Texto de Ph. E. Souchard, extraido da Revista Fisio&Terapia
|
|
|
A contração muscular concêntrica - suas conseqüências
Um músculo que se contrai aproxima suas extremidades. Mesmo
quando fazemos um gesto de grande amplitude cuja ação parece estar voltada para o exterior, o motor é uma contração muscular concêntrica. Em posição ereta, a atividade tônica dos nossos
fusos neuro-musculares é igualmente concêntrica. Não é de se estranhar que se desenvolvam patologias musculares de retrações e rigidez, e isto principalmente a nível dos grupos musculares
mais tônicos e mais solicitados.
Músculos da estática - Músculos da dinâmica
Para garantir a sua função anti-gravitária, nossos músculos da estática
possuem tecido conjuntivo em forte proporção e um tônus importante. Os músculos da dinâmica, ao contrário, são pouco fibrosos e o seu tônus é fraco. Compreende-se então que estes últimos
possam ser vítimas de relaxamento excessivo e de hipotonia. Os abdominais oferecem, às vezes, um exemplo disso. Em compensação nossos músculos da estática, mesmo quando são agredidos, jamais
podem permitir-se relaxar. A posição ereta, função hegemônica, não seria mais assegurada. À exceção das paralisias flácidas, nossos músculos anti-gravitários reagem através da hipertonia,
acarretando encurtamento e rigidez.
A fisiopatologia dos nossos músculos é então inversa, segundo se trate de músculos de caráter mais dinâmico ou mais estático.
Nos dois casos trata-se de uma fraqueza. Se existe um excessivo relaxamento, compreende-se logo. Mas há igualmente perda de força em caso de hipertonia, pois
a força ativa de um músculo é diretamente proporcional à sua flexibilidade. Um músculo que se pode estirar menos vai encurtar-se menos quando se contrair. A fisioterapia clássica compreendeu
isso, em parte, pois ela propõe flexibilizações. Mas estas não fazem musculação e, quando é preciso também desenvolver o músculo, após uma imobilização gessada, por exemplo, acrescenta-se à
flexibilização exercícios de musculação isométrica ou isotônica concêntrica. Há aí uma contradição, pois esses exercícios encurtam o músculo que já está encurtado demais.
A única solução que permite associar o alongamento do músculo além do seu ponto de rigidez e, ao mesmo tempo, o seu desenvolvimento, é a musculação isotônica excêntrica.
Depois de decoaptar as articulações, a REEDUCAÇÃO POSTURAL GLOBAL estira os músculos da estática contra uma pequena resistência, permitindo-lhes assim recuperar comprimento, flexibilidade
e força ativa.
O paradoxo dos músculos eretores que achatam
A gravidade é uma força que se exerce verticalmente de cima para baixo. Para eregir-se, é preciso então opor-lhe uma força igual a de sentido inverso. Para isso precisaríamos
de um músculo externo que se prenderia ao teto e tracionaria a cabeça e o corpo para o alto. Se eu me permito esta brincadeira tola, é para melhor colocar em evidência que não somente nossos músculos são
internos, quase verticais, como também que eles funcionam a partir de pontos fixos inferiores: os pés, quando estamos de pé; a bacia, quando estamos sentados. É preciso então manter-nos eretos, com músculos
cuja ação se exerce no sentido da gravidade! Isto só é possível graças a alavancas inter-apoio, com a ação dos músculos da estática exercendo-se do lado oposto ao da força da gravidade.
É assim que o tríceps sural mantém a verticalidade da perna contra a gravidade que se exerce na frente, graças a um apoio sobre o astrágalo. Os ísquio-tibiais fazem o mesmo em relação ao ilíaco,
por um apoio sobre a cabeça da fêmur. Os espinhais, quanto a eles, apoiam-se sobre o disco inter-vertebral para transformar sua ação vertical descendente em força anti-gravitária etc. Isto significa que nossas
articulações que servem de pontos de apoio, recebem não somente o peso do corpo, mas igualmente a ação combinada das massas e dos músculos destinados a lutar contra o seu desabamento.
Esses mecanismos complexos geram seu próprio inconveniente: o ponto de apoio encontra-se comprimido ao mesmo tempo pela gravidade e pela própria ação dos músculos anti-gravitários. Paradoxalmente, nossos
músculos eretores nos achatam.
O primeiro gesto terapêutico fundamental em fisioterapia consiste, portanto, em uma decoaptação articular, com tração no maior sentido do músculo,
visando recuperar o espaçamento intra-articular normal.
As cadeias musculares
Toda nossa coordenação motora é regida por conjuntos musculares, dinâmicos para o movimento, estáticos para a posição ereta (e também para o movimento). Por comodidade, esta realidade
anátomo-fisiológica é chamada cadeia muscular. O que dá a melhor ilustração disso, para quem aborda pela primeira vez essa noção, é a organização dos nossos músculos espinhais. Trata-se de um conjunto músculo-fibroso
coerente, de vocação estática, que se estende desde o sacro até o occipital. O caráter inextensível desses músculos faz com que qualquer tentativa de alongamento da nuca, por exemplo, se traduza em uma compensação em
hiperlordose lombar ou uma diminuição da cifose dorsal. O comprimento tomado em uma extremidade é compensado em outro lugar da cadeia. Pode-se tentar a experiência inversa, tentando alongar a massa comum.
Isto não é privilégio dos nossos músculos espinhais, mas corresponde ao comportamento de todas as nossas cadeias musculares estáticas. Quando somos confrontados ao encurtamento de qualquer
dos nossos músculos estáticos, a tentativa de alongamento deste provocará compensações à distância que terão de ser impedidas, sob pena de sermos ineficazes. A noção de cadeia muscular coloca-nos já no caminho da
globalidade.
Individualidade, causalidade, globalidade
A REEDUCAÇÃO POSTURAL GLOBAL não é um método paliativo. Efetivamente, graças à globalidade de seus
estiramentos, ela permite chegar do sintoma até a causa do problema. Outra de suas características é de aplicar-se, ao mesmo tempo, aos problemas lesionais articulares (microscópicos). A adaptação a cada indivíduo
é constante, uma vez que se cada um é rígido, não o é nos mesmos lugares e a patologia que decorre disso é sempre pessoal. Nós tratamos doentes e não doenças.
As posturas
A diversidade das afecções vai acarretar a necessidade de diferentes posturas de estiramento isotônico excêntrico para corrigir os problemas
músculo-esqueléticos que afetam nossas cadeias musculares. Elas se agrupam em quatro famílias. Estas famílias são as seguintes:
Tendo em conta a diversidade dos casos clínicos, o terapeuta vê-se obrigado a insistir sobre a correção de um ou outro segmento. Isto se faz sempre, é obvio, durante uma tração global das cadeias
musculares implicadas.
Mas é imperativo em casos de cervicalgias, por exemplo, poder corrigir com precisão a nuca ou, em casos de ciatalgia, poder estirar mais particularmente a região lombar. Isto levou-me a propor,
cada vez que é possível, várias posturas em cada família. Cada uma delas apresenta possibilidades de correção fina de determinadas cadeias musculares colocadas em tensão.
Bases neurológicas
A REEDUCAÇÃO POSTURAL GLOBAL põe em jogo o reflexo miotático inverso, trata-se então de um método proprioceptivo de inibição.
Princípios de aplicação
A duração de uma consulta de RPG é de cerca de uma hora. Na maioria dos casos o fisioterapeuta faz praticar duas posturas. A frequência
das consultas, nos casos crônicos, é de uma por semana. Nos casos agudos, ela pode ser de dois
em dois dias.
Interesse e limites
Embora em desacordo com os princípios da reeducação clássica, a REEDUCAÇÃO POSTURAL GLOBAL, RPG, é um método puramente fisioterápico. Seu
campo de aplicação é então o mesmo: problemas morfológicos, reumatismais, pós-traumáticos e neurológicos. É sem dúvida no domínio da correção das anomalias morfológicas que a RPG conquistou seus maiores louros.
As posturas são aplicadas de maneira suave, progressiva e com a participação ativa do paciente. O fisioterapeuta praticante da RPG encontra maior dificuldade quando não pode obter uma cooperação suficiente: é o caso de
crianças muito pequenas e pessoas com grande comprometimento psíquico ou intelectual.
Enfim, baseada sobre o proprioceptivo de inibição, a REEDUCAÇÃO POSTURAL GLOBAL é ipso-facto muito
limitada nos casos de paralisias flácidas.