O «Valor da Raça» segundo António
Sardinha e o Integralismo Lusitano
José Manuel Quintas
NOTA: O texto seguinte foi apresentado no fórum «Unica
Semper Avis» em resposta à seguinte pergunta de José Gomes (sob o título "A importância da raça"):
"Sabendo que este é um dos maiores tabus da nossa
sociedade gostaria de perguntar directamente aos integralistas e
frequentadores deste fórum qual a importância que atribuem à
identidade racial do nosso povo.
Isto porque na minha opinião a autentica invasão de imigrantes dos
PALOP (e não só) coloca seriamente em risco a nossa identidade como
povo e a nossa cultura."
É bem conhecida a expressão
“nacionalismo rácico” com que os adversários políticos do
Integralismo Lusitano gostam de o brindar, citando quase sempre o título
de uma obra de António Sardinha: O Valor da Raça - Introdução a uma
Campanha Nacional (Lisboa, 1915).
Não sendo aqui o lugar para
uma aprofundada apreciação do problema historiográfico envolvido, não
posso deixar de introduzir-me no debate precisamente para procurar
clarificar, conforme solicitado, qual era a posição do Integralismo
Lusitano nesta matéria, reproduzindo, com as reduções e adaptações
julgadas convenientes, parte de um Capítulo do meu estudo Filhos de
Ramires – Das Ideias, das Almas e dos Factos no Advento do Integralismo
Lusitano, 1913-1916 (Lisboa, UNL, 1997) [entretanto
publicado, pela Editora Nova Ática, 2004].
Qual era
o problema investigado em «O Valor da Raça»?
Era o problema da formação
da nacionalidade portuguesa. E, logo no intróito, António Sardinha dá-nos
conta da escolha da expressão “Valor da Raça” para expressar a Verdade
Portuguesa - como também lhe chamava - que se presta a apresentar. Para
A. Sardinha, a “Raça” correspondia ao conceito político de Grey
(corrente ao tempo de D. João II), expressando “a concepção jurídica
dum todo uno idêntico na composição e no destino”, conceito nascido da
sociologia tomista por derivação do De regimine principum ad regem
Cypri
(S. Tomás de Aquino, 1265-66); Frei Bernardo de Brito – precisava
Sardinha - utilizara-a entre nós pela primeira vez.
Esclarecida a genealogia da
ideia de “Raça”, A. Sardinha logo acrescentava: “as instituições
dum país são a criação do seu génio. Tal é o mandamento a arvorar como
primacial artigo da nossa fé. Segue-se-lhe o valor da Raça como razão
indiscutível de existência”.
Eis o essencial da tese que
A. Sardinha apresentou em O Valor da Raça, nas palavras que o próprio
dirigiu por carta ao seu amigo Luís de Almeida Braga:
“A Verdade Portuguesa tem
um factor estático, - o localismo, o município, - outro dinâmico, - a
resistência lírica da Raça, traduzida na concepção reparadora do mito
sebástico”.
Quanto ao primeiro factor -
“o localismo, o município” - filiou-o Sardinha nas instituições
criadas por remotas comunidades de uma humanidade primitiva do sul da
Europa, que num movimento ascendente até às beetrias do princípio da
Monarquia, levarão à completa formação do município. Era o factor estático.
O outro factor, dinâmico,
foi a Esperança forjada num território exposto a frequentes incursões
guerreiras, como reacção natural de povos vencidos em “miragens de
desforra futura”.
A Verdade Portuguesa
- o «Valor da Raça» - viu-a assim Sardinha, não no elemento rácico
(entendido em sentido biológico), mas nessa “aliança estreita do
messianismo à forma comunalista do concelho”: era a Esperança, - e não
a Saudade, como para os republicanos da revista A Águia - o elemento
dinâmico, “renovador e mantenedor do génio lusitano”. Sardinha, além
de não ser um defensor de um “nacionalismo rácico” também não era um
“saudosista”, antes um “esperançoso”; não era um sebastianófilo,
antes um sebastianista.
Mas, por que caminhos,
respondendo a que inquietações e compulsando que ideias existentes nos
coevos meios científicos, deitou mão António Sardinha?
Creio que a avaliação equívoca
de alguma historiografia contemporânea, parte precisamente da impressão
provocada pela bibliografia
citada por António Sardinha, que era, afinal, a melhor bibliografia da época.
Na verdade, do lado dos eruditos, António Sardinha tem atrás de si um
Mendes Correia do “velho solar lusitano” d’ Os Povos Primitivos da
Lusitania, onde se relacionou o português contemporâneo com os
primitivos habitantes do rectângulo; um Martins Sarmento da tese do “povo
uno” exposta na Ora Maritima; um Adolfo Coelho da tese da unidade da língua,
exposta nas Origens do português do Sul; um Ribera y Tarragó, defensor
da tese da uniformidade lírica portuguesa; mas, e sobretudo, um republicano
Teófilo Braga que, no seu afã em encontrar os “elementos de diferenciação
étnica” sobre os quais se fundasse o critério político de “um pacto
comum consciente”, encontrara no «Luso» “as aptidões ancestrais que já
do fundo dos séculos nos fadavam para povo livre e glorioso”.
Tendo António Sardinha
todos esses autores na sua bagagem intelectual, entre outros mais, e tendo
alguma filiação epistemológica comteana mediada por Teófilo Braga,
importa no entanto fixar o distinto conteúdo que ele atribui aos referidos factores estáticos; onde A. Comte e Teófilo Braga
colocavam a raça (no sentido biológico-étnico), a tradição, etc.,
colocava A. Sardinha, por via do influxo da sociologia tomista, sobretudo as
instituições e o espírito que as vivifica: o município e o localismo.
Ao colocar a tónica nas
“aptidões ancestrais” do «luso», A. Sardinha saldava a dívida para
com o Mestre (Teófilo Braga), mas também abria a via pela qual se lhe
tornava possível contestar a “teoria do Acaso” exposta por Oliveira
Martins, para quem Portugal era “uma pátria inventada pela cobiça de
meia dúzia de aventureiros coroados” ["Fundamentos da
Nacionalidade", Livro I, Capítulo 2 da História de Portugal]. Se Sardinha invocava o «lusismo»
como uma base onde firmava a sua tese, logo acrescentava que “a reabilitação
da Raça obrigava à reabilitação das instituições em que o génio dela
secularmente se exprimira”.
O «lusismo» de Teófilo
Braga fora elaborado com os olhos postos no federalismo municipal, a base de
sustentação do tipo perfeito de governo republicano que este tomara da Suíça.
Sardinha não o contesta por aí. Porém, tendo António Sardinha deixado de
ser republicano, não precisando de quaisquer “elementos de diferenciação
étnica” onde fundar um qualquer “pacto comum consciente”, ao estudar
o caso histórico da formação da nação portuguesa, logo uma reserva se
lhe impôs: ao «lusismo» de Teófilo Braga faltava o justo remate, o vértice
ausente na pirâmide - esse vértice era o Rei.
Em rigor, para A. Sardinha,
não fora o «Luso» que criara a Nação portuguesa. Se a virtude primacial
residia no Luso (na sua “predilecção localista”), sendo o Concelho a
“célula-mãe da Pátria”, só com o Rei, agente centrípeto, a Pátria
verdadeiramente se constituíra.
O acto consciente na formação
da nação portuguesa ganha, pois, em A. Sardinha, contornos bem diversos
daqueles que Oliveira Martins e Teófilo Braga apresentaram. Palavras de Sardinha:
“são as beetrias do norte e os
«castelos-velhos» do sul que, reconhecendo-se na chefia suprema de Afonso
Henriques, se atiram para a recuperação do território violado pelo mouro
e pelo leonês”.
Portugal não estava formado antes do Rei, mas “logo
que o Rei assoma nas perspectivas da vida nacional, Portugal adivinha-se
formado.”
E Sardinha concluí: ”Conseguido o agente centrípeto, sem o
qual tombaria depressa na mais deplorável das desagregações, o País
decide-se com galhardia para a grande obra da sua coesão e do seu
enrobustecimento”.
No essencial, em O Valor
da Raça António Sardinha desenhou uma nova pirâmide: mantinha-se a
base que lhe fora fornecida por Teófilo Braga; e recuperava-se o vértice
pressentido por Oliveira Martins. A sua tese fornecia, pois, a síntese e o justo remate
das ideias de Teófilo Braga e Oliveira Martins: a “teoria do Acaso” de O.
Martins não sustentara a pirâmide cujo vértice pressentira; o «lusismo» de Teófilo
Braga, toldado pelo preconceito republicano, não fora capaz de ascender à compreensão
da função da realeza no
corpo nacional.
E foi assim que apoiando-se
na erudição da história, arqueologia, antropologia, linguística, o texto
de Sardinha avançou em conformidade com o seu republicanismo municipalista de
sempre, mas também – era essa a novidade - lançando um fio de
continuidade a um Luís Mendes de Vasconcelos e a um José da Madre de Deus
(à sociologia tomista), para afirmar que “os municípios exprimiam as
tendências ingénitas da Raça”, e que a Nação apenas se encontrara
formada ao reconhecer e aclamar o Rei.
Estabelecidos os
“fundamentos foraleiros” na origem da nacionalidade portuguesa, estavam
encontrados os fundamentos e as razões em abono do ideário monárquico a
que se acabara de converter: “os forais acusam a base contratual da
Monarquia Portuguesa, que não é uma Monarquia firmada na ideia germânica
da posse, mas uma magistratura respeitável, em que o Rei não é um
soberano que se reverencie de recuas sobre uma paisagem de forças avergando
como latadas, mas simplesmente uma cabeça em que todos, grosso e miúdo, se
reconhecem à uma”. Por isso – escrevia ainda A. Sardinha - “as
comunas viam sem hesitações, no poder real, uma força que as defendia das
tropelias do suserano e estabelecia ao mesmo tempo limites que lhe
facultavam o desenvolvimento da sua actividade legítima”.
Era a reafirmação de uma
concepção municipalista do Estado-Nação: cabia ao Estado servir os municípios,
porque estes eram a sua razão de ser. Os Municípios não eram um grau
inferior da administração geral do Estado; um Estado integralista haveria
de ser um Estado ao serviço da Nação.
Como facilmente se
depreende, o "problema da identidade da raça portuguesa" - entendendo
“raça” em estrito sentido biológico – é completamente estranho ao
ideário, à conceptualização e à doutrina política de António Sardinha e do
Integralismo Lusitano. Nem podia ser de outra forma, dado o humanismo
cristão que lhe é matricial e que impediu sempre que nele vingassem
conceitos e teorias de justificação étnica de nações – como a do republicano
Teófilo Braga – ou de não assimilação ou discriminação
racial, fazendo jus, aliás, ao sempre vivo conceito português cristão, não
racista e de miscegenação, que nem mesmo o erro colonialista da 2ª República
(1933-1974) conseguiu quebrar.
José Manuel Quintas
22 de Dezembro de 2001
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