A liberdade e El-Rei
Henrique Barrilaro Ruas
I
1. A primeira imagem que de El-Rei se pode ter é
porventura a faustosa imagem da grandeza. Assim ele anda pintado
coloridamente na imaginação infantil e na de todos os Povos. E no
entanto, a quem detidamente o encare, El-Rei aparecerá, por baixo da
roupagem fulgurante, como homem nu de aparatos, casado com a pobreza,
violentamente atirado para longe dos próprios desejos... Se o primeiro
momento da imagem nos dava um Senhor poderoso, o primeiro momento da ideia
dá-nos um servo. El-Rei é um cativo.
Quem cativou El-Rei? – o Poder o encadeia: o próprio
Poder que assume. É ele que o arrasta a uma esfera que não é da sua
natureza. Homem, e mais nada senão homem, tudo nele está a clamar exigências
e pendores comuns. E, por contraste, tudo nele se passa: não à margem do
que é comum – o que seria ainda pouco – mas, dentro do comum, por um
modo diferente. A análise da vida de El-Rei manifestaria, uma a uma, mil
diferenças. Todas são resultantes de uma só causa: o Poder.
O poder real não pertence a El-Rei: desce sobre ele.
Nada na natureza de El-Rei o está prometendo ou anunciando. El-Rei, por
natureza, tem poderes próprios de homem: físicos e espirituais, mas só
humanos. O poder real é de outra ordem. Não vem da natureza: vem de
Deus.
Decerto: nada do que existe tem outra origem que não
seja Deus. Criada por Deus a natureza humana, não há poder natural que não
venha de Deus; mas por modo indirecto. As causas segundas agem plenamente;
e tudo se passa (em certo sentido) como se não existisse Causa Primeira.
A esta regra se subtrai o poder político. É a este que com perfeita
adequação se aplica a fórmula bíblica: omnis potestas a Deo.
Esta ligação directa com Deus, este ter Deus como
fonte imediata, faz com que o poder político pareça aproximar-se de uma
esfera que não é política: a esfera religiosa.
Nada mais falso e nada mais grave que esta impressão
sedutora! O vínculo político enlaça com Deus o chefe, o Rei (ou, se
quiserem, a colectividade, mas como um todo). O vínculo religioso enlaça
com Deus todos os homens, um a um. O segundo é, o segundo não é exigido
pela natureza do ser vinculado. Religião e Política são irredutíveis.
A quem subir da ordem natural (em que o homem aspira
ao Criador) à ordem sobrenatural (em que, pelo mistério da Redenção, o
Pai Se fez presente ao homem e o faz seu filho), pode parecer agora que a
Religião se torna mais semelhante à Política, pois o vínculo
sobrenatural enlaça com Deus, antes de todos, o Pontífice. Mas esta
semelhança formal a nada conduz. O Estado é da linha da Criação. A
Igreja é da linha da Redenção. Além de que, mais ainda (se é possível)
que na Religião natural, aqui o que Deus procura é cada homem de per
si,
o que na ordem política não tem sentido.
E no entanto, apesar de bem distinta do plano
religioso, a esfera política está mais directamente ligada a Deus que a
esfera individual ou a familiar (não sobrenatural) ou qualquer esfera
simplesmente associativa.
Assim ligado ao Criador por um nexo imediato, o Rei
vive uma vida que a sua natureza não continha nem fazia prever. A sua
existência não lhe condiz com a essência. Sendo mais nobre que ela,
eleva o Rei ao plano do sagrado. O sagrado não pertence apenas à ordem
sobrenatural. E que outra coisa é, na ordem natural, senão aquilo cuja
existência ultrapassa a própria essência?
2. Embora, no conjunto dos poderes, vindos todos de
Deus, o poder real constitua excepção; embora a Causa Primeira aqui nos
pareça actuar directamente, dir-se-ia tão grande a força da lei
universal, que, olhando a certa luz, já o próprio poder político nos
mostra uma origem puramente natural.
O Poder, por essência, vem de Deus
. Na existência,
porém, é a História – o Povo na História – que o desenha e
suporta.
3. Eis, pois, El-Rei duplamente cativo do Poder. Para
longe a roupagem fulgurante! Para longe a própria natureza, exigente, em
humana medida, de humanas ambições... Como a água cantante que jaz
cativa, porque há-de servir para sinal de Deus; como o cordeiro que Abel
sacrificou; como o pão e o vinho de Melquisedec – esse homem foi
distinguido dos outros, para ser, fora de si mesmo, numa esfera que não
é a sua, o senhor de todos: incluindo em todos aquele que ele próprio
é.
Deus o cativou; a História o conserva cativo. Um vínculo,
uma servidão originária, que por geração se transmite como o pecado de
Adão, faz de El-Rei o homem mais despido de aparatos, companheiro da
pobreza, exilado de si mesmo... Para cumprir.
II
El-Rei é um cativo: prisioneiro de Deus e da História.
E, no entanto, aos nossos ouvidos soa a palavra
triunfante: Rex noster libert est. El-Rei é livre! E este é o
segundo mandamento da ideia, contrastante também com o segundo momento da
imagem, que nos daria um Rei preso por etiquetas, escravo de cortesãos ou
do seu próprio orgulho...
Quem libertou El-Rei? Quem lhe quebrou as grades do
cativeiro? Deus e a História (a História, de que ele mesmo é agente).
Quem o cativou, agora o liberta. A servidão que El-Rei tem de cumprir; o
seu cativeiro e o seu serviço consistem em ser livre. É a ser livre que
Deus e a História o obrigam.
A sua liberdade nada tem que ver, no entanto, com a
sua condição de indivíduo. Livre, sim: porém, apenas como sumário, síntese
e imagem do Povo seu carcereiro. O grito de triunfo Rex noster líber
est só tem um sentido: significa exactamente o mesmo que: Nos
liberi sumus. El-Rei não é livre para si próprio. Não são os seus
instintos, os seus desejos, as suas tendências de homem que se libertam.
Ao contrário: tudo isso se encontra sujeitado.
Para uma coisa é livre, e então plenamente,
exuberantemente, loucamente: para que os seus súbditos possam afirmar,
intrépidos: Nós somos livres! É esta a liberdade real: a liberdade
de que está cativo.
Tão forte prisão é esta liberdade, que basta ao
Rei deixar de ser livre para deixar de ser Rei. «O Rei é livre» é uma
fórmula de identidade. No dia em que a liberdade individual de El-Rei,
sepultada na régia existência, revoltando-se deixar de coincidir com a
liberdade colectiva (que é a própria liberdade de El-Rei enquanto Rei),
o rompimento será fatal. Fatal, porque automático. Um Rei não livre é,
ipso facto, um não-Rei.
III
Com os vínculos de que é prisioneiro, modela El-Rei
a liberdade de todos. O seu poder é essencialmente libertador. Nele, a
natureza humana está cativa, para que nos outros homens esteja livre.
Libertador da natureza, é às liberdades naturais que El-Rei se
sacrifica; não à entidade metafísica que um Humanismo unilateral
imaginou. Deus suscitou El-Rei para servir os homens; não para servir
ideias.
Quatro aspectos se podem considerar no serviço
político (ou poder político) que El-Rei desempenha, quando
encarado sob o ângulo da liberdade:
a) Defende cada
indivíduo ou cada colectividade das abusivas intromissões alheias; está
nisto o que legitimamente se pode chamar o poder moderador de
El-Rei: o Rei exerce o «poder moderador» na medida em que limita ao seu
âmbito próprio os poderes naturais dos indivíduos e da sociedade,
integrando-os na unidade política da Nação. Aspecto negativo, nem por
isso deixa de ser fecundo.
b) Por acções
negativas e positivas, é próprio do poder real garantir a cada indivíduo
ou comunidade uma existência conforme com a sua própria essência. Aqui
se manifesta em supremo grau a vocação de El-Rei para libertador da
natureza.
c) Pela sua segunda
natureza, que é o cuidado político, El-Rei dispensa do zelo geral os
homens e as sociedades. Todos devem dar para o Bem Comum a sua
quota-parte. Todos devem ter o Bem Comum como a suprema regra natural. Bem
certamente! Mas o Rei lá está, em nome de todos; substituindo, aos
cuidados políticos dos outros (que, por mais constantes, serão sempre
acidentais), o seu cuidado político substancial, que é o seu modo de ser
enquanto Rei. É como participantes do poder real que os participantes hão-de
participar do cuidado político, do zelo geral.
A
El-Rei compete escolher os súbditos, não aos súbditos escolher El-Rei.
Mas essa escolha é a dos que em união com ele devem ser, na esfera política,
os promotores do Bem Comum. Nos seus planos próprios, indivíduos, famílias,
corporações, municípios, rasgam entretanto os seus caminhos, escolhem
democraticamente os que entre si conhecem como melhores, vivem a sua
vida... Porque El-Rei se consagrou ao Bem Comum, todos podem consagrar-se
aos bens particulares. E de tudo resulta a harmonia da Nação.
d) Livra a Nação
do caos sempre possível dos poderes desencontrados, fortalece-a,
defende-a, enobrece-a. E, assim, não apenas torna possível, mas realiza,
a aspiração essencial de qualquer nacionalidade: a independência. É
esta, mais que todas, a função real: dar à Nação a existência que a
sua essência pede: a existência política. A Nação é o Reino.
Deste
modo cumpre El-Rei o seu destino de libertador. Ele é o que desencadeia
os poderes naturais. Mas há um poder que ele não pode desencadear: o
poder sobrenatural de cada homem se tornar filho de Deus. Não o pode
desencadear, porque esse poder não deriva do sangue nem da carne, mas
somente de Deus. Nenhum homem tem o poder de se tornar filho de Deus. Por
isso mesmo, não é possível a El-Rei libertar esse poder. Não pertence
a El-Rei dar liberdade ao seu Senhor. Mas Deus espera do seu servo um
supremo serviço: que desencadeie o poder que o homem tem de corresponder
àquele poder divino. Assim se cumpre o ciclo sagrado da existência real.
Mas...
ele? Qual o destino desse homem que, ao assumir o Poder, foi assumido,
absorvido, por ele? Para além da própria missão política, que com ele
morre, fica a pessoa, que no sacrifício do indivíduo encontrou a sua
plenitude[1].
Nota: não confundir
o conceito cristão de "origem divina do poder" (omnis potestas a Deo)
aqui afirmado - ponto de filosofia acolhido por Henrique Barrilaro Ruas
- com
qualquer conceito derivado da teoria
do "direito divino do reis" (detenção do poder régio por "mandato de
Deus"), como foi defendido pelo Marquês de Pombal, e em geral pelos iluministas, contra a tradição da Monarquia
portuguesa.
No texto de uma
conferência intitulada «O
Drama de um Rei» (D. Carlos I), publicada na revista Gil Vicente
em 1965, o Autor apresentou o conceito cristão de Poder Régio da
tradição portuguesa - conceito adoptado pelos integralistas
lusitanos - contrastando-o com as diferentes concepções da Realeza,
desde as remotas civilizações pré-clássicas até à era contemporânea
do ideologismo (nota desta edição).
(Henrique
Barrilaro Ruas,A liberdade e o Rei, Lisboa, 1971, pp. 130-137)
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