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Aqui, alguns poemas

(Fragmentos do Livro: 22 Anos em Poesia Ely Duarte Machado)

 


 

22 ANOS EM POESIA


Num desses dias em que o Lord errante

Resvalando em coxins de seda mole...

A laureada e pálida cabeça

Sentia-lhe embalar essa condessa,...

Castro Alves

 


 

Quero na sombra conversar contigo,

Quero me digas tuas noites breves,

As febres e as donzelas

Que ao fogo do viver murchaste ao peito!

Ergue-te um pouco da mortalha branca,

Acorda, Don Juan!

Alvares de Azevedo

 


(Encarnação)

Será difícil saber quando quiserem

À quem as palavras dirigidas são

Há mescla de frase a frase

Dos nomes que tingem um coração

 

"Ao acordar encarno almas"

Personagens mortas e utópicas

Atores imaginários livrescos

Além de figuras simbólicas

 

Sou o Conde Maldito!

Drácula no teu dorso sangüíneo

Devorador de almas

O Nosferato e assassino

 

Também sou o Lorde

O romântico e maluco

Byron - pai de Juan

Poeta libertário e culto

 

Sou Vladimir o russo!

Inimigo dos nobres

A chispa no reino do Czar

A esperança do povo pobre

 

Ainda as vezes eu mesmo

Revolucionário, amante e vampiro

Luto por liberdade e amor

É quando então... hilário deliro!

 

(Destino)

Quando hoje a infância na memória

A nostalgia queima a face pálida

E o coração aflito pulsa clemente

Tímido e livre no ar como águia

 

No imenso céu se agita ventos

Varando noite em pensamento hostil

Brilha os olhos d´ave de Haia

Infinito devaneio pueril

 

A natureza aflita pulula

Quando a estaca de prata o peito ofende

Na fogueira mortal do destino

Há pugna por campa a não cair jacente

 

Eis que então inimigo destino!

As pressas rompe os grilhões da morte

E os olhos estatalados no futuro

A percorrer a própria sorte

 

É quando o canto genuíno da coruja

A sorrelfa d´angustia cai maçante

O golpe s’escoa do fio a foice

Soprando o vento mórbido frisante

 

 

(Corujão)

Pelas noites que são longas

Sou a coruja da madrugada

Os olhos abertos no céu escuro

A procurar por minha amada

 

A rua é um estro, o coração deserto!

Não há cor e é morta a natureza

No meu pranto a solidão cingida...

Lateja a cismar tristeza

 

A noite que passa me põe ao lasso

Fria e Cruenta. Sórdida e impura

E a vida a atiçar soluços

Que me afogam de amargura

 

Como é possível perder nos versos

Se nesse labirinto cantas c´oardor

N’água bóia então poemas

Mas não afoga um grande amor!

 

(17 de Abril)

Sou eu a procurar a chispa

O mais explosivo dos gases

Detonar feito um raio de luz

E com o Culpido fazer as pazes

 

Mas sublime mandu viril

A rasgar virgíneos rios perenes

Silva na canaviera a tormenta

A corredeira d´água em sonho solene

 

Ó fonte onde estás? Afogar quero amores

Amar-lhe-ei ao fim dos tempos

Pelo avesso d’ebruço a relutar...

E a mutilar de amor o tormento

 

Hoje me choro um coração deserto!

Que eruptiva a lágrima veio

Noutros tons as décimas

A fulgurar o róseo seio

J. Fora, Abril de 2001

 

 

URBA’NATURALIDADE

Ely Duarte Machado

 

Então o jasmim se recolhe a noite

Aqui no jardim do coração rasgado

E o sabiá que triste ensaia

O tenro canto no laranjal dourado

 

No juazeiro a sombra fria

Se emparelha o casal de jaguar

Revoa manso o bacurau fugido

Do olor das asas do velho gambá

 

É o sereno gotejando da bromélia

Que corre ao ninho do afoito esquilo

É a cauda máscula do pavão aberta

Na lua oculta do apagado brilho

 

Para o cerne da moita desnuda

Pulula em vôo a codorna assustada

E as gazelas saltitantes se in’deitam

Sob a escória da bruma gelada

 

Óh! Dia lindo da vida na serra!

E eu desgostoso da vida urbana

Respirando o mortal carbono

Vegetando um amor de cigana

 

Como é lindo o lobo uivante

pra lua cheia n’amplidão celeste

E tão belo o sol vertente

Ao serrado nas frestas do cipreste

 

Aqui ainda desnudo belezas

Da dama-da-noite o suspirar do incenso

Dos amores o perfume francês

E das têmporas o crioulo lenço

 

Lá na serra da fonte à vida

De tanto amor a noite gemia

Aqui prematura é a morte certeira

No fremir entroncado da agonia

 

Pois bem... Aqui me fico e lá me vou!

Repartido entre a íncola da urba’natural

Enquanto aqui me canta o estéril pintagol

Lá ouvirei noutr’hora o pintassilgo imoral!

 

Divinópolis, Maio de 2001

 

 

ABC do Entardecer

No vértice dos olhos meus te vejo bela em teu horizonte

O astro rei decanta teu calor atrás dos montes

Enquanto peleja estafado esconder em teu jazigo

Desponta ainda raios rubros lá do teu abrigo

 

O entardecer em vermelho deriva a vertigem

A penetrar as frestas das folhagens virgens

Os pássaros se achegam para a noite de luar

Canta ainda o quase instinto sabiá

 

Quando por fim o sol então dormira

A lua incrédula ascende cheia a tua ira

E os amantes como nós ao banho relento

Amam-se até o corpo cair macilento

 

Vem mansa como a coruja plangente madrugada

O sereno acoima gelado sobre nós uma camada

Que borbulha fervendo nosso amor noite adentro

Debaixo de um avelhantado lençol de remendo

 

É dia... Jugulam-se as mágoas do anseio lunático

Vinte quatro horas de amor ressurge o arrebol

A claridade fria transparece um tormento estático

Já surge a tardezinha e vai se pôr outra vez o sol

20/09/2000

 

Alvoroço fato de Domingo


De tarde, quando o tédio me abandona,
Eu vou para a cidade, contristado...
O sol como um inglês embriagado,
Vomita vinho na celeste zona.

Alphonsus de Guimaraens Filho


Amanheceu o domingo sem graça

Das cinzentas nuvens caia a chuva fina

Silenciava-me o tédio... enchi uma taça

Sinto arder por estar só... minha face definha

 

Nada de glórias ou sofrimento

Algum aleite do passado ilícito

E todo um frenesi se refaz em tormento

Como martírio no semblante explícito

 

O fadário me deixou uma bagana

Que em desatino a idéia desencana

As sombras da relutante agonia

Sovei o amaldiçoado por me atear letargia

 

Em marcha lenta a inquietude cavalga

Não mais aspiro tresloucado por malta

Brada lôbrego da gaita meu som ressonante

O blues efêmero da náusea aberrante

 

Meu corpo em mente se iguala a alma

Braços e pernas movimentam-se vacilantes

Em dourado é banhada minha áurea

Vivo os extremos da mania extravagante

BH 4/9/2000

 

AMOR AO LAGO

Quando a noite turva ao lago enlua

D´agua o fio tange em prata

O vento silva a virgem palmeira

O peito em chamas amando brada

 

Chucalhando as secas folhas caídas

Velejam no prateado manto

E o bacurau rasante plaina

Se embaila a sombra ressoa um canto

 

Cães vadios feito lobos uivam

A cheia lua n´amplidão do céu

E no clarão saltitantes peixes

N´agua banham infinito escarcéu

 

Pois veja meu amor!

Sobre o luar a caravela

Adentremo-nos o entardecer

A noite é nossa: romântica e bela

 

Meu beijo inflama no teu lábio em chama

Na vela sopra mansinho o vento

Lá no meio ancoro o barquejo

E a nau do amor estaciona ao relento

 

Sobre ti o barquinho me move

Quando despido eu jurar te amar

E então a rosa murcha na jarra seca

Revive vermelha pelo chão desabrochar

J. Fora, 03 de maio de 2001

 

AMOR PRIMEIRO

Quando recordo a infância senil

As violetas desabrocham no jardim

E a mente caída em sonhos d´ouro

Se embebe no perfume do jasmim

 

O soprar do vento um funil de poeira

Arqueja soluços a vil tempestade

Cai as lágrimas do pranto o choro

Sussurrando lembranças sufocando saudade

 

Ainda infirmes ao longo da ribeira

Corria ao Grupo o livro a mão

E soluçante a ânsia avista

Sombra primeira a infante paixão

 

Mas o destino despedaça o rumo

E habita em vazio a razão dos passos

Então disparo desesperado altivo

... por apertar novo amor nos braços

 

Nos sorvos etílicos abatido a sovina

Na busca errante o distante paraíso

E quando os pés só eram feridas

Ressurge mulher o infante sorriso

 

Tanto tempo! A vida em curso

A rosa aberta desbotei

Então cantante mergulhado ao passado

Apaixonado a ti me dei

 

Assim mil planos a vagar tardio

Projeta e vinga paixão inocente

E então fomenta ventura nova

Ensaiando um canto de amor ardente

J. Fora, 27/03/01

 

BANDEIRAS

Não escrevo senhor meu bravo!

Dos teus bafos desgrenhados

A arte das palavras liberta

O laborioso homem irado

 

O veraz e bravio povo

Verte o sangue na lavoura

Marretando a rubra ferragem

Genitália indígena, negra, moura...

 

Quando o rio transbordar no curso

Vossa violência: arrepender-se na desforra

E as massa soberanas...

Escreverão a nova história

 

Hoje a lavra cruenta d´escárnio

Empedra a multidão padecida

Mas tardia vingança vermelha

Trará hilariantes dias de vida

 

Venham multidões cantando hinos

Ergam suas armas e bandeiras

No ápice da rubente luta

Soldados do povo fazem fileira

J. Fora, 27 de abril de 2001

 

BEM-TE-VI

Hoje cedo o bem-te-vi dizia

Ter me visto desmaiado na nudez

- Bem-te-vi ó poeta louco...

nos braços dela a primeira vez

 

- Bem-te-vi sobre a crista pecar...

semeando um beijo ardente

Sobre ela o lençol cobria...

a beleza infinda do corpo inocente!

 

- Bem-te-vi amar a virgem

- Bem-te-vi! Mil vezes vou cantar...

vi teus lábios sobre o róseo seio

um poema de amor sussurrar!

 

Despir a virgem no colher de cada pétala

Restou um caule então d´espinho!

- Bem-te-vi sobre pétalas e roupas...

espalhadas pelo ninho!

 

- Bem-te-vi! Bem-te-vi...

é tudo que posso dizer!

- Mas meus olhos fitavam diligentes

esse amor que só eu pude ver!

 

- Bem-te-vi! Bem-te-vi...

ao despir a virgem flor

O bem-te-vi fingir comigo...

a fantasia de um sonho de amor!

J. Fora, 20 de abril de 2001

 

 

BRASIL: COLÔNIA E ESCRAVIDÃO

28 de Outubro de 1999

 

Por oceanos e mares afora

Barcas velas alçadas d' aurora

Sobre águas - litigiosa expedição ao pretenso

Desliza oscilante o barquejo no azul imenso

 

Rara vida no negrume versus alvorada

Óbito - urde o trovão raio hidro-dilacerada

Divisão de águas sob o sol cáustico

E na medula segue o comboio luso náutico

 

Em mente - anseios fétidos é lume a leviana

Selvagem turba do algoz a lusitana

Gargareja o sangue do tapuio a reveria

No conluio explicito da motriz hipocrisia

 

Mal sustende o cruzar dos oceanos

Lança a âncora e seus grilhões profanos

Bispa o índio invés da canela e do cravo

Homem ao homem animal seu escravo

 

Pólvora alva à flecha rubra

Solo de sangue que poreja a alma turva

Carnificina do eclesiástico genocídio cristão

Colonizador asno sórdido errante do tufão

 

Eldorado - dimanar do bandeirante caçador

Morticínio à frente - rumo ao ninho do condor

Tira a vida nômade selva adentra a matança

Grita o índio – inda tarde verás vingança

 

Arde o fogo as labaredas da história

Vermelha é a terra que fecunda a vitória

Ó escravo seu servo forçado estrangeiro

Trás agora o negro em navio negreiro

 

Pelo oceano em balde corre dois mil clamores pro infinito

Aclama: "ó deus pai" - sem resposta a um só grito

Senão – rebeldia o furacão a todos países uni-vos

E no baldrame da violência elimina os inimigos

 

CAMINHOS CRUZADOS

Meu olhar distante rouba

A claridez do teu olhar

Pena a sorte não me dera

Chance um dia de beijar

 

No azo das tardes infindas

Um tênue olhar diriges e avulsa

João-sem-braço as costas viro

Por sonhar amor moldado a gusa

 

Hoje orei a um ente teu

O qual belo erário é tu

Tão charmosa tão divina

De paixão meu peito nu

 

No amanhã da tarde à vinda

Rosa – dar-te-ei na mão

E no alento de uma estrofe

Incinerar teu coração

 

Mas se a rosa recusaste

Murcharei junto d´ela a sarjeta

Noutro dia ainda triste

Dar-te-ei mil violetas

 

Que a flor da morte horrenda

Sepultai o desdém d´alma vil

Por dizer tão loucamente

Que romance igual não vil!!!

J. Fora, março de 2001

 

 

DESEJO E PAIXÃO

 

A poesia pobre em verbo terminadas

Desfigura infinda a razão de ser

Embora ricas estrofes já declamadas

Não tenho notícia de algum dia conceber

 

Por mortificar os desejos vividos

Uma metáfora que seja como morfina

Que me desperta sentimentos garridos

Alguma síntese dessa bendita sina

 

De tudo nasce do olhar que brota

Em química atrativa ao fogoso beijo

Por opinar o poeta que abarrota

Seu coração de freqüente desejo

 

A paixão é o solene fronte

No campo límpido vergel de flor

De um lado brota a peçonhenta fonte

Do outro mina o ardente amor

Montes Claros, 28/11/2000

 

 

FIGURAS DE AMOR

½ noite o vampiro despertado

Don Juan a língua afia

Castro Alves um poema apaixonado

O amor pelo mundo em magia

Madrugada o morcego à torre alta

 

Lord Byron infinita loucura

Na flor dos anos o poeta a morte pausa

O amor pelo mundo em amargura

Negros dias o Conde se esconde

 

Do espanhol amante rios em choro

Estrofes baianas espumas à fonte

O amor pelo mundo em coro

A capa negra fadiga uma asa

 

Em charmosa sedução mascarada

De um poema declamado plena praça

O amor pelo mundo à mais amada

Montes Claros, 30 de Novembro de 2000

 

FIO DA NAVALHA

"Como pode o peixe vivo,

Viver fora da lagoa?"

Cantiga Popular

 

Num rumo escarpado rasga

Oh! Multidão as cantorias

Por hilária plenitude em desforra

Na primavera ouvir andorinhas

 

Canto da manha em pranto

Adormecer na bruma da madrugada

Além da ribeira castelo d´ave

Trançando como tijolo o fio da ninhada

 

Como pode do ovo à vida

Sem um ninho a sua estadia

Ou o romper dos grilhões o escravo

Sem a luta mais bravia?

 

É como um pulmão carbonado

Sem a molécula do ó...

Tal qual Asa Branca de Gonzaga

Sem a gaita iniciando em dó

 

Como pode o jardineiro...

Viver sem o perfume das flores?

Não pode então o poeta...

Viver sem a loucura dos amores

J. Fora, 27 de abril de 2001

 

IMPOSSÍVEL?

Ainda ontem de ti já descrente

Lateja recordações do teu desdém

Num rir maldoso uma fina tirada

A dizer: não vem que não tem

 

Não quisera o debruçar do olhar

Tremular menina dos olhos ao fronte

Vibrar no alento em roçar os lábios

E iluminar a escuma do horizonte

 

Ouvíeis das malditas bocas:

- Das trevas! Felino e imundo

Convulsivo a devorar de sonhos

Agoniza como tufão pelo mundo

 

A este triste devaneio pérfido,

O choro etílico sobre a infame garrafa

A sentença poética da dor que enjoa

Eis que de dentro a tristeza emana

 

- Não bebes! Relampeja o inconsciente...

Na láurea de desejo se embebe

Qual um soldado no fronte

De paixão a delirar em febre

 

Oh! Negro olhar ao jardim!

Sobre verde campina suave d´esperança

Um charme feminino a tinir

Das pálpebras a bradar uma aliança

 

Foram dias! Porém uma ventura!

A fascinação inebria

O desdém desfigura na face

E então senti dela uma pálida mão fria

 

E tão grande a pupila aberta

Como sombra negra no vale verde

Ah! Os braços se abriam solene

E o coração me escancara um vermelho tapete

 

Adeus maldição insana!

Don Juan vagueia abençoado!

Seca-me as lágrimas meu anjo da guarda

Dá-me brilho ao rosto desbotado

 

E então rosas a prantear certeira

O sonhos d´ouro o desdém desfeito

A mão convulsa a dissipar frescores

E ela descansa no meu peito!

J. Fora, 26 de abril 2001

 

MODERNAS CHIBATAS


Oh! Temei-vos da turba esfarrapada,

Que salva o berço a geração futura

Que vinga a campa à geração passada.

Castro Alves


A diatônica que triste ensaias

O som que choraste o escravo na colheita

Rolam lágrimas do sofrido pranto

Se o chicote o negro deita

 

Quando o crime dos senhores jazes

A tristeza entoa a nota funeral

E a ojeriza peito adentra

Na desforra mais fatal

 

América – tuas terras vertem guetos

Do turbilhão assassino do senhor

No teu dorso o sangue jorra

Daquele explorado - ergue-te com labor

 

Enlouquecida a gaita aclama

O mal querido estado de melancolia!

No pau-de-arara soa chicote maldito

Que amarrado o negro gemia

 

E tão covarde – senhor de terra

Ó gaita fúnebre que canta à morte

Para o cerne do fogo e da brasa

A não evocar devaneio Deus da Sorte

 

Ainda hoje a chibata urra

Ao triste tocar do Blues

Injeção letal ou cadeira elétrica

É mais um negro a morrer na cruz

 

Ó Pantera que incendeias o mundo!

Força negra da vermelha desforra!

No Mississipi o fogo da morte

Terror rubro-negro ao senhor de agora

J. Fora, 28/03/2001

 

 

MORRER

Morremos desde que fecundados

Por cair maçante da mãe o colo

Morre a forma o esperma ovulado

Pelo ralo a placenta o óvulo

 

Viver é morrer a cada instante

Nascemos pela regra não a sorte

Envelhecer é o ciclo delirante

Do inevitável caminho da morte

 

Ciência conformada ao social

Que não sente o óbito carcomer

É só lembrar o menino jovial

Hoje velho no espelho a morrer

 

Células morrem e neurônios

Ossos doem juntas inflamadas

Não há Deus no mundo ou Demônio

Que cessem dor o destino desgarrada

 

É certo hoje mais um dia de passado

Pois outro vem no amanhã também

Se por sorte meu final atrasado

Cedo ou tarde eu sei que vem

 

Que não seja em vão o trilhar da vida

Se natural tomara o peso da montanha

E se em flor na luta ferida

Que seja por bala a finita façanha

Montes Claros, 30 de novembro de 2000

 

O CORAÇÃO EM SETE PORTAS E DEZ LINHAS


O Coração é o colibri dourado

Das veigas puras do jardim do céu.

Um - tem o mel da granadilha agreste,

Bebe os perfumes, que a bonina deu.

  

O outro - voa em mais virentes balças,

Pousa de um riso na rubente flor.

Vive do mel - a que se chama - crenças - ,

Vive do aroma - que se diz - amor.

Castro Alves


1 - Pai

Teus caminhos tentei

Excitação e entusiasmo

Aspirei-te na noite fria

Mas frio era teu corpo

No fundo,

Vi explodir teu afeto

E aflorou fora a primavera

Um jeito diverso de calor

Ainda que a mim um grande

Exemplo de amor

 

2 - Mãe

À bala dos canhões

No curso do meu peito

Entrarias a frente por amor.

Sofres porque sofro

Lamento!

Amo-te emocionadamente

Sinto falta de ti

E de todo seu calor

Meus últimos delírios nostálgicos

Terão estampados teu semblante de amor

 

3 - Avós

Sempre me veio dúvidas

Do que de mim seria

Se os vovôs,

não tivesse conhecido vovós

É um longo trajeto até aqui

Entre militante comunista e operária

Até um soldado antifascista e órfão

Pais fortes!

Neto inconseqüente...

Com muita sede ao pote!

 

4 - Irmãos

Uma borboleta ajato

Emanou do casulo

Embeleza o mundo afora (Erica)

Do teu alvéolo cedo saíste

E voas no diário labor (Elen)

Nem mal nasceu borboleta

E tua coragem feriste tuas asas

Mas sem asas ainda voas feliz (Eneida)

Que serás de ti cassulinha

Espero que voe para bem longe (Evienn)

 

5 - Filhos

E vocês? Quanta dor

Cresciam diante meu delírio

Viviam pedaços do meu amor.

Em seus corações

Mesmo sem lembrar

Está guardado em algum lugar

Cultivem-no entre vocês - irmãos

Arrebentem todos os muros

Façam muito barulho

A vida, mesmo longa é curta!

 

6 - Amor

Vivi por vivê-los

Até o último ardor da brasa

Em verdade os esgotei

Amor tive, jamais o fui

Já é tarde para sê-lo

Amor é mel

Uma colher por dia

Gostoso, saudável – não enjoa

Já no gargalo – nem brinca

Dá uma tremenda dor de barriga

 

7 – Quepe

Em alguma manhã do futuro

Será desfraldado teu nome

As massas o defenderão

Aplicando teu exemplo proletário

Espelhando em tua conduta

Lutarão bravamente por seus anseios

E tuas aspirações serão cumpridas

Orgulho-me de um dia ao seu lado

Ter podido tranqüilamente caminhar

E sentir o imenso prazer de ouvir-te falar

 

O COSMO

1 (Avante)

No encete cósmico da estirpe um ovo

Bradando de energia atômica

Coquetel inorgânico ou não?

No "panelaço" do universo a ferver

A bomba da "vida"

Bummm!!!!!

Labaredas, cometas de fogo

Potência infalível pelo orbe afora

 

2 (Floresce)

Bolas de lava ao infinito

Estilhaços do ovo da "vida"

Navegando anos luz

Deixando seu rastro fulgurante

- Outras bolas de fogo -

Ao universo condecorar

Ladrilhos de luzes

Energia e labor

 

3 (As mãos de Deus)

Não se via o crepúsculo negrume

Senão o labor de luzes intermináveis

Apenas pedras de fogo

Imensos cometas cortando e debatendo

Espalhavam-se os estilhaços

O calor atenuando

Editando nébulas e o estrelário

Harmonizando os astros e os céus

 

4 (Cores)

O entretom de luzes cruzadas

Tridimensionais acordes

Invisíveis a olho nu

Tonalidades opostas ao lúcido clarão

O estrugir dos cometas

Fragmentos e labaredas

Junção de luas e astros

Estrelas, luminares e planetas

5 (Tépido período)

Infinitas galáxias formadas

Planetas na órbita do tempo

Sob a gravidade concêntrica

Calor, terra, fogo, água - vida!

Orgânica inorgânica – pedras!

Conchas, mariscos abalones

Oceanos mares maremotos

Terremotos, placas tectônicas

6 (Ego)

Ondas negras e fugazes

Inato avejão interminável,

Espectros reivindicam asilo

Esgrimindo insignificantes lamúrias

Longe do céu ou do chão

Como o condor afora de seu ninho

Que pranteia soluçante no ar

Em busca de calor no materno colo

 

7 (Negação materna)

Se alguém sonhou com frutas

Dela comeu-lhe a semente

Lambuzou da sua doçura

E no ventre do universo

Delirou as vozes do pai

Sucumbiu o a realidade do Cosmo

E a maternal energia do universo

É negador da uterino confesso

Belo Horizonte, 15 de março de 2000

 

 

QUANDO TE VI

Ela de súbito bela

E de esperado ainda mais linda

A melena que no fim anela

Subia selvagem com o vento na berlinda

 

O lábio inferior ainda mais carnudo

Por sucumbir toda estirpe unilateral

Benesse o ósculo assim por tudo

Uma flegma flamejante colossal

 

Não és a Deusa na mitologia

Talvez Eugênia no palco euforia

Leonídia despertando o primeiro amor

Ou Idalina professora das noites de furor

 

Inda tarde o sol afogado

Na garganta do verde morro

Donde uiva o vento inflado

Que sopra a paixão em fogo louro

 

E já não são senão modernas carruagens

Com cem cavalos da força e ferragem

Que me traz, logo, estou longe sou cigano

Minha Pórcia do sertão urbano

 

Mais querida e conclamada

Faça sol caia a tempestade

Venha mais que amada

Abençoada de saudade

J. Fora, 24 de março de 2001

 

UMA VIDA DE GLÓRIAS

26/09/2000

 

Vinde às heróicas fileiras da emancipação

Eis que então fomenta a letargia ao avanço

Nesse fétido mundo de escravidão

Nessas filas minha vida então me lanço

 

E se vai a fileira a compor-lhe a massa

Engrossando as estrofes do poema proletário

Compondo as linhas que a liberdade traça

A reluzir a chama vermelha no estrelário

 

A ventura não levará à passiva morte

Não haverei de aguardar bater a porta o destino

Viver inútil e envelhecer a sombra da sorte

Ou mesmo incapaz sobre uma cama em desatino

 

Acreditar na possibilidade do "impossível"

Se é que nesse mundo haja algo impraticável

Ao revolucionário que em perspectiva tudo é plausível

Eis aqui nesse mundo não há nada impalpável

 

Partidários da fatível liberdade popular

Atrevidos por traze-las no alento de tomar o céu

Certos da temporalidade das montanhas avançar

Dispostos a escalar na grandeza do rio que cai em véu

 

Mas se por terra a sorte com meu sangue um rio de glória

O chão cuidará de florescer um dia vingança

Os olhos fecharão em sensata vitória

E o sol brilhará um novo mundo de esperança

 

VERSÁTIL DESTINO


Não estou nessa vida nem eu nem ninguém,

Vou ser nem prazo...

Que ao menos na estrada me sorria alguém

Ainda que por acaso.

Fernando Pessoa


Quando eu disser adeus, amor, não diga

adeus também, mas sim um "até breve"

para que aquele que se afasta leve

uma esperança ao mesmo fadiga

Alphonsus de Guimaraens Filho


Haverei de escrever para um gen poético

Sangue do sangue de Alphonsus poeta

Que das montanhas inspirou o verso eclético

Por despedir da prima amada em estrofe discreta:

 

Uma tarde comum uma tarefa incomum

Ia-me a meu ninho a realizar a insólita

Livre, pensamentos tão pouco tive algum

Literalmente fora - um astronauta - de órbita

 

Ia-se límpida a ardente noite cair

Quando uma flor dourada meu olhar roubou

De perto não pude vê-la mas de longe a vi sorrir

E delicadamente então me encantou

 

Noutro dia o mesmo sol comigo saía

Quando então a sorte o girassol me trouxe

Parei então cantei a ladainha

Que brotou em versos como se um poema fosse

 

Acenei firme prendendo teu olhar ao meu

Enquanto a boca minha se prendia

no insaciável desejo pelos lábios teus

Bradei por asfixiar essa vontade doentia

 

Do teu Grambel então me apossei

Como senha de uma conta milionária

E ao ouvido da ótica me encantei

Desde então nessa rotina diária

 

Pois a sorte então a todo custo

Em teus desejos o poeta clamou

O belo presente que ganhei de susto

Quando os teus lábios, meus lábios beijou

 

Aberto e alegre que na solidão me põe infeliz

O girassol dourado que você me recorda

Por realizar no palco do coração o sonho de atriz

Que agora seu (meu coração) a cortina puxo a corda

 

Nos aleites da noite fria na cidade

No Meio do Mundo bebi tua graça

Parkinson nos pés à maldade

Felizes como no lago uma parelha de garça

 

Agora me pergunto aos ouvidos do destino

Se haverei da mesma sorte dos dias o restante

Viver imensa dor ao coração ferino

Ou ficarei platônico a desejar-te a cada instante

 

Belo Horizonte, 28 de Setembro de 2000