Os Corvos na História
Fernando C. Quintais
Os corvos que passeiam impávidos, de asas negras e brilhantes
pelas ruas de Lisboa, à beira-Tejo, merecem um pouco da nossa atenção.
Há tempos, a cidade de Telavive foi invadida por bandos de
corvos que, por toda a parte, crocitavam desesperadamente e que, repetindo um
"encore" de Hitchcock, ameaçavam atacar os humanos em vôos rasantes
e ameaçadores.
Veio a descobrir-se, pouco tempo depois, que um habitante da
cidade havia recolhido e levado para casa um corvo recém-nascido. Uma jovem polícia,
de uma esquadra a quem as autoridades haviam incumbido de pôr termo àquela
barafunda, sugeriu que o pequeno corvo fosse posto em liberdade, o que foi
imediatamente feito.
Quando se deu a libertação da ave, cessou o grasnar dos corvos
e, logo após, desapareceram dos céus e ruas da cidade, tendo tudo voltado à
normalidade.
* * *
Trata-se de uma simples história de pássaros. Mas quando a li,
lembrei-me do remoque bíblico do velho Patriarca Noé, quando a Arca ainda
flutuava à deriva, logo após o Dilúvio, a propósito de um corvo que não
regressou, após ter sido solto em vôo sobre as águas ainda turvas. Afinal, o
não regresso da ave que tanto incomodara Noé, era um sinal de esperança.
Embora os corvos não sejam aves a que eu dedique especial
simpatia, depois de ler aquela ocorrência em Telavive, resolvi arredar alguns
preconceitos e procurei saber um pouco mais sobre os mesmos.
Constatei que os corvídeos, ornitologicamente, não despertam
mais curiosidade do que quaisquer outras gralhas (bem mais perigosas para quem
publica os seus escritos), havendo quem relacione o corvo com Gea, a Deusa-Mãe
subterrânea, Kali, na Índia, e Ísis, no Egipto.
Com a categoria de divindade, foi o corvo cultuado em Faro e em
Lisboa, transformista de Cibele, a feiticeira deusa grega, eternamente saudosa
da paixão que lhe inspirou o adolescente Átis. E ainda há nos dias actuais
quem queira ver no corvo a encarnação daquela e doutras feiticeiras.
O corpo de S. Vicente, diácono de Saragoça, martirizado em Valência
durante as perseguições de Diocleciano, no ano de 303, foi trazido para Sagres
pelos moçárabes de Espanha, onde permaneceu até 1173. Nesse ano, por
iniciativa de D. Afonso Henriques, os ossos do santo são trasladados para
Lisboa, num acto político e religioso de grande transcendência, pois a presença
das relíquias do santo, que haviam resistido a todas as tentativas dos romanos
para as destruírem, iriam conferir à Cidade o dom da perenidade.
Figuram, por isso, nas armas de Lisboa, dois corvos pousados
numa caravela, um à proa outro à pôpa, em atitude vigilante, os quais,
segundo a lenda, acompanharam o corpo do santo durante toda a viagem, de Sagres
até Lisboa.
S. Vicente foi, desde então, reconhecido como padroeiro da
cidade. Com culto estabelecido há centenas de anos, tem a sua figura
representada nos Painéis de Nuno Gonçalves, também chamados de S. Vicente.
A admirável composição, o fulgor cromático, a harmonia, e
sobretudo o conseguido efeito de perspectiva que irá caracterizar os futuros
pintores da Renascença já se pode surpreender nestes painéis.
Vários pormenores que se podem ler nestes painéis caracterizam
esta obra prima da pintura portuguesa do século XV como sendo da autoria do
referido pintor Nuno Gonçalves, e a sua descoberta e estudo estão envolvidos
num cenário de quase mistério rocambolesco em que vieram a tomar parte grandes
vultos da pintura e da crítica, entre eles José de Figueiredo e Almada
Negreiros.
Não me irei alongar na descrição desses episódios, pois a
literatura sobre estes episódios é muito vasta. Mas há um pormenor que
desperta logo a atenção de qualquer observador: a figura quase simétrica dos
dois painéis centrais ostenta uma dalmática pintada em tons de dourado e de
vermelho, veste eclesiástica, naquela época exclusivamente envergada pelos diáconos.
Este pormenor da dalmática bastaria para dar credibilidade à
teoria, mais geralmente aceite, da versão referida, de que as duas figuras em
foco não poderiam ser outras senão as do santo diácono de Saragoça.
Mas, na realidade, assim não acontece.
A garantia de perenidade que os corvos vigilantes de S. Vicente
trouxeram para Lisboa, estende-se à acesa discussão que se estabeleceu sobre
Os Painéis de Nuno Gonçalves, logo após a sua descoberta, quando serviam de
estrado de um andaime para os trabalhadores das obras de restauro do Panteão-Mosteiro
de S. Vicente, nos finais do século XIX.
Numa obra publicada recentemente pela Editorial Verbo sobre esta
inesgotável matéria, ressaltam dúvidas bem fundamentadas de que a figura do
Santo não é a de S. Vicente, mas sim a do Infante Santo, o Príncipe mártir
da Ínclita Geração, falecido em Ceuta, após longo cativeiro e inenarráveis
sevícias.
As peripécias diplomáticas para obter a libertação do Príncipe
que se entregou como penhor das promessas feitas em nome do Reino de Portugal,
para conseguir a libertação de milhares de reféns, constituem uma das páginas
mais tristes da nossa História.
Os autores do Livro OS PAINÉIS DE NUNO GONÇALVES, Jorge Filipe
de Almeida e Maria Manuela Barbosa de Albuquerque, argumentam consistentemente a
sua tese, utilizando a par de um grande rigor científico, um límpido estilo
expositivo.
Entre outros argumentos convincentes, utilizam dois que se
referem aos sapatos e ao corte de cabelo das figuras. A minúcia da análise dos
documentos que suportam aqueles argumentos é digna de um verdadeiro romance de
literatura forense.
Ali se informa que no Sínodo de Braga (1477) foi emitida a
directiva Das vestiduras dos clérigos e religiosos (Cf. Synodycon Hispanum,
obra dirigida por Antonio Garcia e Garcia, II (Portugal), (Madrid), 1972,
p.78.), onde se pode ler na Constituiçom ii:
« [...] mandamos a todollos beneficiados assy sacerdotes
como diaconos e subdiaconos como clerigos de ordens meiores que beneficio
teverem que daqui em diante tragam roupas honestas [...] Nem tragam çapatos de
pontilha nem atacas em elles. »
Cerca de vinte anos depois (1496) o Sínodo do Porto determina,
na Constituiçom octava: Que falla das vestiduras e avetos dos clerigos (Ibidem,
p. 360.):
« [...] nom façam os ditos vestidos de pano de lãa de
coores desonestas nem tragam barretes delas, scilicet vermelha, verde, amarela,
alionada, coor de cravo, [...]. »
E, quanto ao corte de cabelo, determinava aquele mesmo sínodo,
com rigor (Ibidem, p. 360.) « [...] e os cabelos sejam de tal compasso e
longura quanto aos dordens sacras que sempre lhe pareça a orelha [...] »
Pela observação da figura toucada de alto barrete cónico
sobre farta cabeleira e, além disso, calçando borzeguins pontiagudos de ponta
revirada, conclui o autor desta interessante obra que a pintura não pode ser
senão a de um príncipe, neste caso, e ainda por outras inúmeras razões
aduzidas, o Infante D. Fernando.
O políptico seria assim a representação da memória pintada
da homenagem póstuma ao Infante mártir de Ceuta, levando tudo a intuir que se
trata da cerimónia fúnebre do próprio Infante, cujo corpo ficou longos anos
insepulto, o que para a família real e todo o povo era verdadeiramente insuportável,
à luz das normas do Cristianismo, nessa época.
Tudo isto nos conduz a suspeitar que existe uma profunda e
oculta relação entre o Infante, a Casa de Avis e o mártir S. Vicente,
suspeita que se reforça quando lemos em Rui de Pina que El-Rei D. João I, à
hora da morte, pediu aos filhos que o levassem à capela-mor da Sé, e aí «o
puseram em todo o seu estado perante o altar do Mártir S. Vicente onde o seu
corpo jaz, porque el-Rei, por ser dele muito devoto, antes da sua morte se quis
dele em sua vida despedir. E ali ouviu com muita devoção missa solene em que
com grande eficácia encomendou a Deus a alma.»
* * *
O mito da perenidade representado pelos corvos, aves que chegam
a atingir provectas idades, estará provavelmente ligado ao próprio culto
daquela Circe que prometera a Ulisses a imortalidade se ele não abandonasse a
ilha em que estava submetido aos seus encantos de deusa feiticeira, dotada da
capacidade de se fazer representar por múltiplas personalidades.
Deverá ser, igualmente, aquele mito, que faz com que os
londrinos dêem aos corvos um tratamento muito especial.
Ainda há pouco tempo, na área da Torre de Londres podiam
ver-se a passear, calmamente, cinco corvos. Estes encontravam-se sob a protecção
muito especial da rainha, através dos Beefeaters, a sua Guarda Real.
Quando algum daqueles corvos morre ou desaparece, é obrigação
daquela guarda proceder à sua substituição imediata, para que se não realize
a antiga profecia que afirma que Londres desaparecerá quando, na Torre, morrer
o último corvo.
A rainha protege igualmente outros animais abandonados da cidade
de Londres, destinando uma verba do seu erário particular para a sua alimentação
e cuidados.
* * *
Tendo estado entretido em tais meditações especulativas, bem
longe da ideia de um dia as transformar em literatura, resolvi passar pela Sé e
deter-me, também, por algum tempo, junto do túmulo do Santo, visitando, de
seguida o riquíssimo Museu de Arte Sacra que ali existe.
Verifiquei, de passagem pelos claustros, que se procedia a
grandes escavações arqueológicas, mais parecendo que todo aquele espaço
havia sofrido pesado bombardeamento aéreo, tal era a confusão de lajes
levantadas e buracos abertos no terreno.
Segundo me disse o Deão, que teve a amabilidade de me
acompanhar, desde fenícios a árabes e romanos, haviam por ali passado inúmeros
povos e civilizações. Apareceram, mesmo, vestígios de civilizações bastante
anteriores. Para quem sempre julgara que Lisboa era cidade muito antiga, aquelas
eram boas notícias. Bastante atordoado, saí dali e resolvi subir até S.
Vicente, indo depois até à Graça para, de novo olhar Lisboa lá do alto, onde
se ergue a preciosa e velhinha Capela de Nossa Senhora do Monte, cuja história
bem merece também ser contada, por nela se entrelaçar a própria história
desta Cidade, cujo panorama deslumbrante ali se pode contemplar.
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