O Integralismo Lusitano e a herança
de «Os Vencidos da Vida»
José Manuel Quintas
[O Integralismo Lusitano expressou um
pensamento político tradicionalista anti-conservador,
estabelecido em torno de uma consciência da individualidade
espiritual e cultural dos portugueses, numa reflexão teórica
sobre a Tradição e a História Pátrias.
Partindo de uma sumária apresentação do
teor desse pensamento político, aqui se procura captar parte do
seu conteúdo de renovação e de protesto, em especial
aquele que tem directos antecedentes problemáticos e afirmativos
na Geração de 70 pós-Ultimatum (na sua
derradeira fase de "Vencidos da Vida).
O presente texto foi escrito em Setembro de
1997, para vir a ser lido na Abertura Solene das Aulas da
Academia da Força Aérea, e foi depois reelaborado parcialmente,
ao publicar "Os monárquicos e as eleições presidenciais de 1958" (in Humberto Delgado - as eleições de 58, Lisboa, Vega, 1998, pp.
137-173). O desenvolvimento narrativo e argumentativo
da tese aqui defendida, baseado em fontes historiográficas
parcialmente inéditas, constitui parte de
Filhos de Ramires - As origens
do Integralismo Lusitano (Editorial Nova Ática, 2004).
Concebido para ser lido numa cerimónia, o
presente texto apresenta tons e ritmos que se julgaram adequados
à audição. Esta edição foi ainda aligeirada pela exclusão
de notas e referências bibliográficas de rodapé. - J. M. Q.]
No ambiente subtil e
esterilizador dessa conspiração permanente que é a essência
do parlamentarismo
[os partidos] perderam
a noção da realidade; e enquanto o mundo se transforma
vão repetindo maquinalmente as costumadas teses duma
filosofia caduca e que nem já compreendem.
Antero de Quental in Prosas.
Índice
1. Apresentando o Integralismo Lusitano.
2. A Geração de 70 e o acertar do
passo com a Europa.
3. O choque do Ultimatum britânico
e o grupo de «Os Vencidos da Vida».
4. Os «Vencidos da Vida» e as novas
propostas de regeneração.
5. «Carta de um Velho a um Novo»
o render da guarda entre duas gerações.
Nós viemos em linha recta
da fraqueza generosa de Gonçalo Mendes Ramires. E se
alguém, lá mais para diante, pensar em escrever a
novela do nosso esforço, eu creio que lhe chamará
com verdade «O filho de Ramires!».
António Sardinha in Ao
Ritmo da Ampulheta.
Acredita que a vitória será
nossa, ou com a palma dos heróis, ou com a palma do
martírio. Dum ou doutro modo, venceremos. Para quê
fraquejar? Sejamos como a lâmpada que arde até
final. «Dum luceam peream». Não nascemos nós
para arder? Que ardamos, ao menos, na fogueira
generosa das nossas veias, deixando atrás de nós um
gesto honrado de protesto, se de resgate não puder
ser.
In carta de António Sardinha
para Luís de Almeida Braga.
1. Apresentando o Integralismo
Lusitano.
A expressão "Integralismo Lusitano"
foi cunhada por Luís de Almeida Braga, em 1913, na revista
Alma
Portuguesa, editada na Bélgica por um grupo de expatriados
monárquicos. Em 1914, aquela expressão surgiu inscrita no lançamento
da revista Nação Portuguesa, para designar um programa
político monárquico e um movimento de ideias políticas acabado
de se constituir.
Mas quem eram e ao que vinham os
integralistas lusitanos?
Ao lançarem a revista Nação Portuguesa, os integralistas eram um grupo de jovens, quase
todos acabados de sair da Universidade de Coimbra: José Hipólito
Vaz Raposo (1885-1953), Luís de Almeida Braga (1886-1970), António
de Sousa Sardinha (1887-1925), Alberto de Monsaraz (1889-1959),
José Pequito Rebelo (1893-1983).
O que logo ressaltava era a extrema
juventude dos integralistas lusitanos: Hipólito Raposo, o mais
velho do grupo, tinha 29 anos, Pequito Rebelo, o mais jovem,
tinha apenas 21; a média de idades não ultrapassava os 24 anos.
Quanto aos seus propósitos, era Alberto de Monsaraz, o director da revista, quem, ao assinar o seu primeiro
editorial uma "Carta Aberta" dirigida a Moreira
de Almeida se identificava como "um português tão
desiludido do 4 como do 5 de Outubro". A mensagem de Alberto
de Monsaraz não podia ser mais clara: dirigindo-se aos monárquicos,
afirmava-lhes que a recém-deposta "Monarquia Constitucional"
não lhes servia. Para os integralistas, a Monarquia derrubada
era um corpo estranho à Nação. Havia que retornar à Monarquia,
sim, mas à verdadeira Monarquia Portuguesa. Os portugueses
haviam esquecido em que consistia uma tal Monarquia; os
integralistas ali estavam para o explicar aos próprios monárquicos.
No final da "Anunciação" da Nação Portuguesa
soava o aviso: "saibam-no os senhores que governam, mais os
cidadãos que obedecem, nós vimos reatar a Tradição".
Ficando claro que não se propunham uma
simples restauração da Monarquia deposta, havia, ainda assim,
quem pudesse achar estranho que entre os integralistas, em posto
de comando, surgisse António Sardinha, que fora um dos mais
distintos estudantes republicanos do seu tempo e que chegara a
trocar correspondência com Teófilo Braga. Em breve se ficaria a
saber que o Integralismo Lusitano contava nas suas fileiras com
outros ex-republicanos como João do Amaral ou Domingos Garcia
Pulido.
Agregando monárquicos que não se
reconheciam na Monarquia deposta, e republicanos convertidos ao
monarquismo por se não reconhecerem na República recém-implantada,
a questão não podia deixar de se colocar: de que Tradição se
reivindicavam os integralistas lusitanos? Com que ideias, tomadas
de que mestres, se formara esse movimento de jovens que se
propunha reatar a perdida Tradição portuguesa?
Os integralistas, do mesmo passo que
apresentaram um índice de soluções políticas sob o título
"monarquia tradicional, orgânica, anti-parlamentar"
indicavam também, desde os primeiros números da Nação
Portuguesa, as fontes do seu pensamento político: os Mestres
do pensamento político português que, ao longo dos séculos,
alicerçaram e ergueram as instituições do Reino de Portugal.
Era o pensamento político que, do mesmo
passo, reconhecia os foros e liberdades da República (das
comunas urbanas, dos concelhos rurais, etc.), estabelecia as
regras da sua representação em Cortes e definia o conteúdo dos
pactos que os Reis juravam respeitar (ao Rei, cuja autoridade era
entendida como um serviço, cumpria reger os destinos da República).
Tanto quanto é aqui possível sintetizar
os princípios fundamentais desse pensamento político, saliente-se
que entendiam a Nação Portuguesa como o resultado de um
processo histórico, no qual se firmara uma estreita aliança
entre o Rei, o Povo e a sua Igreja. Ao Rei, entendiam-no como a
cabeça do Reino, o agente centrípeto em que todos se
reconheciam era "a Pátria com figura humana",
na célebre fórmula de António Sardinha. Ao Povo entendiam-no
como soberano, com uma soberania participada, isto é, recebida
de Deus. Sendo Deus a fonte do poder, competia aos homens a
determinação da forma que havia de assumir. Entre o Povo e o
Magistrado (ou Rei) verificava-se um contrato pelo qual o Povo atribuia os poderes que desejava fossem por ele exercidos. O Povo
era, assim, anterior e superior ao Rei, à autoridade. Em rigor,
o Rei recebia o poder imediatamente do povo, mediatamente de Deus.
Ao ser-lhe atribuído o poder, o seu detentor ficava sendo
superior a quem o atribuíra, mas obrigado ao respeito dos termos
do contrato estabelecido no acto da atribuição. Assim, o Povo
transmitindo o poder ao Rei (por sua vez transmissível aos
sucessores) por intermédio de um pacto, reservava-se in habitu o
poder transferido. Não se defendia que o Povo podia revogar a
transferência do poder ao Rei o que seria contrário ao
princípio de que pacta sunt servanda antes se defendia
que ao Povo assistia o direito de o depor. O Rei era entendido
como um gestor da República, obrigado a uma administração que
lhe era conferida pelo povo. O Rei servia a Pátria, não era a Pátria
que servia o Rei, no que se seguia o célebre preceito enunciado
pelo doutor João Pinto Ribeiro: "Os Reys não foram
criados, & ordenados para sua utilidade, y proveito, se não
em benefício, & prol do Reyno...".
Para os integralistas lusitano fora aquele
o pensamento político que levantara o reino de Portugal contra
as pretensões de Castela, que fundara a legitimidade da Dinastia
de Avis e sustentara a Restauração de 1640; era o pensamento
político que se expressara, desde os alvores da nacionalidade até
ao último quartel do século XVII, através de uma vasta plêiade
de escritores, de que os integralistas destacavam, entre tantos
outros: Álvaro Pais, Frei António de Beja, Jerónimo Osório,
Diogo de Paiva, Frei Manuel dos Anjos, Frei Jacinto de Deus,
Sousa de Macedo, Pinto Ribeiro, Velasco de Gouveia.
Nas formulações políticas daqueles
canonistas e jurisconsultos se encontrava o cerne do pensamento
que melhor corporizara a Tradição política da Monarquia
Portuguesa. Neles se expressara o pensamento político português
que, após a Restauração de 1640, recebera sucessivos tratos de
polé, primeiro no plano das ideias, depois no das instituições;
desde o advento do absolutismo iluminado pela mão do Marquês de
Pombal, até ao período do chamado "Constitucionalismo",
definitivamente implantado na década de 1830.
Mas o pensamento político português
resistira às infiltrações estrangeiradas do século das Luzes,
sobrevivendo em autores como Sousa Farinha, Rodrigues Leitão,
Marquês de Penalva e, nos inícios do século XIX, seria
continuado por Fortunato de São Boaventura, José da Gama e
Castro, Faustino José da Madre de Deus, Francisco Alexandre Lobo,
Acúrcio das Neves, Gouveia Pinto, Ribeiro Saraiva, Visconde de
Santarém... Os integralistas não se mostravam dispostos a
permitir o esquecimento ou adulteração daquele pensamento político;
os integralistas surgem com o firme propósito de o recuperar e
adequar às exigências dos novos tempos; o pensamento político
que ajudara a fazer a Nação não podia morrer, sob o risco de
morrer com ele a própria Nação.
Para os integralistas lusitanos não fora a
implantação da República que, em rigor, quebrara a Tradição
política portuguesa. A República era apenas a continuação da
Monarquia da Carta, ainda que "uma continuação agravada,
nos princípios e nos factos": destronara-se o Rei e passara
a dominar o mito que identificava a Democracia com o regime
republicano. Para os integralistas, a Democracia e a defesa da Res
publica não era o verdadeiro programa daqueles que a si próprios
se designavam por "democráticos" e "republicanos".
O que o regime implantado em 5 de Outubro de 1910 instituíra era,
em rigor, um "governo de classe contra as classes"; o
governo de uma aristocracia plutocrática (representada pelos
políticos dos partidos) contra os interesses de uma grande
massa de deserdados". Perante a legião de políticos monárquicos
"adesivando" à 1ª República, era o ex-republicano
António Sardinha quem advertia: "«Aqui d'El-Rei!»
hão-de gritar no futuro, já desimaginadas da mentira
igualitária com que as entretêm e exploram, as sofredoras legiões
proletárias em busca de um sustentáculo incorruptível que não
se firme na confusão das classes...".
Fizeram-se desentendidos, quer os
derrotados monárquicos cartistas, quer os "republicanos"
vitoriosos e, não obstante as longas listas de fontes
inspiradoras que os integralistas iam indicando e explicando, bem
cedo os acusaram de plágio de ideias de origem estrangeira,
chegando a atribuir-se-lhes directa inspiração num movimento
neo-monárquico francês, a Action française, que,
naquela época, fazia furor nos meios intelectuais parisienses.
* * *
Nos breves minutos de que disponho,
proponho-me repor aqui um pouco da verdade histórica que tratei
de forma desenvolvida no estudo intitulado
Filhos de Ramires.
Aí demonstrei como o Integralismo Lusitano expressou um
pensamento político reaccionário, anti-conservador e inovador,
estabelecido em torno de uma consciência da individualidade
espiritual e cultural dos portugueses, numa reflexão sobre a
Tradição e a História Pátrias. Aí evidenciei serem de
origem portuguesa as principais linhas do seu pensamento e como
as fontes, que geneticamente os explicam, partiram da
problemática estabelecida pela Geração de 70 (2º
romantismo português), que é preciso acompanhar no
desenvolvimento ideológico provocado pelo choque do Ultimatum
britânico (1890), até atingir a última fase de os "Vencidos
da Vida".
Aqui retomarei, de forma necessariamente
breve, alguns dos traços da herança de protesto político-cultural
que a Geração de 70 transmitiu ao Integralismo
Lusitano: o protesto contra o que restava do Conselheirismo
monárquico-constitucional; o protesto contra a violência que se
proclamava Revolução e era entendido como desordem; o protesto
contra a democracia parlamentar, entendida como um cesarismo
disfarçado em que se negavam as liberdades e uma verdadeira
representação democrática. No final, escutaremos as palavras
do último sobrevivente da geração de 70, o Vencido da Vida
Ramalho Ortigão, reconhecendo e saudando o esforço dos
integralistas, naquilo que é o documento vivo de um verdadeiro render
da guarda a um património intelectual que encontrara, nas
condições e exigências do tempo, o actualizado e justo remate.
2. A «Geração de 70»
procurando acertar o passo com a Europa.
Na questão do Bom Senso e Bom Gosto
(1865), ficou justamente célebre uma frase de Antero de Quental
arremessada contra António Feliciano de Castilho: "Quem
pensa e sabe hoje na Europa não é Portugal, não é Lisboa
(...): é Paris, é Londres, é Berlim" - esta frase como
que sintetiza o espírito das primícias da Geração de 70.
Um espírito que Antero expressaria depois
nas Conferências do Casino (em 1871) ao diagnosticar as
raízes da decadência peninsular. No fundo de tudo, o
descompasso de Portugal e de Espanha com a Europa moderna; na
produção, nas instituições, nas mentalidades. Era o tempo em
que a mensagem dos homens de setenta se firmava na proclamada
necessidade de uma substituição ontológica da nação
portuguesa, propugnando-se-lhe um novo interior conforme ao
figurino progressista centro-europeu.
Entre 1865 e 1870, a esperança
regeneracionista nascera estrangeirada. É pelo testemunho de Eça
de Queiroz que sabemos como a mocidade das escolas recebeu ávida
esse mundo novo que, através dos caminhos de ferro, a Europa lhe
arremessava aos pacotes. O próprio Antero de Quental descobrira
a Humanidade lendo autores como Augusto Comte, Emile Littré e
Stuart Mill. E estávamos nas vésperas de Teófilo Braga obter a
cadeira de Literaturas Modernas do Curso Superior de Letras (1872),
a que se seguiu o surto positivista das Escolas jurídicas, médicas
e politécnicas onde se estudava pelos manuais franceses.
Os acontecimentos políticos e culturais,
subsequentes à realização das Conferências do Casino,
revelaram duas visões e sentimentos contraditórios acerca das
possibilidades da regeneração portuguesa: de um lado, a crença
de que se Portugal viesse a acertar o passo com a Europa, a
regeneração seria possível; do outro, a percepção de que
havia atavismos insuperáveis. O positivismo, no qual se firmara
a proposta regeneradora, trazia-lhes decepção e esperança:
decepção, quando os confrontava com "o atraso"
português; esperança, quando se acreditava no poder
transformador de élites esclarecidas. Se o sentimento
negativo se alimentava na percepção da alteridade peninsular no
quadro europeu, também o espírito positivo se viria a encher de
esperança com o estudo da História como via para compreender as
condições de progresso.
Num primeiro momento, do mesmo passo que se
alargava e aprofundava o espírito positivo, não pararia de
crescer uma imagem muito pouco positiva de Portugal, quando não
um profundo cepticismo acerca deste que muitos consideravam já
como um "povo póstumo".
A literatura desses anos aí ficará para o
testemunhar. A pouco e pouco, a cada romance de Eça O
Crime do Padre Amaro (1876), O Primo Basílio (1878), A
Relíquia (1887) e Os Maias (1888) ; a cada
folhetim das Farpas, em cada página de História de
Oliveira Martins História de Portugal (1879) e Portugal
Contemporâneo (1881) , a descrença na regeneração não
parava de crescer.
3. O choque do Ultimatum
britânico e o grupo de «0s Vencidos da Vida».
Mas eis que, com a cedência ao Ultimatum
britânico (Janeiro de 1890), se pressente a mudança.
A par da violenta explosão de indignação
popular, do gesto largo dos tribunos, da palavra enfática dos
jornalistas contra a "pérfida Albion", surgiram peditórios
públicos numa "Grande Subscrição Nacional" para,
como então se dizia, "prover às necessidades imediatas do
municiamento e equipamento do nosso exército.
Logo aí se pode observar o quilate diverso
da via apontada por Antero de Quental, o conferente das
causas da decadência dos povos peninsulares. Em 26 de Janeiro de
1890, nas páginas do jornal A Província, à solução
belicista implícita na "Grande Subscrição Nacional",
Antero, para espanto de muitos, contrapôs a via da expiação:
havia que fazer "um acto de contrição da consciência pública"
e "uma reforma dos sentimentos e dos costumes". Mas
dizia mais Antero de Quental: "O nosso maior inimigo não é
o inglês, somos nós mesmos. Só um falso patriotismo, falso e
criminosamente vaidoso, pode afirmar o contrário. Declamar
contra a Inglaterra é fácil, emendarmos os defeitos da nossa
vida nacional será mais difícil, mas só essa desforra será
honrosa, só ela será salvadora".
Antero vai em seguida aceitar o convite de
Luís de Magalhães para ser Presidente da Liga Patriótica do
Norte, apelando para a "restauração das forças
nacionais", de cujo edifício a Liga constituiria a primeira
pedra.
Sabe-se como aquele incêndio patriótico,
ateado pelo Ultimatum, não passou de um "fogo de
palha: clarão de um momento". Mas aquele era bem um novo
Antero, que não muito depois afirmaria que a "íntima e
indispensável unidade moral da nação não poderia restabelecer-se
pela revolução, que seria a maior das calamidades, mas pela
conversão do Estado à sua verdadeira missão de representante e
intérprete do sentimento Nacional".
A Liga Patriótica do Norte terá
sido o "derradeiro fantasma" de Antero, como ele mesmo
lhe chamaria. Mas Antero acreditou. No testemunho de Eça de
Queiroz, Antero "acreditou com deslumbrado ardor, em coisas
inacreditáveis na mocidade iniciadora; na contrição dos
velhos partidos pecadores; na alma quinhentista de Portugal
ressurgindo; no despertar de um povo, com a vontade bem
consciente, e formulada em comícios, de ser novamente esforçado
e grande!".
Era a época em que muitas figuras cimeiras
da vida política e literária portuguesa, chicoteadas pela
brutalidade britânica, iam inflectindo claramente a sua postura:
a ofensiva contra a psicologia, a sociologia e a cultura
portuguesa cedia o lugar ao fervor patriótico; a via da regeneração,
que mais do que nunca urgia encetar, buscava agora outros
caminhos.
Ramalho Ortigão suspendeu as Farpas;
era tempo de, como ele dizia, procurar "reanimar o touro, de
deixar-lhe recuperar forças e autoconvicção". Passou a
preparar a publicação de O Culto da Arte em Portugal (1896).
Eça de Queiroz, também liberto das Farpas,
foi escrever, a partir do conto Civilização (1892), o
romance A Cidade e as Serras (a primeira versão é de
1895), e a Ilustre Casa de Ramires (iniciada em 1894 para
ficar concluída em 1900, pouco antes de morrer).
Oliveira Martins deu sinal de ter esgotado
o seu interesse pelo estudo das sociedades e culturas "primitivas"
interesse particularmente vivo na primeira metade da década
de 80 atirando-se a Os Lusíadas e a Renascença em
Portugal (1891), Portugal em África (1891), bem como
ao seu políptico sobre a exemplar dinastia de Avis com Os
Filhos de D. João I (1891), Vida de Nun'Álvares (1892)
(de O Príncipe Perfeito (1895) deixou-nos ainda um capítulo)
surpreendendo-o a morte antes de escrever as biografias Afonso
de Albuquerque e D. Sebastião.
Também Teófilo Braga, tendo já publicado
os Contos Tradicionais do Povo Português (1883), abriu em As modernas ideias na literatura portuguesa (1892) um parêntesis
temático em que se tornou claro o seu acrescido apego ao "sentimento
da nacionalidade", passando a apresentar às novas gerações
alguns modelos de portugalidade em obras como A Pátria
Portuguesa (1894), Mar Tenebroso (1894), O Velho do
Restelo (1898), O Baptismo das Naus (1898), Os Doze
de Inglaterra (1902), Viriato (1903), Frei Gil de
Santarém (1905). Este parêntesis temático só viria a
encerrar-se com a edição do Romanceiro Geral Português,
em 1906.
Os poetas também não ficariam imunes ao
novo élan: Guerra Junqueiro passou do canto fúnebre da Finis
Patriae (1890) para a Pátria (1896) redentora;
enquanto António Nobre, evoluiu de um algo ambíguo decadentismo
do Só (1892), para uma nova esperança bem expressa no
poema inacabado O Desejado (1895-99). Aquele António
Nobre do Só que logo fizera brotar o neo-garrettismo
das Palavras Loucas (1894) de um Alberto de Oliveira.
E foi nos domínios da historiografia e das
ciências sociais que a palavra "tradição" se
instalou vigorosa como o santo e a senha do novo movimento.
Martins Sarmento, Alberto Sampaio, Sousa Viterbo, Adolfo Coelho,
Carolina Michaelis de Vasconcelos, Consiglieri Pedroso, Lúcio de
Azevedo, Leite de Vasconcelos, Ricardo Severo..., concorriam a
realizar, nas mais variadas disciplinas científicas e de forma
académica, o estudo da tradição cultural portuguesa: na arte,
na literatura, na linguagem popular, etc..
Se o espírito crítico negativista ainda
prossegue, era o próprio pendor positivista que se reforçava
agora no reconhecimento da necessidade do estudo da História
para conhecimento das formas de progresso.
Mesmo se os trabalhos realizados estavam em
paralelo com o que se produzia em França, na Alemanha e na
Inglaterra, nos primeiros anos do século XX, sente-se já bem
firmado o novo élan: o espírito da Geração de 70
expresso nas Conferências do Casino metamorfoseara-se,
passando a ser outros os caminhos a galgar na via da regeneração
nacional.
4. Os «Vencidos da Vida»
e as novas propostas de regeneração.
Ainda antes do Ultimatum britânico,
Joaquim Pedro de Oliveira Martins, no seu Portugal Contemporâneo,
entrara já a rever os dogmas historiográficos
imperantes, não
hesitando em considerar D. Miguel I como rei de Portugal, ao
arrepio dos historiadores da situação liberal que teimavam em
considerá-lo um usurpador. Para Oliveira Martins, D. Miguel I
fora não apenas aclamado Rei de Portugal, como detinha a mesma
legitimidade popular de D. João I, o Mestre de Avis.
Mas, a par do revisionismo historiográfico,
é preciso notar que a crítica ao liberalismo da Carta, se vinha
de trás, não parará de se aprofundar.
A mais moderna historiografia, não podendo
tornear o tom aceradamente crítico da Geração de 70,
tem retido dela o tom negativo e as propostas regeneradoras dos
anos 70-80, ofuscando os seus desenvolvimentos pós-Ultimatum.
Tende-se a considerar sobretudo a crítica ao rotativismo dos
partidos, à corrupção instalada nas mais altas esferas políticas,
afirmando ou insinuado que o problema da Monarquia da Carta era
visto por aquela geração como se ficando a dever à corrupção
da elites políticas, ao sistema do caricato, à inexistência de
um amplo e bem informado colégio de eleitores. Ora é preciso
sublinhar que o socialista Oliveira Martins impugnou, nos seus
fundamentos doutrinários, os chamados regimes constitucionais; não
era uma questão portuguesa, era uma questão internacional; não
era um vício de pessoas, era um vício de sistema.
Ouçamos o diagnóstico proferido por
Oliveira Martins em 24 de Agosto de 1891:
"Por toda a parte a vileza corrompe
as instituições e a política. Por toda a parte os negócios do
Estado estão inquinados da mesma lepra. Por toda a parte os políticos
são a mesma cousa. Por toda a parte os brasseurs d'affaires compram as câmaras e
a imprensa e as repartições. Por toda a parte quem quer que tenha o sentimento
de dignidade própria se afasta, apertando o nariz, dessa podridão malcheirosa e
tão repugnante nos que compram como nos que vendem, ou se vendem." E
Oliveira Martins interrogava então, "E vem porventura isto de que os nossos
tempos sejam intrinsecamente mais imorais do que outros? Não, por forma alguma,
pois, ao contrário, nunca a moral pessoal foi mais levantada. Vem do equívoco
universal em que as sociedades se agitam presas a fórmulas constitucionais
transactas, agitadas vivamente por um espírito diverso. Jura-se ainda nos lábios
pelos imortais princípios proclamados na revolução francesa, quando a verdade é
que a agitação declarada do operariado reclama a constituição de fórmulas
sociais que se não contêm nos famosos direitos do homem. Jura-se ainda pela
soberania dos Estados, quando o instinto cosmopolita lavra nos costumes, pondo
em cheque o patriotismo."
Oliveira Martins recusava explicitamente os
princípios do constitucionalismo moderno, introduzidos em
Portugal na sequência da Revolução de 1820 e, citando um
conhecido publicista, não deixará de exclamar: "a
liberdade era antiga, moderno é o absolutismo". Para
Oliveira Martins, os males da sociedade portuguesa contemporânea
"provinham, não só dos legados da História, como da influência deprimente e desorganizadora das teorias do
naturalismo individualista, herdado da filosofia do séc. XVIII e
popularizado pela Revolução Francesa".
Para Oliveira Martins era tempo de voltar a
respeitar e garantir a representação das classes, das profissões,
dos concelhos, etc.. As eleições, tal como vinham sendo
praticadas, em que em vez de se representarem as classes, se
representava apenas uma classe a classe política distribuída
pelos vários partidos ideológicos instituídos em nome do
interesse geral eram apenas "a máquina movida
pelos ambiciosos, o realejo que toca a mesma ária aclamadora a
todos os que lhe movem a manivela. Feitas a tiro, ou a cacete, ou
a dinheiro, ou a empregos, as eleições liberais individualistas
são o sofisma da representação; não por vicio dos homens,
embora os homens sejam viciosos, mas por essência do errado
princípio que as dirige. Só quando outra vez se compreender (e
agora conscientemente) que a sociedade é um corpo vivo, e não
um agregado de indivíduos: só então tornará a haver
representação verdadeira e ordem na democracia".
Oliveira Martins não era um pensador anti-democrático,
ao contrário do que alguma historiografia tem sugerido. Oliveira
Martins não via verdadeira democracia nos regimes parlamentares
alicerçados no monopólio da representação política por
intermédio de partidos. Democracia verdadeira seria aquela em
que a pluralidade dos órgãos constitutivos da Res publica
obtivessem representação; verdadeira representação se alcançaria
através de uma democracia orgânica.
Para Oliveira Martins, com a chamada "Regeneração" (de 1851 em diante) viera a febre dos "melhoramentos
materiais" como aspiração e pensamento único. No plano do
pensamento, as excepções, como Alexandre Herculano ou Almeida
Garrett, apenas confirmavam a regra: perdera-se o hábito de
pensar, escrevendo-se "por arte ou indústria, numa
linguagem mascavada, o que vem cozinhado e requentado de Paris".
A Europa deixara de ser referência e
exemplo a seguir. Mais do que acertar o passo com a mentalidade
predominante na Europa, havia que descobrir internamente as condições
do ressurgimento.
A Geração de 70 entrara a fazer a
contrição pelo erro de diagnóstico cometido. Contritos, os
sobreviventes vão passar a designar-se por Vencidos da Vida.
Mas, apesar de Vencidos, para esses
homens, está a crescer uma nova esperança. Tendo-se tornado um
círculo influente junto do Príncipe herdeiro, após a morte de
D. Luís, em 1889, passaram a influenciar o novo Rei, D. Carlos.
Foi Eça de Queiroz quem escreveu na Revista de Portugal
logo que o Príncipe subiu ao Trono: "O Rei surge como a
única força que no País ainda vive e opera".
E ali mesmo se abria um novo ciclo político,
com os Vencidos da Vida a acreditarem que, por intermédio
de um acrescido papel do Rei e de uma nova política externa
liberta da velha aliança inglesa, se conseguiria debelar a crise
provocada pelo regime oligárquico da Carta.
O assassínio do Rei D. Carlos e do Príncipe
Luís Filipe, acabará por deitar por terra as suas últimas
esperanças.
5. «Carta de um Velho a um
Novo» o render da guarda entre duas gerações.
Quando é implantada a 1ª República, do
grupo dos Vencidos da Vida restava ainda Ramalho Ortigão,
então com 74 anos.
Como reagiu Ramalho Ortigão à "Revolução
de Outubro"? Ramalho recusou-se de imediato a
secretariar a Academia das Ciências e, remetendo a Teófilo
Braga as chaves da Biblioteca da Ajuda, saiu para o exílio em
Paris, mas não sem antes manifestar ao chefe do Governo Provisório
da novel República, a sua repulsa em engrossar "o abjecto número
de percevejos que de um buraco (estava) vendo nojosamente cobrir
o leito da governação", enviando-lhe de presente "o
seu chapéu alto, da melhor marca Gélot, calculando que lhe
podia ser muito útil para as cerimónias presidenciais, e que
para ele Ramalho era de todo supérfluo, agora que ia começar
carreira nova e vestir, de novo, como aos vinte anos, o jaquetão
de operário".
Poucos meses depois, decorria o mês de
Janeiro de 1911, o mesmo Ramalho Ortigão, resolvia pegar na pena
para se dirigir aos leitores da Gazeta de Notícias. A
mirada escolhida, para reiniciar aquele que viria a ser o seu último
farpeio, era a recente e vitoriosa "Revolução do 5
Outubro".
Ramalho Ortigão voltava a proclamar que não
acreditava na anunciada mudança, nem via razões para alterar o
seu julgamento de sempre acerca da "embusteira tirania do
sufrágio", para deixar de deplorar o parlamentarismo,
que agora prometia continuar ainda que sem os partidos do
rotativismo. Se algo havia que lhe merecesse ser salientado nas
últimas evoluções políticas, era ainda a "tenebrosa
cumplicidade do último dos quatro ou cinco ministérios monárquicos
que se sucederam ao assassinato impune do pobre rei D. Carlos".
Em Outubro de 1910, o triunfo dos
revolucionários tivera um "desenlace quase incruento"
era certo , mas só "em sua aparente
superficialidade" fora aquela Revolução "o trágico
desmoronamento instantâneo de todo um velho mundo".
Em 1914, Ramalho Ortigão entrava nos seus
derradeiros tempos de vida. Ao morrer, morreriam com ele as últimas
esperanças dos Vencidos da Vida, a esperança de uma
regeneração portuguesa pela descoberta das condições internas
para um ressurgimento? Não! E é o próprio Ramalho quem,
em carta para o integralista João do Amaral, saudando esse
"movimento de novos" que despontava na vida política
portuguesa, lhe fala dessa nova esperança que fazia sua: o Integralismo
Lusitano. Eis as próprias palavras de Ramalho Ortigão:
"A orientação mental da mocidade
contemporânea comparada à orientação dos rapazes do meu tempo
estabelece entre as nossas respectivas cerebrações uma diferença
de nível que desloca o eixo do respeito na sociedade em que
vivemos obrigando a elite dos velhos a inclinar-se rendidamente
à elite dos novos.
"Em face da batalha de sentimentos
e de ideias no conflito português dos nossos dias entendo que à
ala dos veteranos cabe o dever marcial de apresentar as suas
armas a essa nova ala de namorados, que se não batem já pelo
perecível prestígio da sua dama mas pela beleza imortal da sua
convicção, e batem-se não em combate fortuito, de torneio de
gala, mas em pugnas regulares e sucessivas em que quotidianamente
arriscam os seus interesses, a sua liberdade e a sua vida"...
"A incontestável superioridade d'essa plêiade estudiosa
consiste em ter admiravelmente pressentido a necessidade
culminante da reeducação integral do povo português".
Sintra - Academia da Força Aérea,
1997
(versão abreviada)
1983 - 1991 - Miguel Castelo Branco e a «Nova Monarquia», intervenções e testemunho em 2002 1987 - António Jacinto Ferreira, Poder Local e Corpos Intermédios 1997 - José Manuel Quintas, O Integralismo Lusitano e a herança de «Os Vencidos da Vida» 1998 - José Manuel Quintas, Origens do pensamento de Salazar 1998 - José Manuel Quintas, Os monárquicos e as eleições de 58 1999 - José Manuel Quintas, A Castração dos Hispânicos 1999 - José Manuel Quintas, Combates pela Bandeira Azul e Branca, 1910-1919 1999 - José Manuel Quintas, «...em benefício, & prol do Reyno» 2000 - José Manuel Quintas, Uma nota acerca do fascismo 2001 - José Manuel Quintas, Democracia Orgânica - Oliveira Martins e o Integralismo Lusitano 2001 - José Manuel Quintas, «O Valor da Raça» segundo António Sardinha e o Integralismo Lusitano 2001 - Nacional-Sindicalismo e Estado Novo em Debate 2002 - José Manuel Quintas, A «Questão Ibérica» no Advento do Integralismo Lusitano 2002 - José Manuel Quintas, António Sérgio - «integralistas e seareiros são anticonservadores» 2002 - José Manuel Quintas, O Integralismo Lusitano perante a «Salazarquia» 2004 - Henrique Barrilaro Ruas, Vida e Obra - Exposição e Ciclo de Conferências 2004 - Teresa Martins de Carvalho, Apresentação dos «Filhos de Ramires» Filhos de Ramires Integralismo Razões Reais
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