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As causas da doença de Alzheimer


Ana Gerschenfeld

Para desenvolver um tratamento contra uma doença e definir estratégias preventivas susceptíveis de adiar ou de impedir o seu aparecimento, é indispensável saber o que provoca essa doença. Mas, apesar dos investimentos feitos na investigação da doença de Alzheimer, ainda ninguém sabe o que a causa. Ao longo dos anos têm surgido muitas teorias diferentes sobre a origem da doença de Alzheimer. Teorias que vão da responsabilização de certas subst‰ncias tóxicas presentes no ambiente aos traumatismos cranianos, passando pela herança genética e até pelo nível de educação. Algumas destas hipóteses são bastante controversas, mas há cada vez mais especialistas convencidos de que o que provoca esta terrível demência senil é de facto uma complexa combinação de diversos factores internos e externos. Existem duas formas de Alzheimer: uma dita precoce, porque atinge pessoas com menos de 50 anos de idade - às vezes com pouco mais de 30 anos -, e uma tardia, que afecta as pessoas idosas. A forma precoce é a mais agressiva, mas também é a mais rara (entre um a 10 por cento dos casos) e a mais claramente de origem hereditária. Quanto à tardia, que constitui a esmagadora maioria dos casos, tudo indica hoje que ela possui uma componente genética. Mas a contribuição dos genes para o seu aparecimento está ainda longe de estar totalmente esclarecida. Seja como for, a doença de Alzheimer traduz-se sempre por uma terrível demência senil que acaba por retirar às suas vítimas a própria capacidade de se lembrarem quem são. Ao nível celular, os estragos que a doença causa no cérebro, visíveis apenas na autópsia, são característicos e facilmente identificáveis. A presença de depósitos proteicos anómalos nas células nervosas - as chamadas placas senis, cujo ingrediente principal é a proteína beta-amilóide - e de "emaranhados" de fibras dentro das células assinalam a destruição a que foram sujeitas as regiões do cérebro implicadas na memória e nas capacidades cognitivas. No entanto, apesar do estudo a que têm sido sujeitas estas estruturas anómalas, ninguém sabe ainda se elas são uma causa ou uma consequência da doença. Dos eventuais factores ambientais susceptíveis de a causar, o alumínio - presente na água que bebemos, nos alimentos cozinhados em recipientes desse metal e nos medicamentos que combatem a hiperacidez gástrica - foi durante anos um dos candidatos favoritos dos especialistas. Mas, embora continue na lista de suspeitos, ninguém se sente capaz de garantir que ele contribui para o aparecimento da doença de Alzheimer. Um outro metal que também já foi apontado como possível responsável é o zinco. Mas também aqui as provas são insuficientes. Num outro registo, os traumatismos cranianos também são considerados como possíveis factores externos de risco. Estudos recentes parecem indicar que as pessoas que sofreram uma pancada na cabeça que provocou uma perda de consciência poderão correr um maior risco de contrair Alzheimer do que as outras. Mas aqui também, mais uma vez, não há certezas. Uma outra teoria de relevo sugere que as pessoas com maior nível de educação talvez sejam menos propensas a contraírem Alzheimer - uma tese reforçada por resultados recentes, que indicam que o nível de instrução pode adiar a manifestação dos sintomas da doença. A ideia dos seus defensores é que quanto maior o nível de instrução, maiores os recursos intelectuais e maior a capacidade de uma pessoa continuar a funcionar apesar de o seu cérebro estar doente. Porém, também existem resultados que parecem mostrar que este factor não tem qualquer influência directa na matéria. De longe, o resultado mais amplamente e sistematicamente confirmado diz respeito à genética. Cientistas norte-americanos identificaram em 1992 um gene que parece conferir aos seus portadores uma propensão acrescida para contraírem Alzheimer. Dá pelo nome de ApoE e existe, na população humana, sob várias formas, respectivamente, designadas por ApoE2, ApoE3 e ApoE4. E acontece que um grande número de estudos no mundo têm vindo a confirmar que, estatisticamente, os portadores da variante ApoE4 do gene apresentam um maior risco de desenvolverem Alzheimer. É preciso constatar porém que, apesar dos esforços que têm sido feitos na investigação da doença, nenhum destes resultados permite por enquanto vislumbrar uma estratégia capaz de a tratar eficazmente, de adiar a sua progressão ou de prevenir o seu aparecimento. Mais: os especialistas pensam que existem factores de risco para a doença que ainda não foram sequer identificados. Neste oceano de incertezas, uma nota positiva poderão, no entanto, ser os resultados preliminares, revelados há poucas semanas, que indicam que as mulheres idosas - as vítimas predilectas da doença de Alzheimer, uma vez que vivem em média mais tempo que os homens - talvez possam ser protegidas contra a doença por um tratamento à base de estrogénios, as principais hormonas sexuais femininas.

in Jornal Público

Artigos publicados durante o ano de 1996 no Jornal Público

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