CHAVES

O sardento menino de rua, órfão,
esfomeado que dá nome ao seriado. Roupas gastas, remendadas, maiores do que ele
mesmo. Chaves é um garoto travesso, atrapalhado, meio tonto, mas com um enorme
coração. No entanto, passa dias sem comer, o que lhe provém esta fome
absurda, que o faz aprontar mil e uma em troca de mais um sanduíche de
presunto.
Chaves vive dentro de um barril no pátio da Vila. No entanto, o garoto diz que
aquele é seu esconderijo secreto, onde ele se refugia para escapar dos coques
que o Seu Madruga lhe dá todas as vezes que ele pergunta algo estúpido sobre a
vovozinha de Seu Madruga. Ou então ele se mete no barril para chorar, para
esquecer a tristeza... Diz ele que realmente mora é na casa oito, no outro pátio
da Vila, mas no entanto ninguém nunca viu esta tal casa. Toda as vezes que alguém
resolve perguntar com quem ele mora ou qual é o verdadeiro nome dele, vem outra
pessoa e interrompe a conversa, mantendo este assunto sempre um mistério.
Chaves é sonhador, sensível, companheiro e leal, e vê na figura pateta do seu
Madruga o pai que ele nunca teve. Mas ele também é corajoso e muito briguento,
dadas todas as vezes que ele corre atrás de Quico para lhe dar umas
vassouradas. Carismático, o garoto atrai o carinho de todos ao seu redor e,
apesar de todas as brigas e ressentimentos, ele é adorado por todo mundo na
Vila... até mesmo pelo Senhor Barriga, que sempre leva uma pancada de Chaves
quando entra na vila.
Como é um garoto pobre, tenta se divertir com o que tem a mão, como a vassoura
que consegue equilibrar no pé ou o bilboquê de lata que ele mesmo fez. Também
é muito comum vê-lo com um estilingue, caçando lagartixas. Mas vez por outra
ele toma emprestado um dos brinquedos do Quico, e lá está ele rodando no
triciclo ou imaginando ser o Pelé com a bola nos pés. E a imaginação é uma
das principais virtudes deste garoto: só ele pra pensar em uma Chinforínpula,
Churruminos ou numa Cholofompila...
É perdidamente apaixonado pela menina Paty, que mora no apartamento 21, acima
das escadarias atrás de seu barril. Toda vez que ele fica assustado, seja com
as histórias de terror da Chiquinha ou com a cara da Bruxa do 71, ele tem um
"piripaque". Ele começa a endurecer, a ficar paralisado, até ficar
parecendo uma estátua. Não tem outro jeito de tirá-lo deste estado a não ser
jogar um pouco de água no seu rosto. Água logo com ele, que não é exatamente
um adepto de banhos ou mesmo de se lavarem as mãos...
Sua pobreza o obriga a trabalhar mais cedo. Seja como engraxate, como garçom no
finíssimo restaurante da Dona Florinda, varrendo o pátio da Vila, ou até
mesmo recolhendo garrafas vazias para vender ao dono da venda da esquina. Mas é
esta eterna luta pela sobrevivência, em busca de comida, sem perder a determinação
e a ternura, que fazem Chaves ser um garoto tão amado.
Frases Características: "Ninguém tem paciência comigo...";
"Tá bom, mas não se irrite..."; "Isso, isso, isso!";
"Pipipipipipi... (choro)"; "Foi Sem Querer Querendo...".
Chaves
é uma criança com fome"
Graças ao personagem Chaves, de enorme apelo entre as crianças,
o mexicano Roberto Gómez Bolaños, de 70 anos, ficou conhecido em 120 países.
No Brasil, o programa Chaves passa há dezesseis anos no SBT e é até
hoje a maior audiência das tardes da emissora, com a média de 11 pontos no
Ibope. O canal de Silvio Santos acaba de comprar um pacote com programas inéditos
de Bolaños, que serão exibidos no ano que vem com o nome de Clube do Chaves.
No México, o humorista está aposentado da televisão há cinco anos. Hoje,
roda o país fazendo um espetáculo humorístico de teatro em que aparece sem
fantasia. "Não tenho mais a mesma desenvoltura e agilidade do
passado", diz. Na Cidade do México, Bolaños vive em uma confortável casa
de 300 metros quadrados, onde mora com a esposa, Florinda Meza (a dona Florinda
de Chaves), ex-mulher de Carlos Villagrán, o rechonchudo Kiko do
programa. É curioso que três personagens de uma atração infantil tenham sido
vértices de um triângulo amoroso. Bolaños recebeu VEJA na semana retrasada,
momentos depois do terremoto que sacudiu o México:
Veja
– De onde surgiu a inspiração para o personagem Chaves?
Bolaños
– Foi só olhar em volta. Existem várias favelas na América
Latina, as diferenças sociais são muito grandes. O Chaves é uma criança que
não cresce porque não come. O personagem faz sucesso em qualquer lugar do
planeta onde haja fome.
Veja
– O senhor tem doze netos. Quantas horas por dia uma criança
deve passar na frente da televisão?
Bolaños
– Acho que as crianças assistem a mais televisão do que
deveriam. Mas essa é uma questão complicada. Em países como o México –
e imagino que no Brasil seja assim também –
a televisão é a grande babá da garotada.
Veja
– Sendo assim, os programas infantis não deveriam ter maior
conteúdo educativo?
Bolaños
– Isso deveria estar a cargo das emissoras governamentais. Quem
tem o objetivo de divertir não tem a obrigação de educar. Não é função do
Chaves ensinar qual é a capital da França.
Veja
– Que cuidados deve ter um humorista cujo público é composto
basicamente de crianças?
Bolaños
– Sempre evitei fazer piadas com raças, religiões, opções
sexuais e mulheres. Aliás, nos meus programas as meninas sempre são mais
inteligentes. No Chaves, era a Chiquinha quem sempre arquitetava os
planos mirabolantes.
Veja
– Existe uma nova safra de comediantes no México que apela
para o humor chulo. Como o senhor vê isso?
Bolaños –
Não me agrada nem um pouco. Mas acho que essa fase é
passageira. Quando sobram piadas chulas, é porque falta talento. E gente sem
talento tende a sumir rápido.