Site hosted by Angelfire.com: Build your free website today!

E assim se passaram 15 anos...

(15 anos de Axé Music)

 

 

O precursor foi Luiz Caldas, rei do fricote, em cima do trio do Camaleão, cantava a música "nega do cabelo duro / que não gosta de pentear...". Estava ele com a guitarra a tiracolo, cabelos cacheados, brincos fartos e uma aversão a qualquer tipo de calçado que não as próprias sola dos pés. Que mais tarde tornaria sua principal característica, cantar descalço. Ao lado do rei do fricote tinha a rainha do deboche, Sarajane "...vamos abrir a roda / enlarguecer...". Inaugurava-se uma nova era para o carnaval da Bahia.

A Axé Music nasceu de uma mistura de ritmos, um verdadeiro liquidificador girando e mesclando o som tradicionalismo do frevo trielitrizado de Dodô & Osmar (os pais do trio elétrico). Vinham também uma nova orientação para os ritmos do Caribe e da África com o indispensável tempero baiano. Se juntava num trio elétrico a guitarra baiana e a percussão, para mais tarde o som ser exportado para todo o mundo.

O nome Axé era a palavra de ordem no qual os vocalistas gritavam de cima do trio: "Axé, rapaziada!". Estava formada , então, a Axé Music, ritmo contagiante, nascido em pleno carnaval da Bahia de 1985. A denominação cabia tanto para a música dos blocos afro, como para os blocos com bandas de trio - samba, reggae, ijexá, frevo, fricote, galope, merengue - foram os ritmos fundidos que ganharam a projeção nacional.

A Música Baiana descobriu muita gente boa, que antes cantava em barzinhos e foi só subir num trio elétrico para sair do anonimato. Como a rainha do Axé, Daniela Mercury que começou a carreira disputando uma vaga na banda Cheiro de Amor e perdendo para Márcia Freire, depois foi fazer backing vocal na banda Pinel, banda que tinha Ricardo Chaves como vocalista e Durval Lélis como guitarrista. Cantou na Companhia Clic, banda que mais tarde Carla Visi também se tornaria cantora, e daí para a carreira solo, para o sucesso! O Brasil todo cantou: "não me abandone / não me desespere / que eu não posso ficar sem você...", "a cor dessa cidade sou eu / o canto dessa cidade é meu...". E ela tornou-se essa explosão de energia que o mundo todo conhece. A rainha da Axé Music, tinha virado uma Paixão Nacional!

A primeira safra de artistas tinham nomes até hoje consagrados, o próprio Luiz Caldas e a banda Acordes Verdes; Sarajane; Gerônimo com seu tempero afro-caribenho, cantava "Eu sou negão, Jubiabá, É d'Oxum"; a banda Reflexu's atingiu uma vendagem de 700 mil cópias, tendo à frente uma cantora negra entoando as canções étnicas; Margareth Menezes com seu vozeirão na música O Faraó divulgava outra tendência que mudaria os rumos da música baiana - o samba-reggae, explorado por blocos afros como Olodum , Ilê Aiyê, Ara Ketu e Muzenza. O Olodum, particularmente, lançava febre nova, sublinhando as evoluções da música percurssiva com um forte discurso político. Sem dúvidas, o Olodum é um ícone da música internacional, estrelas do pop mundial querem pôr em suas canções as batidas fortes, como foi o caso de Michael Jackson, Paul Simon, Jimmy Cliff, além de Rick Martin, o ex-menudo que invadiu as paradas musicais de todos os países quer colocar o som contagiante do grupo baiano em seu próximo trabalho.

O Ilê Aiyê da liberdade foi criado em 1974, por um grupo de negros moradores do bairro da Liberdade em Salvador (o maior bairro de negros do Brasil), foram os primeiros a manifestarem sinais da consciência de negritude, e eles demonstravam isso através das roupas, dos cabelos, da linguagem e sobretudo da sua capacidade de organização. O Ara Ketu de Periperi surgiu em 1980, trazendo a força da africanidade. Foi o primeiro bloco de percussão a colocar o som das cordas e do sopro. E o Muzenza criador do samba-reggae, a fusão do reggae que se distribui nos instrumentos de percussão que fazem o samba-duro.

Uma outra tendência é a mudança do verbo da alegria que deixou de ser pular e passou a ser dançar. Surgiram as danças coreografadas, veio a da Galinha, do Jegue, do Crocodilo, da Tartaruga, Manivela, Vampiro... As coreografias ganharam um toque feminino, os grupos de pagode colocaram mulheres, loiras, morenas, mulatas, ruivas para quebrarem e requebrarem em cima do palco e ganharam mais espaço, principalmente na mídia nacional.

Vieram Chiclete com Banana que mesmo perdendo seu bandleader Missinho, seguiu e conseguiu se transformar numa banda sinônimo de alegria e folia, ninguém fica parado com Bell Marques cantando. A Banda Mel, hoje Bamdamel e suas várias formações iniciava uma longa série de melotemas carnavalescos cuja maior expressão foi Prefixo de Verão "...quando você chegar / numa nova estação / te espero no verão / salve Salvador...". A Cheiro de Amor, com o furacão loiro Márcia Freire, seguia caminho semelhante, e em 1987 lançaram o hit Auê "é um auê ê / encontrar você / pra poder fazer um carinho em mim..." e a música baiana conquistava o Brasil.

Surgiram a Asa de Águia com Durval Lélis que deu um toque rock à música carnavalesca. A Banda Beijo apresentava Netinho, garoto talentoso do interior que trazia a linha bom moço e de forte empatia com o público feminino. Era a personificação mais perfeita da Axé Music: brejeira, galopante...

O som percussivo junto a instrumentos de corda e de sopro do Ara Ketu de Tatau, a Timbalada criada por Carlinhos Brown, o pai e o filho do Candeal ganharam o mundo.

O som da música baiana ganhou novas vozes: Ivete Sangalo conquistou o Brasil com seus hits Flores, Beleza Rara, e banda Eva tem a sua frente hoje Emanuelle Araújo, a garota insinuante! Banda Beijo resurgiu com uma menina moleca lançando moda, Gilmelânia, ou melhor Gil. Márcia Freire saiu da banda Cheiro de Amor para a carreira solo, Carla Visi, uma bela morena com uma voz estonteante ocupava o seu lugar frente a uma das bandas precursoras da Axé.

Vieram os grupos de pagode e se integraram ao ritmo alucinante da Bahia. O Gerasamba, virou o É o Tchan de Carla Perez, Scheilas e cia limitada, Terrasamba e seu vocalista Reinaldo, Companhia do Pagode, Gang do Samba, Patrulha do Samba, Bom Balanço, Raça Pura, Pega no Compasso... A Axé Music ganhava novos representantes. Para uns um som de baixo nível, para outros uma paixão!

As micaretas, carnaval fora de época, se proliferaram por todo o país, sua primeira edição foi em Feira de Santana/BA, depois veio o CarNatal/RN, Recifolia/PE, Fortal/CE, Maceió Fest/AL, Pré-Caju/SE, CarnaSampa/SP, Rio Elétrico/RJ, entre outras muitas espalhadas pelo Brasil. E esse carnaval conquistou o mundo, que se rendeu ao ritmo contagiante genuinamente baiano.

O carnaval da Bahia é considerado o melhor do mundo, a mistura deu certo: trio elétrico, som contagiante e forte, uma voz carismática e uma verdadeira multidão de foliões de vários lugares, de várias crenças. Todo o planeta requebra ao som da Axé Music: Festival da Música Baiana em Montreaux (Suíça), Festival na Alemanha, Suécia, Itália, carnaval no México, Estados Unidos, Portugal, Argentina, Japão, Chile França, Inglaterra, Espanha.

No carnaval em que o ritmo baiano debutou surgiram, como todos os anos, dois grupos que fizeram sucesso e explodiram por todo país, são eles: o vem neném do Harmonia do Samba, e seu band leader Xandi, e o grupo composto basicamente por mulheres, As Meninas tendo como vocalista Carla Cristina que sacudiu todo o Brasil com o mega hit Xibom Bombom.

E assim se passaram 15 anos de folia, 15 anos de axé music da Bahia!

 

FABIANO SAMARTIN