Os
combates pela bandeira azul e branca, 1910-1919
José Manuel Quintas
Índice
Em
Janeiro de 1911, Ramalho Ortigão contava setenta e quatro anos. Permanecia no
exílio em Paris mas, voltando ao dirigir-se aos seus leitores da Gazeta de Notícias, no recomeço da sua carreira no ofício das
letras, emocionou-se com a analogia com Vítor Hugo que, tendo regressado do
seu exílio de Guernesey, depois da queda do Império e da proclamação da
Terceira República, afirmara auspiciosamente: «Messieurs,
j’ai soissante quatorze ans et je commence ma carrière.»
Ramalho
reiniciava ali os seus últimos farpeios, citando as palavras do “mais
glorioso mestre”, mas o tema não podia deixar de ser o da “Revolução de
Outubro”[1].
Ele que, nos dias imediatos ao 5 de Outubro de 1910, entregou as chaves da
Biblioteca da Ajuda, e se recusou a secretariar a Academia das Ciências,
manifestando a Teófilo Braga a sua repulsa em engrossar “o abjecto número
de percevejos que de um buraco (estava) vendo nojosamente cobrir o leito da
governação”[2], não deixava agora de considerar esses “pobres
homens, mais dignos de piedade que de rancor”, e de assinalar a rapidez e a
benignidade do desenlace do movimento militar que derrubou a Monarquia[3].
Quase
não se dera pela resistência ao derrube do trono. Se os monárquicos se
encontravam de há muito profundamente divididos por razões político-ideológicas
e dinásticas[4],
a verdade é que os últimos anos do rotativismo partidário da Monarquia da
Carta contribuíram para debilitar o sentimento monárquico. Nos primeiros
anos do novo século, os que permaneciam convictamente monárquicos, na sua
maioria não queriam aquela Monarquia.
Quando
se deu a implantação da República, muitos dos monárquicos influentes dos
partidos dinásticos entraram a aderir sem complexos aos novos partidos,
constituindo aquilo a que os republicanos mais intransigentes passaram a
designar por “adesivos”. Os que permaneceram fieis às instituições
depostas foram poucos, e menos ainda os que de imediato combateram a nova
situação com armas de guerra ou razões de inteligência. Preferiam lançar
alcunhas aos tribunos da plebe, ridicularizar com acintes a rusticidade de
suas feições e compostura, ou o mau gosto dos vestidos de suas esposas…
Seguiam, afinal, confiados no fim fatídico da República vaticinado por José
Luciano de Castro no conselho que se tornou célebre: “Não se mexam, nem
lhe mexam...”[5].
Foi
diante desse quadro, muito sombrio para o ideário monárquico, que se
resistiu na Rotunda e que Paiva Couceiro lançou, em 3 de Outubro de 1911, a
primeira incursão a partir da Galiza. Ainda que desencadeada por uma hoste
essencialmente constituída por monárquicos, não é de estranhar, pois, que
venha a ser realizada em obediência a um propósito plebiscitário.
O
processo tinha sido aberto por Paiva Couceiro, em 18 de Março de 1911, ao
apresentar uma “Proposta ao Governo Provisório”. Encontra-se naquela Proposta
alguma expressão de apreço pelo regime deposto? - Longe disso. Couceiro pugnou ali pela “organização, com
novas bases”, do “serviço junto ao chefe do Estado”, pela continuação
da “obra de saneamento dos costumes políticos, dando seguimento aos inquéritos
já iniciados, promovendo outros que se aconselhem”, propondo apenas, e no
essencial, que o Governo Provisório pusesse fim ao frenesim legislativo, se
limitasse a restabelecer a ordem, as liberdades públicas, e fizesse
imediatamente eleições livres[6].
As
eleições realizaram-se em 28 de Maio de 1911, mas Paiva Couceiro não
reconheceu a validade do acto. Na sua perspectiva, mantinham-se “de facto
suspensas as garantias e liberdades públicas – liberdade de imprensa, de
propaganda e reunião”. Dirigiu-se então ao Ministro da Guerra para lhe
comunicar que se demitia do Exército e que ia para a Galiza comandar as
tropas que dariam combate às instituições vigentes. Acto contínuo, pediu
intervenção e apoio aos seus camaradas de armas[7].
Chegado à Galiza, e como circulavam notícias segundo as quais Afonso XIII
teria já discutido com a Inglaterra a possibilidade de uma intervenção
espanhola em Portugal[8],
desmentiu que aos portugueses sob o seu comando se tivessem juntado espanhóis[9].
Por fim, dirigindo-se aos
soldados, aos reservistas e ao povo, conclamou à revolta sob “a bandeira
azul e branca da Pátria Livre”[10].
Paiva
Couceiro, que até aí não expressara qualquer reivindicação monárquica,
vai levantar a bandeira azul e branca significativamente despojada de coroa
Real[11], explicando que o fim do levantamento que dirige é o de “promulgar
apenas as medidas indispensáveis ao estabelecimento de um regimen de Ordem e
de Liberdade egual para todos, dentro do qual se realizem eleições em termos
de traduzirem, de facto, a expressão da Vontade Nacional”[12].
Ainda
que a solução plebiscitária não
fosse inédita[13],
as tropas comandadas por Couceiro não tropeçaram apenas nas forças
militares que lhe saíram ao caminho. O rei deposto, D. Manuel II, colocando
de forma clara a “questão basilar da sua candidatura à coroa”,
pronunciou-se abertamente contra o “carácter neutralista” daquele
movimento, e o próprio rei de Espanha fez saber que lhe agradaria pura e
simplesmente uma restauração. Mas o comandante Paiva Couceiro não
transigiu: “negava-se a ser um restaurador de dinastias. A sua espada não a
punha ao serviço exclusivo de um rei, mas da Nação. A esta e só a esta
cabia o direito de escolher o soberano”[14].
E foi assim que a incursão de Outubro se lançou sem substanciais apoios
externos, com uma organização revolucionária confinada às províncias do
norte do país, quase exclusivamente preparada pelos padres e por notáveis
locais.
O
fracasso militar vai forçar Paiva Couceiro a alterar a sua estratégia.
Diligencia então no sentido da restauração monárquica, reunindo esforços
através de um acordo entre os dois ramos da Casa de Bragança. Obtido o
acordo no “Pacto de Dover”, com D. Manuel II a ser reconhecido como o único
candidato ao trono[15],
inscreveu a coroa na sua bandeira e partiu, em Julho de 1912, para segunda
incursão a partir da Galiza com o explicito propósito de restaurar a
Monarquia da Carta[16].
Derrotados
no segundo raid, os monárquicos
dispersaram pelos diversos locais de exílio - Paris, Lovaina, Londres..., com
Paiva Couceiro a recolher-se a S. Jean de Luz. Ficara definitivamente
consolidado o regime republicano? Haviam falido as últimas esperanças monárquicas?
Quando e como estalaria de novo a revolta?
Carlos
Malheiro Dias, encarregado pelo Correio
Paulistano de reunir depoimentos acerca do estado em que as falhadas
incursões deixaram a causa monárquica, vai tratar detidamente aquelas questões.
Chamando a depor “um anónimo
mas assíduo frequentador de Richmond”, este ter-lhe-á dito que as conspirações
já realizadas, e a realizar, podiam ser divididas em três períodos, segundo
a classificação histórica de Augusto Comte: (1º) o teológico ou dogmático, (2º) o metafísico e (3º) o positivo[17].
A
1ª incursão, feita em obediência ao “programa plebiscitário” de
Couceiro, inscrevera-se no período teológico ou dogmático. Tendo sido
baseada no primado da soberania popular, ao arrepio da mentalidade
predominante no entourage de D.
Manuel II, para mais feita de fora para dentro, sem ligação ou coordenação
operacional com as forças internas e sem substanciais apoios materiais,
estava destinada a encerrar-se num desastre.
A
2ª incursão correspondia ao período metafísico. Ainda que firmada na união
dinástica estabelecida pelo «Pacto de Dover», revelara-se exaustiva de
dinheiro e de dedicação, mas incapaz de obter a vitória pela ausência de
uma verdadeira coordenação operacional com a frente interna.
Era
necessário extrair lições daqueles fracassos e, sopesando com realismo as
condições da luta política criadas pela implantação da República, entrar
no período positivo das conspirações.
Eis o essencial do “Programa de Richmond”: um futuro movimento
restauracionista teria de firmar-se na aspiração de paz, de ordem e de
disciplina associado ao regime monárquico tradicional. Se bem que não se
devessem descurar os factores internacionais – e a revelação do
“programa” terminava com um longo excurso histórico ao papel das intervenções
externas, no fazer e desfazer das políticas dos Estados desde o último
quartel do século XVIII – , a acção a tomar teria de ser organizada e
executada internamente, aproveitando o descalabro provocado pela incompetência
e pelos erros dos republicanos. Entre os erros a aproveitar, além daqueles que a inexperiência e a corrupção dos governantes não
conseguiriam evitar[18],
destacavam-se os excessos jacobinos na questão religiosa já cometidos pelo
Governo Provisório na publicação da legislação anti-religiosa e anti-clerical.
Mas
ao movimento restauracionista não bastariam os erros cometidos pelos adversários.
A reinstauração do trono teria de surgir como acção positiva e
cientificamente fundada; era necessário
estudar e “gizar um grande programa de realizações - não de utopias”.
O
processo adivinhava-se longo, mas não durou muito até que o programa de
Richmond fosse posto em perigo pela impaciência de alguns. Entre Abril e
Julho de 1913, terá havido conjugação de esforços de monárquicos e
sindicalistas em algumas intentonas ou revoltas e, em 21 de Outubro, ter-se-á
mesmo descoberto um complot monárquico na sequência da vinda de João de Azevedo
Coutinho a Portugal[19].
A intentona resumiu-se a um assalto ao Museu da Revolução, instalado no edifício
do Quelhas, onde se encontravam “os batéis em que embarcara na Ericeira a
família real, a carabina e a pistola de que se tinham servido os assassinos
de D. Carlos e D. Luís Filipe”[20].
Seguiu-se uma reacção de rua em defesa do regime instituído, com assaltos
às redacções e tipografias identificadas com os monárquicos; sendo presos,
entre outros, o conde de Mangualde e Moreira de Almeida, director de O Dia, e suspensos os jornais A
Nação, O Universal, e O
Dia[21].
O
“programa de Richmond” só teve começo de aplicação em 1914, sendo dois
os acontecimentos que, intimamente ligados, explicam a viragem: a amnistia de
1914 e a criação do “Integralismo Lusitano”.
Foi,
na verdade, à sombra da actividade proselitista desenvolvida pelo
Integralismo Lusitano, alicerçada em ampla renovação político-cultural e
geracional[22]
que, de 1914 em diante, se assistiu a um sensível crescimento da influência
monárquica. E foi sob a sua influência e direcção que se deram os últimos
e decisivos impulsos no sentido da tentativa restauracionista de 1919, no
Norte e em Monsanto.
A
expressão “Integralismo Lusitano” tinha sido cunhada por Luís de Almeida
Braga na revista Alma Portuguesa,
editada na Bélgica, em 1913. Naquela revista, produzida por estudantes monárquicos
exilados, o “Integralismo Lusitano” designava um projecto mais estético-filosófico
do que político. Mas era em seu redor que se reuniam os ex-combatentes das
incursões da Galiza, afinal os mais activos e empreendedores sobejos monárquicos
que a República não “adesivara”: o manuelismo
mais tradicionalista, o legitimismo miguelista,
e o que sobrava do nacionalismo católico formado nos últimos anos do
rotativismo do regime da Carta.
Quando
aqueles monárquicos regressaram a Portugal, na sequência da amnistia de
1914, vêm encontrar uma República crescentemente divorciada dos republicanos
que nela tinham visto a via da regeneração portuguesa. Foi rápido e natural
o encontro entre aqueles monárquicos não “adesivados” e os republicanos
descontentes, depressa se transformando aquilo que era apenas um programa estético-filosófico,
num índice de soluções políticas.
É
esse índice, sob o título “monarquia tradicional, orgânica,
anti-parlamentar”, que vem a ser apresentado no lançamento da revista Nação
Portuguesa, em Abril de 1914, agregando, pois, jovens monárquicos que não
se reconheciam na Monarquia deposta (entre os quais se destacavam Hipólito
Raposo, Almeida Braga, Alberto Monsaraz e Pequito Rebelo), e jovens
republicanos convertidos ao monarquismo por não se reconhecerem no regime
republicano recém-implantado (como António Sardinha, João do Amaral ou
Domingos Garcia Pulido). Nascia o Integralismo Lusitano enquanto movimento político-cultural.
O
programa por eles apresentado, em 1914, não era verdadeiramente um programa
político, era antes um índice no qual pretendiam alicerçar um vasto
programa de estudos sobre a realidade portuguesa. Os integralistas lusitanos
começavam, assim, por agarrar a componente não estritamente política do
“programa de Richmond”; estava por realizar, afirmavam, um longo trabalho
de restauração monárquica nas inteligências.
Do
ponto de vista doutrinário, a voz dos integralistas representava uma terceira
posição no campo monárquico, distinta, tanto dos “miguelistas-tradicionalistas”,
como dos “pedristas-constitucionais”. Ainda que ideologicamente se
afirmassem parentes próximos dos primeiros, separavam-se deles na “questão
dinástica”; aceitavam os fundamentos históricos da posição legitimista
mas, baseando-se na doutrina escolástica seiscentista do poder régio
(doutrina do pacto de sujeição), consideravam D. Manuel II, em 1914, como o rei
que melhor servia o interesse nacional. Dos segundos, separava-os a doutrina e
o projecto político.
Esta
emergência de uma corrente doutrinariamente tradicionalista, mas acatando o
rei deposto, D. Manuel II, veio provocar abalo e acrescida dissensão entre os
monárquicos. Porém, se os monárquicos “constitucionais” inicialmente os
temeram, pela dissonância ideológica que amiúde frisavam, também cedo
perceberam a sua utilidade no terreno da luta político-ideológica. O ramo
dinástico pedrista, até aí muito desacreditado, tinha doravante combatendo
do seu lado alguns dos jovens intelectualmente mais brilhantes das Academias.
Por
outro lado, os integralistas lusitanos recuperavam, em novas bases, dando-lhe
novo fôlego, o projecto de “reaportuguesamento de Portugal” lançado
ainda em vida de Oliveira Martins pelo grupo dos “Vencidos da Vida”. Assim
que o velho Ramalho Ortigão, entretanto regressado a Portugal, se inteirou
dos propósitos integralitas, quis conhecer o seu mais categorizado e
reconhecido líder, Hipólito Raposo[23].
Quando João do Amaral solicitou a Ramalho Ortigão colaboração para o
jornal Restauração, recebeu em
resposta a célebre Carta de um Velho a
um Novo - num emocionado “render da guarda”, em representação da elite dos velhos, Ramalho “inclinava-se rendidamente à elite
dos novos”[24].
Na
sequência da entrada em funções do ministério do velho general Pimenta de
Castro, em 25 de Janeiro de 1915, era já visível o ascenso monárquico e o
papel que nele vinha sendo desempenhado pelos integralistas. O seu trabalho
propagandistico e organizativo junto das juventudes monárquicas académicas
era já bem nítido[25],
e é a própria imprensa republicana quem, ao assinalar o súbito
“tortulhar” dos monárquicos, vê com preocupação a agitação
restauracionista, em especial a actividade desenvolvida pelos “cachópos monárquicos”.
Em fins de Abril e princípios de Maio de 1915, alguma imprensa republicana
denunciava mesmo uma «curiosa monarquite» - assistia-se a uma correria de republicanos inscrevendo-se nos novos
centros monárquicos, podendo estar ali o prenúncio de uma restauração
iminente[26].
Com
os democráticos a retornarem ao
poder, em 1915, deu-se de
imediato o assalto às instalações da Liga Naval, quando ali decorriam as
conferências integralistas acerca da “Questão Ibérica”. Os
integralistas lusitanos que, até então, insistiam sobretudo na necessidade
de restaurar a monarquia nas inteligências, viram-se de imediato guindados a
uma notoriedade paralela à dos mestres de que se sentiam herdeiros (a Geração
de 70, também sofrera a proibição das Conferências do Casino Lisbonense).
Estava finalmente ultrapassado o seu rubicão no caminho de um activo
intervencionismo político. Quando Portugal entrou na Grande Guerra, tornam público
o primeiro manifesto político assinado pela Junta Central (em Abril de 1916,
pouco depois da declaração de guerra da Alemanha), depressa se transformando
de movimento de ideias em movimento político organizado: o Estatuto da
organização foi publicado em Novembro; as Juntas Provinciais estão
organizadas pelo final do ano; e, em Fevereiro de 1917, surgia o órgão A
Monarquia – diário integralista da tarde. O ascenso monárquico
manter-se-á muito vivo até que a revolta militar comandada por Sidónio
Pais, em 5 de Dezembro de 1917, afastou o Partido Democrático do poder e
destituiu o Presidente da República, Bernardino Machado.
O
Sidonismo nasceu de uma conjura essencialmente republicana, dirigida contra o
Partido Democrático, com o fim de introduzir o principio da dissolução
parlamentar na Constituição. Tendo
o complot nascido no seio do partido
unionista, e desabrochado nas sessões secretas do parlamento, veio a ter também
por si o evolucionismo - a força remanescente do regime - ainda que, velada
ou abertamente, hostilizasse o vencedor do 5 de Dezembro.
O
movimento acabou por organizar-se depois isolada e revolucionariamente.
Chegado ao poder, porém, Sidónio Pais apenas recolherá o apoio do Centro
Católico e da generalidade dos monárquicos. Os primeiros, por receberem a promessa de satisfação das suas reclamações na “questão
religiosa”, os segundos, no essencial pelas mesmas razões e por acatarem
ordens de D. Manuel II.
Como
é que os integralistas lusitanos reagiram ao Sidonismo? Ainda na fase da sua instauração, em 14 de Janeiro, enquanto Sidónio
Pais ia sufocando as intentonas que o procuravam pôr em causa, António
Sardinha saudou-lhe a vitória sobre uma revolta dos marinheiros[27],
chegando mesmo a afirmar, logo adiante, que o Presidente Sidónio estava a
fazer “uma demonstração interessante do Integralismo”[28]. Três dias depois, a 17, Sardinha ainda prossegue na mesma toada mas, a
19, era já tempo de ir explicando aos mais precipitados ou ingénuos: “Não
se assustem os republicanos que o senhor Sidónio Pais não derruba a república. Não se assustem os monárquicos, porque ele também a não
consolida”; “Deste modo, sem derrubar a república, nem a consolidar, o
sr. Sidónio Pais não é uma
solução. É uma etape a mais, uma experiência última, como que última hipótese”[29].
A
situação era, pois, essencialmente caracterizada por um transitório empate
político, propício à conquista de posições junto do poder. E aos
primeiros sinais de simpatia da parte dos sidonistas, os integralistas, não
se mostraram mal agradecidos, retribuindo com diversas colaborações, como o
projecto do Casal de Família (baseado na Memória de Xavier Cordeiro acerca
da Vinculação), a lei eleitoral, e mesmo um projecto de Constituição Política[30].
E não deixaram de fazer coro com o Centro Católico na questão religiosa. Luís
de Almeida Braga, por exemplo, saudou efusivamente Sidónio Pais por se ter
finalmente trancado “a lei iníqua que atirava para longe das dioceses
alguns dos nossos mais eminentes prelados e afastava outros párocos da sombra
querida do seu presbitério”, não perdendo a oportunidade, aliás, de
sugerir a conveniência de um rápido reatamento das relações diplomáticas
com o Vaticano[31].
Os
impulsos de simpatia gerados por Sidónio Pais junto das massas populares, porém,
rapidamente o fizeram entrar num caminho de regime pessoal, que procurará
legitimar substituindo o parlamentarismo da “República Velha” pelo
presidencialismo de uma “República Nova”[32].
Em
10 de Março de 1918, o “partido monárquico” aprovou uma moção dando
oficialmente auxílio ao Governo de modo a garantir-lhe a maioria nas eleições
de 28 de Abril. Para si, os monárquicos apenas pretendiam “uma representação
condigna”. Fazem-se as eleições, mas os partidos republicanos – Democrático,
Evolucionista e Unionista – escapam-se pela porta da abstenção.
Em
15 de Julho, o Parlamento abriu com uma confortável maioria do Governo, com os trinta e um deputados monárquicos sentados à direita da sala e
os integralistas distribuídos pelas últimas cadeiras. Sidónio Pais, no seu
discurso de abertura da sessão legislativa, aproveitou para recordar que
“eleito e proclamado o presidente da República e constituído o
Congresso”, o país entrava “em plena normalidade constitucional” –
começava a «República Nova». Apesar de, como explicou Luís de Magalhães,
os monárquicos terem dado “ao sidonismo a carne da maioria, ficando para si
com o osso da minoria” [33], Sidónio Pais não deixou de expor ali os seus mais
profundos sentimentos republicanos: “é tão grosseiro o erro que se comete
supondo a revolução de Dezembro reaccionária (isto
é: monárquica), como supondo-a demagógica (afecta
ao Partido Democrático). Fui sempre e sou republicano; por isso procurei
manter e consolidar a república. (...) Se elementos republicanos não
encarnassem em si as aspirações do país, a revolução poderia vir a
aparentar a forma de uma restauração monárquica”.
Se
bem que as rédeas da governação parecessem firmemente tomadas, ali mesmo se
começou a revelar o propósito absurdo de fazer residir a viabilidade política
do novo regime num pacto estabelecido entre o ditador republicano e os
dirigentes monárquicos. O apelo de Sidónio Pais às forças republicanas
vinha tarde de mais[34].
Os
monárquicos ainda colaboraram em deter todas as manobras conducentes à
subversão do regime e não deixam de se regozijar ao verem restabelecidas as
relações entre a República e a Santa Sé. Uma semanas antes da chegada do núncio de Roma, Sidónio Pais, em
visita a Elvas, é recebido na Câmara Municipal. António Sardinha profere um
amistoso discurso de saudação[35].
Em resposta, Sidónio Pais reacende publicamente o seu intenso republicanismo,
afirmando que “é tempo de findar o equívoco monárquico”. A resposta de António
Sardinha surgiu nas páginas de A Monarquia, concluindo: “...o senhor Sidónio Pais vitoria assim
a sua morte política. 0 equívoco é só de sua excelência, que tendo
vencido uma república feita por republicanos, a pretende agora ressuscitar,
fazendo-a com monárquicos”[36].
Dão-se
como bem documentados os últimos meses da presidência de Sidónio Pais. Em
crescente isolamento político, Sidónio terá caminhado hirto ao encontro das
balas assassinas, ficando a pairar as palavras desoladas que terá proferido
num dos últimos Conselhos de Ministros, após a tentativa frustrada de 6 de
Dezembro (numa cerimónia militar, um marinheiro disparou sobre ele, mas sem o
atingir), em resposta à chamada de atenção para a morte que o rondava:
“Ninguém deseja mais a minha morte do que eu!”[37].
Morto
Sidónio Pais, em 14 de Dezembro de 1918, os integralistas depressa descobrem
a situação política propícia à restauração monárquica. Em pleno Parlamento, enquanto o corpo do Presidente repousava inanimado sob a
nave dos Jerónimos, foi António Sardinha quem equacionou as consequências
políticas do trágico momento. Do seu ponto de vista, apresentavam-se
esgotadas as modalidades que o regime republicano possibilitava: o
parlamentarismo e o presidencialismo. Segundo António Sardinha, a instrutiva
experiência de ditadura carismática, “saída de uma cavalgada de cadetes e
alferes”, fora motivada por “uma poeira revolta de indivíduos que os
ventos do caminho manobravam a seu bel-prazer”... Sidónio Pais impusera-se
pelo desejo de ordem, de harmonia e de estabilidade. “Ora a Ordem –
explicava Sardinha - não é a repressão. E, porque não nasce espontaneamente dos factos em si, decerto bem precária
ela seria se a sua existência andar ligada à existência sempre frágil de
quem quer que seja o seu mantenedor” (...) “A democracia de Lisboa
afundava-se vitima do demagogismo, seu cancro estrutural. Encarnando na sua dura necessidade esta lei fatal da história, Sidónio
Pais representou a ditadura inevitável em todo o regime sem coesão nem
disciplina (...) “Montou Sidónio Pais um dia a cavalo e, rapidamente,
hei-lo transitando duma penumbra mais que discreta para os destaques ruidosos
da notoriedade. Logo um equivoco
lamentável se estabeleceu e esse equivoco levou Sidónio Pais à
sepultura”. (...) “- E agora?”– interrogava por fim Sardinha -
“Agora? Agora como sempre, a
Monarquia ou a morte! “ (...)
“Não é o poder que rompe do acaso, engendrado, como um cão, no encontro
dum sabre com os favores da rua. Esse
poder, ou é Afonso Costa ou é Sidónio Pais. Oligarquia jacobina ou
magistratura consular, se uma atenua os efeitos da outra, não os remedeia,
porém. A tara da República é o
demagogismo e a República não se melhora senão destruindo-se. Tentou melhorá-la Sidónio Pais. Com isso não fez mais do que armar o braço que o abateu.
Até na sua morte Sidónio Pais morreu como republicano. 0 direito de César
é a sua popularidade. Na hora em que Napoleão foi vencido, na mesma hora caiu. Na hora em que a Sidónio faltassem os aplausos do Forum,
nessa hora o seu direito haveria caducado. E assim, para o povo o prorrogar indefinidamente, num regime de opinião
em que tudo é surpresa e interinidade, Sidónio Pais caminhou sem hesitação
para as balas do seu assassino, entregue apenas às forças cegas de uma
estrela, depressa eclipsada” (...) “A morte de Sidónio Pais foi a
consagração suprema do individualismo. Morreu como um varão da Antiguidade, - morreu como um personagem máximo
de D’Annunzio, na concepção naturalista dos heróis de Carlyle. Mas da sua acção o que ficou? 0 que ficou da sua coragem estóica? 0
que ficou do seu filantropismo cismador? Somente a memória do seu nome e com ela, na boca de todos, esta
pergunta tremenda: «E agora?»”[38].
No
dia 15 de Janeiro, o governo assumia a plenitude do poder executivo nos termos
da Constituição de 1911 e, dois dias depois, procedia-se no Congresso à
eleição presidencial do almirante Canto e Castro. Ou seja, liquidado Sidónio
Pais, três dias bastaram para
que os sidonistas da véspera deitassem por terra o presidencialismo esboçado
na “República Nova”.
Era
uma clara vitória da corrente parlamentarista do regime republicano, mas não
ficava encerrada a questão. É então que o poder das Juntas Militares se vai
afirmar em defesa da formação de um “governo de força”, capaz de
impedir o retorno ao poder dos partidos políticos da “República Velha”.
Em
23 de Dezembro, após a desistência de Nunes da Ponte, o presidente Canto e
Castro chamou Tamagnini Barbosa à chefia do governo. Saiu um governo
remodelado, mas conservador e republicano.
No
mesmo dia, as Juntas Militares de Norte e do Sul mantêm a reivindicação de
um “governo de força”, com o coronel João de Almeida a pronunciar-se e a
concentrar em Monsanto algumas unidades da guarnição de Lisboa, e a Junta
Militar do Norte a organizar de imediato uma Junta Governativa Militar. Mas,
enquanto o coronel João de Almeida retrocede em Lisboa, no Porto é o coronel
Silva Ramos, principal figura da Junta Militar do Norte, quem declara
dissolvida a Junta Governativa, afirmando que recebera a promessa do
presidente da República de que as suas reivindicações seriam satisfeitas[39].
Em
8 de Janeiro, Tamagnini Barbosa apresenta novo gabinete perante as Câmaras.
Altearam-se as vozes de Cunha Leal (no parlamento) e de Machado Santos (no
Senado), acusando o chefe do governo de cedências às Juntas Militares.
Estava já em marcha um movimento revolucionário em defesa da “República
Velha”, que se entendia posta em perigo pela capitulação do governo ante
as reivindicações das Juntas Militares. A revolta militar eclodirá na noite
do dia 10, quase simultaneamente em Lisboa (Castelo de S. Jorge e Arsenal de
Marinha), Covilhã e Santarém. Em Lisboa e Covilhã os revoltosos foram
rapidamente dominados. Tal não aconteceu aos militares que, na madrugada do
dia 11, se pronunciaram em Santarém. No essencial, os revoltosos pediam ao
presidente da República a formação de um “governo de concentração
republicano” onde ficassem representados os partidos da “Republica
Velha”.
Com
a reacção dos partidos a ganhar expressão militar em Santarém, para os
integralistas soara a hora de agir. Enquanto no sul predominavam os
republicanos sidonistas, no norte do país era nítido o predomínio dos monárquicos.
As Juntas Militares, que haviam sido criadas com o propósito de impedir o
retorno do parlamentarismo, teriam agora de aderir ao propósito
restauracionista O Governo ainda terá chegado a discutir a possibilidade de
substituir alguns comandos na capital, mas logo que é dada como falhada a
tentativa de constituição de um governo militar em Lisboa, é o próprio Hipólito
Raposo quem redige, em 14 de Janeiro, com Rui da Câmara e José Rino Fróis,
na Pastelaria Marques, um memorando em que o Lugar-Tenente de D. Manuel II,
Aires de Ornelas, vem a escrever a expressão inglesa «go on!» que o rei lhe
dera um dia para, em certas condições, se poder levantar em Portugal a
bandeira da Monarquia.
Os
integralistas já só necessitavam de um documento rubricado pelo
Lugar-Tenente do rei para vencer as hesitações que ainda houvesse entre os
comandantes militares do Sul, do cerco de Santarém e do Norte.
Os
revoltosos de Santarém só vêm a depor as armas no dia 15, perante o tenente
Teófilo Duarte. Mas o papel que Hipólito Raposo apresentou na véspera ao
conselheiro Aires de Ornelas dizia assim:
“MEMORANDO
1º
Sobre a possibilidade do assentimento de V. Ex.a para um movimento militar de
carácter monárquico.
2º
Sobre o assentimento de V. Ex.a para um movimento militar, promovido por
oficiais monárquicos e republicanos, para propor ao País a fórmula do
plebiscito sobre o regime político.
3º
Qual seja a opinião de V. Ex.a, em qualquer das hipóteses, sobre o perigo de
uma intervenção estrangeira, obstáculo que não deteve os democráticos
para a organização e execução do actual movimento revolucionário.
4º
Sobre a opinião de V. Ex.a em caso de vitória, acerca do reconhecimento
pelas nações estrangeiras da nova ordem de coisas políticos, levando em
conta a acção diplomática de El-Rei e dos seus amigos junto do governo inglês
e o seu notável prestigio junto dos outros governos aliados.
5º
No caso do seu assentimento, indicação dos nomes que na opinião de V. Ex.a
devem constituir a Junta do Governo Nacional, em nome de El-Rei.
6º
Sem que tal facto importe menos crédito à palavra de V. Ex. e à seriedade
do portador, seria conveniente que as opiniões a expor fossem dadas por
escrito, para assim lhes ser atribuído todo o valor que merecem pelos
elementos de acção que precisam de ser consultados”.
Aires
de Ornelas escreveu à margem do documento: “Go on! Palavras d’El-Rei / Não vejo razão para plebiscito / Não julgo difícil
o reconhecimento / Aires de Ornelas / 14 Jan. 919”[40].
De
imediato, e enquanto em Lisboa, sidonistas de ontem, democráticos,
unionistas, e socialistas, se iam
unindo ao governo de Tamagnini Barbosa, Paiva Couceiro seguia para o Porto
onde o aguardava terreno mais propício.
A
Junta Central do Integralismo Lusitano reuniu no dia 17 à noite. A decisão
tomada é a de António Sardinha
e Luís de Almeida Braga partirem para o Porto, investidos com a missão de
“procurar suster o pronunciamento, até se ultimarem as ligações que
viriam dar-lhe maior caracter de unanimidade em Lisboa e na Província”[41].
António
Sardinha chegou ao Porto na manhã do dia 18, na véspera do pronunciamento,
hospedando-se no Hotel Borges; “ - Isto é um conto das Mil e Uma
Noites!”, terá logo exclamado perante o espectáculo da mais absoluta
facilidade revolucionária que acabava de encontrar. Pela tarde avistou-se com Paiva Couceiro, expondo-lhe os motivos da sua
viagem, a conveniência de aguardar mais uns dias para que o pronunciamento
das tropas, em Lisboa e no Porto, pudesse ser simultâneo”. Couceiro alegou que não havia outra oportunidade, “não só porque,
em Lisboa, os comandantes militares, com as suas hesitações, continuariam no
mesmo pé em que se haviam mantido em seguida à morte de Sidónio, como, já
conhecedor o Governo do que se passava no Porto, não tardariam a ser substituídas
por ele todas as autoridades militares e civis”. No dia seguinte - dia da proclamação da Monarquia - chegavam ao
Porto, em comboio especial, acompanhados pelo ministro da Guerra da República,
Silva Basto, os recém-nomeados governador civil e o comissário de polícia,
respectivamente, António Pais e Cristóvão Aires. Foram devolvidos a Lisboa sem tomar posse. Estava já hasteada no Monte
Pedral a bandeira azul e branca[42].
A restauração declarava em vigor a Carta Constitucional e indicava como
chefes: Luís de Magalhães, Sollari Allegro, Conde de Azevedo, Visconde do
Banho, Coronel Silva Ramos. A
Junta Governativa do Reino ficava sob o comando de Paiva Couceiro.
Logo
que foi conhecida a proclamação, o Integralismo Lusitano manifestou aceitar
a nova ordem, agarrando “a parte prática e positiva da obra restauradora”
- Primum vivere, deinde philosophare, era o princípio que adoptavam[43].
Da
tentativa restauracionista ficará a ecoar o pensamento e as directivas políticas
adoptadas pela Junta Governativa do Reino[44].
Luís de Magalhães, sua figura político-legislativa determinante, apontou
duas razões fundamentais para que aquela Restauração se fizesse pela reposição
da ordem política estabelecida pela Carta deposta em 1910: em primeiro lugar,
porque se entendia a República como “puro hiato político”, fruto de uma
“usurpação violenta” jamais sancionada; em segundo lugar, porque se
pretendia evitar a ditadura como regime de transição - querendo fazer-se uma
restauração, não uma revolução, teriam que evitar a pratica dos
republicanos de “estabelecer como lei básica da sociedade o arbítrio
pessoal dos governantes”[45]. O próprio Luís de Magalhães tudo virá a resumir em imagem singela:
havia que “atar a corda pelas pontas quebradas”.
O
Norte estava dominado, mas havia que restabelecer o contacto com as forças
restauracionistas no Sul e proceder à restauração onde tal fosse exequível.
Em
Lisboa, na manhã do dia seguinte à proclamação do Porto, Hipólito Raposo
suspendeu o jornal A Monarquia, seguindo
de imediato para Belém, onde se estavam a concentrar os monárquicos
(Regimento de Cavalaria 2). Havia que subir a Monsanto para ocupar o posto de
T.S.F. e estabelecer contacto com o Norte.
Entretanto,
a Junta Governativa do Reino nomeara António Sardinha governador civil de
Portalegre, com o intuito e a esperança de aí se poder vir a proclamar a
Monarquia. Sardinha ficará junto de Paiva Couceiro, preso à missão prioritária
de constituir o Gabinete da Presidência. Agregou a si Luís de Almeida Braga, João do Amaral e Nosolini Leão. Ter-se-ão sucedido dias tranquilos, mas sem notícias do Sul.
Até que aí surgiu António Teles de Vasconcelos, para montar os serviço
de comunicações ao longo da fronteira É
então que Sardinha é destacado para Badajoz, Luis Teles de Vasconcelos (irmão
de António) para Cáceres, Joaquim de Almeida Braga para Tui, de onde
penetrariam em Portugal com propósitos restauracionistas.
Em
Lisboa, entretanto, pouco passava das seis horas do dia 22 de Janeiro,
quarta-feira, quando, do quartel de Lançeiros, começaram a sair os cerca de
70 homens comandados pelo capitão Júlio da Costa Pinto. O desfile
dirigiu-se, a passo, pelo Alto da Ajuda até Monsanto. Quando aí chegaram,
fizeram acampamento na Cruz da Oliveira, onde improvisaram um quartel-general,
enquanto o capitão Delfim Maia ocupava o posto de T.S.F. Distribuídas várias
vedetas pelos locais de acesso, ali se revezaram durante toda a noite nos
turnos de sentinela.
Na
manhã seguinte, dia 23, aos primeiros raios de sol, o grosso da coluna dispôs-se
em linha de atiradores junto ao moinho do Alto da Peça. Dadas as salvas do
estilo, hasteou-se a bandeira azul e branca com “o símbolo real tremulando
na altivez secular das suas quinas”[46].
A ligação entre o Porto e Lisboa ainda terá demorado, com o alferes António
Pinto Castelo Branco, a repetir várias vezes a partir de Lisboa: «Aires de
Ornelas e tropas monárquicas em Monsanto, pedem noticias».
Estabelecido
o contacto, mas “receando a hipótese de um ardil de guerra, perguntavam do
Porto:
Quem
foi buscar Aires de Ornelas a Carcavelos?
De
Monsanto respondia-se seguramente: «- António Sardinha».
Logo
a seguir, recebia-se a transmissão das boas noticias do Norte, em nome de
Paiva Couceiro”[47].
O
desastre de Monsanto ocorreu logo no dia seguinte, 24 de Janeiro. Enquanto uns 30 monárquicos saíram da Cruz das
Oliveiras em direcção à Ajuda, para ir tentar sublevar o quartel de
Infantaria 16, os que ficaram no Monsanto não conseguirão suster as
arremetidas das forças republicanas, entretanto acrescentadas pelos numerosos
voluntários que responderam ao apelo do Governo. Os monárquicos, em clara
desvantagem numérica, ainda lutaram até ao fim da tarde. O capitão Júlio
da Costa Pinto, com alguns feridos graves sob o seu comando - entre os quais
Pequito Rebelo e Alberto Monsaraz - , acabou preferindo a capitulação à
fuga[48].
António
Sardinha, que nesse mesmo dia deixara o Porto, seguindo por Espanha na direcção
de Portalegre, só soube da tragédia ao passar em Vigo, onde se demorou com
Luís Teles de Vasconcelos, antes de seguirem viagem por Astorga até
Salamanca. Não chegará a entrar em Portugal, sendo expulso de Badajoz a
pedido do Cônsul de Portugal, por expressa disposição do Governo espanhol,
em 13 de Fevereiro de 1919. 0 desmoronar completo do “efémero castelo de
cartas” desses vinte e cinco dias da denominada Monarquia do Norte, foi notícia
que acolheu António Sardinha já em Madrid.
O
ambiente político, depois de Fevereiro de 1919, vai ser muito diferente:
vencidos os sidonistas no Rossio, e os monárquicos em Monsanto e no Norte, a
situação portuguesa surgia consolidada para o regime parlamentarista
republicano. A derrota dos Impérios
Austro-Hungaro e Alemão parecia dar-lhe livre curso.
Vitoriosos,
os republicanos apertaram naturalmente o cerco aos monárquicos. Alguns
conseguiram escapar para o exílio, mas acabaram enchendo-se as prisões,
centenas de oficiais foram expulsos do Exército, muitos funcionários foram
demitidos.
No
plano prático e imediato, para a Junta Central integralista, o resultado da
frustrada tentativa restauracionista saldou-se em dois feridos graves no
hospital de S. José (Alberto de Monsaraz e Pequito Rebelo), dois exilados
(António Sardinha e Luís de Almeida Braga), e Hipólito Raposo escapando in extremis de ser preso em Monsanto.
Mas,
que caminho seguir, agora que o movimento restauracionista sofrera um
novo revês?
Derrotados
militarmente, a prioridade para os integralistas era o reaparecimento do
jornal A Monarquia. Hipólito Raposo assumiu a sua direcção, fazendo-o surgir
nas bancas no dia 18 de Agosto, submetido ao regime especial de revista prévia
da censura, a par dos órgãos Vanguarda
(socialista) e Batalha (anarco-sindicalista)
O
cerco a Hipólito Raposo e ao integralismo, porém, mal começara O regime que se revelara incapaz de o apanhar no fragor da luta, vai
começar por desencadear a represália por via administrativa[49].
Seguiram-se os processos nos Tribunais: em Julho, haviam já sido instaurados
dois processos-crime, um por crime de imprensa, a ser julgado na Boa Hora, e
outro por crime contra a segurança do Estado, a ser julgado no Tribunal
Militar Especial, em Santa Clara[50].
No
plano político, os integralistas vão apresentar os acontecimentos político-militares
de Janeiro e Fevereiro de 1919, como “a prova trágica da incapacidade dos
velhos chefes monárquicos”[51] - mais ainda do que as armas da Monarquia, tinham sido
“vencidos os processos, os vícios e os erros do Constitucionalismo
Liberal”[52].
Insatisfeitos
com a atitude expectante de D. Manuel II durante os acontecimentos, e
considerando que a sua postura política deixara de oferecer garantia de
servir o interesse nacional, afastaram-se da sua obediência. Em torno de D.
Manuel II ficaram os “constitucionalistas” ou “liberais”, acolitados
pelo tradicionalismo hierocrático, de feição autoritário, entretanto
formado em torno do grupo da Acção
Realista, sob a liderança de Alfredo Pimenta[53]. Não tendo participado na tentativa restauracionista,
e tendo mesmo confessado tudo desconhecer dos seus preparativos, ao escrever
após aqueles sucessos, Alfredo Pimenta considerou que para o que restava do
sidonismo só havia uma de duas saídas: ou a monarquia ou o governo militar. No seu entender, porém, as condições não estariam maduras para a
primeira hipótese.
O
grosso do monarquismo tradicionalista vai passar a estar aglutinado em torno
da Causa Monárquica portuguesa, juntando o Partido Legitimista e o
Integralismo Lusitano no reconhecimento de D. Duarte Nuno como Chefe da Casa
Real portuguesa.
A
Questão Dinástica virá a encerrar-se definitivamente na sequência da morte
de D. Manuel II, em 1932, reconhecendo a Causa Monárquica o neto de D. Miguel
I, D. Duarte Nuno de Bragança, como chefe da Casa Real portuguesa. Para os
integralistas, porém, em 1919, morria definitivamente a Monarquia da Carta[54].
(José Manuel Quintas, "Os combates pela
bandeira azul e branca",História, nº 10, Janeiro de
1999).
QUINTAS, José Manuel. "Os combates pela bandeira azul e branca",
História, nº. 10, Janeiro de 1999, pp. 38-49 [em linha]. Lisboa:
Unica Semper Avis, 8 de Abril de 2000 [consulta em dd.mm.aaaa]. . World
Wide Web:<http://www.lusitana.org/il_jmq_est_azul_e_branca.htm> |
1983 - 1991 - Miguel Castelo Branco e a «Nova Monarquia», intervenções e testemunho em 2002 1987 - António Jacinto Ferreira, Poder Local e Corpos Intermédios 1997 - José Manuel Quintas, O Integralismo Lusitano e a herança de «Os Vencidos da Vida» 1998 - José Manuel Quintas, Origens do pensamento de Salazar 1998 - José Manuel Quintas, Os monárquicos e as eleições de 58 1999 - José Manuel Quintas, A Castração dos Hispânicos 1999 - José Manuel Quintas, Combates pela Bandeira Azul e Branca, 1910-1919 1999 - José Manuel Quintas, «...em benefício, & prol do Reyno» 2000 - José Manuel Quintas, Uma nota acerca do fascismo 2001 - José Manuel Quintas, Democracia Orgânica - Oliveira Martins e o Integralismo Lusitano 2001 - José Manuel Quintas, «O Valor da Raça» segundo António Sardinha e o Integralismo Lusitano 2001 - Nacional-Sindicalismo e Estado Novo em Debate 2002 - José Manuel Quintas, A «Questão Ibérica» no Advento do Integralismo Lusitano 2002 - José Manuel Quintas, António Sérgio - «integralistas e seareiros são anticonservadores» 2002 - José Manuel Quintas, O Integralismo Lusitano perante a «Salazarquia» 2004 - Henrique Barrilaro Ruas, Vida e Obra - Exposição e Ciclo de Conferências 2004 - Teresa Martins de Carvalho, Apresentação dos «Filhos de Ramires» Filhos de Ramires Integralismo Razões Reais
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