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LENTES

Nas lentes frias da ótica fotográfica

congela-se as mais belas efígies

O desterro natural da imagem cefálica

se perpetua as futuras origens

A poesia é pois um conteúdo complexo

orgânica e composta e sem nexo

Um conjunto exacerbado de sentimentos

em letras e imagens na essência dos momentos

Eis que uma foto em expressão poética

descreva em lume belo conjunto de estrofe

Por fornecer ao encéfalo patético

uma vertente de poema que não move

Os que amam as imagens são poetas?

E não seriam? Têm um livro de imagens em si

E são belas as estrofes tão discretas

Por compor um livro talvez no porvir

J. Fora, 12/03/01

 

 

 

VEGETATIVO

Desde então mais nada escrito

mal inspirado apedrejado espírito

Nem alegria tão pouco tristeza

desfruta ou sofre minha vil natureza

Nada de novo fúteis desafios somente

tênues sorrisos e lágrimas ausentes

Talvez a campa por renascimento

há de livrar o vegetativo momento

Tempero minha ânsia errante

uma pitada de pimenta picante!

que as têmporas da letargia

dilatem uma nova era de euforia

Em trazer de volta em plenitude

toda orgânica inconseqüente juventude

Por viver paixões agitada madrugada

E desnudar num arrebol ardente trepada!

 

J. Fora, 25/02/2001

 

 

FOTOSSÍNTESE

 

Se assim for meu destino por terra

quem sabe não sou eu aquele

Eu somente o único da imunda atmosfera

o único amor clamado que ela teve

Dentre as entranhas do universo de amor em laço

nos arredores da beleza que separa os espaços

Por derramar todo frustrado charme erudito

sobre vermelho coração oralmente partido

 

Em sair deste abismo escuro

e em teu horizonte avistar as cores que expressa

Pois desse amor doentio já não curo

Nem de amem com velas e promessas

Viver por amar é não viver vagamente

numa relutância indiscreta do inconseqüente

Inspirar o pólen límpido de flor

Proliferante gen do meu louco amor

J. Fora, 14/05/2001

 

AMOR EM OURO

Você namorada eu por ti de amor caído

dou-te em estilhaços o coração partido

E na ausência física a saudade ressonante

Debruço em poemas meu canto hilariante

A vontade ergue uma fornalha em chamas

a fumaça sobe embaçando a lua cheia

O amor é ouro no custeio cada grama

é dourado o sangue que corre a’ veia

E não derramo pois uma só gota

do sangue cálido a bancarrota

Eis que o verão sopra mansinho

a relenta esperança ao caminho

Não espero que invada o silêncio

Alguma hora nefasta clemente

Por beber nos beiços da mulher amada

o gosto apurado de saliva nascente

J. Fora, 12/03/2001

 

RECORDAR

Pálida sombra dos amores santos,

Passa, quando eu morrer, no meu jazigo;

Ajoelha-te ao luar e canta um pouco,

E lá na morte eu sonharei contigo!

Alvares de Azevedo

Ainda que a brisa a morte ensaie

não afoga um amor um dia brasa

Sempre fica uma chama que incendeie

a paixão que a saudade abraça

Nas páginas do passado infante

há lembranças de um saudoso amor

Uma orquídea bela no jardim mais elegante

que chegou e partiu deixando rios de dor

Se embora foi ao litoral distante

onde o vento em seu cabelo faz vaga
Cumpridas mechas negras debruçante

sobre a esférica e charmosa nádega

Uma chispa no peito inapagável

ainda brada um gás de suspiro

Por sonhar amor mais improvável

mas que reluta e ocasiona deliro

J. Fora, 22/03/2001

 

 

AMOR PRIMEIRO

Quando recordo a infância senil

As violetas desabrocham no jardim

E a mente caída em sonhos dŽouro

Se embebe no perfume do jasmim

O soprar do vento um funil de poeira

Arqueja soluços a vil tempestade

Cai as lágrimas do pranto o choro

Sussurrando lembranças sufocando saudade

Ainda infirmes ao longo da ribeira

Corria ao Grupo o livro a mão

E soluçante a ânsia avista

Sombra primeira a infante paixão

Mas o destino despedaça o rumo

E habita em vazio a razão dos passos

Então disparo desesperado altivo

... por apertar novo amor nos braços

Nos sorvos etílicos abatido a sovina

Na busca errante o distante paraíso

E quando os pés só eram feridas

Ressurge mulher o infante sorriso

Tanto tempo! A vida em curso

A rosa aberta desbotei

Então cantante mergulhado ao passado

Apaixonado a ti me dei

Assim mil planos a vagar tardio

Projeta e vinga paixão inocente

E então fomenta ventura nova

Ensaiando um canto de amor ardente

J. Fora, 27/03/01

 

QUANDO TE VI

Ela de súbito bela

E de esperado ainda mais linda

A melena que no fim anela

Subia selvagem com o vento na berlinda

O lábio inferior ainda mais carnudo

Por sucumbir toda estirpe unilateral

Benesse o ósculo assim por tudo

Uma flegma flamejante colossal

 

 

 

Não és a Deusa na mitologia

Talvez Eugênia no palco euforia

Leonídia despertando o primeiro amor

Ou Idalina professora das noites de furor

Inda tarde o sol afogado

Na garganta do verde morro

Donde uiva o vento inflado

Que sopra a paixão em fogo louro

E já não são senão modernas carruagens
Com cem cavalos da força e ferragem

Que me traz, logo, estou longe sou cigano

Minha Pórcia do sertão urbano

Mais querida e conclamada

Faça sol caia a tempestade

Venha mais que amada

Abençoada de saudade

J. Fora, 24/03/2001

MODERNAS CHIBATAS

Oh! Temei-vos da turba esfarrapada,

Que salva o berço a geração futura

Que vinga a campa à geração passada.

Castro Alves

A diatônica que triste ensaias

O som que choraste o escravo na colheita

Rolam lágrimas do sofrido pranto

Se o chicote o negro deita

Quando o crime dos senhores jazes

A tristeza entoa a nota funeral

E a ojeriza peito adentra

Na desforra mais fatal

América – tuas terras vertem guetos

Do turbilhão assassino do senhor

No teu dorso o sangue jorra

Daquele explorado - ergue-te com labor

Enlouquecida a gaita aclama

O mal querido estado de melancolia!

No pau-de-arara soa chicote maldito

Que amarrado o negro gemia

E tão covarde – senhor de terra

Ó gaita fúnebre que canta à morte

Para o cerne do fogo e da brasa

A não evocar devaneio Deus da Sorte

Ainda hoje a chibata urra

Ao triste tocar do Blues

Injeção letal ou cadeira elétrica

É mais um negro a morrer na cruz

Ó Pantera que incendeias o mundo!

Força negra da vermelha desforra!

No Mississipi o fogo da morte

Terror rubro-negro ao senhor de agora

J. Fora, 28/03/2001

 

CAMINHOS CRUZADOS

Meu olhar distante rouba

A claridez do teu olhar

Pena a sorte não me dera

Chance um dia de beijar

No azo das tardes infindas

Um tênue olhar diriges e avulsa

João-sem-braço as costas viro

Por sonhar amor moldado a gusa

Hoje orei a um ente teu

O qual belo erário é tu

Tão charmosa tão divina

De paixão meu peito nu

No amanhã da tarde à vinda

Rosa – dar-te-ei na mão

E no alento de uma estrofe

Incinerar teu coração

Mas se a rosa recusaste

Murcharei junto dŽela a sarjeta

Noutro dia ainda triste

Dar-te-ei mil violetas

Que a flor da morte horrenda

Sepultai o desdém dŽalma vil

Por dizer tão loucamente

Que romance igual não vil!!!

J. Fora, março de 2001

 

 

 

22 ANOS EM POESIA

 

Num desses dias em que o Lord errante

Resvalando em coxins de seda mole...

A laureada e pálida cabeça

Sentia-lhe embalar essa condessa,...

Castro Alves

Quero na sombra conversar contigo,

Quero me digas tuas noites breves,

As febres e as donzelas

Que ao fogo do viver murchaste ao peito!

Ergue-te um pouco da mortalha branca,

Acorda, Don Juan!

Alvares de Azevedo

 

(Encarnação)

Será difícil saber quando quiserem

À quem as palavras dirigidas são

Há mescla de frase a frase

Dos nomes que tingem um coração

"Ao acordar encarno almas"

Personagens mortas e utópicas

Atores imaginários livrescos

Além de figuras simbólicas

Sou o Conde Maldito!

Drácula no teu dorso sangüíneo

Devorador de almas

O Nosferato e assassino

Também sou o Lorde

O romântico e maluco

Byron - pai de Juan

Poeta libertário e culto

Sou Vladimir o russo!

Inimigo dos nobres

A chispa no reino do Czar

A esperança do povo pobre

Ainda as vezes eu mesmo

Revolucionário, amante e vampiro

Luto por liberdade e amor

É quando então... hilário deliro!

 

(Destino)

Quando hoje a infância na memória

A nostalgia queima a face pálida

E o coração aflito pulsa clemente

Tímido e livre no ar como águia

No imenso céu se agita ventos

Varando noite em pensamento hostil

Brilha os olhos dŽave de Haia

Infinito devaneio pueril

A natureza aflita pulula

Quando a estaca de prata o peito ofende

Na fogueira mortal do destino

Há pugna por campa a não cair jacente

Eis que então inimigo destino!

As pressas rompe os grilhões da morte

E os olhos estatalados no futuro

A percorrer a própria sorte

É quando o canto genuíno da coruja

A sorrelfa dŽangustia cai maçante

O golpe s’escoa do fio a foice

Soprando o vento mórbido frisante

 

(Corujão)

Pelas noites que são longas

Sou a coruja da madrugada

Os olhos abertos no céu escuro

A procurar por minha amada

A rua é um estro, o coração deserto!

Não há cor e é morta a natureza

No meu pranto a solidão cingida...

Lateja a cismar tristeza

A noite que passa me põe ao lasso

Fria e Cruenta. Sórdida e impura

E a vida a atiçar soluços

Que me afogam de amargura

Como é possível perder nos versos

Se nesse labirinto cantas cŽoardor

N’água bóia então poemas

Mas não afoga um grande amor!

 

(17 de Abril)

Sou eu a procurar a chispa

O mais explosivo dos gases

Detonar feito um raio de luz

E com o Culpido fazer as pazes

Mas sublime mandu viril

A rasgar virgíneos rios perenes

Silva na canaviera a tormenta

A corredeira dŽágua em sonho solene

Ó fonte onde estás? Afogar quero amores

Amar-lhe-ei ao fim dos tempos

Pelo avesso d’ebruço a relutar...

E a mutilar de amor o tormento

 

Hoje me choro um coração deserto!

Que eruptiva a lágrima veio

Noutros tons as décimas

A fulgurar o róseo seio

 

 

J. Fora, Abril de 2001

 

CALABOUÇO

Cantas! No calabouço frio e negro!

Sonhas! Vibra a melodia libertária

O carcereiro assustado, curioso ouve

As estrofes da luta proletária

"Bela Ciao" uma manhã amada!

O perorar do novo... Canta-te da morte

De herança o exemplo armado

Ideais... no povo fé! Bravio e forte

O lívido clarão concêntrico

Do cárcere uma trincheira aberta

Terceira etapa o farol inapagável

A estrofe rasga... a sentinela alerta!!

Na mente? Anseio por terror do velho

Da desgraça carcomida em fim

Ser a liberdade a esperança futura

D’ esperança o sonho sem fim!

 

J. Fora, 16 de abril de 2001

 

 

BEM-TE-VI

Hoje cedo o bem-te-vi dizia

Ter me visto desmaiado na nudez

- Bem-te-vi ó poeta louco...

nos braços dela a primeira vez

- Bem-te-vi sobre a crista pecar...

semeando um beijo ardente

Sobre ela o lençol cobria...

a beleza infinda do corpo inocente!

- Bem-te-vi amar a virgem

- Bem-te-vi! Mil vezes vou cantar...

vi teus lábios sobre o róseo seio

um poema de amor sussurrar!

Despir a virgem no colher de cada pétala

Restou um caule então dŽespinho!

- Bem-te-vi sobre pétalas e roupas...

espalhadas pelo ninho!

 

- Bem-te-vi! Bem-te-vi...

é tudo que posso dizer!

- Mas meus olhos fitavam diligentes

esse amor que só eu pude ver!

- Bem-te-vi! Bem-te-vi...

ao despir a virgem flor

O bem-te-vi fingir comigo...

a fantasia de um sonho de amor!

J. Fora, 20 de abril de 2001

 

 

FLOR DO NORTE

À você todo meu amor!

Dedico no mais profundo

As palavras ainda mais puras

Trazidas do romântico mundo

Meu coração rasgando a noite

Sofre nostálgico a clamar por ti

Por ir correndo ganhar um beijo

Da mais bela poetiza que já vi

 

Quando recebi tua carta

Tremia a mão a suspirar perfume

Meus olhos ardiam ansioso

Caído me vi de amor ao cume

Saiba... sou teu namorado!

És tu a única namorada

A mais bela flor do norte

Minha inspiração mais amada!

J. Fora, 23/04/2001

 

IMPOSSÍVEL?

Ainda ontem de ti já descrente

Lateja recordações do teu desdém

Num rir maldoso uma fina tirada

A dizer: não vem que não tem

Não quisera o debruçar do olhar

Tremular menina dos olhos ao fronte

Vibrar no alento em roçar os lábios

E iluminar a escuma do horizonte

Ouvíeis das malditas bocas:

- Das trevas! Felino e imundo

Convulsivo a devorar de sonhos

Agoniza como tufão pelo mundo

A este triste devaneio pérfido,

O choro etílico sobre a infame garrafa

A sentença poética da dor que enjoa

Eis que de dentro a tristeza emana

- Não bebes! Relampeja o inconsciente...

Na láurea de desejo se embebe

Qual um soldado no fronte

De paixão a delirar em febre

Oh! Negro olhar ao jardim!

Sobre verde campina suave dŽesperança

Um charme feminino a tinir

Das pálpebras a bradar uma aliança

Foram dias! Porém uma ventura!

A fascinação inebria

O desdém desfigura na face

E então senti dela uma pálida mão fria

E tão grande a pupila aberta

Como sombra negra no vale verde

Ah! Os braços se abriam solene

E o coração me escancara um vermelho tapete

Adeus maldição insana!

Don Juan vagueia abençoado!

Seca-me as lágrimas meu anjo da guarda

Dá-me brilho ao rosto desbotado

E então rosas a prantear certeira

O sonhos dŽouro o desdém desfeito

A mão convulsa a dissipar frescores

E ela descansa no meu peito!

26/04/2001

 

FIO DA NAVALHA

"Como pode o peixe vivo,

Viver fora da lagoa?"

Cantiga Popular

Num rumo escarpado rasga

Oh! Multidão as cantorias

Por hilária plenitude em desforra

Na primavera ouvir andorinhas

Canto da manha em pranto

Adormecer na bruma da madrugada

Além da ribeira castelo dŽave

Trançando como tijolo o fio da ninhada

Como pode do ovo à vida

Sem um ninho a sua estadia

Ou o romper dos grilhões o escravo

Sem a luta mais bravia?

É como um pulmão carbonado

Sem a molécula do ó...

Tal qual Asa Branca de Gonzaga

Sem a sanfona iniciando em dó

Como pode o jardineiro...

Viver sem o perfume das flores?

Não pode então o poeta...

Viver sem a loucura dos amores

27/04/2001

 

 

BANDEIRAS

Não escrevo senhor meu bravo!

Dos teus bafos desgrenhados

A arte das palavras liberta

O laborioso homem irado

O veraz e bravio povo

Verte o sangue na lavoura

Marretando a rubra ferragem

Genitália indígena, negra, moura...

Quando o rio transbordar no curso

Vossa violência: arrepender-se na desforra

E as massa soberanas...

Escreverão a nova história

Hoje a lavra cruenta dŽescárnio

Empedra a multidão padecida

Mas tardia vingança vermelha

Trará hilariantes dias de vida

Venham multidões cantando hinos

Ergam suas armas e bandeiras

No ápice da rubente luta

Soldados do povo fazem fileira

27/04/2001