Em que consiste exactamente o perigo espanhol
Henrique Barrilaro Ruas
Quando dois impérios
se conjugam, e o menos forte se submete ao mais forte, os terceiros têm
tudo a perder
...o “perigo
espanhol” é hoje, numa Europa outra vez egoísta e carolíngia, que
se confunda Portugal com o (aliás, nobilíssimo) Euzkadi.
O “perigo espanhol” é doença quase endémica
entre portugueses. A bem dizer, só recentemente, com o fenómeno um tanto
snob do anti-nacionalismo, é que se tem perdido essa antiga sensação.
Pessoalmente, com sangue materno de origem espanhola (mas andaluz – de
ascendência genovesa – e basco), com uma educação de patriotismo
quase romântico, com muita acentuada atenção aos factos históricos
mais simbólicos, devo confessar que sempre senti esse perigo e a vontade
de o enfrentar. Mas nunca deixei de ter simpatia e admiração pela
Espanha, e sempre tenho procurado levar os meus amigos mais exaltadamente
desconfiados e hostis a aceitarem que os Espanhóis não são um perigo
por odiarem Portugal, mas por amarem Portugal inadequadamente, ou de modo
insensato.
Ao longo dos tempos, o “perigo espanhol”
manifestou-se de várias maneiras: desde o altivo paternalismo de Afonso
VII (apesar do encontro de 4 e 5 de Outubro de 1143), até à paixão
incontrolada de João I ou de Filipe II; desde o absorvente imperialismo
de Filipe IV até à idolatria napoleónica de Godoy; desde o insolente
intervencionismo de Afonso XIII até ao de Franco (já perto de morrer).
De todas essas modalidades, nem todas elas postas em
prática ou sequer experimentadas, a mais grave terá sido a de Godoy.
Porque foi então que o imperialismo castelhano (muitas vezes apenas
sonhado) se conjugou com outro imperialismo mais poderoso, e um e outro
decidiram acabar com Portugal. E também porque, de esse absurdo e
vergonhoso conluio, fica no corpo de Portugal a “chaga do lado”: ainda
hoje, Olivença está sob o domínio espanhol.
Direi, pois, que acredito no “perigo espanhol”.
Direi que, para mim, o perigo espanhol está mais forte, mais opulento,
mais complexo e mais extenso; porque se confunde com o que chamo o perigo
europeu, que para nós, portugueses, está propriamente representado por
aquele primeiro perigo. Estou convencido de que os espanhóis aceitaram
facilmente o projecto europeu (que não parecia poder ser simpático ao
seu profundo e sensível nacionalismo), exactamente por assim se lhes
oferecer a ocasião propícia para pôr em prática o antigo sonho da
unidade peninsular. Foi uma coisa que logo entendi (ou intuí) quando, em
1948, ouvi Denis de Rougemont defender, na Cidade Universitária de Paris,
a tese da Federação Europeia. Proposta pelo orador a sua visão da
futura Europa, a imensa maioria da larga assistência (em que havia
bastantes espanhóis) votou a favor, contra dois votos (o meu e o de uma
belga) e com meia dúzia de abstenções, algumas das quais eram
espanholas. Nunca mais deixei de compreender como coisa natural a posição
espanhola favorável à europeização crescente.
Quando dois impérios se conjugam, e o menos forte se
submete ao mais forte, os terceiros têm tudo a perder. O absurdo tratado
de Fontainebleau não foi avante. Mas o tratadozinho de Badajoz, que devia
ser desfeito no Congresso de Viena, como primeiro ensaio da destruição
de Portugal por Napoleão e Godoy, ultrapassou vitoriosamente a barreira
da Política geral, e ainda hoje pesa nas relações luso-espanholas. Tal
foi a força dessa coligação imperialista.
Mas eu prefiro abordar o tema numa perspectiva
diferente. Não a partir de experiências, de casos concretos, de
anormalidades, mas antes a pensar em grandes linhas da História. No rosto
positivo da História.
O que mais importa, penso eu, é considerar o que é
que está – ou pode estar – em perigo, quando se fala em “perigo
espanhol”. Uma coisa é ver, conhecer o perigo em si mesmo, na matéria
que o compõe, nas formas que tem assumido ou pode vir a assumir. Outra
coisa, bem mais interessante, é saber em que consiste esse perigo quanto
ao que é ameaçado. (Há fortíssimas tempestades que varrem os desertos
e os mares e as montanhas – e que nada ou quase nada significam para a
gente humana. Há tempestades – ou sismos – bem mais pequenos em si, e
que provocam terríveis desastres para a humanidade.) Interessa, pois,
para pesar o “perigo espanhol”, olhar claramente para aquilo que está
ou pode estar em perigo.
Neste sentido, ao menos para nós, portugueses, o
“perigo espanhol” ganha significado bem concreto, e revela uma
inesperada transcendência.
1. “Perigo espanhol” é negar, ou contradizer, ou pôr em causa, ou desprezar a soberania do povo português. Pode ser que, para alguns grandes povos, a soberania não tenha importância essencial. Mas nós, portugueses, aqui, na Península, sempre precisámos dessa alta muralha, dessa defesa insubstituível, desse sinal esplêndido. Quisemos a independência – e não foi por capricho. Ganhámos a independência. Criámos o Pacto Sucessório, que iria permitir a D. Afonso Henriques a Conferência de Zamora e a espantosa salvação do reino quando do desastre de Badajoz.
Criámos um vasto sistema de alianças de base matrimonial, dentro e
fora da Península. Criámos a Aliança Inglesa (que já tem formas vivas
no primeiro reinado), que nos vai ajudar a contra-balançar o poderio
castelhano ainda em tempos de D. Fernando. Organizámos as Forças
Armadas com estruturas defensivas que tinham atingido, no reinado de D.
Sebastião, tal densidade e qualidade que nos viriam a dar a vitória da
Guerra da Restauração e nas Invasões Francesas.
2. “Perigo espanhol” é negar ou pôr em dúvida a realidade comunitária
dotada de consciência “para-nacional” (Pierre David) e que constituía
já uma “república” antes de assumir a forma de Estado nacional.
(De certa maneira, essa comunidade tinha por fundamento os Lusitanos de
Viriato e, como reino dos Suevos, chegara a aliar-se ao Império Romano
do Oriente.)
3. “Perigo espanhol” é, também, negar ou contradizer, ou
sobretudo, menosprezar como ornato barroco o carácter institucional
permanente do centro-cume do Estado nacional: uma realeza hereditária
mas aberta ao critério absoluto do Interesse Nacional, como se viu em
1245, em 1383-85, em 1640-1641, em 1667-68, em 1698, e na controvérsia
de 1826-34. Abater ou conservar abatida essa instituição cria uma
forma notável de “perigo espanhol”, sempre que a Espanha é regida
em monarquia. Porque logo Portugal tende a ser tomado como análogo à
Galiza, ao País Basco, à Catalunha... O que já tem visto e sofrido, de
vários modos; por exemplo, em Santiago de Compostela, num falhado
“frente a frente” do Rei de Espanha com o Presidente Jorge Sampaio.
4. “Perigo espanhol” é, também, negar, adormecer, pôr em
banho-maria a indiscutível prioridade portuguesa das Descobertas marítimas,
na colonização sistemática, na evangelização permanente fora da
Europa. Esquecer que os arquipélagos da Madeira, dos Açores, de Cabo
Verde, foram os pioneiros da Cultura Europeia (como tal nascente) na época
em que o Renascimento dava aos europeus a auto-consciência.
5. “Perigo espanhol” é negar ou esquecer que foi Portugal que
renovou a Historiografia europeia, dando-lhe dimensões de
universalidade, apenas comparável àquela que marca os primeiros séculos
do Cristianismo.
6. “Perigo espanhol” é ignorar ou desprezar a origem portuguesa
de certas formas culturais que vão estar presentes do Extremo Oriente
ao Extremo Ocidente e têm pontos altos o culto ao Espírito Santo, a
solidariedade comunitária, o carácter festivo do bem-fazer, a
igualdade social própria das Santas Casas da Misericórdia.
7. “Perigo espanhol” é fazer-se alguém surdo à língua
portuguesa, nossa “pátria”, supor indiferente à riqueza da
humanidade que entre os Trovadores e Rosalía de Castro se estendesse um
imenso deserto de silêncio – ou de canto e discursos castelhanos -,
ou se pudesse ouvir o Cancioneiro Geral, e Fernão Lopes, e o Leal
Conselheiro, e a Menina e Moça, e Gil Vicente, e Barros, e
Camões, e Vieira, e Rodrigues Lobo e Bocage e Garrett e Camilo...
8. “Perigo espanhol” é fazer de conta que a acção dos
Portugueses foi equivalente à dos Espanhóis na América do Sul, e que
só por acaso é que metade desse continente constitui o Brasil, ao
passo que a outra metade se divide em nove Estados nacionais e alguns
territórios mal saídos do colonialismo.
Ou seja, a visão ou
descoberta do “perigo espanhol” em termos funcionais, ou de apreciação
relativa, ou de dinâmica histórica, ou de polémica civilizacional,
constitui virtualmente uma tragédia para a humanidade.
Se o “perigo espanhol”
tivesse sido eficaz, plenamente ou quase vitorioso, não só o Povo
português como, em diversos graus, muitos outros povos, vastíssimas regiões
do mundo, teriam perdido ou nunca teriam alcançado certos bens políticos,
económicos, culturais, espirituais, de altíssima importância. Tanto
mais que não podemos esquecer o que significa prioridade portuguesa para
uma Europa habituada a viver e a morrer sobre si mesma, inegavelmente
engenhosa, artística, “sofisticada”, capaz de se inebriar com os
perfumes do seu próprio corpo e do seu próprio espírito, provavelmente
apegada para sempre à deslumbrante contemplação do umbigo...
Sem Aljubarrota, sem Montes
Claros, sem as Linhas de Torres (tornadas necessárias também pela
convergência do “perigo espanhol” com o, então campeante, perigo
francês) a já grande ameaça que acompanha quase sempre a nossa História
teria instalado no mundo um “Portugal” bem diferente, um
“Portugal” paralelo, ou sombra, de Espanha.
*
Em 1949, no mês de Julho,
reuniu-se perto de Salzburgo o 1º Congresso das “Nouvelles Equipes
Internationales”, de raiz democrata-cristã e federalista. A convite da
delegação francesa, e apesar de ter declarado não ser democrata-cristão
(mas cristão social) nem federalista-europeu, desloquei-me de Paris (onde
terminava dois anos de estudos) e tomei parte nos trabalhos, na qualidade
de observador português. (Era, de facto, exemplar único.) Tive a
oportunidade de, durante alguns dias, conviver com dois delegados do País
Basco, um dos quais era irmão do Presidente Aguirre (então residente, de
preferência, em Biarritz) e o outro se chamava (o nome tornou-se, há
poucos anos, muito conhecido) Iñaki de Rentería. Este último tinha
estado, pouco antes, nos Pirenéus, como guerrilheiro anti-franquista.
Ambos me diziam (além de outras coisas que para este caso interessam
menos) que o problema histórico português – o problema da sua
soberania plena – era completamente diferente do problema basco. Porque
Portugal sempre tivera política diplomática própria, e tambem porque
havia o Ultramar. Estou a vê-los, na Áustria, e, dias depois, em Paris,
na própria casa do Presidente Aguirre, a explanar estas e outras ideias
claras e distintas. As fotografias que deles conservo avivam a recordação
pessoal. E acentuam, em diferente perspectiva, os traços essenciais da
questão que nos ocupa. Porque o “perigo espanhol” é hoje, numa
Europa outra vez egoísta e carolíngia, que se confunda Portugal com o
(aliás, no bilíssimo) Euzkadi.
Tal confusão (ou outras
semelhantes a ela) não depende necessariamente de Espanha. Pode ser obra
dos Portugueses. Como todas as versões do “perigo espanhol” que ao
longo deste escrito fomos apresentando.
(In
História, Novembro 2002, pp. 34-37; com algumas correcções
introduzidas pelo Autor)
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