«CHRONICA
«Faz hoje precisamente setenta e tres
annos que El Rei Dom Miguel I, desembarcando em Genova, protestou à face
da Europa contra a violencia da Quadrupla Alliança que se impora á
vontade nacional, obrigando-o à custa de traições, de subornos, de toda
a opposição no campo da diplomacia e da política, a abandonar a corôa
de Seus Maiores e a ir pobre, mas rico de sentimentos generosos, a
peregrinar por terras extranhas, comendo o pão do exílio, esmolado pelos
seus fieis portugueses e por alguns Principes de generosa e reconhecida
amizade. A pobreza não prejudicou a dignidade do Augusto Exilado. O seu
procedimento foi o mais brioso, podendo servir de exemplo aos homens de
hoje para eventualidades semelhantes, ainda que não sejam revestidas de
manto da indigencia.
Transcrevemos o notavel documento:
Em consequencia dos
acontecimentos que Me obrigaram a sair de Portugal e abandonar
temporariamente o exercicio do Meu poder; a honra da Minha Pessoa, o
interesse dos meus Vassallos e finalmente todos os motivos de justiça e
de decoro exigem que Eu proteste, como por este faço, à face da
Europa, a respeito dos sobreditos acontecimentos e contra quaesquer
innovações que o governo que ora existe em Lisboa possa ter
introduzido, ou para o futuro procurar introduzir contrarias às Leis
fundamentaes do Reino.
D’esta exposição pode-se concluir que o Meu assentimento a todas as
condições que Me foram impostas pelas forças preponderantes,
confiadas nos generaes dos dois governos de presente existentes em
Madrid e Lisboa, de accordo com duas grandes Potencias, foi da Minha
parte um mero acto provisorio, com as vistas de salvar os Meus Vassallos
de Portugal das desgraças que a justa resistencia que poderia ter
feito, lhes não teria poupado, havendo sido surprehendido por um
inesperado e indesculpavel ataque de uma Potencia amiga e alliada.
Por todos estes motivos tinha Eu firmemente resolvido, apenas tivesse
liberdade de o praticar, como cumpria à Minha honra e dever, fazer
constar a todas as Potencias da Europa a injustiça da aggressão contra
Meus direitos e contra a Minha Pessoa; e protestar e declarar, como por
este protesto e declaro, agora que me acho livre de coação, contra a
capitulação de 26 de maio passado, que Me foi imposta pelo governo ora
existente em Lisboa; auto que fui obrigado a assignar, a fim de evitar
maiores desgraças e poupar o sangue de Meus Fieis Vassallos. Em
consequencia do que deve considerar se a dita capitulação como nulla e
de nenhum valor.
Génova, 20 de Junho de 1834
Dom Miguel
Está bem patente o zelo pela Lei, que sempre respeitou, pela soberania
nacional que consubstanciava, pelos interesses d’este povo que d’ahi
para o futuro lhe forneceu os meios de subsistencia. Não temia a pobreza,
abraçava-a certo que cumpria um dever.
Foi para o Exílio espoliado de tudo, tirando se lhe mesmo as roupas do
Seu uso.
Não lhe poderam roubar a corôa real do martyrio mais nobre de resignação
que o mundo viu, nem essa nobreza de caracter que, entre outras, este
documento confirma.
Publicamol-o hoje e bem a proposito.»
(Fonte:A Nação, 20 de Junho de 1907)
Luís de Freitas Branco 1571 - «Palavras do Condestável» por Luís de Camões 1834 - Agostinho José Freire, Relatório do Ministro da Guerra (Excertos) 1860 - A. A. Teixeira de Vasconcelos, A fundação da monarquia portuguesa - narração anti-ibérica 1920 - António Sardinha, Meditação de Aljubarrota 1922 - António Sardinha, 1640 (Portugal Restaurado) 1922 - Pequito Rebelo, Para além do Integralismo 1924 - António Sardinha, Madre-Hispânia 1932 - Hipólito Raposo, Filología política 1942 - ed., Luís de Almeida Braga, A lição de Bismarck 1972 - Mário Saraiva, A Aliança Peninsular - uma advertência 1972 - Pequito Rebelo, A Aliança Peninsular. Uma Polémica Indesejável e Indesejada 1985 - Mário Saraiva, Anotação ao Sebastianismo, edição de 1994 1994 - Manuel Vieira da Cruz, A Actualidade de um Exemplo (Alberto Franco Nogueira) 1996 - Mário Saraiva, Franco Nogueira, a meu vêr 1999 - Henrique Barrilaro Ruas, O túmulo de Dona Teresa na Sé de Braga 1999 - José Manuel Quintas, A Castração dos Hispânicos 2001 - Henrique Barrilaro Ruas, Dois imperialismos 2002 - Henrique Barrilaro Ruas, Em que consiste exactamente o perigo espanhol 2002 - José Manuel Quintas, A «Questão Ibérica» no Advento do Integralismo Lusitano 2003 - José Loureiro dos Santos, A Luta pelo Poder na União Europeia 2005 - Manuel Alves, Portugal ou a Federação Ibérica - Documentos para a História 2005 - Rafael Castela Santos, Contra el Iberismo: apuntes para una epifanía ibérica 2006 - José Adelino Maltez, Este é o meu rei...
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