Aqui, alguns poemas
(Fragmentos do Livro: 22 Anos em Poesia Ely Duarte Machado)
22 ANOS EM POESIA
Num desses dias em que o Lord errante
Resvalando em coxins de seda mole...
A laureada e pálida cabeça
Sentia-lhe embalar essa condessa,...
Castro Alves
Quero na sombra conversar contigo,
Quero me digas tuas noites breves,
As febres e as donzelas
Que ao fogo do viver murchaste ao peito!
Ergue-te um pouco da mortalha branca,
Acorda, Don Juan!
Alvares de Azevedo
(Encarnação)
Será difícil saber quando quiserem
À quem as palavras dirigidas são
Há mescla de frase a frase
Dos nomes que tingem um coração
"Ao acordar encarno almas"
Personagens mortas e utópicas
Atores imaginários livrescos
Além de figuras simbólicas
Sou o Conde Maldito!
Drácula no teu dorso sangüíneo
Devorador de almas
O Nosferato e assassino
Também sou o Lorde
O romântico e maluco
Byron - pai de Juan
Poeta libertário e culto
Sou Vladimir o russo!
Inimigo dos nobres
A chispa no reino do Czar
A esperança do povo pobre
Ainda as vezes eu mesmo
Revolucionário, amante e vampiro
Luto por liberdade e amor
É quando então... hilário deliro!
(Destino)
Quando hoje a infância na memória
A nostalgia queima a face pálida
E o coração aflito pulsa clemente
Tímido e livre no ar como águia
No imenso céu se agita ventos
Varando noite em pensamento hostil
Brilha os olhos d´ave de Haia
Infinito devaneio pueril
A natureza aflita pulula
Quando a estaca de prata o peito ofende
Na fogueira mortal do destino
Há pugna por campa a não cair jacente
Eis que então inimigo destino!
As pressas rompe os grilhões da morte
E os olhos estatalados no futuro
A percorrer a própria sorte
É quando o canto genuíno da coruja
A sorrelfa d´angustia cai maçante
O golpe sescoa do fio a foice
Soprando o vento mórbido frisante
(Corujão)
Pelas noites que são longas
Sou a coruja da madrugada
Os olhos abertos no céu escuro
A procurar por minha amada
A rua é um estro, o coração deserto!
Não há cor e é morta a natureza
No meu pranto a solidão cingida...
Lateja a cismar tristeza
A noite que passa me põe ao lasso
Fria e Cruenta. Sórdida e impura
E a vida a atiçar soluços
Que me afogam de amargura
Como é possível perder nos versos
Se nesse labirinto cantas c´oardor
Nágua bóia então poemas
Mas não afoga um grande amor!
(17 de Abril)
Sou eu a procurar a chispa
O mais explosivo dos gases
Detonar feito um raio de luz
E com o Culpido fazer as pazes
Mas sublime mandu viril
A rasgar virgíneos rios perenes
Silva na canaviera a tormenta
A corredeira d´água em sonho solene
Ó fonte onde estás? Afogar quero amores
Amar-lhe-ei ao fim dos tempos
Pelo avesso debruço a relutar...
E a mutilar de amor o tormento
Hoje me choro um coração deserto!
Que eruptiva a lágrima veio
Noutros tons as décimas
A fulgurar o róseo seio
J. Fora, Abril de 2001
URBANATURALIDADE
Ely Duarte Machado
Então o jasmim se recolhe a noite
Aqui no jardim do coração rasgado
E o sabiá que triste ensaia
O tenro canto no laranjal dourado
No juazeiro a sombra fria
Se emparelha o casal de jaguar
Revoa manso o bacurau fugido
Do olor das asas do velho gambá
É o sereno gotejando da bromélia
Que corre ao ninho do afoito esquilo
É a cauda máscula do pavão aberta
Na lua oculta do apagado brilho
Para o cerne da moita desnuda
Pulula em vôo a codorna assustada
E as gazelas saltitantes se indeitam
Sob a escória da bruma gelada
Óh! Dia lindo da vida na serra!
E eu desgostoso da vida urbana
Respirando o mortal carbono
Vegetando um amor de cigana
Como é lindo o lobo uivante
pra lua cheia namplidão celeste
E tão belo o sol vertente
Ao serrado nas frestas do cipreste
Aqui ainda desnudo belezas
Da dama-da-noite o suspirar do incenso
Dos amores o perfume francês
E das têmporas o crioulo lenço
Lá na serra da fonte à vida
De tanto amor a noite gemia
Aqui prematura é a morte certeira
No fremir entroncado da agonia
Pois bem... Aqui me fico e lá me vou!
Repartido entre a íncola da urbanatural
Enquanto aqui me canta o estéril pintagol
Lá ouvirei noutrhora o pintassilgo imoral!
Divinópolis, Maio de 2001
ABC do Entardecer
No vértice dos olhos meus te vejo bela em teu horizonte
O astro rei decanta teu calor atrás dos montes
Enquanto peleja estafado esconder em teu jazigo
Desponta ainda raios rubros lá do teu abrigo
O entardecer em vermelho deriva a vertigem
A penetrar as frestas das folhagens virgens
Os pássaros se achegam para a noite de luar
Canta ainda o quase instinto sabiá
Quando por fim o sol então dormira
A lua incrédula ascende cheia a tua ira
E os amantes como nós ao banho relento
Amam-se até o corpo cair macilento
Vem mansa como a coruja plangente madrugada
O sereno acoima gelado sobre nós uma camada
Que borbulha fervendo nosso amor noite adentro
Debaixo de um avelhantado lençol de remendo
É dia... Jugulam-se as mágoas do anseio lunático
Vinte quatro horas de amor ressurge o arrebol
A claridade fria transparece um tormento estático
Já surge a tardezinha e vai se pôr outra vez o sol
20/09/2000
Alvoroço fato de Domingo
De tarde,
quando o tédio me abandona,
Eu vou para a cidade, contristado...
O sol como um inglês embriagado,
Vomita vinho na celeste zona.
Alphonsus de Guimaraens Filho
Amanheceu o domingo sem graça
Das cinzentas nuvens caia a chuva fina
Silenciava-me o tédio... enchi uma taça
Sinto arder por estar só... minha face definha
Nada de glórias ou sofrimento
Algum aleite do passado ilícito
E todo um frenesi se refaz em tormento
Como martírio no semblante explícito
O fadário me deixou uma bagana
Que em desatino a idéia desencana
As sombras da relutante agonia
Sovei o amaldiçoado por me atear letargia
Em marcha lenta a inquietude cavalga
Não mais aspiro tresloucado por malta
Brada lôbrego da gaita meu som ressonante
O blues efêmero da náusea aberrante
Meu corpo em mente se iguala a alma
Braços e pernas movimentam-se vacilantes
Em dourado é banhada minha áurea
Vivo os extremos da mania extravagante
BH 4/9/2000
AMOR AO LAGO
Quando a noite turva ao lago enlua
D´agua o fio tange em prata
O vento silva a virgem palmeira
O peito em chamas amando brada
Chucalhando as secas folhas caídas
Velejam no prateado manto
E o bacurau rasante plaina
Se embaila a sombra ressoa um canto
Cães vadios feito lobos uivam
A cheia lua n´amplidão do céu
E no clarão saltitantes peixes
N´agua banham infinito escarcéu
Pois veja meu amor!
Sobre o luar a caravela
Adentremo-nos o entardecer
A noite é nossa: romântica e bela
Meu beijo inflama no teu lábio em chama
Na vela sopra mansinho o vento
Lá no meio ancoro o barquejo
E a nau do amor estaciona ao relento
Sobre ti o barquinho me move
Quando despido eu jurar te amar
E então a rosa murcha na jarra seca
Revive vermelha pelo chão desabrochar
J. Fora, 03 de maio de 2001
AMOR PRIMEIRO
Quando recordo a infância senil
As violetas desabrocham no jardim
E a mente caída em sonhos d´ouro
Se embebe no perfume do jasmim
O soprar do vento um funil de poeira
Arqueja soluços a vil tempestade
Cai as lágrimas do pranto o choro
Sussurrando lembranças sufocando saudade
Ainda infirmes ao longo da ribeira
Corria ao Grupo o livro a mão
E soluçante a ânsia avista
Sombra primeira a infante paixão
Mas o destino despedaça o rumo
E habita em vazio a razão dos passos
Então disparo desesperado altivo
... por apertar novo amor nos braços
Nos sorvos etílicos abatido a sovina
Na busca errante o distante paraíso
E quando os pés só eram feridas
Ressurge mulher o infante sorriso
Tanto tempo! A vida em curso
A rosa aberta desbotei
Então cantante mergulhado ao passado
Apaixonado a ti me dei
Assim mil planos a vagar tardio
Projeta e vinga paixão inocente
E então fomenta ventura nova
Ensaiando um canto de amor ardente
J. Fora, 27/03/01
BANDEIRAS
Não escrevo senhor meu bravo!
Dos teus bafos desgrenhados
A arte das palavras liberta
O laborioso homem irado
O veraz e bravio povo
Verte o sangue na lavoura
Marretando a rubra ferragem
Genitália indígena, negra, moura...
Quando o rio transbordar no curso
Vossa violência: arrepender-se na desforra
E as massa soberanas...
Escreverão a nova história
Hoje a lavra cruenta d´escárnio
Empedra a multidão padecida
Mas tardia vingança vermelha
Trará hilariantes dias de vida
Venham multidões cantando hinos
Ergam suas armas e bandeiras
No ápice da rubente luta
Soldados do povo fazem fileira
J. Fora, 27 de abril de 2001
BEM-TE-VI
Hoje cedo o bem-te-vi dizia
Ter me visto desmaiado na nudez
- Bem-te-vi ó poeta louco...
nos braços dela a primeira vez
- Bem-te-vi sobre a crista pecar...
semeando um beijo ardente
Sobre ela o lençol cobria...
a beleza infinda do corpo inocente!
- Bem-te-vi amar a virgem
- Bem-te-vi! Mil vezes vou cantar...
vi teus lábios sobre o róseo seio
um poema de amor sussurrar!
Despir a virgem no colher de cada pétala
Restou um caule então d´espinho!
- Bem-te-vi sobre pétalas e roupas...
espalhadas pelo ninho!
- Bem-te-vi! Bem-te-vi...
é tudo que posso dizer!
- Mas meus olhos fitavam diligentes
esse amor que só eu pude ver!
- Bem-te-vi! Bem-te-vi...
ao despir a virgem flor
O bem-te-vi fingir comigo...
a fantasia de um sonho de amor!
J. Fora, 20 de abril de 2001
BRASIL: COLÔNIA E ESCRAVIDÃO
28 de Outubro de 1999
Por oceanos e mares afora
Barcas velas alçadas d' aurora
Sobre águas - litigiosa expedição ao pretenso
Desliza oscilante o barquejo no azul imenso
Rara vida no negrume versus alvorada
Óbito - urde o trovão raio hidro-dilacerada
Divisão de águas sob o sol cáustico
E na medula segue o comboio luso náutico
Em mente - anseios fétidos é lume a leviana
Selvagem turba do algoz a lusitana
Gargareja o sangue do tapuio a reveria
No conluio explicito da motriz hipocrisia
Mal sustende o cruzar dos oceanos
Lança a âncora e seus grilhões profanos
Bispa o índio invés da canela e do cravo
Homem ao homem animal seu escravo
Pólvora alva à flecha rubra
Solo de sangue que poreja a alma turva
Carnificina do eclesiástico genocídio cristão
Colonizador asno sórdido errante do tufão
Eldorado - dimanar do bandeirante caçador
Morticínio à frente - rumo ao ninho do condor
Tira a vida nômade selva adentra a matança
Grita o índio inda tarde verás vingança
Arde o fogo as labaredas da história
Vermelha é a terra que fecunda a vitória
Ó escravo seu servo forçado estrangeiro
Trás agora o negro em navio negreiro
Pelo oceano em balde corre dois mil clamores pro infinito
Aclama: "ó deus pai" - sem resposta a um só grito
Senão rebeldia o furacão a todos países uni-vos
E no baldrame da violência elimina os inimigos
CAMINHOS CRUZADOS
Meu olhar distante rouba
A claridez do teu olhar
Pena a sorte não me dera
Chance um dia de beijar
No azo das tardes infindas
Um tênue olhar diriges e avulsa
João-sem-braço as costas viro
Por sonhar amor moldado a gusa
Hoje orei a um ente teu
O qual belo erário é tu
Tão charmosa tão divina
De paixão meu peito nu
No amanhã da tarde à vinda
Rosa dar-te-ei na mão
E no alento de uma estrofe
Incinerar teu coração
Mas se a rosa recusaste
Murcharei junto d´ela a sarjeta
Noutro dia ainda triste
Dar-te-ei mil violetas
Que a flor da morte horrenda
Sepultai o desdém d´alma vil
Por dizer tão loucamente
Que romance igual não vil!!!
J. Fora, março de 2001
DESEJO E PAIXÃO
A poesia pobre em verbo terminadas
Desfigura infinda a razão de ser
Embora ricas estrofes já declamadas
Não tenho notícia de algum dia conceber
Por mortificar os desejos vividos
Uma metáfora que seja como morfina
Que me desperta sentimentos garridos
Alguma síntese dessa bendita sina
De tudo nasce do olhar que brota
Em química atrativa ao fogoso beijo
Por opinar o poeta que abarrota
Seu coração de freqüente desejo
A paixão é o solene fronte
No campo límpido vergel de flor
De um lado brota a peçonhenta fonte
Do outro mina o ardente amor
Montes Claros, 28/11/2000
FIGURAS DE AMOR
½ noite o vampiro despertado
Don Juan a língua afia
Castro Alves um poema apaixonado
O amor pelo mundo em magia
Madrugada o morcego à torre alta
Lord Byron infinita loucura
Na flor dos anos o poeta a morte pausa
O amor pelo mundo em amargura
Negros dias o Conde se esconde
Do espanhol amante rios em choro
Estrofes baianas espumas à fonte
O amor pelo mundo em coro
A capa negra fadiga uma asa
Em charmosa sedução mascarada
De um poema declamado plena praça
O amor pelo mundo à mais amada
Montes Claros, 30 de Novembro de 2000
FIO DA NAVALHA
"Como pode o peixe vivo,
Viver fora da lagoa?"
Cantiga Popular
Num rumo escarpado rasga
Oh! Multidão as cantorias
Por hilária plenitude em desforra
Na primavera ouvir andorinhas
Canto da manha em pranto
Adormecer na bruma da madrugada
Além da ribeira castelo d´ave
Trançando como tijolo o fio da ninhada
Como pode do ovo à vida
Sem um ninho a sua estadia
Ou o romper dos grilhões o escravo
Sem a luta mais bravia?
É como um pulmão carbonado
Sem a molécula do ó...
Tal qual Asa Branca de Gonzaga
Sem a gaita iniciando em dó
Como pode o jardineiro...
Viver sem o perfume das flores?
Não pode então o poeta...
Viver sem a loucura dos amores
J. Fora, 27 de abril de 2001
IMPOSSÍVEL?
Ainda ontem de ti já descrente
Lateja recordações do teu desdém
Num rir maldoso uma fina tirada
A dizer: não vem que não tem
Não quisera o debruçar do olhar
Tremular menina dos olhos ao fronte
Vibrar no alento em roçar os lábios
E iluminar a escuma do horizonte
Ouvíeis das malditas bocas:
- Das trevas! Felino e imundo
Convulsivo a devorar de sonhos
Agoniza como tufão pelo mundo
A este triste devaneio pérfido,
O choro etílico sobre a infame garrafa
A sentença poética da dor que enjoa
Eis que de dentro a tristeza emana
- Não bebes! Relampeja o inconsciente...
Na láurea de desejo se embebe
Qual um soldado no fronte
De paixão a delirar em febre
Oh! Negro olhar ao jardim!
Sobre verde campina suave d´esperança
Um charme feminino a tinir
Das pálpebras a bradar uma aliança
Foram dias! Porém uma ventura!
A fascinação inebria
O desdém desfigura na face
E então senti dela uma pálida mão fria
E tão grande a pupila aberta
Como sombra negra no vale verde
Ah! Os braços se abriam solene
E o coração me escancara um vermelho tapete
Adeus maldição insana!
Don Juan vagueia abençoado!
Seca-me as lágrimas meu anjo da guarda
Dá-me brilho ao rosto desbotado
E então rosas a prantear certeira
O sonhos d´ouro o desdém desfeito
A mão convulsa a dissipar frescores
E ela descansa no meu peito!
J. Fora, 26 de abril 2001
MODERNAS CHIBATAS
Oh! Temei-vos da turba esfarrapada,
Que salva o berço a geração futura
Que vinga a campa à geração passada.
Castro Alves
A diatônica que triste ensaias
O som que choraste o escravo na colheita
Rolam lágrimas do sofrido pranto
Se o chicote o negro deita
Quando o crime dos senhores jazes
A tristeza entoa a nota funeral
E a ojeriza peito adentra
Na desforra mais fatal
América tuas terras vertem guetos
Do turbilhão assassino do senhor
No teu dorso o sangue jorra
Daquele explorado - ergue-te com labor
Enlouquecida a gaita aclama
O mal querido estado de melancolia!
No pau-de-arara soa chicote maldito
Que amarrado o negro gemia
E tão covarde senhor de terra
Ó gaita fúnebre que canta à morte
Para o cerne do fogo e da brasa
A não evocar devaneio Deus da Sorte
Ainda hoje a chibata urra
Ao triste tocar do Blues
Injeção letal ou cadeira elétrica
É mais um negro a morrer na cruz
Ó Pantera que incendeias o mundo!
Força negra da vermelha desforra!
No Mississipi o fogo da morte
Terror rubro-negro ao senhor de agora
J. Fora, 28/03/2001
MORRER
Morremos desde que fecundados
Por cair maçante da mãe o colo
Morre a forma o esperma ovulado
Pelo ralo a placenta o óvulo
Viver é morrer a cada instante
Nascemos pela regra não a sorte
Envelhecer é o ciclo delirante
Do inevitável caminho da morte
Ciência conformada ao social
Que não sente o óbito carcomer
É só lembrar o menino jovial
Hoje velho no espelho a morrer
Células morrem e neurônios
Ossos doem juntas inflamadas
Não há Deus no mundo ou Demônio
Que cessem dor o destino desgarrada
É certo hoje mais um dia de passado
Pois outro vem no amanhã também
Se por sorte meu final atrasado
Cedo ou tarde eu sei que vem
Que não seja em vão o trilhar da vida
Se natural tomara o peso da montanha
E se em flor na luta ferida
Que seja por bala a finita façanha
Montes Claros, 30 de novembro de 2000
O CORAÇÃO EM SETE PORTAS E DEZ LINHAS
O Coração é o colibri dourado
Das veigas puras do jardim do céu.
Um - tem o mel da granadilha agreste,
Bebe os perfumes, que a bonina deu.
O outro - voa em mais virentes balças,
Pousa de um riso na rubente flor.
Vive do mel - a que se chama - crenças - ,
Vive do aroma - que se diz - amor.
Castro Alves
1 - Pai
Teus caminhos tentei
Excitação e entusiasmo
Aspirei-te na noite fria
Mas frio era teu corpo
No fundo,
Vi explodir teu afeto
E aflorou fora a primavera
Um jeito diverso de calor
Ainda que a mim um grande
Exemplo de amor
2 - Mãe
À bala dos canhões
No curso do meu peito
Entrarias a frente por amor.
Sofres porque sofro
Lamento!
Amo-te emocionadamente
Sinto falta de ti
E de todo seu calor
Meus últimos delírios nostálgicos
Terão estampados teu semblante de amor
3 - Avós
Sempre me veio dúvidas
Do que de mim seria
Se os vovôs,
não tivesse conhecido vovós
É um longo trajeto até aqui
Entre militante comunista e operária
Até um soldado antifascista e órfão
Pais fortes!
Neto inconseqüente...
Com muita sede ao pote!
4 - Irmãos
Uma borboleta ajato
Emanou do casulo
Embeleza o mundo afora (Erica)
Do teu alvéolo cedo saíste
E voas no diário labor (Elen)
Nem mal nasceu borboleta
E tua coragem feriste tuas asas
Mas sem asas ainda voas feliz (Eneida)
Que serás de ti cassulinha
Espero que voe para bem longe (Evienn)
5 - Filhos
E vocês? Quanta dor
Cresciam diante meu delírio
Viviam pedaços do meu amor.
Em seus corações
Mesmo sem lembrar
Está guardado em algum lugar
Cultivem-no entre vocês - irmãos
Arrebentem todos os muros
Façam muito barulho
A vida, mesmo longa é curta!
6 - Amor
Vivi por vivê-los
Até o último ardor da brasa
Em verdade os esgotei
Amor tive, jamais o fui
Já é tarde para sê-lo
Amor é mel
Uma colher por dia
Gostoso, saudável não enjoa
Já no gargalo nem brinca
Dá uma tremenda dor de barriga
7 Quepe
Em alguma manhã do futuro
Será desfraldado teu nome
As massas o defenderão
Aplicando teu exemplo proletário
Espelhando em tua conduta
Lutarão bravamente por seus anseios
E tuas aspirações serão cumpridas
Orgulho-me de um dia ao seu lado
Ter podido tranqüilamente caminhar
E sentir o imenso prazer de ouvir-te falar
O COSMO
1 (Avante)
No encete cósmico da estirpe um ovo
Bradando de energia atômica
Coquetel inorgânico ou não?
No "panelaço" do universo a ferver
A bomba da "vida"
Bummm!!!!!
Labaredas, cometas de fogo
Potência infalível pelo orbe afora
2 (Floresce)
Bolas de lava ao infinito
Estilhaços do ovo da "vida"
Navegando anos luz
Deixando seu rastro fulgurante
- Outras bolas de fogo -
Ao universo condecorar
Ladrilhos de luzes
Energia e labor
3 (As mãos de Deus)
Não se via o crepúsculo negrume
Senão o labor de luzes intermináveis
Apenas pedras de fogo
Imensos cometas cortando e debatendo
Espalhavam-se os estilhaços
O calor atenuando
Editando nébulas e o estrelário
Harmonizando os astros e os céus
4 (Cores)
O entretom de luzes cruzadas
Tridimensionais acordes
Invisíveis a olho nu
Tonalidades opostas ao lúcido clarão
O estrugir dos cometas
Fragmentos e labaredas
Junção de luas e astros
Estrelas, luminares e planetas
5 (Tépido período)
Infinitas galáxias formadas
Planetas na órbita do tempo
Sob a gravidade concêntrica
Calor, terra, fogo, água - vida!
Orgânica inorgânica pedras!
Conchas, mariscos abalones
Oceanos mares maremotos
Terremotos, placas tectônicas
6 (Ego)
Ondas negras e fugazes
Inato avejão interminável,
Espectros reivindicam asilo
Esgrimindo insignificantes lamúrias
Longe do céu ou do chão
Como o condor afora de seu ninho
Que pranteia soluçante no ar
Em busca de calor no materno colo
7 (Negação materna)
Se alguém sonhou com frutas
Dela comeu-lhe a semente
Lambuzou da sua doçura
E no ventre do universo
Delirou as vozes do pai
Sucumbiu o a realidade do Cosmo
E a maternal energia do universo
É negador da uterino confesso
Belo Horizonte, 15 de março de 2000
QUANDO TE VI
Ela de súbito bela
E de esperado ainda mais linda
A melena que no fim anela
Subia selvagem com o vento na berlinda
O lábio inferior ainda mais carnudo
Por sucumbir toda estirpe unilateral
Benesse o ósculo assim por tudo
Uma flegma flamejante colossal
Não és a Deusa na mitologia
Talvez Eugênia no palco euforia
Leonídia despertando o primeiro amor
Ou Idalina professora das noites de furor
Inda tarde o sol afogado
Na garganta do verde morro
Donde uiva o vento inflado
Que sopra a paixão em fogo louro
E já não são senão modernas carruagens
Com cem cavalos da força e ferragem
Que me traz, logo, estou longe sou cigano
Minha Pórcia do sertão urbano
Mais querida e conclamada
Faça sol caia a tempestade
Venha mais que amada
Abençoada de saudade
J. Fora, 24 de março de 2001
UMA VIDA DE GLÓRIAS
26/09/2000
Vinde às heróicas fileiras da emancipação
Eis que então fomenta a letargia ao avanço
Nesse fétido mundo de escravidão
Nessas filas minha vida então me lanço
E se vai a fileira a compor-lhe a massa
Engrossando as estrofes do poema proletário
Compondo as linhas que a liberdade traça
A reluzir a chama vermelha no estrelário
A ventura não levará à passiva morte
Não haverei de aguardar bater a porta o destino
Viver inútil e envelhecer a sombra da sorte
Ou mesmo incapaz sobre uma cama em desatino
Acreditar na possibilidade do "impossível"
Se é que nesse mundo haja algo impraticável
Ao revolucionário que em perspectiva tudo é plausível
Eis aqui nesse mundo não há nada impalpável
Partidários da fatível liberdade popular
Atrevidos por traze-las no alento de tomar o céu
Certos da temporalidade das montanhas avançar
Dispostos a escalar na grandeza do rio que cai em véu
Mas se por terra a sorte com meu sangue um rio de glória
O chão cuidará de florescer um dia vingança
Os olhos fecharão em sensata vitória
E o sol brilhará um novo mundo de esperança
VERSÁTIL DESTINO
Não estou nessa vida nem eu nem ninguém,
Vou ser nem prazo...
Que ao menos na estrada me sorria alguém
Ainda que por acaso.
Fernando Pessoa
Quando eu disser adeus, amor, não diga
adeus também, mas sim um "até breve"
para que aquele que se afasta leve
uma esperança ao mesmo fadiga
Alphonsus de Guimaraens Filho
Haverei de escrever para um gen poético
Sangue do sangue de Alphonsus poeta
Que das montanhas inspirou o verso eclético
Por despedir da prima amada em estrofe discreta:
Uma tarde comum uma tarefa incomum
Ia-me a meu ninho a realizar a insólita
Livre, pensamentos tão pouco tive algum
Literalmente fora - um astronauta - de órbita
Ia-se límpida a ardente noite cair
Quando uma flor dourada meu olhar roubou
De perto não pude vê-la mas de longe a vi sorrir
E delicadamente então me encantou
Noutro dia o mesmo sol comigo saía
Quando então a sorte o girassol me trouxe
Parei então cantei a ladainha
Que brotou em versos como se um poema fosse
Acenei firme prendendo teu olhar ao meu
Enquanto a boca minha se prendia
no insaciável desejo pelos lábios teus
Bradei por asfixiar essa vontade doentia
Do teu Grambel então me apossei
Como senha de uma conta milionária
E ao ouvido da ótica me encantei
Desde então nessa rotina diária
Pois a sorte então a todo custo
Em teus desejos o poeta clamou
O belo presente que ganhei de susto
Quando os teus lábios, meus lábios beijou
Aberto e alegre que na solidão me põe infeliz
O girassol dourado que você me recorda
Por realizar no palco do coração o sonho de atriz
Que agora seu (meu coração) a cortina puxo a corda
Nos aleites da noite fria na cidade
No Meio do Mundo bebi tua graça
Parkinson nos pés à maldade
Felizes como no lago uma parelha de garça
Agora me pergunto aos ouvidos do destino
Se haverei da mesma sorte dos dias o restante
Viver imensa dor ao coração ferino
Ou ficarei platônico a desejar-te a cada instante
Belo Horizonte, 28 de Setembro de 2000