galos, quando morrermos, e uma brisa leve, de mãos delicadas, tocará nas franjas, nas sedas mortuárias. E o sono da noite irá transpirando sobre as claras vidraças. E os grilos, ao longe, serrarão silêncios, talos de cristal, frios, longos ermos, e o enorme aroma das árvores. Ah, que doce lua verá nossa calma face ainda mais calma que o seu grande espelho de prata ! Que frescura espessa em nossos cabelos, livres como os campos pela madrugada! Na névoa da aurora, a última estrela subirá pálida. Que grande sossego, sem falas humanas, sem o lábio dos rostos de lobo, sem ódio, sem amor, sem nada ! Como escuros profetas perdidos, conversarão apenas os cães, pelas varzeas. Fortes perguntas. Vastas pausas. Nós estaremos na morte com aquele suave contorno de uma concha dentro da água. Cecília Meireles Melhores Poemas, Global Editora, 1997 |