Os monárquicos e as
eleições presidenciais de 1958
José Manuel Quintas
Índice
1. Os monárquicos e o
Estado Novo de Salazar.
2. O Integralismo
Lusitano e as divisões no seio dos monárquicos (1910-26).
3. Os monárquicos e o
estabelecimento do Estado Novo.
4. O desafio
Nacional-Sindicalista à «Salazarquia» (1931-34).
5. Sob a
«Salazarquia» o Integralismo catacumbal.
6. Os monárquicos
salazaristas e a tentativa restauracionista (1951-52).
7. Uma Oposição
impetuosa e descomposta.
O Estado
Novo, regímen misto, feito de duas camadas sobrepostas, tem quase
sempre por cima a camada antidemocrática. Mas de 4 em 4 anos e de 7 em 7
anos vem ao de cima a camada democrática. Recalcada durante tanto tempo,
não admira que venha impetuosa e um tanto descomposta...
Henrique Barrilaro Ruas, em
entrevista ao Diário Popular, 1957.
1. Os monárquicos e o Estado Novo de Salazar.
Numa célebre fotografia
tirada em 10 de Maio de 1958, durante a sessão pública de apresentação
da Candidatura do general Humberto Delgado à Presidência da República,
no Café «Chave de Ouro», em Lisboa, pode ver-se Luís de Almeida Braga
sentado à direita do general, Francisco Rolão Preto sentado ao lado de
Aquilino Ribeiro e, de pé, no uso da palavra como Presidente da Comissão
Central da Candidatura, Francisco Vieira de Almeida.
Sendo conhecido o percurso
e a definição presidentista do regime saído da "Revolução
Nacional de 28 de Maio de 1926", a presença daqueles homens ladeando
o general Humberto Delgado dava que pensar a qualquer observador atento da
política portuguesa da época. Para além do próprio candidato e de
Aquilino Ribeiro (reconhecidos presidentistas), as restantes
personalidades, visíveis na fotografia, eram de há muito identificadas
com a opção monárquica para o preenchimento da suprema magistratura do
Estado.
Francisco Vieira de Almeida
(1888-1962), identificado por muitos como um monárquico de convicções
liberais, era um prestigiado Professor de Filosofia da Faculdade de Letras
de Lisboa a quem se reconhecia um longo percurso de intervenção cívica,
com independência de organizações político-doutrinárias ou escolas de
pensamento. Luís de Almeida Braga (1886-1970) e Francisco Rolão Preto
(1893-1977) eram dois fundadores do Integralismo Lusitano, monárquicos
tradicionalistas - "reaccionários anti-conservadores", como
também gostavam de ser identificados.
Como interpretar aquele
tão explícito apoio de destacadas personalidades monárquicas ao
candidato presidencial Humberto Delgado?
Manuel Braga da Cruz
observou que os monárquicos, organizados em torno da Causa
Monárquica, constituíram uma componente fundamental do Estado
Novo. Colocando a tónica na composição interna do regime, Braga da
Cruz apresentou o comportamento dos monárquicos da Causa no
âmbito de um colateralismo essencial com os republicanos, seguindo uma
significativa evolução: depois de um período inicial de expectativa
numa restauração do Trono (1926-1933), ter-se-á seguido um período em
que, frustrados com a definição presidentista do texto constitucional
de 1933, passaram a um comprometido "colaboracionismo
crítico", espreitando oportunidades de insinuação junto do Poder
(1933-1951). O insucesso da tentativa restauracionista, após a morte do
Presidente Carmona, em 1951, terá posto fim a muitas ilusões, abrindo-se
então um conturbado período de distanciamento e mesmo de afrontamento
interno (1951-1961), até que o acender da questão ultramarina os veio
colocar sem outra alternativa que não fosse a de defender a manutenção
do regime como um mal menor (1961-1974).
À luz da periodização e
dos critérios enunciados por Manuel Braga da Cruz, poderíamos ser
tentados a ver, na participação daqueles destacados monárquicos na
candidatura de Humberto Delgado, a expressão do referido
"afrontamento interno" ao regime, no culminar de um
"conturbado período de distanciamento". Tal apreciação não
seria exacta. Os monárquicos Vieira de Almeida, Almeida Braga e Rolão
Preto, além de não estarem organizados na Causa Monárquica, não
culminavam, com o seu apoio ao general Humberto Delgado, uma atitude de
afrontamento ao regime, surgida em 1951, na sequência de uma falhada
tentativa restauracionista. Em 1958, ao colocarem-se ao lado de um
candidato presidencial oposicionista como Humberto Delgado, aqueles
monárquicos faziam jus, não obstante as suas diferenças de postura e
sensibilidade, a um passado político com um indelével traço comum: uma
antiga e persistente oposição ao Estado Novo de Salazar.
O Estado Novo, desde
o início da sua institucionalização, do mesmo modo que não agregou
todos os republicanos, também não agregou todos os monárquicos. Para
além do "colaboracionismo crítico" de muitos, referido por
Braga da Cruz, bem cedo houve outros que não apenas lhe recusaram
colaboração, como de imediato lhe moveram oposição. Ora, entre esses
monárquicos oposicionistas, em lugar de destaque, contaram-se sempre os
integralistas lusitanos. Apesar de alguns dirigentes da situação
salazarista terem procurado apropriar-se do seu legado intelectual e
político, alguns, inclusive, fazendo-se passar por seus fiéis
discípulos, foi precisamente em torno dos mestres do Integralismo
Lusitano, acolitados por alguns "couceiristas", ou monárquicos
"liberais" da índole de um Francisco Vieira de Almeida, que bem
cedo se definiu o eixo monárquico oposicionista ao Estado Novo.
Estando por fazer uma
História da resistência monárquica ao Estado Novo, com
importantes fontes documentais ainda dispersas ou inacessíveis, importa
fazer aqui um breve alinhavo em torno do papel fundamental que nela
desempenhou o movimento político-cultural integralista lusitano.
A rejeição integralista,
tanto do parlamentarismo da 1ª República, como do corporativismo
estatista do Estado Novo, tem uma precisa fundamentação doutrinária que
importa esclarecer. Sem essa prévia elucidação, não será possível
compreender nem o que verdadeiramente os separava dos monárquicos
"constitucionais" e dos monárquicos tradicionalistas de
feição autoritária e hierocrática - esteios a partir dos quais se
formou a facção monárquica apoiante da situação salazarista -, nem o
seu comportamento oposicionista e a sua motivação política para o apoio
que prestaram ao candidato presidencial Humberto Delgado.
2. O Integralismo Lusitano e as
divisões no seio dos monárquicos (1910-26).
Ao implantar-se a 1ª
República, em Outubro de 1910, os monárquicos portugueses encontravam-se
profundamente divididos por razões político-ideológicas e dinásticas.
Enquanto no plano político-ideológico se opunham tradicionalistas e
modernistas, permanecia, em grande medida paralelamente, a antiga divisão
dinástica entre "legitimistas", partidários da descendência do
rei proscrito D. Miguel I (que os adversários, monárquicos e republicanos,
gostavam de designar como "absolutistas") e os
"constitucionais" ou "liberais", partidários do ramo
reinante, descendente de D. Maria II.
Um dos primeiros e mais
importantes efeitos da implantação da República sobre o campo monárquico
foi o esvaziamento de parte significativa das correntes modernistas. Com
efeito, logo que foram dissolvidos os partidos do rotativismo do final da
Monarquia da Carta, muita dessa "gente de fomes históricas, acostumada
ao devorismo do erário", aderiu sem complexos ao novo regime. Os
monárquicos "constitucionais" ou "liberais" que, depois
de Outubro de 1910, se mantêm mobilizados em torno da Causa Monárquica,
foram na verdade poucos e na sua maioria procedentes do que restava do
Partido Conservador Liberal (fundado em 1901 por João Franco), ou formados
sob a influência dos sobreviventes do grupo dos "Vencidos da
Vida", inspirados pelo exemplo e pela obra de Ramalho Ortigão.
Só depois de 1914 se
acrescentará ao campo monárquico a renovação político-cultural e
geracional, introduzida pelo Integralismo Lusitano.
A expressão "Integralismo
Lusitano" foi cunhada por Luís de Almeida Braga, em 1913, na
revista Alma Portuguesa, editada na Bélgica por um grupo de
expatriados monárquicos. Em 1914, aquela expressão surgiu inscrita no
lançamento da revista Nação Portuguesa, para designar um programa
político monárquico e um movimento de ideias políticas que acabava de se
constituir.
Mas quem eram e ao que vinham
os integralistas lusitanos?
Ao lançarem a revista Nação
Portuguesa, os integralistas eram um grupo de jovens, quase todos
acabados de sair da Universidade de Coimbra: José Hipólito Vaz Raposo
(1885-1953), Luís de Almeida Braga (1886-1970), António de Sousa Sardinha
(1887-1925), Alberto de Monsaraz (1889-1959), José Pequito Rebelo
(1893-1983). O que logo ressaltava era a sua extrema juventude: Hipólito
Raposo, o mais velho do grupo, tinha 29 anos, Pequito Rebelo, o mais jovem,
tinha apenas 21. A média de idades não ultrapassava os 24 anos.
Quanto aos seus propósitos,
foi Alberto de Monsaraz, o director da revista Nação Portuguesa,
quem, ao assinar o seu primeiro editorial - uma "Carta Aberta"
dirigida a Moreira de Almeida - se identificou como "um português tão
desiludido do 4 como do 5 de Outubro". A mensagem de Alberto de
Monsaraz não podia ser mais clara: dirigindo-se aos monárquicos,
afirmava-lhes que a recém-deposta "Monarquia Constitucional" não
lhes servia. Para os integralistas, a Monarquia derrubada era um corpo
estranho à Nação. Havia que retornar à Monarquia, sim, mas à verdadeira
Monarquia Portuguesa. Os portugueses haviam esquecido em que consistia uma
tal Monarquia; os integralistas ali estavam para a explicar aos próprios
monárquicos.
Ficando claro que não se
propunham a uma simples restauração da Monarquia deposta, havia, ainda
assim, quem pudesse achar estranho que entre os integralistas, em posto de
comando, surgisse António Sardinha que fora um dos mais distintos
estudantes republicanos do seu tempo e que chegara a trocar correspondência
com Teófilo Braga. Em breve se ficaria a saber que o Integralismo Lusitano
contava nas suas fileiras com outros ex-republicanos como João do Amaral ou
Domingos Garcia Pulido.
Agregando monárquicos, que
não se reconheciam na Monarquia deposta, e republicanos convertidos ao
monarquismo por se não reconhecerem na República recém-implantada, a
questão não podia deixar de se colocar: de que Tradição se reivindicavam
os integralistas lusitanos? Com que ideias, tomadas de que mestres, se
formara esse movimento de jovens que se propunha reatar a perdida Tradição
portuguesa?
Os integralistas, do mesmo
passo que apresentaram um índice de soluções políticas sob o título
"monarquia tradicional, orgânica, anti-parlamentar", indicavam
também, desde os primeiros números da Nação Portuguesa, as fontes
do seu pensamento político: os Mestres do pensamento português que haviam
alicerçado e erguido as instituições fundamentais do Reino de Portugal.
Era o pensamento político
que reconhecia os foros e liberdades da República (das comunas urbanas, dos
concelhos rurais, etc.), estabelecia as regras da sua representação em
Cortes e definia o conteúdo dos pactos que os Reis juravam respeitar (ao
Rei, cuja autoridade era entendida como um serviço, cumpria reger os
destinos da República); era o pensamento político que levantara a Nação
contra as pretensões de Castela, que fundara a legitimidade da Dinastia de
Avis e sustentara a Restauração de 1640; era o pensamento político que se
expressara, desde os alvores da nacionalidade até ao último quartel do
século XVII, através de uma vasta plêiade de escritores, de que os
integralistas destacavam, entre tantos outros: Álvaro Pais, Frei António
de Beja, Jerónimo Osório, Diogo de Paiva, Frei Manuel dos Anjos, Frei
Jacinto de Deus, Sousa de Macedo, Pinto Ribeiro, Velasco de Gouveia.
Nas formulações políticas
daqueles canonistas e jurisconsultos se encontrava o cerne do pensamento que
melhor corporizara a Tradição política da Monarquia Portuguesa. Neles se
expressara o pensamento político português que, após a Restauração de
1640, recebera sucessivos tratos de polé, primeiro no plano das ideias,
depois no das instituições; desde o advento do absolutismo iluminado, pela
mão do Marquês de Pombal, até ao período do chamado
"Constitucionalismo", definitivamente implantado na década de
1830.
Mas aquele pensamento
político português resistira às infiltrações estrangeiradas do
Século das Luzes, sobrevivendo em autores como Sousa Farinha, Rodrigues
Leitão, Marquês de Penalva e que, nos inícios do século XIX, seria
continuado por Fortunato de São Boaventura, José da Gama e Castro,
Faustino José da Madre de Deus, Francisco Alexandre Lobo, Acúrcio das
Neves, Gouveia Pinto, Ribeiro Saraiva, Visconde de Santarém.... Os
integralistas não se mostravam dispostos a permitir o esquecimento ou
adulteração daquele pensamento político, surgindo com o firme propósito
de o recuperar e adequar às exigências dos novos tempos; o pensamento
político, que ajudara a fazer a Nação, não podia morrer, sob o risco de
morrer com ele a própria Nação.
Para os integralistas
lusitanos não fora a implantação da República que, em rigor, quebrara a
Tradição política portuguesa. A República era apenas a continuação da
Monarquia da Carta, ainda que "uma continuação agravada, nos
princípios e nos factos": destronara-se o Rei e passara a dominar o
Mito que identificava a Democracia com o regime republicano. Para os
integralistas, a Democracia e a defesa da Res publica não era o
verdadeiro programa daqueles que a si próprios se designavam por
"democráticos" e "republicanos". O que o regime
implantado em 5 de Outubro de 1910 instituíra era, em rigor, um
"governo de classe contra as classes"; o "governo de uma
aristocracia plutocrática (representada pelos políticos dos partidos)
contra os interesses de uma grande massa de deserdados".
Fizeram-se desentendidos,
quer os derrotados monárquicos do regime da Carta, quer os
"republicanos" vitoriosos e, não obstante as longas listas de
fontes inspiradoras que os integralistas iam indicando e explicando, bem
cedo os acusaram de plágio de ideias de origem estrangeira, chegando a
atribuir-se-lhes directa inspiração num movimento neo-monárquico
francês, a Action française, que, naquela época, fazia furor nos
meios intelectuais parisienses.
Formados num ambiente
intelectual dominado pelo renascimento católico (o reveil de l’Evangile)
e pelo neo-romantismo das escolas da viragem do século, os integralistas
lusitanos retomaram o projecto de "reaportuguesamento de Portugal"
na linha de pensamento da Geração de 70 pós-Ultimatum (do grupo
dos "Vencidos da Vida"). Partindo da escolástica hispânica
seiscentista e dos autores legitimistas de inícios do século XIX,
proclamaram a necessidade não apenas de uma restauração da monarquia, mas
de uma integral restauração de Portugal (que para eles significava, no
plano institucional, a simultânea restauração da Res publica e do
Trono).
A voz dos integralistas
lusitanos surgiu em dissonância, quer com os legitimistas, quer com os
"constitucionais". Dos primeiros, separava-os a "questão
dinástica" (aceitavam os fundamentos históricos da posição
legitimista mas, em 1914, ainda consideravam D. Manuel II como o rei que
melhor servia o interesse nacional naquela hora difícil); dos segundos,
separava-os a doutrina e o projecto político.
Se os monárquicos
"constitucionais" inicialmente os temeram, pelo brilhantismo e
combatividade intelectual de que davam claro sinal, também cedo perceberam
a sua utilidade proselitista no terreno da luta político-ideológica. Com o
movimento restauracionista em nítido ascenso depois de 1914, os
integralistas vêm, com a entrada de Portugal na 1ª Guerra Mundial, tornar
público o seu primeiro manifesto político (1916), depressa se
transformando de movimento de ideias em movimento político organizado - Primum
vivere deinde philosophare era o princípio que passavam a adoptar. Em
1918, os integralistas estavam já integrados no bloco de forças apoiante
do Sidonismo e, logo após o assassinato do presidente Sidónio Pais, entre
Janeiro e Fevereiro de 1919, participam activamente na revolta do Monsanto e
na Monarquia do Norte.
Depois de 1920, desfeita a
tentativa restauracionista e insatisfeitos com a atitude de D. Manuel II -
considerando que a sua postura política deixara de oferecer garantia de
servir o interesse nacional -, os integralistas afastaram-se da sua
obediência. Em torno de D. Manuel ficaram os
"constitucionalistas" ou "liberais", acolitados pelo
tradicionalismo de feição ideológica mais vincadamente autoritário,
entretanto formado em torno do grupo da Acção Realista, sob a
liderança de Alfredo Pimenta. O grosso do monarquismo tradicionalista
passava a estar aglutinado em torno da Causa Monárquica Portuguesa,
também designada por Grémio Tradicionalista Português, juntando o
Partido Legitimista e o Integralismo Lusitano no reconhecimento de D. Duarte
Nuno como Chefe da Casa Real portuguesa.
3. Os monárquicos e o estabelecimento do
Estado Novo.
Aquando do pronunciamento
militar de 28 de Maio de 1926, ainda que doutrinariamente divididos entre
as várias espécies de tradicionalismo e modernismo, e pela
"questão dinástica" entre miguelistas e manuelistas,
praticamente todos os monárquicos convergiram no apoio aos seus
anunciados propósitos regeneradores. Os integralistas lusitanos, tendo
desempenhado importante papel nos movimentos conspirativos que lhe
estiveram na origem, não foram naturalmente excepção, anunciando de
imediato suspensa a sua actividade política.
Apesar do precoce
afastamento do general Gomes da Costa da direcção da Ditadura, a atitude
dos integralistas manter-se-á em benevolente expectativa. Em 2 de Março
de 1930, era Hipólito Raposo quem considerava que a Ditadura, não
obstante "a dispersão da força política, por várias correntes de
influência militar, dependentes ainda do preconceito constitucional e das
sugestões da maçonaria", tinha revelado, até aí, um "bom
instinto de salvação nacional, em busca de uma inteligência de
governo".
Pouco depois da
"rebelião de Luanda" e da "revolta da Madeira",
quando Oliveira Salazar, no seu discurso no Ministério do Interior, em 30
de Julho de 1930, proclamou a "Ditadura de Salvação Pública",
a reacção integralista foi ainda a de lhe dar o benefício da dúvida.
Foi a última
manifestação pública benévola dos integralistas para com a Ditadura e
o seu novo Chefe. Em Outubro, Hipólito Raposo suspendeu a sua
colaboração no Diário de Notícias, onde tinha vindo a
desenvolver o tema da necessária reactivação dos municípios. Em Abril
do ano seguinte saiu o primeiro número do jornal Revolução:
começava a definir-se o eixo nacional-sindicalista de combate ao
salazarismo.
Em 28 de Maio de 1932,
quando foi tornado público o novo projecto de Constituição, sem margem
para quaisquer dúvidas, os integralistas lusitanos abriram-se ao combate
no plano das ideias e dos princípios. No tom irónico dos "reparos
à Constituição" que então apresentaram, estão já presentes as
principais linhas de força daquelas que virão a ser as suas virulentas
denúncias da "Salazarquia". A discordância dos
integralistas tocava em pontos fundamentais do referido projecto
constitucional e, segundo eles, tornava inviável uma verdadeira
restauração da República: a representação das classes e profissões
iria ser feita através de uma Câmara Corporativa reduzida a mera
função consultiva; a representação política mantinha-se monopólio
exclusivo de partidos políticos (o projecto adoptava, na prática, o
modelo do partido único); os municípios surgiam como meras delegações
do poder central; o sindicalismo não seria livre, antes obrigatório e de
chancela governamental; vingava o modelo centralista do Acto Colonial que,
à maneira dos países de imperialismo comercial, negando a tradicional
feição portuguesa de assimilação jurídica e espiritual, cerceava as
autonomias provinciais ultramarinas.
Mas eis que, no campo
monárquico, pouco depois de ser conhecido o projecto do texto
constitucional, a "questão dinástica" vem a ter inesperado
desfecho: na tarde de 2 de Julho de 1932, em Twikenham, um súbito edema
sufocante da glote pôs termo à vida de D. Manuel II.
D. Manuel II morria sem
descendentes directos ou colaterais, extinguindo-se o "ramo
constitucional" da Dinastia de Bragança. D. Duarte Nuno de
Bragança, o neto do desterrado e proscrito de Évora-Monte, surgia agora
como único possível herdeiro. Aos legitimistas, para quem D. Miguel I
sempre fora o soberano indiscutível, não oferecia dúvida a legitimidade
do neto, D. Duarte Nuno. Para os integralistas lusitanos, tão pouco,
desde que, iam já 12 anos, o haviam aceitado. O problema da sucessão vai
pôr-se aos tradicionalistas da Acção Realista e aos
"constitucionais" que, vivendo das saudades do regime da Carta,
deposto em 1910, se viam agora privados de Rei.
Pouco depois, porém, e com
escassas opiniões contrárias, os corpos dirigentes da Causa
Monárquica reconheceram em D. Duarte Nuno de Bragança "todos os
títulos de sucessor de El-Rei o Senhor Dom Manuel II", "tendo
por conseguinte decidido fazer a sua aclamação como Rei legítimo de
Portugal".
Definitivamente encerrada a
"questão dinástica", foram dissolvidas todas as organizações
monárquicas pré-existentes, formando-se a Causa Monárquica em
obediência a D. Duarte Nuno de Bragança.
Coincidia a fusão
organizativa dos monárquicos com o ultimar da constitucionalização do Estado
Novo. Com excepção dos mestres integralistas, que já haviam
manifestado o seu repúdio pela nova ordem política, os restantes
monárquicos mantinham-se ainda em expectativa.
Salazar, no discurso de 23
de Novembro de 1932, dirigiu-se então explicitamente aos monárquicos
convidando-os a ingressarem na União Nacional. Referindo-se ao
falecimento de D. Manuel II, porém, Salazar deixou tombar a seguinte
afirmação: "Leva-o a morte, sem descendente nem sucessor".
Perante aquelas públicas
palavras de Salazar, instalou-se de imediato alguma desorientação entre
os monárquicos que consideravam Salazar monárquico por tradição e
formação, quando não de coração. Os integralistas lusitanos,
integrados na Causa Monárquica, reagiram de imediato e de forma
particularmente dura para com Salazar e seus acólitos monárquicos (ou
que como tal se tinham vindo a posicionar): "Ao nosso caso de
consciência política consagrámos a mocidade, já distante, e por ela
muitas vezes temos arriscado a vida. Há muito que o resolvemos sem termos
de nos penitenciar... O sr. dr. Oliveira Salazar só agora resolve o seu
e, com tal desembaraço e clareza o faz, que não permite dúvidas a
ninguém sobre a coerência do seu pensamento com a sua acção futura.
Antes assim. Sempre admirámos a sinceridade, tanto nos homens públicos
como nos particulares, mas ficamos ainda certos de que se não mata uma
causa por asfixia, nem se pode empreender a regeneração nacional com
ambiciosos e com trânsfugas, gafaria moral de que são feitas,
normalmente, as camarilhas dos aduladores".
Entre os monárquicos,
todavia, com excepção dos mestres integralistas e dos seus mais
próximos discípulos, vingava já a ideia de que o Estado Novo
não sendo nem uma República, nem uma Monarquia, seria, ainda assim, uma
espécie de compromisso entre ambas, consequentemente instável e
provisório, cujo desfecho acabaria por ser a restauração monárquica.
Esperançosos numa restauração a prazo, ficou incompreendida, para
muitos monárquicos, a denúncia integralista do falso monarquismo de
Salazar.
4. O desafio Nacional-Sindicalista à
«Salazarquia» (1931-34).
Em Junho de 1926, os
integralistas haviam suspendido a sua actividade política em proveito do
que consideravam ser a mais urgente necessidade de restaurar a República
(Res publica). Tendo começado a romper, em finais de 1930, com a
sua atitude de expectativa benévola para com a Ditadura, começou a
desenvolver-se, em Abril de 1931, o eixo de acção nacional-sindicalista
em torno do jornal Revolução.
O Sindicalismo Orgânico,
elemento básico do seu conceito de "monarquia tradicional, orgânica
e anti-parlamentar", vinha sendo considerado pelos integralistas, nas
novas condições político-sociais do pós-guerra, uma das suas máximas
prioridades programáticas. Lançado em 1919-20 sob a liderança de
Alberto de Monsaraz e de Francisco Rolão Preto (cuja cooptação para a
Junta Central do Integralismo Lusitano havia sido tornada pública em
1922), tinha-se mantido até meados dos anos 20 em estrita subordinação
à integralidade do ideário.
Desde meados de 1932,
integrados na Causa Monárquica, estabelecida em torno de D. Duarte
Nuno, mas crescentemente isolados na sua atitude de recusa do nascente Estado
Novo - parte das novas gerações integralistas entrava a colaborar
com Salazar – alguns destacados integralistas decidem-se a dotar o seu
projecto sindicalista de organização própria. Com o socialismo
reformista a manter-se em decidida decadência e numa época de ascenso
dos movimentos nacionalistas e dos métodos revolucionários de conquista
do Poder, com disseminado recurso a chefaturas carismáticas e métodos
milicianos de organização e propaganda - estavam bem vivos os exemplos
de Lenine, Mussolini, Kemal Pachá... - dão ao Movimento
Nacional-Sindicalista coerência organizativa em torno da figura
carismática de Rolão Preto, mantendo em suspenso a reivindicação da
suprema magistratura régia.
O Movimento
Nacional-Sindicalista desenvolveu-se de forma rápida em torno de Rolão
Preto que, com dotes extraordinários de persuasão, passou a desafiar a
aparentemente pouco mobilizadora "posição estática" de
Salazar.
Depois de proclamado, no Parque Eduardo VII, em Lisboa, o
Alea Jacta Est do Nacional-Sindicalismo, e enquanto se
apertou o cerco das proibições e censura sobre o jornal Revolução,
os nacional-sindicalistas responderam pelo incremento da militarização
das suas fileiras. Por ocasião do 28 de Maio de 1934, no Porto, em
notória demonstração de força, reúnem uma coluna de 300
nacional-sindicalistas uniformizados e cerca de 2000 civis, na Praça
Carlos Alberto. Sucedem-se os assaltos às suas instalações em Lisboa,
Porto e Bragança.
Em 20 de Junho de 1934,
Francisco Rolão Preto acabará por apelar para o Presidente da
República, solicitando-lhe "pronta intervenção" no sentido
de, entre outras coisas, garantir condições de liberdade de
organização e movimento ao Nacional-Sindicalismo.
A resposta do Governo veio
célere e impiedosa. Tendo Salazar já feito a captação da componente
juvenil modernista-fascista, que os integralistas por breves momentos
haviam logrado mobilizar, resolveu pôr-lhe ponto final. Presos e exilados
Alberto de Monsaraz e Rolão Preto, o Movimento Nacional-Sindicalista foi
oficialmente proibido e dissolvido. Salazar ficava, por fim, com as mãos
livres para dirigir a institucionalização do Estado Novo.
5. Sob a «Salazarquia» o Integralismo
catacumbal.
Para os crescentemente
isolados integralistas, o desfazer da experiência Nacional-Sindicalista
foi rude e decisivo golpe nas suas aspirações em influenciar o curso dos
acontecimentos. Recusando colaboração à União Nacional, ao
contrário do grosso dos monárquicos - entre os quais se contavam tanto
os "constitucionais" como os tradicionalistas provenientes da Acção
Realista - alguns mestres do Integralismo Lusitano prosseguirão, no
entanto, organizados em torno da Causa Monárquica.
Entretanto o governo tornou
conhecido o testamento assinado por D. Manuel II, em Fulwell Park,
Twickhenham, no dia 25 de Setembro de 1915, e decidiu dar aplicação e
novo proprietário àqueles bens, instituindo uma fundação de direito
público - a Fundação da Casa de Bragança.
Em Fevereiro de 1934, pelas
mãos do Conde de Almada e de João de Azevedo Coutinho, foi entregue ao
Presidente do Ministério o protesto formal de D. Duarte Nuno de
Bragança. Era um protesto pela solução de confisco, adoptada pelo
Governo relativamente a "uma propriedade particular de natureza
especial, não partilhável nem susceptível de disposição
testamentária". Era um protesto, mas também uma reafirmação,
perante o Estado Novo, dos seus direitos a uma propriedade cuja guarda e
conservação lhe pertencia por herança, enquanto Chefe da Casa Real
portuguesa. O teor do protesto de D. Duarte Nuno, foi publicado pela
imprensa acompanhado pelo parecer jurídico produzido por três distintos
advogados. Eram, sem surpresa, José Augusto Vaz Pinto, Luís de Almeida
Braga e Simeão Pinto de Mesquita... Os integralistas mantinham-se na
primeira linha do combate contra a política de Salazar.
Integrados na Causa
Monárquica, os integralistas tentam ainda, por intermédio de
Hipólito Raposo, em 16 de Dezembro de 1934, ver aprovada no Conselho da
Lugar-Tenência uma moção favorável à abstenção monárquica nas
próximas eleições. Rejeitada a moção, Hipólito Raposo acabou pedindo
a sua demissão da respectiva Comissão Executiva.
Ainda que considerados um
esteio intelectualmente destacado e brilhante entre os monárquicos, as
sucessivas demarcações dos integralistas face ao emergente Estado
Novo, não estavam a ser seguidas por grande número de monárquicos.
A sua capacidade de influenciar ia ficando muito diminuída mesmo entre
aqueles sobre os quais, alguns anos antes, tinham exercido forte
influência: parte das novas gerações integralistas, ou adere ao
salazarismo - esses "trânsfugas, gafaria moral de que são feitas as
camarilhas dos aduladores"- ou remete-se a um mutismo comprometedor.
Pouco depois, quando se tornou nítida a tentativa de apropriação do
legado integralista, por parte de alguns dos destacados quadros políticos
do novo regime, aos mestres integralistas restou, tanto quanto a censura o
permitia, a demarcação e o desfazer do embuste.
Seguiu-se a difícil
conjuntura da Guerra Civil de Espanha (1936-39). O fundo nacionalismo e
catolicismo dos integralistas não lhes permitia uma acção política
ostensiva ao regime. O próprio Estado Novo enfrentava agora as ameaças
de contágio anti-clerical e internacionalista provenientes da Espanha.
Ainda que fossem vozes críticas desgarradas, nem por isso a reacção de
Salazar deixou de ser particularmente dura para com aqueles que ousavam
atitudes menos conformes à ortodoxia salazarista: Rui Ulrich, embaixador
em Londres, foi forçado a demitir-se em 1936, por ter convidado, para
almoçar na Embaixada, D. Duarte Nuno de Bragança; Paiva Couceiro, em
1937, foi preso e logo depois expulso do território nacional como
resposta a uma carta dirigida a Salazar, onde manifestava o seu apreensivo
patriotismo em face da situação angolana; Afonso Lucas foi demitido de
Juiz do Tribunal de Contas no dia imediato à publicação em A Voz de um
artigo que, aliás, lograra a autorização da Censura; Rolão Preto, com
mandato permanente de prisão, andou clandestino entre Espanha e Portugal;
Hipólito Raposo, em 1940, acabaria por ser preso, demitido de professor
do Conservatório e desterrado para os Açores, na sequência da
publicação do livro Amar e Servir, que a polícia, por ordem superior,
apreendeu e queimou.
No início dos anos 40, aos
mestres integralistas pouco mais restou do que a frente interna da Causa
Monárquica. Com alguma implantação no seio da sua Comissão
Organizadora (COMORG), em 1939 dela se destacara um Grupo de Acção
Monárquica Autónoma (GAMA) com o objectivo de vir a criar um movimento
político. O intento saiu gorado, mas as novas gerações integralistas
vão sendo reunidas em torno de novos jornais como o Aléo, dirigido por
Fernão Pacheco de Castro, ou de revistas já antigas como a
Gil Vicente, sob a direcção de Manuel Alves Oliveira. Em 1941, o GAMA
acabará por se organizar como editora, sob o impulso de Leão Ramos
Ascensão, Centeno Castanho e Fernando Amado. Alguns anos depois surgia
também, sob impulso das novas gerações integralistas, a criação do
Centro Nacional de Cultura (1944).
Em 1945, ao ser lançado o
Movimento de Unidade Democrática (MUD) lá estavam mobilizados os
monárquicos Vieira de Almeida ou Rolão Preto. Por essa altura, a Causa
Monárquica entrou em reorganização. D. Filipa de Bragança fez então
saber a Salazar que o Conselho Supremo da Causa - o seu órgão máximo -
passava a contar com 5 membros: José Pequito Rebelo, Luís de Almeida
Braga, Ruy de Andrade, D. José Castelo Branco Pombeiro e Caetano Beirão.
Para além de Castelo Branco Pombeiro e do pimentista Caetano Beirão, à
cabeça surgiam dois integralistas, a que D. Filipa não poupa encómios,
lembrando a Salazar, aliás, para que não restassem dúvidas acerca de
quem passava a deter influência no seio dos novos órgãos da Causa que,
no dia anterior, ela e seu irmão haviam estado com Luís de Almeida Braga
e Pequito Rebelo trabalhando numa carta que D. Duarte iria dirigir em
breve aos monárquicos.
A resposta de Salazar e dos
seus acólitos monárquicos não tardou muito. A par dos que se
encontravam firmemente instalados na super-estrutura do regime - entre
outros, Mário de Figueiredo, João Lumbrales, José Nosolini, José
Soares da Fonseca, Cancela de Abreu - eis que Fezas Vital, uma figura
grada do regime, se tornava, em 1946, Lugar-Tenente de D. Duarte Nuno.
Passado o período
eleitoral daquele ano, coincidente com os festejos dos 20 anos de
existência do Estado Novo, pouco mais restava ao integralista
Alberto de Monsaraz do que, sob o sugestivo título de Respiração
Mental, dedicar as suas palavras "aos camaradas
jornalistas"- passado o período eleitoral, recomeçara "o
habitual tormento de dispneia mental, de restrições à inteligência, de
falta de ar para o espírito" .
Pouco depois e enquanto os
esperançosos monárquicos salazaristas iam vibrando com as novidades
provenientes de Espanha - Francisco Franco, ao publicar a Lei de
Sucessão, reconhecia ipso facto o Estado espanhol como Reino -, os
integralistas, pouco dados a miragens, respondem pela demarcação e
conspiração contra o regime. Em 1947, o brigadeiro Vasco de Carvalho,
cunhado de Pequito Rebelo e integralista lusitano desde a primeira hora,
surgia envolvido numa conspiração reviralhista. Foram presos, julgados e
castigados.
Nos anos seguintes, a
intransigência dos órgãos directivos da Causa Monárquica não
parará de crescer para com os monárquicos oposicionistas, acabando por
levar à irradiação, em Fevereiro de 1949, tanto de Luís de Almeida
Braga como de Francisco Vieira de Almeida. No mês seguinte, Hipólito
Raposo lavrava o seu protesto pedindo a demissão do cargo que ainda
detinha na Causa, o de Presidente do seu Supremo Conselho Cultural.
Com os integralistas
expulsos e demitidos da Causa saiu grande número de jovens
nascidos entre 1920 e 1930. Na eleição de deputados para a Assembleia
Nacional, em Novembro de 1949, estes estão já mobilizados em torno das
duas listas "regionalistas independentes" apresentadas em
Castelo Branco e Portalegre. Estabelecidas com bases num acordo entre
monárquicos integralistas e republicanos liberais-democratas, surgiam a
encabeçar aquelas listas, em oposição às da União Nacional, Pequito
Rebelo por Portalegre e Cunha Leal por Castelo Branco.
6. Os monárquicos salazaristas e a tentativa restauracionista (1951-52).
Em 1940, a Infanta D.
Filipa de Bragança, numa visita que fez a Portugal – a convite do
Governo português para representar os reis de Portugal nas Festas do
duplo Centenário - ao receber destacados monárquicos, aconselhou-os a
ter "confiança em Deus, confiança nas nossas forças e confiança
no silêncio (de Salazar)".
Pode dizer-se que, nessas
palavras, ficou bem resumida a atitude da generalidade dos monárquicos da
Causa em face da Situação. Mantinham-se expectantes porque confiavam no
silêncio de Salazar. Ao contrário dos integralistas lusitanos, havia
destacados monárquicos, como Alfredo Pimenta, insistindo em fazer passar
a ideia de que Salazar seria o "percursor do Rei". Segundo esses
monárquicos, a restauração acabaria por ser, mais cedo ou mais tarde, o
remate do regime pessoal instituído. Salazar seria, no fundo, um
monárquico calando os seus mais íntimos sentimentos e convicções,
esperando apenas a ocasião propícia para inteiramente se revelar. A
realidade era bem diferente, como veremos de seguida, mas foi assim que
Salazar foi continuando ao leme dessa "República-Absurdo" (a
expressão era de Alfredo Pimenta), escorada em importante número de
monárquicos.
D. Duarte Nuno de
Bragança, apesar do conselho em contrário de Salazar, veio para Portugal
no início dos anos 50. Mas não eram os monárquicos da Causa -
com excepção dos poucos integralistas e de alguns independentes - um dos
esteios fundamentais do regime, capazes de o pôr em causa a qualquer
momento? - Eram-no, sem dúvida. E era por isso que "Salazar evitava
cuidadosamente hostilizá-los, deitando tudo a perder. Dizia-lhes que a
questão não estava posta e não tinha por isso de ser discutida".
Salazar, "habilmente,
sempre desejoso de não perder o apoio dos monárquicos, ia-lhes repetindo
a tese que formulara no discurso de 20 de Outubro (de 1949): não
era oportuno restaurar naquele momento a Monarquia, mas fossem preparando
o terreno, doutrinando, ganhando posições, pondo hoje uma pedra aqui e
amanhã outra acolá, encaminhando as coisas de modo a que ela viesse a
surgir, dentro em breve, como solução nacional, coroamento natural e
necessário da estrutura política do País".
O desígnio de Salazar,
como ele mesmo viria a explicar a Marcelo Caetano (em 28 de Julho de
1957), era bem claro: "nós só temos podido viver porque a
questão (da restauração da monarquia) não se tem posto nem
convém que se ponha, o que envolve deixar ao menos em suspenso e como
possibilidade futura, longínqua e indefinida a solução monárquica.
Isto tem satisfeito e continua a satisfazer os monárquicos, porque a seus
próprios olhos os justifica do apoio que dão. Para os ter connosco
parece-me necessário não fazer o Governo profissão de fé republicana
nem afirmar o regime republicano como assente in aeternum, o que
aliás é dispensável e seria mesmo tolo.
"A ideia de que uma
afirmação do género, alienando o apoio dos seus, pode trazer-nos o
apoio dos outros, julgo-a ilusória, porque os verdadeiros republicanos ou
os que se julgam ser não querem esta República, mas outra muito diversa
que implanta a denegação e a destruição do que está feito".
Em 18 de Abril 1951, a
morte do Presidente Carmona pareceu vir criar as condições tão
ansiosamente esperadas pelos monárquicos salazaristas. Na Assembleia
Nacional discutia-se a proposta de lei de revisão da Constituição
apresentada pelo Governo. Mário de Figueiredo não perdeu tempo: perante
as figuras principais do regime reunidas na sede da União Nacional, para
discutir as resoluções que as circunstâncias exigiam, lançou a
questão da chefia do Estado: "Esta é a altura de decidirmos se
continuamos em República ou restauramos a Monarquia". A discussão
acendeu-se, com Albino dos Reis gritando com Mário de Figueiredo e seus
apoiantes: -"Vocês são uns lunáticos! Restaurar a Monarquia nesta
altura? Isso não tem pés nem cabeça!"
A discussão ficou
inconclusiva. A iniciativa, porém, estava agora do lado dos monárquicos.
Em 24 de Abril, os deputados aprovaram uma emenda constitucional sobre a
eleição do Presidente da República: em caso de falecimento do
Presidente da República, o Chefe do Governo exercia cumulativamente o
cargo vago, reunindo a Assembleia Nacional sessenta dias após a vacatura
"para deliberar sobre a eleição presidencial". Para Marcelo
Caetano, "esta maneira de dizer era tão ambígua que permitia tudo:
desde a marcação imediata do acto eleitoral até ao seu adiamento
indefinido e, inclusivamente, a sua não realização". Alarmado com
o terreno assim perdido aos monárquicos, Caetano escreveu a Salazar
denunciando-lhes os propósitos declarados: resolver a crise através de
um "«golpe de Estado» parlamentar". Salazar, em resposta à
inquietação de Caetano, promete "trabalhar para que a aplicação
(da emenda constitucional) seja o mais inofensiva possível".
Feitos os funerais de
Carmona, Salazar convocou para S. Bento os membros do seu "conselho
privado" para os ouvir acerca do candidato a propor para a eleição
do Presidente da República. Aí se pronunciaram, pelo lado monárquico,
Mário de Figueiredo, João Lumbrales e Augusto Cancela d’Abreu,
enquanto do lado presidentista tomavam a palavra Marcelo Caetano, Albino
dos Reis e Trigo de Negreiros. Mário de Figueiredo fez-se desentendido
perante a questão levantada por Salazar e, colocando de imediato a
questão do regime, afirmou ser "necessário acabar-se com o mandato
temporário do Chefe de Estado".
As facções monárquica e
presidentista do regime fizeram-se então ouvir em acalorada discussão,
esgrimindo argumentos - João Lumbrales e Augusto Cancela d’Abreu
seguiram a posição de Mário de Figueiredo; opôs-se-lhes Marcelo
Caetano, logo acolitado por Albino dos Reis e Trigo de Negreiros. Salazar
escutou mudo uns e outros, fruindo deliciado a sua autoridade arbitral.
"Nos dias seguintes
Salazar começou a ouvir pessoas, habilmente, conforme o seu costume, sem
revelar o seu pensamento, sem ir direito aos assuntos que queria debater,
mas encaminhando a conversa de modo que o interlocutor dissesse o que ele
desejava saber".
Numa dessas audições, o
Ministro da Defesa, Santos Costa, que se fazia passar por monárquico,
ter-lhe-á finalmente dito o que ele queria ouvir: as Forças Armadas não
estariam preparadas para aceitar e apoiar uma restauração da Monarquia.
Salazar apressou-se em confidenciar a "boa nova" a Marcelo
Caetano e a Albino dos Reis". A decisão estava tomada, mas
sossegados os acólitos, prosseguiu calmamente as consultas. Andou-se
nisso até à data em que a Assembleia Nacional marcou o dia da eleição
presidencial.
Com a União Nacional a
decidir-se pelo general Craveiro Lopes, as oposições surgem divididas:
de um lado, estão os atlântistas da «Comissão dos 24», liderada por
Azevedo Gomes; do outro, um bloco afecto aos comunistas, em torno do
Movimento Nacional Democrático (MND). Acabam por se apresentar dois
candidatos oposicionistas: as forças afectas ao MND propõem Ruy Luís
Gomes, enquanto um sector intermédio, liderado por Cunha Leal e Henrique
Galvão - contando com o apoio dos integralistas Rolão Preto, Almeida
Braga, Vasco de Carvalho - apresenta o almirante Quintão Meireles. Ruy
Luís Gomes foi liminarmente afastado pelo juízo selectivo do Conselho de
Estado, passando os seus partidários à campanha da abstenção. O
almirante Quintão Meireles ainda continuará até ao Manifesto de 19 de
Julho em que, face à obstrução sistemática do regime e à falta de
consenso nas oposições, anunciou a sua decisão de renúncia a colaborar
em mais um "simulacro de eleição presidencial". O general
Craveiro Lopes, em 22 de Julho, acabou sendo eleito Presidente da
República.
Apesar de derrotados, os
monárquicos salazaristas não desarmam de imediato: no Congresso da
União Nacional, marcado para 22 de Novembro, ainda tudo se preparou para
concluir pela necessidade da restauração da Monarquia. É então que
Salazar, uma vez mais procurando manter-se em posição arbitral,
estabeleceu em segredo, com Marcelo Caetano e Albino dos Reis, uma linha
de acção capaz de frustrar aqueles intentos.
O insucesso da tentativa
restauracionista em 1951-52, após a morte do Presidente Carmona, desfez
muitas ilusões. Vai então assistir-se, no seio dos monárquicos mais
renitentemente salazaristas, entre 1952 e as eleições presidenciais de
1958, ou à deserção, ou a um seu crescente alheamento face ao regime.
É então que a própria Causa
Monárquica se distancia do Estado Novo e, alterando a sua
estratégia, passa a adoptar uma postura de "pressão
negociante". Nas eleições legislativas de 1953, a Causa deu
a abstenção como indicação de voto, excepto nos círculos onde
figurassem monárquicos reconhecidos. No ano seguinte, o novo
Lugar-Tenente, Amílcar Passos e Sousa, deu ordens no sentido de os
monárquicos organizados na Causa não aceitarem cargos políticos
sem ouvir a respectiva Direcção. No Congresso da União Nacional,
marcado para 1955, os monárquicos, sentindo-se objecto de
discriminação, resolveram retirar-se.
A partir desse momento,
Salazar começou a sentir que lhe escapava o apoio da sua facção
monárquica. Tentou ainda recuperá-la, em desespero de causa, colocando
na presidência da Comissão Executiva da União Nacional um monárquico
que lhe era muito fiel: Costa Leite (Lumbrales). A estratégia de
atracção dos monárquicos vai, porém, revelar-se incapaz de convencer.
E Salazar será o primeiro a lamentar-se aos seus colaboradores mais
próximos: "Fugiram-me os monárquicos, não me compreenderam".
7. Uma Oposição impetuosa e descomposta.
Desde os primórdios do Estado
Novo, em sucessivos actos públicos - eleitorais ou não - os
integralistas lusitanos, acolitados por um pequeno grupo de
"couceiristas" e "liberais", sempre haviam afirmado a
sua independência face ao regime, levando a que as sucessivas gerações
de jovens mantivessem também o seu afastamento.
No início dos anos 50, os
integralistas Hipólito Raposo, Alberto de Monsaraz, Luís de Almeida
Braga e José Pequito Rebelo, sopesando a sua idade e as difíceis
circunstâncias de luta política em que se vivia, apresentaram às novas
gerações, com a data de 8 de Abril de 1950, um documento intitulado
"Portugal Restaurado pela Monarquia"; era um documento contendo
uma actualização doutrinária integralista e uma espécie de testamento
político e espiritual.
Os mestres do integralismo
lusitano, que haviam persistido praticamente isolados no campo monárquico
a combater a "Salazarquia", com o concurso das novas gerações
e com as novas condições criadas pelo desaire dos monárquicos
salazaristas, estão agora em melhor circunstância para atrair os
desiludidos e para influenciar no sentido do derrube do regime.
O campo monárquico
oposicionista desenvolve-se agora com maior rapidez, distribuído por
várias sensibilidades fortemente impregnadas de integralismo - com o
grupo de O Debate, em torno de António Jacinto Ferreira, ou em
revistas como a Cidade Nova (Coimbra). No aproximar das eleições
legislativas de 1957 vai então surgir, por iniciativa das novas
gerações, a experiência dos chamados "monárquicos
independentes".
No teor do Manifesto que
divulgam em Outubro desse ano, se afirma o seu entranhado anti-salazarismo
e a matriz doutrinária integralista. Visando o regime autocrático
instalado, denunciam que "nunca um homem é por si um sistema e nunca
um sistema se pode estruturar num homem ou na sua obra". Era
ilegítima a situação política de um Governo que assentou o direito de
governar pela obra realizada, que pratica a "censura demolidora ...
do pensamento criador e da audácia inovadora", o "voto em
teoria", quando a "representação nacional se continuava a
processar por escolha do Governo". Proclamando a urgente necessidade
em se abrir o caminho para uma "normalidade constitucional verdadeira
e autêntica", ao definirem o seu monarquismo, tornava-se clara a sua
formação integralista: defendiam a "monarquia popular e tradicional
da gente portuguesa, assente na defesa do povo e no seu
consentimento".
Do lado da resistência
republicana, aproveitando o descontentamento crescente entre sectores até
aí passivos no seio do regime, em especial os monárquicos, estava já a
funcionar uma estratégia de aproximação aos dissidentes, delineada por
António Sérgio. A oposição acabou por apresentar listas de candidatos
em Lisboa, Porto, Braga e Aveiro, congregando velhos e novos monárquicos
integralistas (Francisco Rolão Preto, Francisco Sousa Tavares, Gonçalo
Ribeiro Teles), velhos e novos republicanos (Cunha Leal, Abranches
Ferrão, Mário Soares), ou católicos como Francisco Lino Neto. A lista
da Oposição por Lisboa acabará por não ser aceite, retirando-se em
protesto os demais candidatos oposicionistas ao sufrágio de 3 de
Novembro, com excepção de Braga.
Quando Barrilaro Ruas,
subscritor do referido Manifesto dos "monárquicos
independentes", concedeu entrevista acerca do momento eleitoral,
havia afirmado: "O Estado Novo, regímen misto, feito de duas camadas
sobrepostas, tem quase sempre por cima a camada antidemocrática. Mas de 4
em 4 anos e de 7 em 7 anos vem ao de cima a camada democrática. Recalcada
durante tanto tempo, não admira que venha impetuosa e um tanto
descomposta ... E é isso mesmo o que a outra quer, para se rir dela e a
fazer condenar pelos circunstantes. Mas essa prisioneira assim liberta
não deixa de ser parte integrante do Estado Novo - que até não se
exclui que resolva, de um momento para o outro, num «golpe de Estado
constitucional», ou coisa assim, inverter as posições dos elementos que
o compõem. Talvez então deixasse de ser Estado Novo, mas continuava a
ser República: a 3ª...".
Em 1958, ao apresentar-se a
candidatura de Humberto Delgado, além de actualidade, ganhava aspecto
novo o diagnóstico proferido um ano antes pelo jovem monárquico
integralista Barrilaro Ruas: do seio de uma recalcada e descomposta
oposição surgia um candidato fortemente escorado em personalidades que,
a par de um longo passado oposicionista, eram também reconhecidamente
monárquicas.
Sem ilusões acerca do
provável desfecho de um bem sucedido "golpe de Estado
constitucional", para os monárquicos integralistas e para os jovens
formados sob a sua influência, um outro confessado escolho os fez na
altura hesitar num declarado apoio ao general Humberto Delgado. Firmados
numa distinta formação intelectual e política, vendo-se a si próprios
como herdeiros de uma tradição de luta pelas liberdades, vêem ainda em
Delgado, não obstante as suas públicas manifestações em contrário, um
militar de formação autoritarista com um longo passado de apreço pelo
regime.
Os jovens integralistas
acabarão por se distribuir por duas atitudes: o apoio explícito a
Delgado ou a reserva. Enquanto Mário Saraiva e Henrique Barrilaro Ruas,
por exemplo, mantêm alguma reserva, outros como Francisco Sousa Tavares
avançam em explícito apoio à candidatura de Delgado. Animados pelos
velhos mestres Almeida Braga e Rolão Preto, porém, e logo que se tornou
pública a posição oficial da Causa Monárquica (nos jornais da tarde de
24 de Maio), a reserva de muitos discípulos acabaria por ser quebrada. O
comunicado da Causa, manifestando, na sua parte normativa, alheamento do
acto eleitoral, na sua parte histórica, em toada de louvor a Oliveira
Salazar, não deixava de afirmar que o "prestígio do seu nome se
identificava com o prestígio do País". Barrilaro Ruas entendeu não
deixar passar em claro aquela escusada reincidência em alinhamento com o
Chefe do Governo. Em comentário à referida nota, depois de assinalar
negativamente a insistência em tal atitude, concluíu: "enquanto a
política oficial monárquica vai prosseguindo indefinidamente numa de
duas linhas paralelas, a outra linha não pode prosseguir indefinidamente,
uma vez que é limitada pelo curso de uma vida humana. Votar no Almirante
Américo Thomaz pode ser o melhor ou o menos mau dos caminhos possíveis;
mas só aparentemente equivale a votar em Salazar, já que quase ninguém
admite como provável que Salazar se mantenha no Poder por mais este novo
período de sete anos".
Aos mestres integralistas,
Luís de Almeida Braga e Francisco Rolão Preto, apoiantes de Humberto
Delgado e membros da sua Comissão de Candidatura, coube avançar para a
imprensa, expondo as razões do seu explícito apoio à candidatura
oposicionista. Peça fundamental da sua campanha em apoio do general
Humberto Delgado, documento histórico onde se transmite de corpo inteiro
uma atitude depois esquecida ou mesmo silenciada, foi a entrevista
concedida ao Diário de Lisboa por Luís de Almeida Braga.
Publicada em 30 de Maio de 1958, a entrevista começou com a seguinte
pergunta:
" - Nota-se nos meios
políticos vivo interesse em conhecer a sua opinião na actual conjuntura
da vida nacional. Quer dizer-nos o que pensa?
" - Para quê? Em hora
mais própria para a acção do que para pregações, certo núncio
apostólico longamente desfiava diante de Afonso III o lento rosário de
subtis conceitos. E disse-lhe o rei: - «Frei Nicolau, para que gastar
mais discursos? O tempo de arrazoar já lá vai». Também agora me parece
que passou o tempo de dissertar. Quando a censura veda a clara expressão
do pensamento e se chega ao extremo de ser proibido não só entregar ao
público o resultado do estudo sincero, do leal conselho, do reparo justo,
mas até se apreende o que apenas constitui ainda vago projecto, talvez
nunca efectivado, como aconteceu com os apontamentos de Maria Archer para
um livro sobre o primeiro julgamento de Henrique Galvão, tão-somente, a
quem não tem mais armas do que a palavra e a pena, só pode encerrar-se
em duro silêncio, como sinal de castigo e desprezo.
" - Não será essa
uma atitude de renúncia ao combate?
" - Não! É uma forma
altiva de protesto, reduto impenetrável para preservação da dignidade
mental, defesa sagrada dos direitos do espírito. É no silêncio que se
prepara o fogo que tempera as almas dos povos.
" - Aí está a
confessar-se o doutrinário e o lutador. Vê-se que condena o presente e
confia no futuro.
" - Sim. Condeno o
híbrido sistema político, tirânico e vingativo, que está a
arrastar-nos para a pior catástrofe da nossa História. A ninguém escapa
que o regime é apenas um indivíduo, em fatal declínio, e que tudo se
dissolverá com o seu desaparecimento. (...) Por maior que seja o génio
de um homem, é sempre insuficiente para, por si só e para além da sua
vida, manter a ordem e a segurança do Estado. Sem um princípio que a
proteja, surdamente a Sociedade se dissolve. Compreendendo-o assim, dizia
o Conde de Chambord, apresentando-se à sucessão do trono de França: - Ma
personne n’est rien; mon principe est tout. Aqui, escamoteiam-se os
princípios para que avulte a pessoa que os encabeça. Deste modo se forma
a idolatria da autoridade, o materialismo da obediência passiva. (...) Se
uma nação chega a este ponto, está madura para todas as desgraças. E
esta é a minha dor...
" - Contudo, os
partidários do regime apresentam como exemplar a gerência financeira...
" - Confundindo
liberdade com desordem, força com brutalidade, o Estado Novo há muito se
revelou incapaz de conciliar a autoridade e a liberdade. O Estado Novo é,
afinal, a expressão política de problemas não resolvidos. Tendo
começado por ser uma ditadura administrativa, manhosamente se transformou
em ditadura policíaca, contrária ao destino moral e pessoal do homem. A
onda das despesas públicas alastra assustadoramente e o custo da vida
atinge preços de fome. Não temos pão nem trabalho para toda a gente. A
emigração é sangria continuada e destruidora de energias inúteis.
Descuram-se obras modestas, para gastar à larga em coisas de espaventosa
propaganda de ocasião, em banquetes e bailes, em cortejos e cartazes de
mil cores. (...) "A actual situação política sofre essencialmente
da perda de consciência, tanto da sua razão de ser como dos princípios
que devem reger as instituições. (...) Querem eleições e não querem
partidos, como se votar não fosse tomar partido! (...) Diz a
Constituição que a opinião política constitui uma força social e um
elemento fundamental da política e da administração (artº. 22), e não
se consente à opinião pública manifestar-se claramente. Apregoam-se as
vantagens da continuidade do poder, e evita-se até a reeleição do Chefe
de Estado...
"Nesta altura o sr.
Dr. Luís de Almeida Braga, erguendo a voz, afirma:
" - Tantas
contradições não podem deixar de exercer efeitos destrutivos no corpo
social: são como veneno num organismo. E à sua volta levanta-se mesmo o
problema da sinceridade. Por isso acuso o Estado Novo de ter desvirtuado a
doutrina corporativa, tornando-a uma grosseira teia de burocratas
opíparos e de fiscais demagogos, que dificultam o trabalho em vez de o
facilitar; acuso-o de ter aniquilado o que restava das antigas liberdades
municipais; acuso-o de ter instituido uma censura permanente,
irresponsável e absurda; acuso-o de ter autorisado que os presos sejam
agredidos, desde que se anunciou a utilidade dos «safanões a tempo»;
acuso-o de ter exagerado as tributações para empregar esse dinheiro, que
é verdadeiro sangue, em obras espalhafatosas e falsas propagandas de
merecimentos pessoais; acuso-o de em tantas oportunidades fáceis ter
desprezado a terra cativa de Olivença, ao contrário do generalíssimo
Franco, que sem descanso reclama Gibraltar; acuso-o de ter falseado o
texto da Constituição, impossibilitando a honrada convivência dos
Portugueses; (...) acuso-o de ter criado entre nós o culto nietzcheano do
super-homem; (...) acuso-o de ter estabelecido o Partido Único, -
invenção danada do comunismo -, e de com ele e por ele embaraçar a
solução do problema político português! (...) A Legião corresponde à
Guarda Vermelha da Rússia comunista: é a milícia do Partido Único.
Puramente de traça e acção comunista é a chamada «União Nacional»,
a que não falta nenhum dos caracteres de partido único, por mais que os
apaniguados, com palavras vãs, se consumam a negá-lo. Reconheceu-o o
insuspeito Mihaïl Manoïlesco em seu exacto livro Le Parti Unique.
(...) Manoïlesco é autor muito escutado e louvado nos nossos meios
governamentais, que lhe pediram a lição contida no volume intitulado Le
Siècle du Corporatisme. Perguntando o que é partido único, ele
próprio respondeu: - C’est un parti politique ayant seul - de fait e
de droit - la liberté d’action politique dans un pays et constituant,
ainsi, une institution fondamentale du régime. Depois, mostrando que
o partido único se manifestou de maneira sensivelmente análoga na
Itália e na Alemanha, na Rússia e na Turquia, o professor Manoïlesco
apresenta a «União Nacional» como exemplo acabado de partido único. A
«União Nacional» não tem o monopólio legal da acção política, mas
tem o monopólio de facto. (...) Democracia! A mais prostituída das
palavras em todas as línguas, nos tristes dias de agora! São democratas
os comunistas, são democratas os fiéis aos descaídos princípios da
Revolução Francesa de 89, e são democratas os jacobinos totalitários:
Hitler e Mussolini. Há a democracia formalista e a democracia orgânica,
a democracia personalista e a democracia histórica da Suissa, há a
democracia dos países monárquicos do Norte da Europa e a democracia
turbulenta das repúblicas sul-americanas, há a democracia política e a
democracia social, a democracia legalista, tradicionalista, espiritualista
da Inglaterra e a democracia racionalista, arbitrária e invejosa, a
democracia cristã e a democracia anticristã, - que sei eu... (...) Na
bela definição de Ortega y Gasset, a essência da democracia é o
diálogo com o adversário. Mas este diálogo não o autorizam as leis
vigentes. E eu tenho que deixar de ser homem, o homem que renuncia à
livre expressão do seu pensamento, à liberdade da palavra escrita.
Porque reivindico as responsabilidades na criação e na divulgação da
doutrina que alimentou esses que grosseiramente a deturparam para melhor a
trair, me insurjo e revolto contra tanta confusão e tanto ludíbrio.
"- Continua então
monárquico?
" - Para me declarar
monárquico não peço licença ao rei nem aos bobos da corte. E não
será qualquer menino do Coro, no intervalo do exercício do turíbulo,
que me há-de negar consentimento para que eu diga, quando e onde quiser,
tranquilamente ou ao repelão, os princípios que professo. Nada me
importa ficar de mal com o rei, se estiver de bem com os mais ocultos
anseios da Nação. Tomei como regra de vida política o animoso dístico
antigo: Pro rege saepe, pro patria semper. A dedicação ao rei é
condicional; o amor à Pátria não tem limitações. Os reis passam e com
eles somem-se os cortesãos que os atraiçoaram atrozmente, ou não os
desenganando os injuriaram atrozmente. Ai do rei a quem as graças do
rival no Poder subjugaram o ânimo! Recordo o aviso de Sá de Miranda, o
homem de antes quebrar que torcer, ao rei D. João III:
Um rei ao reino
convém.
Vemos que alumia o
Mundo
Um sol, um Deus o
sustém.
Certa a queda e o fim
tem
O reino onde há rei
segundo
"Não é menos
luminosa a sentença do brando Bernardes em Os últimos fins do homem
que «As monarquias não as destrói tanto o inimigo com as mãos armadas,
como o Príncipe com as mãos cruzadas». Muitas vezes a prudência é
covardia. (...)
"Não falemos mais dos
erros e das violências da 1ª República. Certo os teve, e grandes. Mas o
Estado Novo não lhes ficou atrás na opressão e na intolerância. E isto
diz quem ofereceu o peito às balas dos contrários e viu destroçada, por
maus republicanos desse tempo, a casa de seus pais. Gostava de saber se
quem acusa os desvarios da 1ª República padeceu por os combater, pois
vejo empenhados em abocanhá-la alguns que em seus desmandos tomaram
activa parte. (...)
" - No entanto
espalhou-se que certo sector monárquico, ligado à Situação, espera que
a evolução natural do regime leve à restauração do trono...
" - Insistindo esses
monárquicos em esperar que o sr. Presidente do Conselho restaure a
Monarquia, dirigem-lhe grave e consciente ofensa, pois julgam capaz de
rasgar e trair a Constituição republicana que ele mesmo preparou, ditou
e fez jurar, e mostram não ter lido aquela sua firme e clara
advertência: «O que eu peço aos monárquicos, ou o que lhes aconselho,
é que se disponham a ingressar na vida do Estado sem a ideia falsa e
perigosa de que colaborar com a actual situação é dar um passo para a
realização do seu ideal respeitável»
"O Estado Novo pode
ser um vago sentimento de Estado, não é uma doutrina precisa de Estado.
Caminha para a Monarquia e foge da Monarquia, conserva a República e teme
a República, ora cedendo aos seus princípios, ora contrariando-os. Este
equívoco perverso ser-lhe-á fatal. Com Mussolini e Hitler tivemos já a
demonstração, levada às suas extremas consequências, do que pode dar
um sistema encarnado num homem que despreza a realidade. (...)
"- Como entende,
então, que deve ordenar-se o País?
"Entendo como sempre,
sem o mais leve desvio ao que em dia já longínquo formulei, que na
autonomia dos municípios, na sistematização profissional livre, no
poder pessoal do rei dentro da esfera própria como fiador supremo das
liberdades públicas, na aceitação honesta da Doutrina Católica para
base da educação nas famílias, nas escolas e no convívio social,
estão as grandes linhas que podem contribuir para a verdadeira
restauração de Portugal. (...) "À luz destes princípios, tão
sumariamente expostos (...) ainda creio, com o ardor dos vinte anos, que
Portugal, quebradas para sempre as algemas que o atormentam e liberto do
cativeiro em que jaz, há-de por fim reerguer-se com honra e glória.
"- Consola ouvir falar
com tão firme esperança e ardente amor...
"- Custe o que custar,
é preciso fazer de Portugal uma pátria livre para homens livres. Sinto
que a minha vida não está mais em segurança. Vejo, e não tremo, que os
idólatras buscam pôr-lhe termo. A seguir ao julgamento de Henrique
Galvão muitas ameaças cobardes me foram dirigidas, a coberto de
cauteloso anonimato. Agora as repetem enfurecidamente. Não importa. Como
Ramiro de Maetzu aos sicários que o derrubaram, direi que também estes,
embrutecidos pelo ódio, não sabem por que me matam, e eu sei que morro
por querer restituir ao povo português, no verso formoso de Camões, a
lusitana antiga liberdade!".
Poucos dias depois, as
palavras de Luís de Almeida Braga eram transcritas e tinham honras de
chamada à primeira página no jornal República. O velho camarada
de armas de Paiva Couceiro e de Rolão Preto, afirmara-lhes que o general
Humberto Delgado havia despertado o abatido coração da Pátria.
Sintra: Maio de 1998
Lisboa: Vega, 1998
Lisboa: Unica Semper Avis, Março de 2000
[Este texto é uma edição abreviada de "Os
Monárquicos" in Iva Delgado, Carlos Pacheco e Telmo Faria (coordenadores),
Humberto Delgado - as eleições de 58, Lisboa, Vega, 1998, pp.
137-173]
Relacionado
1989 - Colóquio António Sardinha na Universidade Católica - Resumos 1997 - Gonçalo Sampaio e Mello, Afonso Botelho, Legitimista 1997 - José Manuel Quintas, O Integralismo Lusitano e a herança de «Os Vencidos da Vida» 1998 - José Manuel Quintas, Os monárquicos e as eleições de 58 1999 - José Cornélio da Silva, Raul Lino - Uma busca entre Tradição e Modernidade, 1879-1974 1999 - José Manuel Quintas, Combates pela Bandeira Azul e Branca, 1910-1919 1999 - José Manuel Quintas, «...em benefício, & prol do Reyno» 2002 - José Manuel Quintas, A «Questão Ibérica» no Advento do Integralismo Lusitano 2002 - José Manuel Quintas, António Sérgio - «integralistas e seareiros são anticonservadores» 2002 - José Manuel Quintas, O Integralismo Lusitano perante a «Salazarquia» 2003 - Alexandre Franco de Sá, Introdução ao Pensamento de Henrique Barrilaro Ruas Filhos de Ramires |