Revista 'Veja' - 08 de Janeiro de 1992 
Da garagem para a fama
O estreante grupo Nirvana consagra seu bom rock com um LP que ganha as paradas de sucesso
 
    É notável o que já se criou no rock com meros três acordes de guitarra. Chuck Berry e seus contemporâneos inventaram o gênero. Elvis seguiu a mesma cartilha no início e os Beatles e os Stones compuseram algumas de suas melhores músicas com essa fórmula. Ocorre que, para fazer bom rock com três acordes, é preciso ter mais do que boas intenções. Nos últimos tempos, a maioria das bandas que lançaram mão desse recurso, em nome de uma volta à simplicidade, tem naufragado na vala do heavy metal ou na simples banalidade. Há agora uma extraordinária excessão. Ela atende por um nome execrável - Nirvana - , que sugere um conjunto de mantras orientais ou de sonífera música new age. Tem uma formação típica das bandas de garagem que tocam apenas para se divertir e para os amigos - é um trio (ou um power trio, como se diz no jargão musical). E vem de uma cidadezinha perdida no meio do Estado de Washington, Aberdeen. Mas sua música é ótima, como se pode ouvir em 'Nevermind', o segundo LP do grupo e o primeiro lançado no Brasil.
    O Nirvana mostra ter justamente o que falta em bandas iniciantes: um estilo, um rosto, algo que o diferencia no oceano dos novatos. A base de seu rock é simplíssima: os famosos três acordes, executados da forma mais rude e direta possível. Em muitas introduções de suas músicas, pensa- se mesmo estar na frente de um grupo punk. Logo, porém, vem o recheio. Primeiro, um paredão de guitarras, muito bem executadas, que envolve o ouvinte - um truque que lembra as táticas do lendário produtor Phil Spector em todos aqueles discos deliciosos do começo da soul music americana. Depois, assoma o cantor Kurt Cobain, que a cada faixa prova que é do ramo. Ele é capaz tanto de sussurrar as letras quanto de despejá- las em vocalizações lanciantes, que parecem ditar verdades definitivas sobre o mundo. Longe disso. As letras do Nirvana não são o forte do grupo. Em sua maioria assumem a postura niilista, de desencanto com a sociedade, que viceja em grande parte das bandas de hoje. Como em 'Smells Like Teen Spirit', "Acho difícil/ É difícil encontrar/ Oh, qualquer coisa/ Não importa".
    Como se vê, o NIrvana dificilmente será celebrado pelas mensagens de suas músicas, mas sim pelo som que produzem. Essa celebração, aliás, tem ocorrido em grande estilo. 'Nevermind' permanecenos primeiros lugares da parada de sucesso da Billboard desde que foi lançado nos Estados Unidos, em setembro. Na semana passada, encontrava- se em quarto lugar, disputando posições com pesos pesados como Prince, U2 e Michael Bolton. Para um grupo praticamente estreante, é uma proeza invejável. O Nirvana, na verdade, é o mais recente exemplo de um fenômeno que costuma acontecer de tempos em tempos no rock americano. Sempre que as grandes gravadoras querem renovar seus elencos mas não farejam nada de original nas fitas que lhes chegam às mãos, ou que seus caçadores de talentos chegam aos escritórios de mãos vazias, elas tentam da radicalização: vãoem busca de grupos engajados em caminhos alternativos. São artistas que gravam em pequenos selos independentes, tocam em casas noturnas sem grande prestígio e, frequentemente bravateiam que não procuram as portas do estrelato para não ter que subjugar sua música a regras de ouro do show bizz. Até que uma dessas portas se abre, é claro - justamente o que aconteceu com o Nirvana.
    O grupo foi criado em 87 e gravou o primeiro disco na Sub Pop, um selo de Seattle que tem fama de descobrir boas novidades. O disco repercutiu bem entre os roqueiros que torcem o nariz para atrações consagradas. No início do ano passado, a gravadora Geffen, um dos braços da poderosa MCA, acenou aos rapazes. "A princípio ficamos aterrorizados, mas partimos para Los Angeles para conversar, recrutamos um advogado e acabamos assinando o contrato", recorda Novoselic. Com o sucesso em ritmo vertiginoso, os integrantes do grupo agora posam de estrelas e aproveitam para teorizar sobre o mercado fonográfico: "A indústria de discos deveria ser socializada, os LPs poderiam sair quase de graça", discursaram. Melhor ouvi- los com a guitarra na mão.