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Na Quinta da Princesa agora há mais quem goste da escola
 

 

É difícil aceitar que "violência em contexto escolar" tivesse sido "a problemática" que trouxe o programa Escolhas à escola de 1º ciclo do bairro da Quinta da Princesa, concelho do Seixal. As crianças não têm mais de oito ou nove anos, jogam à bola, saltam à macaca, brincam com as tranças uma das outras, fazem corridas com motos de plástico em miniatura.

A certa altura, passam a disputar a atenção de quem lá entra pela primeira vez, atropelam-se a dizer o querem ser quando forem grandes, antecipando a clássica pergunta, que vem logo a seguir àquela do "quantos anos tens?".

É difícil aceitar que, em tempos, aquele recreio tenha sido cenário de violência entre crianças e de alunos para com funcionários. Foi uma criança da escola que matou uma cadela prenhe e da brincadeira também fez parte enterrarem-lhe os filhotes - conta, como uma história remota, Pedro Calado, um dos coordenadores do programa de prevenção da criminalidade juvenil do Escolhas no concelho de Setúbal e Seixal.

Não quer dizer que tudo tenha mudado, mas "o ambiente está diferente", afirma. Uma das peças do "puzzle" (são várias as instituições sociais com intervenção no bairro) para esta mudança terá sido o Escolhas, que recebeu, no último mês do ano, um prémio da Rede de Prevenção da Violência do Conselho da Europa. O exemplo de boas práticas foi o projecto "Tutores de bairro", levado a cabo na Quinta da Princesa.

O Escolhas foi criado em Janeiro de 2001 e destina-se à prevenção da criminalidade e inserção de jovens de 53 bairros vulneráveis dos distritos de Lisboa, Setúbal e Porto.

Na escola da Quinta da Princesa, lê-se no quadro de ardósia: "Nos no ta travesa na passadeira; Nós atravessamos na passadeira; Nós no tâ arruma armário; Nós arrumamos o armário." Na sala de aula trabalha-se um dicionário de português-crioulo.

Leandro, nove anos, um dos poucos "lusos" - designação que o pessoal da escola pediu de empréstimo às estatísticas do Ministério da Educação, para distinguir estes alunos dos portugueses de origem africana - da sala de aula fala crioulo fluntemente.

Num bairro onde os "lusos" são uma minoria, Leandro viu-se a certa altura rodeado de meninos a dizer coisas que não percebia. Tinha um amigo, Milton, com quem se dava melhor e a quem pediu que o ensinasse. Leandro conta que o crioulo é a sua linguagem de rua, a dos amigos. Em casa fala português, senão os pais põem-no de castigo.

Na escola de 1º ciclo da Quinta da Princesa, 80 por cento dos alunos são de origem cabo-verdiana, 15 por cento têm outras origens africanas e cinco por cento são portugueses, explica a professora Eugénia Henriques.

A ajudar na tarefa de copiar as duas frases que estão no quadro está Luísa Semedo, de 21 anos, uma das "tutoras" do Escolhas recrutadas no bairro. O seu percurso profissional passou por fazer bolos numa pastelaria; hoje, "protejo", diz. O bairro é uma aldeia, conhece os percursos de quase todos aqueles com quem se cruza diariamente.

Por todos os jovens se juntarem no pólo comunitário da Quinta da Princesa, vê-os como família. Por isso não é muito difícil apontar caminhos e falar aos mais novos dos que conhece e se "perderam" porque estão presos, morreram, entraram no mundo da toxicodependência...

Mas esses têm as mesmas idades dos jovens que Luísa apanha mais à frente, no 2º ciclo. Quanto aos mais pequenos, os que viu nascer e crescer, a sua principal tarefa é estimular o gosto pela escola.

Menos insucesso

Uma enorme roda de miúdos junta-se em torno de Sandra, a outra tutora. Ela explica como veio aqui parar. Esteve ao balcão de uma loja de produtos africanos na Cruz de Pau, ficou-se pelo 10º ano. "E por que é que não continuaste?", interrompe o pequeno Pedro, que diz que a mãe está a fazer o 12º ano. "A minha tia está no 3º ano da faculdade e nunca chumbou e eu quero ir estudar para fora...", disputa Jessica.

O despique continua: "A minha avó também está a estudar". O grupo começa a rir e alguns perguntam, galhofeiros: "a tua avó?". A neta responde com naturalidade e diz que a avó estuda na mesma escola que eles, só que é à noite. "Também estuda língua portuguesa e matemática? E estudo do meio?", pergunta outra criança, já sossegadas as gargalhadas.

A tutora Sandra nasceu e cresceu na Quinta da Princesa e diz que não se importava de "viver aqui sempre". Mas isso não significa que queira que tudo fique como está. "É preciso mudar as mentalidades": dos que desistem, dos que ficam por ficar, dos que param de estudar, dos que se fecham nas suas línguas.

O trabalho mais difícil é "fazer a ponte" com o 2º ciclo de escolaridade.

Nessa altura, a escola deixa de ser como a dos primeiros quatro anos, um sítio onde se juntam caras conhecidas, basta atravessar a estrada. No 2º ciclo há pessoas estranhas, mais regras a cumprir e os alunos têm que ir a pé para a escola, na Amora. À terceira negativa chumbam e essa é uma das regras mais difíceis de cumprir.

O trabalho de Sandra passa por tornar a passagem entre os dois ciclos suave e definitiva, lembrando aos alunos os testes marcados, ajudando-os a fazer trabalhos de casa. O número de alunos que abandonaram precocemente o 6º ano passou de seis, em 2001, para nenhum em 2003, afirma o coordenador do Escolhas no bairro, Pedro Calado.

Pedro está na rua e uma cabeça está à espreitar no terceiro andar de um prédio de tinta desbotada. Pergunta "pelos bombeiros". Pedro passa a explicar. Houve "uma negociação": se ele tivesse menos de duas negativas, teria direito a conhecer o quartel de bombeiros. Ganhou. Esta é uma forma de motivar quem recebe pouco incentivo dentro de casa. Os responsáveis pelo Escolhas afirmam que desde 2001 o insucesso escolar baixou de 32,5 por cento para 11 por cento.

 

Artigo originalmente publicado no Jornal Público de  04/01/04

 

 

 

 

 

 

 

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