Revista
'Veja' - 13 de Abril de 1994
O último
show de rock
Morre
Kurt Cobain, líder do Nirvana, o astro da música que não
aguentou o próprio sucesso
Pouco antes do último disco do Nirvana chegar às lojas, em
setembro do ano passado, Kurt Cobain, guitarrista, cantor, compositor e
líder da banda que há dois anos se tornou a mais grande popular
estrela do rock, telefonou à gravadora e fez uma mudança
de última hora - tirou do repertório a faixa "I Hate Myself
And Want To Die" (eu me odeio e quero morrer). "O título era uma
piada, mas tive medo que o público levasse a sério", explicou
depois. Na semana passada, Cobain foi o primeiro a levar a sério
a piada da canção. Na sexta- feira, aos 27 anos, ele foi
encontrado morto, com um tiro na cabeça, num quartinho em cima da
garagem, de sua casa, em Seattle, cidade americana que ele próprio
entronizou no mapa da música pop com o sucesso de seu conjunto.
Ao seu lado, um revólver e um bilhete de despedida que terminava
com palavras dirigidas à sua mulher, a também cantora Courtney
Love, com quem deixa uma filha de um ano e meio: "Eu te amo, eu te amo,
eu te amo".
O desaparecimento de Kurt Cobain significa, para os jovens, o equivaleente
ao que representou a morte de Jimi Hendrix e Janis Joplin para o público
hoje querentão. Mais do que um cantor de sucesso, ele era uma das
figuras emblemáticas de sua geração e da música
pop dos anos 90. Assim como aqueles ídolos do passado, e outros
como os Sex Pistols, coube a Cobain o mérito de traduzir em música
e comportamento o modo de agir e os sentimentos de boa parte dos jovens
dos anos 90. Numa época em que a indústria do rock dirige
suas antenas apenas para as grandes atrações, que fazem da
música uma celebração à dança e à
alegria, o Nirvana surgiu há dois anos como o chato da festa, o
elemento de subversão que o gênero necessita de tempos a tempós
para continuar afinado com seu público.
Estilo lenhador - O rock de Cobain era sujo e ensurdeceror e seus
vocais, do tipo serra elétrica. Suas letras deixavam clara uma mensagem
de angústia e desalento, de descrédito no mundo e nas instiuições
- posturas que jovens de todas as gerações costumam adotar
a certa atura da via. No guarda- roupa, por fim, Cobain e o Nirvana consagram
a tendência antimauricinho adotada pela juventude americana na resaca
da febre yuppie dos anos 80. Ao se cobrir com camisas baratas - no caso,
estilo lenhador - , bermudões sem nenhum charme e tênis ou
coturnos velhos, eles validaram diante da moda o que os jovens americanos
estavam usando. Foi a partir deles que esse tipo de vestuário, e
por extensão o estilo musical do grupo, ganhou o apelido de "grunge",
gíria que sugere sujeira ou excesso.
A tragédia de Cobain é que ele jamais conseguiu conviver
com o estrelato e com o posto de ídolo e espelho da juventude. Astros
pop, quando alcançam o megasucesso, adotam em geral três tipos
de comportamento. Alguns passam a curtir sem problemas a condição
de novos milionários. Outros agem da mesma forma mas vivem dizendo-
se pressionados pelo sucesso, pelo assédio dos fãs e pelas
obrigações contratuais, o que se torna justificativa para
a excentridade - essa postura é considerada bom marketing. Um terceiro
tipo, porém, vê sua vida desgovernar diante da fama e da fortuna.
Esse foi o caso de Cobain. "Lamentavelmente, o peso do sucesso acabou matando-
o", comentou o empresário.
Assim que a carreira do Nirvana começou a decolar, nofinal de 1991,
Cobain tornou-se viciado em heroína. Até o fim da vida, alternou
períodos de mergulho na droga e de abstinência. Depois que
o segundo LP do Nirvana, 'Nevermind', catapultou o grupo para o primeiro
lugar das paradas de sucesso americanas, desbancando Michael Jackson e
vendendo oito milhões de cópias, Cobain começou a
fazer o oposto do que manda a cartilha do show bizz. Recusou- se a fazer
uma turnê de shows - quando poderia lotar ginásios e estádios
no mundo inteiro. Nas entrevistas, repetia como um disco arranhado a mesma
ladainha contra as gravadoras, contra o sucesso, contra tudo e todos. E
fez fama de desiquilibrado ao se comportar em público, sem motivo
aparente, com a polidez de uma rinoceronte.
Heroína na gravidez - Certa vez, ao ser abordado por um fã
adolecente disposto a fotografá- lo, cerrou os olhos e disse : "Eu
te mato". Em sua passagem pelo Brasil, no Hollywood Rock, há um
ano e meio, deu mostras de que, por trás do roquerio revoltado,
repousava uma personalidade suicida. "Eu não aguentou essa vida,
não vou sobreviver ao rock ´n´ roll", foi sua declaração
mais frequente, mesmo quando ninguém perguntava a respeito. Há
um ano, foi preso em sua casa, acusado de bater na mulher. Na ocasião,
os policiais encontraram em seu armário um pequena coleção
de armas. "Meu esporte favorito é o tiro", ele justificou na época,
embora nenhum dos amigos mais chegados tivesse conhecimento de hobby. "São
para defender minha família", preferiu dizer outra vez. Na semana
passada, Cobain usou uma dessas armas pela última vez.
A dificuldade de Kurt Cobain em conviver com o estrelato parece explicar-se
por sua própria trajetória de vida. Não é fácil
para um garoto de origem modesta, de uma cidade pequena do interior, ter
de uma hora para outra o mundo aos seus pés.Que o diga Elvis Presley,
viciado em bolinha até o fim da vida. Cobain, assim como o co-fundador
Chis Novoselic - o baterista Dave Grohl completa o grupo - , nasceu em
Aberdeen, uma cidade de lenhadores, hoje com 17 000 habitantes, perto de
Seattle, no estado de Washington. Seguindo seu relato, em Aberdeen a mentalidade
reinante é de que músicos de rock e homossexuais não
são muito diferentes. O pai de Cobain, mecânico de automóveis,
e sua mãe, secretária, separaram-se quando ele tinha oito
anos. Desde então, sucessivamente, morou com avós e tios.
Seu pai obrigou-o a alistar-se na Marinha. Um dia antes de sentar praça,
fugiu de casa, morou embaixo de uma viaduto e em casa de amigos, até
começar a ganhar alguns trocados tocando em bares. "Eu fiz de tudo
para ter um pai/ Mas só o que consegui foi um papai" - letras de
'Serve The Servants', do último LP do Nirvana.
Mesmo no casamento, através do qual muita gente consegue construiu
o lar que nunca teve, Cobain encontrou uma turbulência constante.
Sua mulher, Courtney Love, vocalista e guitarrista do grupo Hole - que
se proclama de tendência "neofeminista" - tem uma personalidade tão
agitada e destrutiva quanto a sua. Duas semanas antes do nascimento da
filha do casal, batizada de Frances Bean, uma entrevista para a revista
'Vanity Fair' revelou que Courtney consumia heroína. Amparada na
reportagem,a polícia obrigou o casal a entregar a criança
à custódia da irmã de Courtney. Embora o casal a tenha
recuperado logo depois, a polícia continuou a monitorar sua criação
por mais um ano. Hoje Frances é uma saudável garotinha de
19 meses e Courtney assiste sua carreira decolar na frente do Hole. Cobain,
na contramão, há um mês foi internado num hospital
em Roma, onde ficou quatro dias em coma, após ingerir um coquetel
de álcool e tranquilizantes. Semanas antes, com inédito bom
humor, declarara numa entrevista: "Nunca fui tão feliz quanto agora".
É possível que já estivesse com a passagem comprada
para a viagem.