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Retrato ao meio dia

por J. L. Mora Fuentes

 

Estou no meu lugar. E não digo quase nada dizendo que estou no meu lugar. Posso ser o peixe nadando liso e escamado pela areia do fundo, o gavião rodeando lento e agudo sua presa mais embaixo, a serpente na toca, a onça no trajeto do salto. Se levanto o braço e o coloco atrás de mim no respaldo desta poltrona, posso ser a visita indesejada que sôfrega e contumaz assume e absorve a intimidade do hospedeiro, ou o proprietário desta poltrona com todos os riscos e culpas que o possuir a propriedade te traz. Em dias como este (choveu, depois fez sol e agora venta) costumo me sentar nesta poltrona, em nada especial ou comovente, e me pergunto audaz, prudente, um pouco mais sobre o logro que me envolve. O grande e único predicado desta poltrona não vem do seu existir, mas de sua existência tão próxima desta janela. As venezianas abertas, o vidro baixo, o pó e o embaçamento natural dos vidros, a luminosidade oblíqua, interior e exterior contrastando, posso ver meu reflexo se fazendo num retalho desse conjunto, existindo fora e dentro de mim, me vendo e me desconhecendo. Sorrio, primeiro. Um esgar nesse outro da janela. Dentes grandes, separados, um pouco amarelos, não sei se realmente são assim ou pelo contraste com a palidez sepulcral do meu rosto. Palidez que não indica a solução fácil de maior exposição ao sol, como insistentemente me recomendam os amigos. Um profundo maior e imperfeito tira desse rosto que vejo refletido (meu, por maior absurdo que seja) o rosado que um dia, faz muito, é verdade, mas que um dia possuí. Aproximo minha mão do retângulo de vidro, tampo meu rosto com esse movimento, e observo a palma. Sim, posso ver algumas linhas, é um bom reflexo, são cinco dedos, sempre foram e imploro para que permaneçam sempre. Claro, perder um ou outro não seria a morte, mas um começo. E nesses processos, é necessário apenas o primeiro movimento para que tudo desabe em ritmo de avalanche. As unhas compridas e sujas de terra. Um dos poucos méritos da minha mão: a de entender razoavelmente a terra. Tragam-me uma planta, eu costumava dizer, e eu a farei feliz. Muito bom texto para se um dia eu montar uma firma de jardinagem: À Roseira Gris - Tragam uma planta que a farei feliz. Pouco criativo, mas para essas situações quanto menos criatividade melhor. Recados diretos sempre são eficientes. Do ponto de vista do empresário, qualquer cliente é um idiota em potencial, um pequeno e eloqüente trocadilho, um versinho de rima organizada e simples é mais que o bastante. Não se arriscam em usar demasiado a palavra. Muitos sobressaltos se evitam assim. Uma nuvem escura agora. E pelo transparente da janela vejo meu rosto se confundindo com essa massa suspensa, meu nariz suportável e reto mas se perdendo bastante na ponta que tomou a forma de uma pequena bola. Se levanto o queixo e abaixo os olhos até não poder mais, percebo que escondidos sob a bolota de carne existem dois pequenos orifícios, por onde, ainda incompreensivelmente e como por magia, passa o ar em quantidade nobre para me manter vivo. Fico de lado agora. O perfil não é tão desagradável. Algumas espinhas marcando a pele, mas isso não é importante. Os olhos também, suportáveis. Dentro alguma coisa se movimenta latente e dolorosa. Posso ver esse movimento, mas apenas isso. Que é muito pouco, e apenas me identifica com todos. O mundo ruge lá fora, e eu me detenho inútil e catatônico nesta janela. Mas hoje é um dia assim (choveu, depois fez sol e agora venta), sair lá fora seria contrariar os elementos, não tenho mais força ou ousadia para isso. Ouse mais, ouse mais, me disse o amigo do sul confortavelmente instalado e a salvo. Me disse um dia, quando rápido e ausente passou o olho sobre os meus atos. Quando recebi a carta, eu estava vomitando e sangrando por ter ousado mais, e ele não sabia. Se assumimos determinada discrição, poucos vão saber da chapa e do maremoto que levamos por dentro. Posso ver também uma ruga funda e definitiva se formando na testa, vertical, descendo em pequenas ramificações até bem próximo do nariz. Isso não é nada, apenas em mim se faz o pesado do tempo. Olho para fora. Ainda estou lá, maravilhas da reflexão, mas esta vez me detenho na rua, gentes passam como em todas as ruas, me reconheço em muitos gestos desses que passam. Não me vêem. Posso observar tranqüilamente. O menino de sandálias anda, evitando pisar nas linhas da calçada. Se esforça corajoso para vencer. Não sei para onde vai. Pára um pouco, tira alguma coisa dentre os dedos do pé direito, o risco de usar sandálias, e continua. Mais à frente, um poste de concreto, uma mulher parada bem próxima, talvez cinqüenta ou pouco menos? Olha seu relógio. Tenta atravessar a rua mas a velocidade e o número de veículos a impede. Caminha então pela calçada e se perde, não a vejo mais. Um cão, não muito grande, com uma mancha preta na testa e mancando um pouco de uma das patas. Vai embora. Mãe e filha andando vigorosas, uma sacola de plásticos, vão fazer compras, suponho. Muitos mais passam pela rua. Em quase todos, hábitos e existências de gentes de outro lugar. Um povo sem rosto. Sufocado. Desmemoriado. Colonizado. Eu também, infelizmente. Tantas invasões, tantas almas mortas. Penso em como seria bom assumirr entranhar em todos nós a verdadeira alma deste nosso lugar. Absorver o coração do nosso continente. Seria fácil então descobrir possuir e sustentar nossa cara verdadeira. Sorrio, porque pensar assim é esquecer a movimentação potente e virulenta do invasor. Estamos enfraquecidos. Sorrimos todos, sorrimos sempre. A vida se faz, é verdade. E sobrevive. Olho outra vez meu rosto. Não sei quase nada dele. Também sobrevivo. Estou no meu lugar. Não sei quem sou.

 

(in Fábula de um rumo - São Paulo: Ed. Moderna, 1980)

 

M.F. Casa do Sol Topo

Página criada em Julho de 99.