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Henrique Barrilaro Ruas - Esboço Autobiográfico

Apresentação

As características do texto que seguidamente se transcreve permitem afirmar que o seu Autor não o destinava a qualquer publicação. Trata-se de um dos muitos curricula redigidos ao longo dos anos por Henrique Barrilaro Ruas: entre os papéis que integram o seu espólio, conservam-se outros documentos de cariz biográfico, de algum modo semelhantes ou afins, neles avultando a relação de trabalhos publicados. Mas o presente documento será talvez único no género.

HBR não utilizava computador nem tinha por hábito guardar sequer fotocópia do original que produzia – fosse carta, artigo de jornal, ensaio, conferência, ou mesmo... livro. Enviava, oferecia, confiava. Daí que, para além de generosamente disperso, muito do que saiu da sua pena seja, talvez, ‘irrecuperável’.

Assim, perante nova solicitação de curriculum, naturalmente escrevia de novo, à mão ou à máquina. (Ou de ambas as formas: trabalhando sempre, incessantemente, por vezes o cansaço das mãos exigia que continuasse de um modo o que de outro modo iniciara; outras vezes, e depois da muito apreciada viagem de comboio – lendo, lendo sempre –, concluía em Lisboa o que começara na Parede, e vice-versa.)

Redigido em Agosto de 1990, na Gesteira (Soure), com esferográfica de tinta preta, o original compreende 29 folhas de formato A4, escritas numa só face e numeradas de 1 a 30, pois da fl. 25 salta para a 27. É o próprio Autor que, em releitura provavelmente rápida e efectuada dez anos mais tarde, verifica o lapso, anotando contudo: «talvez não falte a fl. 26». Esta e outras notas (cerca de duas dezenas) são escritas a tinta azul, e uma delas (no canto inferior esquerdo da fl. 17) é, efectivamente, datada com precisão: Agosto de 2000.

O destinatário ‘inicial’ e causa próxima deste texto é indicado no canto superior direito da primeira folha, onde se pode ler: «p.ª a Ac. Luso-Bras. de Letras e Artes». A instituição – aliás Academia Lusíada de Ciências, Letras e Artes, e sedeada em São Paulo – contou de facto HBR entre os seus membros a partir daquele ano de 1990. Mas logo de seguida surge, entre parêntesis, a dúvida: mandei??? – a Academia era então presidida pelo seu velho amigo (e antigo aluno) Frederico Perry Vidal, que, contactado telefonicamente, confirmou não ter recebido este documento. Se HBR chegou a enviar algum curriculum vitae, terá sido outro, mais convencional.

O presente documento é, decerto, único no género. Tendo começado por empregar formalmente a terceira pessoa, a pena segue neste escrito outro rumo, e o «eu» aflora naturalmente, e se depois desaparece, logo ressurge – le moi n’est pas haïssable... Em momentos certamente breves de ócio estival, na velha casa de Família e ao sabor da memória, há um momento em que começa a falar uma voz interior e o texto se transforma em autêntico esboço autobiográfico. É um retrato inacabado, um estudo rápido, quase involuntário; mais tarde, relido, não chega a ser retocado – o Autor não quis retocá-lo –, conservando a espontaneidade e esse duplo registo de quem (se) observa de ângulos diferentes.

Na transcrição procurámos manter escrupulosamente as características do original: mantiveram-se as abreviaturas, as aspas, as maiúsculas; os itálicos correspondem a sublinhados no texto; respeitou-se a pontuação do autor, que, além de escrever admiravelmente («a pena sempre em estado de Graça», na expressão justa de Carlos Eduardo de Soveral), pontuava também admiravelmente. Aquelas anotações já referidas, a tinta azul, foram interpoladas no texto (quando não havia indicação da passagem, no local próximo que nos pareceu mais pertinente), e vão todas assinaladas: < assim >. Também indicamos a passagem de uma folha para outra, no ponto exacto ║ e com dois traços verticais.

            A maneira como HBR vivia a Literatura abrangia também um certo sentido ‘lúdico’ – espreite-se essa impressionante caixa de surpresas, a sua edição d’Os Lusíadas –, o qual, aliado à argúcia e ao bom ouvido, o levava a descobrir (e coleccionar) versos de métrica perfeita incrustados em páginas de prosadores que nunca se imaginaram poetas; e compunha centões, e adivinhas sobre figuras literárias, e «auto-retratos» inesperados a partir das palavras dos mais díspares Autores.

Henrique Barrilaro Ruas preferia escrever sobre os outros, e muito escreveu. Mas também escrevia com naturalidade sobre si mesmo. Como exemplo de páginas autobiográficas, lembremos a bela comunicação à Academia das Ciências de Lisboa intitulada «A minha experiência d’Os Lusíadas», ou a que na mesma Academia proferiu poucos dias antes da morte: «Entre Maurras e Péguy»; ou as primeiras páginas (7-12) de A Moeda, o Homem e Deus (Lisboa, Cidade Nova, 1957); ou o contributo para um número especial da Via Latina (Maio de 1991), sob o título «Uma leitura de Coimbra» e escrito entre os dias 30 de Setembro e 1 de Outubro de 1990 (i.e., poucas semanas depois do seu ‘esboço autobiográfico’). Extraímos as últimas frases (p. 344), e quem conheceu HBR sabe que encerram um secreto apelo: «Não se pode conhecer sem paixão. E sempre me faltou muito para me apaixonar por Coimbra. Mas talvez deva confessar que um certo estremecimento me percorre ao escrever estas notas. Creio que o devo sobretudo a duas instituições. Uma, que é simultaneamente a mais genérica e a mais pessoal, a família. A família de que nasci foi a minha Coimbra desde os sete anos até que casei. E, foi do círculo, aliás estreito, das relações dessa família, que nasceu quem viria a renovar comigo a antiga esperança humana. A outra instituição, a quem devo quase tudo o que, entre os valores e as dádivas do Espírito, não recebi da primeira, foi o Centro Académico da Democracia Cristã. E a Coimbra de hoje já não conhece o CADC: está mais pobre.»

Foi pois com grande entusiasmo que, anos passados, acompanhou as tentativas de reactivação do CADC e prestou igualmente o seu concurso.

Quem conheceu HBR sabe que viveu intensamente as Virtudes cristãs – todas elas, e de todas dando testemunho. E sabe como verdadeiramente fez suas as palavras de Charles Péguy (cf. O Pórtico do Mistério da Segunda Virtude, Lisboa, Grifo, 1998, pp. 24-25), traduzidas também num mês de Verão e na casa da Gesteira: «Porque há lugares, meu Deus, que têm de ser mantidos. / E é preciso que tudo isto continue. / Quando já não for como agora. / Mas melhor. / É preciso que a vida do campo continue. / E a vinha e o trigo e a ceifa e a vindima. [...] É preciso que a cristandade continue. / A Igreja militante. / E para isso é preciso que haja cristãos. / Sempre.»
            Santo Henrique, rogai por nós.
Lisboa, 1 de Dezembro de 2003.

Manuel M.C. Vieira da Cruz

 

HENRIQUE BARRILARO RUAS

[esboço autobiográfico]
 

Curriculum Vitae

de

Henrique José Barrilaro Fernandes Ruas

(que habitualmente assina os seus trabalhos: Henrique Barrilaro Ruas,

mas tb. Henrique Ruas ou com os pseudónimos José Coutinho de Brito

e – m.to raramente – Paulo Manso de Campos, Manuel Andrade, Henrique Via

e ainda, em jovem, Teodomiro < , e, na Cidade Nova, por vezes H.) >

 

Nasceu na Figueira da Foz, Rua da Liberdade, na parte dessa rua que então pertencia à área da freguesia civil de Buarcos e mais tarde veio a ter o nome de Rua Joaquim Souto Maior. Data do nascimento: 2 de Março de 1921.

É filho de Henrique Fernandes Ruas, natural de Soure, engenheiro civil e de minas pela Escola do Exército, que então desempenhava as funções de chefe da Secção Hidráulica da Figueira da Foz e acumulava (sem qualquer compensação pecuniária) a de director das Obras do Porto e Barra da Figueira; e de D. Clara Adelaide Echaves Barrilaro Ruas, de recente origem espanhola mas natural de Abrantes.

Frequentou, ainda na Figueira, dos 5 aos 7 anos, o Colégio Nun’Álvares e guarda as melhores recordações (contando entre elas um lindo livro) da sua velha professora D. Emília Breda, a “Xumilita”. ║

Tinha 7 anos quando, por seu Pai ser nomeado director da Divisão Hidráulica do Mondego, foi viver para Coimbra; desse desgosto só se curou cerca dos 14 anos. Em Coimbra frequentou, apenas por alguns meses, o Colégio Português, de que só tem uma boa recordação: um amigo exactamente da mesma idade e também chamado Henrique, de quem nunca mais teve notícia, e que era o único com quem se entendia no meio da ‘malta’... Passou a estudar em casa, até ao 2.º ano do Liceu inclusive.

Foi sua (excelente e queridíssima) professora da Instrução Primária a Sr.a D. Ana Colaço de Vasconcelos, sobrinha do Doutor António de Vasconcelos, que por vezes o levava à Escola que dirigia perto da Sé Nova. Fez o exame de admissão ao Liceu (que talvez nesse ano se chamasse da 4.ª classe) na Escola da Av. Sá da Bandeira, e ficou (com imensa vaidade!) “distinto”. Nos 2 primeiros anos do Liceu, teve como professoras ‘domésticas’ algumas senhoras de que em geral gostou. Deve lembrar pelo menos duas: a Sr.a D. ║ Henriqueta da Cunha Borges, que ensinava m.to bem Português e Francês, e a jovem quintanista de Letras Sr.a D. Cacilda de Jesus Namorado de Carvalho (a quem Vitorino Nemésio, um pouco mais velho, fez os versos da Queima, que terminavam – lembro-me desde então: “É Cacilda de Carvalho, namorada de Jesus” – por ser muito religiosa). Teve ainda, como professor de Desenho, um filho da Sr.a D. Henriqueta, que estava a acabar o curso de Matemática (?). Recebeu também algumas vagas lições de um excelente desenhador bastante considerado em Coimbra, o Sr. Ferraz, que creio que era funcionário da Hidráulica. No exame do 2.º ano, passou sem dificuldade. Até em Matemática (que nunca foi do seu agrado) teve 14...

Foi no 3.º ano (ou seria só no 4.º?!) que passou a frequentar uma escola – e, mesmo assim, um Colégio: o Colégio de Luís de Camões, de que eram directores e proprietários os Drs. Joaquim da Horta e Cos║ta Henriques (que pouco antes casara com uma Prima direita do seu – meu – Pai) e Carlos Proença de Figueiredo. Com a dificuldade psicológica que seria de prever, lá se foi adaptando à nova vida ‘pública’. Teve, em geral, bons professores. O melhor de todos foi com certeza o Dr. C. Proença, futuro D.or  Geral do Ens.º Técnico, a quem deve em boa parte o que sabe e o que deseja saber nos campos da História e da Literatura. Mas tb. agradece o Latim que teve a paciência de lhe ensinar o Primo Joaquim (que sempre tratou por “Sr. Dr.”). Estava no 5.º ano quando veio a Reforma Carneiro Pacheco. O exame passou p.ª o 6.º: média de 16 valores.

E passou p.ª o Liceu (o ‘jovem’ “D. João III”, resultado da fusão dos velhos “José Falcão” e “Júlio Henriques”). Um 7.º ano disparatado, porque abrangia todo o saber! Teve professores bons ou razoáveis. Em Filosofia, m.to ficou a dever à inteligência e simpatia pacientíssima do Dr. Manuel ║ Serras Pereira (aliás, Doutor). Resultado: média de 14 (com 19 a Filosofia).

Escolhi Direito. Mas, à cautela, resolvi fazer também admissão a Histórico-Filosóficas. A admissão era dura, porque os júris eram universitários e havia (para defesa dos alunos) dupla prova escrita – em 3 cadeiras. Numa das ‘Filosofias’ do Direito tive 9 (menos 10 val. do que acabava de receber no Liceu!). Passei nas duas admissões – por mal dos meus pecados, porque em Direito é que não passei ao cabo do 1.º ano; soube (por portas travessas) as notas, que foram: 14 a D.to Português (Paulo Merêa), 12 a Constitucional (Carlos Moreira), 10 a Romano (Cabral de Moncada), 6 a Civil (Pires de Lima). Média de 11: reprovado, por causa da negativa a Civil. Remédio santo: Letras! Entre o 10 a Paleografia e Diplomática e o 18 a Teoria do Conhecimento, as notas variaram muito du║[ran]te os 4 anos. Mas era suposto que poderia vir a ser chamado para assistente – na secção filosófica. A escolha do tema p.ª a dissertação foi um pouco discutida. Acabou por ser Dionísio Areopagita – e levou 2 anos a preparar e a escrever uma tese que compreendia a tradução da 1.ª das obras do “Corpus”, a Hierarquia Celeste. Tradução do Latim e não do Grego: primeiro, porque não sabia (e nunca viria a saber) Grego; segundo, porque a influência dionisiana se deveu sobretudo às traduções latinas da Alta Idade Média, seguidas das da época renascentista. O director da dissertação e arguente, Miranda Barbosa, quereria que, pelo mérito que nela achou, eu saísse licenciado com 18: apenas conseguiu um 16 discutido... Como professor, o melhor ║ que tive foi sem dúvida Miranda Barbosa. Como amigo, Torquato de Souza Soares. Mas devo muito à sabedoria de Joaquim de Carvalho. Registarei, para todos os efeitos, os nomes dos outros professores: Amorim Girão (excelente estimulador do interesse humanístico da Geografia), Mário Brandão, Damião Peres (expositor magnífico), Virgílio Correia, Maximino Correia, Correia de Oliveira (estes dois, professores de Medicina, a quem estava entregue o ensino da Psicologia!) e (qualquer deles por muito pouco tempo) Trindade Salgueiro, Magalhães Vilhena, Sílvio de Lima e Orlando Ribeiro. Manuel Lopes de Almeida só viria a ser examinador de H.ª de Portugal, naquela espécie de doutoramento menor que era a repetição (juntamente com a ‘tese’!) ║ das ‘principais’ cadeiras do Curso.

Como a Filosofia não me chamou, a História atraiu-me sub conditione: que me corrigisse desde logo da tentação filosófica, dedicando-me, dois anos pelo menos, a investigação e a especialização, antes de me propor a doutoramento. Aceitei, talvez com mais agrado do que teria em me dedicar ao ensino filosófico (que sempre me pareceu algum tanto incoerente: ou é ensino, ou é filosófico...). O Doutor Torquato Soares conseguiu uma bolsa de estudos do I.A.C. e, sobretudo, entregou-me à sábia e generosa orientação do reiniciador da Historiografia medievo-portuguesa, o P.e Pierrre David. E comecei a estudar, de vários modos, as instituições medievais, especialmente ║ as eclesiásticas. O P.e David arranjou-me uma bolsa de estudos do Governo Francês, para cursar, durante 2 anos, algumas cadeiras da École des Chartes de Paris. Aí, como aluno-ouvinte, estudei Paleografia, Diplomática, H.ª do Direito em França, Fontes de H.ª de França. Devo registar o nome do mais extraordinário professor que algum dia conheci: Alain de Boüard, o famoso diplomatista (que então estava a ensinar – fulgurantemente! – uma cadeira que, em si mesma, sempre detestei: Paleografia). Era casado com uma senhora portuguesa: havia 40 anos que essa senhora, que não tinha parentes, não ia a Portugal. Não ousava falar português, mas pronunciava Portugal exactamente à portuguesa! A. de Boüard e uma filha foram-me visitar a Coimbra, mas no Verão, e eu não estava... < (antes disso, lanchei em casa deles, nos arredores de Paris) > < (A. de B. foi D.or da B.ca N.al de Paris e aí recebia D. M.el II, a quem oferecia um gabinete p.a os seus estudos) >

Ao mesmo tempo que frequentava a Éco║le des Chartes, segui também, no Instituto Católico de Paris, lições de H.ª do D.to Canónico, Fontes do Direito Canónico e H.ª da Igreja (que tinha como mestre o célebre Mons. Arquillière). Também ouvi umas 2 lições do famosíssimo P.e Daniélou, futuro Cardeal (em Origens Cristãs). O ensino na “École” era extremamente clássico, apesar da criatividade de Boüard. Ao contrário, o ensino no “Institut” era do mais vivo, ou antes, o mais vivo, o mais moderno que me foi dado conhecer.

Já nesse tempo andava a preparar a tese, que seria sobre o sistema monástico da Vacariça (perto do Buçaco). Na Bibl. Nacional de Paris ia analisando os Diplomata et Chartae dos nossos P. M. H. (pouco mais obras port. havia nessa Bibl., onde era m.to rica a representação espanhola). Foi no entanto aí que tomei conhecimento com os Sermões de S.to Ant.º (numa velha ed. latina) e com os Salmos Penitenciais (tb. latinos) do nosso “Prior ║ do Crato”.

Enquanto estive em Paris (1947-49), fui enviando alguma colaboração para a Revista Portuguesa de História da Fac.de de Coimbra (devida, em mais de 50%, à carolice do Doutor Torquato), e comecei um estudo bastante ambicioso sobre a Chanson de Roland, considerada à luz das fontes históricas referentes ao seu tema: redigido em grande parte, em francês, ficou até hoje incompleto).

Já em 45-47 (após a licenciatura, portanto, e até à ida para Paris) e depois do regresso de França, sempre apoiado pelo I.A.C., trabalhei bastante, com o Doutor Torquato, na elaboração da Rev. Port. de H.ª e também na revisão da 2.ª ed. (actualizada) do Gama Barros. E fiz algumas recensões críticas p.ª essa revista e para a Biblos, que era o órgão geral da Faculdade.

No entanto, ao voltar de Paris, passei um ano lectivo (49-50) em Lisboa, onde pela pri║meira vez exerci o ensino oficial (Religião e Moral, ao 1.º ciclo do Liceu Gil Vicente). De novo em Coimbra até 1 de Dezembro de 51, retomei o ensino particular que iniciara, com a Filosofia, ainda antes da licenciatura (creio que em 1943-44) no meu velho Colégio Luís de Camões. Dei também Filosofia e Francês no Colégio de S. Paulo. E tive aulas particulares. E ensinei no Colégio de S.ta Cruz. E dei Psicologia na Escola Normal Social < (esta era dirigida por freiras) > – tudo em Coimbra.

A minha ida (digamos, definitiva) para Lisboa no final de 51 foi devida a ter aceitado o convite do Doutor Gonçalves Rodrigues para colaborar com ele como D.or dos Serviços Culturais da “Mocidade Portuguesa”. Comecei a trabalhar sem o título, mas, ao fim de alguns meses, assumi-o e conservei-o até saber que o Doutor Gonçalves Rodrigues ia ser substituído (pedi a demissão, creio que pelo Outono de 1955).

Entretanto, também a convite de A. Gonçalves Rodrigues, entrei para a Faculdade de Letras de Lisboa, para ensinar, ║ entre outras matérias, Paleografia e Diplomática. No 1.º ano (1953-54), fui o único assistente da secção de História. No 2.º, já havia outra assistente (Irisalva Moita). Nos 4 anos em que trabalhei nessa Faculdade, leccionei, entre teóricas e práticas: Pal./Dipl., Numismática/Esfragística, Epigrafia, História Geral da Civilização, História da Antiguidade Oriental, História dos Descobrimentos. Entrei, oficialmente, para trabalhar com a Doutora Virgínia Rau. Mas, além dela, ajudei os Doutores Manuel Heleno, Scarlati Lambrino, Mário de Albuquerque e Ferreira de Almeida. Foram meus alunos, que eu saiba, os seguintes futuros professores universitários: Maria Carmelita Passos e Homem de Sousa, M.ª Cândida Pacheco, A. H. de Oliveira Marques, Luís de Oliveira Ramos, Pedro A. Teles da Silva Pereira. Gostosamente acrescentaria muitos outros nomes: p. ex., Álvaro Penedos, David Lutero de Morais Freire, Leon.do Mathias, Frederico Perry Vidal...

Saí da Faculdade por um acordo estabelecido entre os dois catedráticos: convinha que saíssem os dois assistentes. No entanto o Doutor ║ Heleno (com quem estava, ultimamente, a trabalhar, e trabalhei mais tarde – 1957-59 –, no Museu de Belém) procurou conservar-me; eu é que não aceitei a condição, que seria passar a dedicar-me à Arqueologia – para que não tinha a mais pequena vocação. Pelo caminho, também me negara a aceitar a cadeira de H.ª da Antiguidade Clássica, matéria que me parecia demasiado estudada em Portugal para de repente ser confiada a um ‘caloiro’...

Com todos estes trabalhos, a tese ia ficando para trás... até hoje. Apesar das sucessivas bolsas de estudo (confesso!).

Depois da Fac.de de Letras, entrei (1957) no Centro de Estudos Sociais e Corporativos, subordinado à Junta de Acção Social (do Ministério das Corporações). Sem estatuto de funcionário público (pertencíamos ao Sindicato dos Empregados de Escritório!), dependíamos de facto do Ministro. E o Ministro que me nomeou foi o Dr. Veiga de Macedo, homem seriíssimo e de grande visão política ao menos na esco║lha dos colaboradores: fiel como era à “Situação”, não hesitava em rodear-se de pessoas conhecidas pela sua independência (pelo menos...) em relação ao Estado Novo. Aí trabalhei (com o nome um pouco bizarro de “Assistente”) sob a direcção < – sucessiva – > de Sedas Nunes, Ruy de Albuquerque, Francisco Neto de Carvalho. Quase todo o tempo, o primeiro, de quem guardo excelente lembrança. Aí tive como colega, entre outros, António da Silva Leal, Carlos Branco, Mário Murteira, João Salgueiro, Miguel Ascensão, João Policarpo. Óptimo ambiente de trabalho. Nesses 5 anos (ou perto), elaborei e publiquei o livro Ideologia: ensaio de análise histórica e Crítica (por iniciativa e em boa parte com orientação de Sedas Nunes) e a antologia de António Corrêa d’Oliveira O Homem e o Trabalho. Ambos prefaciados pelo Ministro das Corporações como presidente da Junta de Acção Social. ║

Deixei o Centro de Estudos (Outono de 62) por me ter sido negada pelo novo Ministro da pasta < (J.G. de Proença) > autorização para prestar serviço, no período da noite, como “professor ordinário provisório” do velho Instituto Comercial de Lisboa, para onde me chamava o meu velho amigo José Carlos Amado (depois de o meu antigo professor Carlos Proença em vão me ter convidado para o mesmo quando eu era bolseiro em Paris). No Instituto permaneceria até à reforma (1988), e assim passaria a ter novamente categoria oficial de professor (“auxiliar”) do Ensino Superior desde que, pouco após o “25 de Abril”, essa Escola viesse a ser o Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Lisboa (ISCAL).

Entretanto, mantivera com bastante frequência senão persistência a actividade docente em colégios: Filosofia, ║ História, Organização Política, Francês... < (fui prof. medíocre) >

E, a partir de 1964, participei bastante activamente nos trabalhos da CODEPA (Centro de Orientação e Documentação de Ensino Particular), que ajudei a criar (sob ideia e iniciativa de António José Viegas Ávila), juntamente com José Carlos Amado, Gastão da Cunha Ferreira, Fernão Pacheco de Castro, Aulácio Rodrigues de Almeida, Fernando Calheiros Velozo, dois irmãos Osório de Castro e José Joaquim Laginha. Quer no efémero Centro de Estudos Pedagógicos (como vice-presidente), quer na elaboração sistemática do Boletim, quer no Instituto de Novas Profissões, quer no Colégio da Cidadela (de que cheguei a ser, fugazmente, director in nomine), e sobretudo com José Carlos Amado, alguma experiência me foi dado ter nesse vasto campo – até aos dias de hoje. < (e de hoje: Ag.º de 2000!) > ║

Desse esforço, veio a surgir um pequeno volume sob o título de Alguns Problemas Psico-Pedagógicos dos Meios Áudio-Visuais.

Mas já desde Setembro de 1961 entrara como Director Literário para a Editorial Aster, a convite do então gerente Dr. Eduardo Rocha. Nessa actividade me conservei – com dois intervalos de cerca de um ano cada – até ao encerramento da Editora em Novembro de 1989.

No segundo desses intervalos (1972-73), acompanhei o Dr. Nuno Calvet de Magalhães na frustrada fundação de uma outra editora – a Editorial Expansão. (Devo dizer que essa minha atitude foi perfeitamente compreendida pelo então gerente da Aster, Dr. Osvaldo Aguiar.) O regresso definitivo à Aster deveu-se ao convite que recebi do novo sócio-gerente Fernando de Sousa, que desde então sempre acompanhei nas gravíssimas dificuldades que teve na Editora após o 25 de Abril e, sobretudo, após a subida ao Poder da Aliança Democrática. < (sic!) > ║

Foi em consequência indirecta do “25 de Abril” que retomei a qualidade de docente universitário. Tomei parte na fundação da “Universidade Livre” e fui professor de Filosofia do Ano Propedêutico que constituiu os seus primeiros passos. Deixei temporariamente essas funções docentes (mantendo-me, no entanto, sócio da cooperativa) por me ser impossível compatibilizar o horário com os meus trabalhos de deputado (desde Dezembro de 1979). Mais tarde, porém, estando ainda na Assembleia da República, mas tendo já saído da cooperativa Universidade Livre como forma de protesto contra as questões internas – e ainda para poder estar mais à vontade quando houvesse de, como deputado, tomar posição nessas questões –, fui convidado por Luís Ribeiro Soares (que comigo tinha trabalhado na “Mocidade Portuguesa” e no Instituto Comercial) para o substituir numa das várias cadeiras que regia na Univer║sidade Livre. Assim comecei a leccionar História da Cultura Medieval. Quando se tornou mais aguda a crise interna dessa Universidade, resolvi (juntamente com a minha magnífica assistente Margarida Barahona Simões) seguir os meus alunos onde quer que eles se encontrassem, e assim, durante alguns meses, desdobrei em 2 o meu curso, ficando também a leccionar, sem receber, no que se veio a chamar Universidade Lusíada. Por imposição das autoridades administrativas e académicas da Universidade Livre (<da Rua> Victor Córdon), teria de escolher. Não o querendo fazer, foi-me negada distribuição de serviço nesta ‘secção’ universitária e nem sequer pude, na época de Outubro, examinar os meus alunos. Devo dizer que só não recorri desta última decisão porque o professor escolhido para essa função foi o meu grande amigo Luís Ribeiro Soares, para mais a primeira autoridade portu║guesa na matéria.

Decidi abandonar a actividade docente regular (ficando apenas com a orientação de algum seminário – que de facto orientei, entre 1986 e 88, sobre “Cultura e Instituições na época da Reconquista”), ao que, aliás, fui – ou seria – entretanto obrigado por decisão do Ministério uma vez que era professor do ISCAL.

De resto, as minhas funções no ISCAL tinham deixado de ser funções docentes desde 1976. Como vários outros professores, perdi a cadeira, pois a Filosofia deixou de fazer parte do curriculum escolar e não me foi distribuída outra. Em vão, em representação feita colectivamente dois anos a seguir, se pediu ao Ministério nos fosse dado trabalho fora do Instituto, consoante as nossas capacidades e o nosso estatuto. Até ao fim do tempo de serviço, limitar-me-ia a funções directivas (fui eleito para o Conselho Directivo ║ provisório logo após o 25 de Abril, e tb. para o primeiro Conselho Directivo normal) e outras funções orgânicas (desenvolvi bastante actividade em A.G.E. e A.G.P., fui secretário do Conselho Científico).

Houve uma excepção: no ano lectivo de 1985-86, fui bibliotecário, ou seja director da Biblioteca do ISCAL. A minha acção, que nada teve de criativo, consta do respectivo Relatório.

A outras Universidades prestei, acidentalmente, colaboração. Assim, fiz parte do 1.º júri de admissão à Faculdade de Ciências Empresariais da Universidade Católica (elaboração do ponto e classificação das provas escritas em “Cultura Geral”); elaborei os Programas, responsabilizei-me pelas aulas e classifiquei as provas das cadeiras de História do Direito e das Instituições e “História Contemporânea” (de facto, Problemas Actuais da Humanidade) no Instituto pré-universitário da Universidade Internacional, de Lisboa; e tomei parte, por duas vezes (sendo uma ║ delas em representação do P.P.M.) em colóquios na Universidade do Minho (do primeiro, há uma pequena publicação ordenada pela Reitoria; do segundo, a minha colaboração consta do volume .......................................... < (que nunca vi!) >

Fiz, ainda, parte do 1.º júri de admissão < e tb. do 2.º > ao Centro de Estudos Judiciários, criado pelo Ministro da Justiça Mário Raposo (cadeira de Cultura Geral).

Na Universidade de Évora e também na Universidade Católica, participei, com comunicações (sobre Nun’Álvares e a Crise de 1383-85, e sobre a história do C.A.D.C.) em colóquios de natureza menos oficial. < Voltei à Un.de de Év. p.ª arguente de uma dissert. de mestrado sobre hist.ª dos jardins >

O meu interesse pela Política, que começou muito cedo, teve algumas expressões profissionais ou pelo menos próximas desse estatuto. Assim, por duas vezes (cerca de 3 anos, da primeira vez; cerca de 1 ano, da segunda) a minha actividade na Causa Monárquica (organismo) assumiu algum carác║ter profissional, visto que recebia uma compensação económica pelo tempo habitualmente desenvolvido sob a direcção dos Secretários-Gerais Fernando de Sousa e Carlos Lopes Moreira (este, com categoria de quase Lugar-Tenente do Rei). Da primeira vez, saí juntamente com Fernando de Sousa. Da segunda, porque pedi a demissão de director de doutrinação e propaganda por razões que estão, na essência, publicadas em Apêndice ao meu livro A Liberdade e o Rei. A minha terceira passagem pela Causa (sem contar com a primeira de todas, em que dirigi um Círculo ou Centro de Estudos da Juventude Monárquica de Coimbra < ca. 1945/46 > ) foi como presidente da Comissão de Estudos Doutrinários fundada pelo Lugar-Tenente António de Sèves; mas essa não teve carácter profissional. (Também pedi a demissão: v. o mesmo livro, tb. em Apêndice).

A actividade política constitui para mim a mais significativa actividade ║ profissional quando, entre 1979 e 1983 – cerca de 3 anos e meio – , fui deputado do P.P.M. A minha acção encontra-se, necessariamente, reflectida no Diário das Sessões e, acidentalmente, na Imprensa, com especial referência a O Jornal e o Expresso. No ponto particular do debate sobre o Aborto, acrescento o Diário de Notícias e o Jornal do Fundão. A obra no prelo (ou melhor, nas mãos de um Editor, à espera de oportunidade) < (O Ed. perdeu todo o original) > que designei por As Minhas Repúblicas (Crónicas e Memórias) tenciona registar os principais momentos dessa actividade. Em atenção a ela < – a actividade – >, quis o Primeiro-Ministro Pinto Balsemão que eu viesse a receber uma comenda da Ordem de Santiago (de natureza cultural e não política, que não aceitaria), no que foi contrariado por quem de direito < (R. Eanes, v. carta de Balsemão) > .

Em numerosos jornais e revistas se guarda colaboração minha de carácter < político. > ║

< (talvez não falte a fl. 26) >

De um modo geral, a minha actividade política obedeceu sempre à opção monárquica. Trabalhei na Causa Monárquica (de que nunca me desliguei). Colaborei activamente no quinzenário Mensagem.

Fui um dos fundadores da revista neo-integralista e de Cultura Portuguesa Cidade Nova (já atrás referida). Entrei, ainda na fase de fundação, no Centro Nacional de Cultura, a princípio muito próximo da mentalidade monárquica. Fui sócio, durante muitos anos, do Centro de Cultura Popular (em que trabalhei, principalmente, com o saudoso Pedro da Câmara Leme). Tomei a iniciativa da fundação da Renovação Portuguesa (para a qual contribuíram, decisivamente, Magalhães e Silva, Mário Saraiva, Pardete da Fonseca). Fui um dos promotores do Instituto António Sardinha (o 2.º desse nome, devido, essencialmente, ao José Fernando Rivera Martins de Carvalho – para cujo livro póstumo escreveria um Posfácio). Fui dirigente da Conver║gência Monárquica e finalmente do Partido Popular Monárquico (desde a sua criação em 23 de Maio de 74, até ao começo de 1990). Fui membro do Conselho de Lugar-Tenência (com António de Sèves). Fui membro do Conselho Privado de S.A.R. o Senhor Dom Duarte. < tornei a ser desde ca. 1998 >

No campo pedagógico, para além das indicações anteriormente expressas, participei no lançamento e na direcção das Escolas Comunitárias e em especial da sua Associação Portuguesa, em apoio do verdadeiro apostolado que devemos a Manuel da Costa Garcia. E, por nomeação do Ministro Inocêncio Galvão Teles, fui vogal da secção de interesses morais da Junta Nacional de Educação. Também, por encargo recebido do Dr. António Carlos Leónidas, fiz a redacção final dos Programas do Ensino Primário (ca. 1960). Colaborei também na revista Escola Portuguesa (sempre, ou quase sempre, sob o pseudónimo José Coutinho de Brito). ║

Sócio da Sociedade de Geografia de Lisboa há dezenas de anos, não tenho dado a essa prestigiosa agremiação qualquer cooperação cultural. Fiz, no entanto, em 1985, numa das suas salas, uma conferência sobre “Nun’Álvares”, integrada na série promovida pela Sociedade Histórica Independência de Portugal (editada no vol. colectivo Aljubarrota).

Com esta última colaborei mais algumas vezes: conferência sobre Vasco da Gama, não redigida nem gravada; conferência sobre “o pensamento político do Condestável” (idem), esta última proferida na sede da Cruz Vermelha.

À Sociedade de Língua Portuguesa tenho prestado colaboração quase regular: depois de uma ou duas palestras no tempo da presidência do Dr. Francisco J. Velozo (destaco “Camões e a Paideia Portuguesa”, que, em resumo, foi dada como comunicação ao I Colóquio ║ Internacional de Camonistas, 1972, e editada em vol. e em separata do mesmo título), seguiram-se palestras praticamente anuais sob a presidência social de Fernando Sylvan (meu companheiro da C.E.M., Comissão Eleitoral Monárquica de Lx.ª, 1969). Aí falei de António Sardinha, do anti-iberismo dos mestres integralistas, de Hipólito Raposo, de D. Manuel II, etc. < continuei até à morte dele e mesmo depois falei 2 vezes (até 1999) >

Também no Grémio Literário falei sobre Antero de Quental (1970), Pequito Rebello, Alberto Monsaraz. (Fui sócio desde 1969 até ca. 1983, em que pedi a demissão por motivos meramente financeiros...)

Na Acção Católica ou organismos afins, fui membro da Direcção do CADC desde 1940 a 1943 (presidente em 42-43) e presidente diocesano da J.A.C. de Coimbra (1941-42).

Casado, em 8-II-52, com Maria Emília Chorão de Carvalho, f.ª do Dr. Herculano de Carvalho, médico e D.or do jornal católico “Correio de Coimbra”, e de D. Maria Emília Franco Chorão, de uma família do Fundão. Têm oito filhos e catorze netos < (15, desde 1998!) > , graças a Deus !

Gesteira, Ag.º de 1990

(Texto publicado em Estudos, Revista do Centro Académico de Democracia Cristã (Coimbra), Nova Série, n.º 1 (2003), pp. 33-51.)

 
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