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 TecnoEstresse


    Entrevista com Larry Rosen a Veja

    O psicólogo americano Larry Rosen, 50 anos, é uma das maiores autoridades mundiais quando o assunto é a relação entre o homem e a tecnologia. Há vinte anos ele pesquisa os efeitos dos avanços tecnológicos no dia-a-dia das pessoas. Seu diagnóstico é alarmante: todos nós, sem exceção, somos vítimas de uma nova modalidade de stress, provocada pela dependência cada vez maior da tecnologia. "Ficamos irritados quando algo não funciona bem. Pode ser tanto o telefone celular quanto a máquina de fazer café", diz. Ele estuda, sobretudo, o comportamento dos habitantes dos países ricos, com farta disponibilidade de recursos tecnológicos. Mas garante que o stress é equivalente em países menos desenvolvidos, como o Brasil. Confira!

    Tecnologia Cansa
Veja - Bipes, celulares, secretárias eletrônicas, internet, e-mails... A tecnologia foi feita para facilitar a vida das pessoas, não?
Rosen - A tecnologia é fascinante. As máquinas são rápidas e nos permitem fazer uma série de coisas até há bem pouco tempo inimagináveis. O mundo todo está a um clique no mouse do computador. Enviamos e recebemos mensagens eletrônicas de um lugar para qualquer outro. Nós nos comunicamos das mais variadas formas com as pessoas. Mas há um lado negro. Temos a impressão de que não podemos funcionar sem ela. Fazemos cada vez mais e mais coisas, estamos mais irritados do que nunca e, por incrível que pareça, nosso tempo é cada vez mais curto. Todas essas reações à tecnologia nos estressam. Chamamos essa tensão de tecnostress. É o mal da modernidade. Todas as pessoas do mundo - da criança ao velho, do executivo ao empregado - sofrem com isso, de uma maneira ou de outra.

Veja - O que define essa nova modalidade de stress?
Rosen - Ela é o resultado da convivência cada vez maior das pessoas com a tecnologia. É a irritação que sentimos por não conseguir operar o videocassete novo ou quando ligamos para alguém insistentemente e ouvimos que o telefone celular está fora de área. Veja o caso da internet. Nunca as pessoas tiveram acesso a tanta informação. Mas, em muitos casos, o efeito pode ser inverso. Ao invés de ajudar, atrapalha. Estatísticas mostram que o volume de informações disponível dobra a cada 72 dias. As pessoas correm o risco de se perder diante de tanta coisa. A conseqüência imediata? Stress.

Veja - De que maneira a tecnologia afeta o comportamento das pessoas?
Rosen - A velocidade da tecnologia está alterando nosso relógio biológico. As pessoas querem fazer tudo na velocidade do computador, querem que tudo se resolva num piscar de olhos. A conseqüência é que elas estão se programando para correr cada vez mais. Estão vivendo um constante estado de alerta. E isso gera nervosismo, ansiedade. O elevador demora e as pessoas já se irritam. A tecnologia está invadindo nossos limites por todos os lados. As pessoas estão mais impacientes do que nunca. Você começa a ver isso nas crianças.

Veja - Como assim?
Rosen - Pesquisas feitas com essa geração de crianças criadas com o computador mostram que o limite de paciência delas é muito baixo. Elas não suportam nada que não se resolva imediatamente. O resultado é que estão apresentando cada vez mais problemas na escola, que definitivamente não é um universo multimídia. Pela sua própria natureza, a escola vira um tédio para essas crianças. Elas não conseguem prestar atenção às aulas, participar de reuniões, e se irritam com qualquer atividade demorada. A tecnologia está mudando nossa percepção de tempo. E ela nunca ocupou tanto espaço em nossas vidas. A questão é que ainda não aprendemos a usá-la de maneira adequada. Veja o grande paradoxo: os avanços que teoricamente vieram para agilizar as nossas tarefas e nos proporcionar mais tempo livre acabaram nos ocupando cada vez mais.

Veja - Como isso se aplica a um país menos desenvolvido, como o Brasil, no qual só uma minoria tem acesso à tecnologia de ponta?
Rosen - Nos últimos vinte anos coordenamos pesquisas em mais de vinte países no mundo todo, de desenvolvidos a subdesenvolvidos. Isso nos permite dizer que o tecnostress afeta todas as pessoas, sem exceção. É importante enfatizar que o tecnostress não resulta apenas do contato das pessoas com o computador, mas com qualquer forma de tecnologia, dos eletrodomésticos aos telefones celulares. A maior evidência disso veio com as ameaças do bug do milênio. Um tecnostress enorme foi compartilhado por toda a população mundial. À medida que a tecnologia quebra as barreiras, diminui as distâncias e une as pessoas e países, nós todos experimentamos seus benefícios, vantagens e, certamente, todo o stress proveniente dessa relação.

Veja - A sensação de não termos mais tempo para nada é real?
Rosen - E como! Se tem uma coisa que a tecnologia fez foi certamente esticar o nosso dia de trabalho e comprometer a nossa qualidade de vida. Há pouco tempo, era raro ultrapassarmos as oito horas diárias de serviço. Hoje, depois que vamos para casa, é comum ouvirmos as mensagens da secretária eletrônica, atendermos às ligações no celular, checarmos nosso e-mail... Enquanto vemos as mensagens, aproveitamos para respondê-las, lemos o material que alguém nos enviou, entramos num site para saber mais sobre o assunto e, quando nos damos conta, já trabalhamos duas, três, quatro horas além do horário normal.

Veja - O senhor quer dizer que em lugar de permitir maior tempo de lazer, a tecnologia aumentou a carga de trabalho?
Rosen - Significativamente. Antes, você trabalhava apenas enquanto estava no escritório. Agora, você trabalha onde quer que as pessoas possam encontrá-lo. E como geralmente estamos conectados o tempo todo...

Veja - E como fica o lazer?
Rosen - Os limites entre trabalho e lazer hoje em dia não estão muito claros. E a culpa é toda da tecnologia. Muitas pessoas nem cogitam a possibilidade de ficar desconectadas nos finais de semana ou durante as férias. Viajar com laptops e celulares é cada vez mais comum. E basta estar conectado para estar trabalhando. É um pulo. E as pessoas ainda dizem que não sabem por que estão estressadas...

Veja - A tecnologia vicia?
Rosen - Vejo cada vez mais pessoas depender dos produtos tecnológicos. É o que nós chamamos de tecnose. Elas simplesmente não conseguem imaginar a vida sem tecnologia.

Veja - Quais são os sintomas da tecnose?
Rosen - A dependência da tecnologia significa que você não pode viver sem ela. Uma pessoa que fica nervosa porque não tem acesso à tecnologia, ou que não se lembra de como fazia suas atividades antigamente, certamente sofre de tecnose. Não podemos esquecer que a tecnologia falha, às vezes. Aí você começa a ver pessoas entrando em crise porque o microondas estragou ou o computador pifou. Eu conheço pessoas que se viciaram tanto em tecnologia que passaram a levar uma vida fora do normal. Elas não sabem o que é relaxar, sair em férias, tirar um dia de folga. Ficam totalmente perdidas. E, acredite, isso está se tornando cada vez mais comum. As máquinas estão ditando as regras. Guardadas as devidas proporções, é como nos filmes de ficção científica: elas estão nos controlando!

Veja - Por que a tecnologia vicia?
Rosen - As pessoas não estão sendo capazes de controlar o uso da tecnologia. Por dois motivos. Primeiro, porque a tecnologia é muito atraente. Pense num computador, por exemplo. Ele trabalha rápido, é interessante, mostra fotos bonitas e coloridas, toca música, ou seja, faz praticamente tudo o que você quiser. O segundo motivo é que ainda não aprendemos a dizer chega. Sabemos que o computador é capaz de executar diversas tarefas ao mesmo tempo. Por isso, concluímos que também somos. E começamos a fazer tudo ao mesmo tempo. Temos a ilusão de que conseguimos fazer muito mais coisas. É um passo para desenvolver o transtorno das múltiplas tarefas, uma das facetas do tecnostress.

Veja - O que é isso?
Rosen - Quando executamos diversas atividades complexas ao mesmo tempo, nossa atenção se divide entre todas elas e não conseguimos nos concentrar numa só. Acabamos exigindo demais de nós mesmos, expondo nosso cérebro a constantes situações-limite e não demora muito para começarmos a sentir os efeitos disso. Quando passamos o dia fazendo várias coisas ao mesmo tempo, ao dormir é que nosso cérebro ganha tempo para processar todas as informações. É por isso que às vezes acordamos no meio da noite com a resposta para aquela pergunta que tanto nos incomodou durante o dia ou lembrando de um recado que não podemos esquecer de dar. Tudo isso junto nos faz perder a memória com freqüência e altera nosso humor.

Veja - O que podemos fazer para evitar essas situações?
Rosen - Eu sempre sugiro que a pessoa durma com um bloco de anotações ao lado da cama para poder escrever as coisas importantes que lembrar no meio da noite. Pode parecer estranho, mas, uma vez que você tira a idéia da cabeça, acaba relaxando. Ao saber que não vai precisar se lembrar daquilo mais tarde, então se despreocupa. Há ainda um verdadeiro ritual que pode aliviar as conseqüências do transtorno das múltiplas tarefas. Antes de dormir, tente fazer algo que acalme sua memória e o faça focar um só assunto. Leia um livro, converse com a família, assista à televisão. E, antes de se deitar, faça uma lista de afazeres. Assim você não vai acordar no meio da noite com receio de esquecer algo importante.

Veja - A tecnologia tem cumprido seu papel de aumentar a produtividade e a eficiência no trabalho?
Rosen - Mesmo com todo o dinheiro que se investe em tecnologia, a produtividade não tem aumentado da maneira que se supunha. É uma questão de expectativa. Os empresários esperam que as pessoas sejam capazes de usar de maneira eficiente uma determinada tecnologia tão logo ela saia da caixa. E se esquecem de que, na prática, nem todo mundo adora as novidades da tecnologia e de que existem períodos de adaptação e treinamento. Infelizmente, as empresas não levam isso em conta e acabam pagando o preço. Se não visassem apenas resultados imediatos, notariam que eles viriam em forma de produtividade no futuro. É preciso respeitar o fato de que as pessoas reagem de maneira diferente à tecnologia.

Veja - Quais são as possibilidades de reação à tecnologia?
Rosen - Eu costumo dividir a população mundial em três tipos de pessoas: os amantes da tecnologia, os hesitantes e os resistentes. O primeiro grupo representa entre 10% e 15% da população. São os primeiros a comprar qualquer novidade, estão sempre por dentro de tudo e curtem os produtos da tecnologia. Os hesitantes formam o maior grupo: de 50% a 60% da população. Eles preferem esperar que se provem as vantagens de determinado produto antes de começar a usá-lo. E os resistentes, que são de 30% a 40% da população, simplesmente evitam a tecnologia e têm uma série de dificuldades para lidar com qualquer novidade.

Veja - O senhor sofre de tecnostress?
Rosen - Muito! Eu acho que nunca vou ter tempo de aprender tudo o que quero. Não consigo relaxar. Um dos maiores motivos de meu stress são os celulares tocando em restaurantes, cinemas, teatros... Parece que as pessoas perderam o senso de urgência. Só porque elas podem encontrar alguém 24 horas por dia, simplesmente o fazem! Outra coisa que me incomoda é que eu tenho pavor de sair em férias, porque temo o que possa acontecer. Vou voltar para casa e encontrar meu e-mail abarrotado de mensagens, que é o que sempre acontece, e levar horas e horas só para lidar com isso.

Veja - O senhor é especialista em combater o tecnostress e não consegue superá-lo?
Rosen - Mas eu estou melhorando... Aprendi, por exemplo, a não responder imediatamente aos e-mails. Somente minha família tem o número de meu celular. Eu tento me ensinar como sofrer menos de tecnostress, mas, mesmo como pesquisador do assunto, continuo tendo uma série de problemas. Não é nada fácil.

Veja - É possível conviver com a tecnologia sem se estressar, ou a solução é evitá-la?
Rosen - Toda nova tecnologia tem de ser aceita de uma maneira ou de outra. Evitá-la vai deixar as pessoas ainda mais estressadas, porque desse modo elas vão ficar de fora. Pense num executivo que não tem e-mail hoje em dia. Ele está numa clara posição de desvantagem no mercado. O mesmo vale para uma empresa que ainda não tem site na internet. É preciso encarar a tecnologia. Porque a tendência é que ela faça cada vez mais parte de nossa vida.

Veja - E onde vamos parar?
Rosen - Eu gostaria muito de ter uma bola de cristal. Acho que vamos continuar a sentir os efeitos do tecnostress cada vez mais, a menos que tenhamos sucesso em estabelecer onde estão as fronteiras saudáveis. Temos de parar e avaliar nossas vidas, porque somos nós que estamos causando os problemas, não a tecnologia. Afinal de contas, quem aperta os botões?