
A CRISE DAS BOAS MANEIRAS

Há gente que age como se tivesse a prerrogativa de ser grosseira
|
Walcyr Carrasco |
Comentário: Essa matéria foi publicada na revista Veja SP de 24 de novembro de 1999, na página 146. Walcyr Carrasco fez uma abordagem bem humorada de um assunto que na verdade não tem nada de engraçado. Realmente as pessoas estão cada vez mais mal educadas, e por mais explicações que psicólogos, sociólogos, antropólogos e outros "logos" procurem, na verdade basta apenas uma coisa. Educar os pais, ao invés dos filhos. Parabéns Walcyr, pelo artigo e espero poder ver em breve outra publicação sua.

...Toca a campainha. Um amigo vem me visitar, de surpresa. Odeio visitas inesperadas. Trabalho em casa, nem sempre tenho tempo. Mas sorrio. Observo enquanto ele se senta no sofá. Sentar não seria o verbo mais apropriado. Escarrapachar, sim. É estranho dizer "Eu me escarrapacho, tu te escarrapachas, ele se escarrapacha..." Pois bem, ele se sentou. Uma lagartixa seria mais elegante. A espinha do indivíduo parecia um macarrão cozido. Nem sentado, nem deitado, uma posição estranhíssima. Parecia à vontade. Quem não se sentia à vontade era eu. Como receber alguém que se instala no sofá com ar de dono da casa? Perguntou:
- Tem alguma coisa para beber?
Ainda não oferecera por falta de tempo. Enumerei as alternativas, de café a cerveja. Aceitou o café. Conversamos amenidades. Despediu-se sorridente.
- Foi legal ter vindo. Sabe, eu não me sentia tranqüilo para aparecer sem telefonar. Agora sei que tudo bem.
Não resisti.
- Prefiro que você telefone, sim.
Foi uma saia justa. Fico espantado. As pessoas parecem ter perdido qualquer noção de boas maneiras. Houve um tempo em que vovós tinham varetas para bater nas costas das senhorinhas até que ficassem eretas na cadeira. Um exagero. Hoje, as pessoas aboletam-se como se fossem feitas de geléia. Com o pretexto de ser descontraídas, forçam uma intimidade que não existe. São capazes de entrar na casa de alguém que mal conhecem e abrir a geladeira sem ser convidadas a isso. Certa vez, chamei um conhecido recente para beber alguma coisa após o almoço. Chegou às 2 da tarde e saiu às 10 da noite. Como nunca tínhamos conversado, ele fez um longo monólogo sobre sua vida. Soube quem foram seus pais, suas namoradas, suas dificuldades profissionais. A certa altura, parei de beber, para ver se dava um toque. Nada. Continuou bebendo sozinho. Eu me contorcia na cadeira. Quase gritei e dei duas cambalhotas. Quem sabe sairia correndo de medo de mim, o doido? Bocejei. Nada. Só partiu quando respondi com "hum hum" durante 45 minutos seguidos. Nunca me convidou para visitá-lo. Sempre que me encontra, diz que qualquer dia volta em casa para tomar uma cerveja. Assumo uma expressão tão gelada quanto um chope.
O pior é que os mal-educados agem como se tivessem a prerrogativa de tratar os outros com grosseria. Recentemente, estacionei meu carro na frente de uma loja. Estava entrando quando ouvi os gritos.
- Ei, gente boa!
Achei que não era comigo. Gente boa, eu? No meio da compra, vem o segurança.
- Você tem de afastar o carro.
Nem "por favor", nem "senhor". Não faço questão de certos tratamentos formais, mas ele estava me dando uma ordem! Respondi:
- Porque o senhor não me avisou quando eu ainda estava dentro do carro? Agora vou terminar a compra.
O homem enfureceu-se. Ameaçou. Vieram acalmá-lo. Pensei comigo mesmo: "Afinal o segurança está para promover insegurança?"Confesso: também fiquei nervosinho. Em casa refleti sobre o assunto. Por que, hoje em dia, somos capazes de discutir a troco de nada? Não faz muito tempo, marquei de sair para jantar. O convidado nem apareceu nem telefonou. Pensei em algum problema familiar. Ligou no dia seguinte:
- Sabe o que é... resolvi ir ao cinema.
E as pessoas que atrasam uma hora no compromisso sem dar satisfação? Chegam absolutamente tranqüilas, como se nada houvesse. Pior foi o caso de uma amiga minha. Convidou para o aniversário. Cheguei no domingo, de presentinho na mão. Bati. Demorou para atender. Finalmente, abriu a porta. Olhou-me surpresa. Entrei. Ninguém em casa.
- Acho que errei. Não é hoje seu almoço de aniversário?
Botou a mão na boca.
- Eu convidei você? Tinha esquecido!
Deu vontade de pegar o presente de volta! Ainda tive de levá-la a um restaurante e pagar a conta. Afinal, era o aniversário dela!
Segundo um amigo, a falta de educação é fruto de nosso modo de vida. Antes, batia-se na casa do vizinho para pedir açúcar emprestado. Hoje, basta ir a uma loja de conveniência. Tudo está mais ou menos à mão. Por não necessitar umas das outras, as pessoas deixaram de ser polidas. É pena. As pequenas gentilezas tornariam a cidade menos cinzenta.
