
Um maço de cigarros Sampoerna, made in Indonésia, numa mesinha
baixa, denuncia uma viagem recente a Timor. As cadeiras de estilo,
os quadros que nos espreitam, antigos reis, o condestável
Nun’Álvares, os pais e avoengos do dono deste solar sintrense, o
jardim inglês, imponente mas um pouco lúgubre, lá fora... Estamos
num livro de Os Cinco. E se o cão Tim aqui estivesse, não pararia de
rosnar. Por baixo de um enorme óleo sisudo de D. Miguel I, duas
bicicletas de criança e uma bola de futebol indicam que há vida para
lá do silêncio deste «castelo» assombrado. Por aquela porta, poderá
entrar, com efeito, uma assombração. E ei-la que entra mesmo. No seu
bigode de D. Quixote, no seu fato príncipe de Gales tão fora de moda
como o resto. D. Duarte, 61 anos, senta-se e sorri. Um belo sorriso.
Por baixo daquelas melenas desgrenhadas, há uma pessoa ingénua, aqui,
malandreca, ali, irónica, acolá, que se humaniza, se emociona,
conversa, pensa e seduz. Surpresa: saímos muito mais monárquicos do
que entrámos.
VISÃO: Duarte Pio João Miguel Gabriel Rafael. É este o
nome que consta do seu BI?
D. DUARTE PIO: O facto de ter muitos nomes próprios, por tradição
familiar, remete para santos que acreditamos que nos protegem.
Miguel, Gabriel e Rafael são os nomes dos três arcanjos... Curiosa
foi a situação do Afonso [filho primogénito, 10 anos]. Quando fui
fazer o registo, disseram-me que tinha nomes a mais. Pedi que se
pusesse Afonso de Santa-Maria, com hífen... Mas disseram-me que não,
que ficava com nome de futebolista espanhol! Lá tive de escrever uma
carta ao ministro da Administração Interna, para autorizar. No meu
BI está apenas Duarte Pio de Bragança.
O seu padrinho foi o Papa Pio XII...
Pio XII era amigo do meu pai. Simultaneamente, foi meu padrinho e do
príncipe Hans-Adam, do Liechtenstein. O baptizado foi na Suíça, com
a presença do Núncio Apostólico, em representação do Papa.
Mas veio a conhecê-lo?
Conheci-o. Fui ao Vaticano, várias vezes, com a minha família. Era
uma pessoa extraordinária, com uma personalidade fortíssima. Da
primeira vez, fomos de comboio, desde a Suíça...
E a sua madrinha foi quem?
Foi a rainha D. Amélia. Pouco tempo antes, tinha havido a
reconciliação entre o lado legitimista da família, que descendia do
meu bisavô D. Miguel, e o lado da monarquia constitucional, do meu
trisavô D. Pedro IV.
Falava-se, em sua casa, dessa desavença, que originou uma guerra
civil em Portugal, no séc. XIX?
Falava-se. Era a razão pela qual estávamos no exílio. E só voltámos
a Portugal em 1953.
E uma criança como D. Duarte percebia o que era o exílio?
Percebia que não podia voltar ao nosso país.
Mas Portugal era uma realidade distante, não era bem o seu país...
Mas só se falava português, em casa. Mesmo os meus amigos aprenderam
a falar português. Recebíamos portugueses, líamos livros, e cheguei
a vir, várias vezes, a Portugal sem os meus pais, com a minha tia
Filipa, que vivia em Serpins. Tomava banho no rio Ceira, brincava
com os filhos da moleira... Fiquei com um grande encanto pelas casas
com iluminação a petróleo. Já na Força Aérea, reconheci o cheiro dos
combustíveis...
E ainda voa?
Até há pouco tempo, com um comandante meu amigo, pilotei um
helicóptero, no combate aos incêndios... Infelizmente, ele já
faleceu e, desde então, não voei mais.
O seu pai, D. Duarte Nuno, anunciou o seu nascimento, em Maio de
1945, fazendo referência às «primeiras horas da paz». E saudou a
vitória dos aliados...
Lembro-me das conversas sobre a Guerra, já passados anos. Quando
Hitler anexou a Áustria, onde o meu pai tinha nascido e vivia, a
família deslocou-se para a Suíça.
O seu pai nasceu sobre terra ida de Portugal. E o senhor no
consulado português de Berna. Um pretendente ao trono tem de nascer
em terra portuguesa?
Um monarca português tem de nascer em território nacional. A única
excepção foi a de D. Maria II que tinha nascido no Brasil.
E como se educa um rei?
No sentido da responsabilidade. Temos de prestar um serviço ao País.
O meu pai sacrificou-se muito mais do que eu. E não seguiu a
carreira profissional que gostava de ter seguido. Era engenheiro
agrónomo, mas gostaria de ter sido engenheiro de máquinas.
E por que não?
Porque, na nossa situação, temos de escolher profissões liberais,
para não estar dependentes de superiores que mandem em nós.
Os seus filhos, também são educados assim? O Infante Afonso está
a ser preparado para assumir o trono?
Tenho essa preocupação. Eles andam em colégios, aqui em Sintra. Mas
acho que o importante é terem uma formação intelectual, moral e
física sólidas, que lhes permita fazer as suas escolhas, no quadro
de uma profissão em que possam também sustentar-se.
Nenhum dos seus filhos quer ser jogador de futebol, por exemplo?
Não, mas a Maria Francisca [9 anos] diz que quer ser toureira – é
uma excelente cavaleira, aliás. Ou médica. E quando se zanga com os
pais, diz que será médica legista...
E outras actividades próprias de um rei? Equitação, esgrima,
polo...
Bem as actividades tradicionalmente praticadas pela aristocracia são
hoje praticadas por qualquer pessoa que tenha algum poder económico...
Já não é um exclusivo de uma classe... No meu caso são as
actividades possíveis. A minha mãe fazia equitação, o meu pai não.
Eu tive aulas de equitação, sobretudo no Colégio Militar..
Mas o senhor queria ser aviador.
Aos 16 anos, tirei o meu primeiro brevê, de planador, em Alverca. E
havia um aluno, filho de um responsável dos planadores. Ficámos
muito amigos, eu ia lá a casa e o pai, um dia, confiou-me um segredo,
que eu não podia revelar a ninguém. Que pertencia ao PCP. Nos início
dos anos 60, foi uma emoção muito grande para mim... Lá me explicou
porquê, o que era aquilo...
Como eram as relações da sua família com Salazar?
O nosso regresso do exílio foi votado pela Assembleia Nacional. Na
primeira votação, proposta pelos deputados monárquicos, o projecto
chumbou: Salazar mandou votar contra. Mais tarde, foi aceite. Mas
Salazar sempre se opôs à restauração da monarquia. Desconfiava das
ideias demasiado liberais do meu pai. Aliás, o meu pai ainda esboçou
um documento a pedir uma abertura política, mas teve de ceder a
fortíssimas pressões de monárquicos conservadores e recuou. Salazar
tinha simpatia pessoal pela minha tia Filipa, mas uma grande
desconfiança em relação à outra tia, Maria Adelaide, que achava
muito «esquerdista»...
Acha que o Estado Novo receava a Família Real?
Havia sobretudo uma grande preocupação de equilíbrio de forças entre
maçonaria, republicanos, monárquicos... Salazar queria dividir para
reinar. Mas dizia que a família real era uma reserva nacional.
Apesar disso, não seguiu o exemplo de Franco, que preparou o
regresso da monarquia...
Não, ele sempre se opôs.
Quando começou a perceber quem era e o que representava?
Comecei a perceber melhor já em Portugal, na escola portuguesa. Nas
festas de aniversário em gaia, em Cpoimbrões em Coimbra (São Marcos)
chegavam a aparecer 20 mil pessoas nas festas do 1.º de Dezembro.
Uma vez cumprimentei 12 mil pessoas! Utilizei uma máquina na outra
mão, para as contar...
O regime impediu-o, durante algum tempo, de frequentar o Colégio
Militar...
Foi o Presidente Craveiro Lopes que, tendo jurado fidelidade à
República, não concebia a ideia de admitir o herdeiro real na
instituição. Muita gente não percebe que a fidelidade à república é
às leis vigentes. Que não são estáticas. As instituições
republicanas não são incompatíveis com a existência de um rei.
Várias nações europeias são repúblicas com rei. O Rei é o grande
defensor das instituições, da unidade nacional, da soberania.
No Colégio Militar, participou num levantamento de rancho...
oi uma espécie de greve académica! Um professor tinha cometido uma
grande injustiça com um aluno. Os graduados do 7.° ano fizeram
levantamento de rancho e foram todos expulsos. O levantamento passou
para o 6.° e foram também todos expulsos. Depois passou para o 5.°,
que eu frequentava. Aí, a direcção do Colégio negociou e reintegrou
toda a gente. E, olhe, ganhámos!
É adepto de algum clube?
Era do Benfica, porque era o clube que não tinha estrangeiros.
Depois...
E os seus filhos?
Quando o Dinis [7 anos] foi baptizado, no Porto, o FC do Porto
inscreveu-o como associado. E tornou-se um portista fanático. A
Maria Francisca é do Sporting. O Afonso diz que não tem clube...
Não tem ou, como herdeiro da coroa, não está autorizado a revelá-lo?...
Não, diz que é da selecção. Fomos ver a equipa à Alemanha, no jogo
do 3.º e 4.º lugares. Curiosamente, a responsável pelo protocolo era
uma princesa prussiana...
E colocou alguma bandeira à janela?
Coloquei, mas foi a azul e branca, a da monarquia...
Convive mal, então, com a bandeira e com outros símbolos
nacionais republicanos?
É a única bandeira republicana que manteve um escudo real. Não é mau.
Mas não gosto das cores, não concordo com ela... Quando chegou a
altura de jurar bandeira, na Força Aérea, o comandante disse-me:
‘Fique doente, em casa...’ E eu fiquei.
Fez o serviço militar em Angola...
No Norte de Angola. Não tínhamos helicópteros, mas pilotei um
Dornier 27. Participei em missões de transporte e de reconhecimento.
Até que o meu comandante recebeu instruções de Lisboa a proibir-me
de voar. O comandante falou comigo e autorizou-me a percorrer o
território, visitando chefes tribais, contactando as populações,
etc.. Comprei uma moto e percorri as estradas do norte de Angola.
Chegava a um quartel onde só era suposto chegar-se em coluna, e ali
andava eu, entrava e saía, sempre com liberdade de movimentos...
E ainda tem hoje uma ligação a África.
Sobretudo a Angola e à Guiné-Bissau. Fiquei em casa de famílias
guineenses e tive acolhimento caloroso. Muito caloroso. Tão caloroso,
que a hospitalidade incluía a companhia de uma sobrinha do chefe da
aldeia...
Conte lá isso, conte lá...
Bem, veja lá: eu ia visitar o comandante do quartel local e ele
ficava muito admirado por eu não pernoitar... Expliquei-lhe que não
podia recusar a hospitalidade daquelas pessoas... Seria uma falta de
consideração...
E a companhia da tal sobrinha?
Foi uma companhia muito agradável. Sobretudo depois daquelas festas
em que a cerveja de palmeira esbatia bastante as diferenças
culturais...
Bem, não lhe pergunto mais nada, a VISÃO é uma revista de família......
[Risos] Voltou a Angola para tentar organizar uma lista de deputados
angolanos às eleições de 1973. Porquê?
Estávamos a tentar organizar uma lista de candidatos para as
eleições de 1973. Com candidatos angolanos, que concorreriam fora
das listas da ANP. Tínhamos apoios fortes, de sectores da
administração, e até de franjas ligadas aos movimentos de libertação.
Não era uma lista para defender a independência, mas uma maior
participação dos angolanos na administração pública, uma maior
integração. Marcelo deu-me ordem de expulsão de Angola. O meu pai
escreveu-lhe a protestar e ele chamou-me, para tomar um chá no Forte
de São Julião da Barra, onde passava férias. Explicou-me que a minha
retirada de Angola ficava a dever-se a questões de segurança.
Agradeci, mas disse-lhe que o principal responsável da DGS (PIDE) em
Angola não sabia nada disso, nem por que razão tinha de me vir
embora. Se era só um equívoco, ia lá voltar. Ele irritou-se e disse
que não admitia o meu projecto, e que a minha presença desagradava
às forças vivas de Angola.
A seguir, Timor. A primeira visita dá-se pouco antes do 25 de
Abril de 1974. Foi visitar o seu amigo Mário Carrascalão, com quem
tinha estudado Agronomia, em Lisboa...
Corri todo o território, fiquei em casas de liurais, foi
inesquecível. Estive lá um mês.
E no regresso, rebenta a revolução.
Estava em Saigão. O Ministério dos Negócios Estrangeiros disse-me
que o Vietname não podia estabelecer relações diplomáticas com
Portugal, por causa da política colonial portuguesa. Eu lá lhe
expliquei que isso qualquer dia resolvia-se, havia o general Spínola,
que estava a agitar as águas, etc. No dia seguinte, foi ele que me
deu a notícia: «A sua revolução ganhou! O seu general lá assumiu o
poder». Ficou convencido que eu estava por dentro do golpe...
E como reagiu ao 25 de Abril?
De Saigão, fui a Macau e enviei um telegrama a saudar o general
Spínola, o MFA e a Junta de Salvação Nacional.
Acabou por entrar na maioria silenciosa [tentativa de golpe de
direita, em 28 de Setembro de 1974]...
A pedido de Spínola, de quem era amigo, desde os tempos da Guiné.
Era uma manifestação de apoio e contra a entrega de Angola, nos
moldes em que se preparava.
Chegou a ser preso?
Quase. Passei a dormir em casa de amigos. Mais tarde, encontrei
mesmo um sargento da Força Aérea que se admirou: «Então já foi solto?»
Resolvi confirmar, para não entrar em mais explicações... A verdade
é que o Copcon chegou a entrar no meu escritório e prendeu o
guarda-livros, pensando que era eu...
Mas comprou esta quinta, em Sintra, nesse período...
Sabia que o sistema marxista não ia vingar em Portugal. Diziam-me
que a URSS se contentaria com as colónias... E investi. Nunca foi
ocupada, porque ocupei-a eu, ainda em obras. E tive aí uns
guineenses, numa espécie de camarata...
Aventuras inimagináveis para os seus primos, espalhados pela
Europa. Conhece-os a todos?
O Grão Duque do Luxemburgo, o Rei da Suécia, o Príncipe do
Liechtenstein, a Família Real da Áustria (os Habsburgos), a Família
Real da Baviera... Conheço-os, vamos a casamentos, festas,
celebrações... Este ano, o príncipe Filipe, da Bélgica, esteve a
passar férias em nossa casa, em Ferragudo. Os jornalistas
descobriram que estava lá e ele sentiu-se perseguido. Expliquei-lhe
que, em Portugal, convidam-se os jornalistas, fala-se com eles,
bebem-se uns copos, eles tiram umas fotos e prometem não chatear
mais. E assim foi.
E como diabo consegue ser descendente do profeta Maomé?
Por via da linhagem da rainha Santa Isabel, que é descendente de um
califa ibérico, por sua vez descendente de Maomé. Quando vou ao
mundo árabe, sou especialmente bem tratado.
Quer dizer que eles acreditam?...
Bem, eles sabem. Está tudo escrito e documentado. E já tentaram
converter-me ao Islão.
Como foi isso?
Foi um príncipe saudita, depois de uma grande conversa sobre
religião. Expliquei-lhe que, em Portugal, isso seria um escândalo.
Mas, mesmo assim, ninguém precisava de saber, insistia. E eu, que
não, que acredito na revelação de Cristo. E ele insistia: «Mas nós
também!» Quer dizer, não havia nenhuma incompatibilidade...
E também descende de Nuno Álvares Pereira.
Essa linha é mais directa. O primeiro duque de Bragança casou com a
filha de Nuno Álvares. Que trouxe, como dote, grande parte das
propriedades que pertenceram aos duques de Bragança, e que deram
origem à Fundação da Casa de Bragança, até à expropriação, pelo
Estado Novo, nos anos 40, após a morte de
D. Manuel II.
Nem a I República tinha tocado nesses bens... Nuno Álvares é a
figura mais interessante da nossa História.
Apesar da sua sensibilidade para a História, sempre esteve
inclinado para a botânica, para a agricultura...
A História é, para mim, um hóbi. E é importante para se perceber o
que se passa à nossa volta. Mas a História foi sempre ensinada em
Portugal como arma política de arremesso. Nunca houve um ensino
distanciado e isento da História. E existe uma grande ignorância,
que leva a resultados como o daquela sondagem em que muitos
portugueses não se importariam de ser espanhóis... Que não
perceberam a vantagem de termos um país que defende a nossa maneira
de ser, a nossa liberdade, a nossa cultura.
O que nos leva a Aljubarrota. De Espanha nem bom vento nem bom
casamento?
O vento não é grande coisa, mas houve alguns bons casamentos. Agora
temos de ser parceiros, é um aliado, não um inimigo. Mas como único
vizinho geográfico, claro que, territorialmente é sempre, em teoria,
uma ameaça. Eles ainda hoje acham e ensinam que foi um erro
histórico terem deixado «fugir» Portugal.
Se, como rei, tivesse poderes similares aos do Presidente da
República, convocaria o referendo do aborto?
Convocaria, se constitucionalmente obrigado. Mas talvez fizesse como
o monarca da Bélgica, que abdicou por um dia, deixando o Parlamento
resolver as coisas. Não concordo com um referendo sobre o aborto,
como não concordaria com um referendo sobre a pena de morte. O que
me preocupa mais, neste referendo, é que se trata, não de
despenalizar, mas de legalizar, tendo como única base a vontade da
mãe, sem que se tenha de invocar motivos de saúde ou outros, de
força maior. É uma iniciativa de puros contornos ideológicos.
Acredita mesmo no regresso da monarquia? No seu tempo ou no dos
seus filhos?
Estou preocupado com a sobrevivência de Portugal como País. Ou
seremos uma região de uma estado federal. Isto vai mesmo contra os
princípios dos próprios fundadores da CE e é uma utopia que pode ser
levada a cabo por políticos pouco escrupulosos.
Mas a monarquia previne isso? Há monarquias em países que estão
no mesmo barco...
Os países com monarquias são os que menos temem essa perda de
identidade e soberania. Sentem-se menos inseguros. Mesmo que não
haja um estado verdadeiramente independente, o país continua a
existir, a nação, em torno de um símbolo como a monarquia. E essa é
a força da instituição.
O senhor tem um conselho político permanente?
Sim, formado por Braga da Cruz, reitor da Universidade Católica,
Paulo Teixeira Pinto, Mendo Castro Henriques, Augusto Ferreira do
Amaral, a velha guarda monárquica, Gonçalo Ribeiro Telles, alguns
antigos ministros. Temos reuniões, no mínimo, trimestrais. Mas a
composição não é rígida.
E isso serve para alguma coisa?
É um grupo de reflexão, para saber o que vale a pena defender como
causas, para o lançamento de ideias, de discussão, nas nossas áreas
de influência.
Continua a emitir mensagens em todos os 1.° de Dezembro?
Sim, umas vezes com mais outras com menos relevo na Comunicação
Social.
E a deste ano?
Ainda não está pronta. Mas falo da independência nacional, das
relações com o mundo lusófono e o papel de Portugal na defesa do
meio ambiente, no quadro da gravíssima situação ambiental do planeta.
Os monárquicos andavam preocupados com a sua falta de interesse
em casar. O que fez muito tarde, aos 50 anos...
Tive intenções de casar, em duas ou três ocasiões. A situação que
levei mais longe foi um relacionamento com uma amiga meia russa,
meia polaca. Visitei muito a Rússia, nessa altura, era o consulado
do Gorbachev. Gostei muito da Rússia, dos russos e até aprendi a
língua. Tenho lá amigos. Alguns estavam no KGB e hoje são
monárquicos...
Vladimir Putine é uma espécie de Czar?
Acho que sim. Os russos gostam de lideranças fortes, que garantam
segurança e estabilidade. Não gostam de um poder fraco. Associam-no
a desgraças. Ele tem um estilo czarista.
No seu casamento, em 1995, que foi de Estado, fez questão de
convidar o Presidente da República. Porquê?
Tenho grande consideração pelo dr. Mário Soares. Estiveram, também,
o primeiro-ministro, Cavaco Silva, membros do Governo e cerca de 70
presidentes de Câmara, metade dos quais comunistas. Foi um casamento
muito ecuménico...
Mário Soares, que escreveu um depoimento para a sua biografia,
foi preterido por Manuel Alegre, para apresentar o livro, em Lisboa...
Dentro do PS e da intelectualidade da esquerda, em Portugal, é a
pessoa mais ligada à tradição e à cultura histórica. E foi o homem
que, como deputado, propôs que a República estabelecesse um lugar,
no protocolo de Estado, para o representante da Casa Real, o que
nunca foi feito. Nunca sabem onde hão-de sentar-me. Deve ser por
isso que, agora, recorrem tanto às mesas redondas...
E votou nas presidenciais?
Não voto nas presidenciais. E, nestas eleições, não podia mesmo
tomar partido: todos os candidatos eram excelentes. Na verdade, só
voto nas autárquicas.
Então, não pode candidatar-se a Belém, apesar dos conselhos do
falecido Ronald Reagan.
Com efeito, numa recepção na Casa Branca, ele tentou convencer-me a
candidatar-me. Disse que Portugal era o mais seguro aliado dos EUA,
com o Reino Unido, e que, pelo contrário, de Espanha nunca era de
esperar nada de bom. Mais, não se importava de ver uma monarquia no
nosso país. Não sendo possível, porque não candidatar-me, para o
povo me ir conhecendo e para poder preparar esse caminho? «E se eu
perco?», contrapus. «Não perde.» Bem, Claro que nenhum monárquico
português concordou com a ideia...
Assim, nos tempos livres, dedica-se à agricultura...
Tenho a minha horta e cultivo os meus próprios legumes biológicos. E
também racho a minha lenha. E tenho um excelente jardineiro, que
trata muito bem das coisas.
Costuma viajar por todo o Mundo, representando o que diz ser a
«marca Portugal». De onde vêm os fundos para essas viagens?
A Fundação D. Manuel II suporta as viagans de carácter mais oficial.
A Timor, Angola, no quadro de programas da fundação. Por exemplo,
recentemente, na Guiné, estabelecemos um serviço de certificação de
produtos de agricultura biológica. Agora, para ir a casamentos, já
são despesas particulares. Mas enfim, viajamos em turística, ficamos
em casa de amigos...
E de onde vêm os seus rendimentos?
Sobretudo de prédios arrendados, alguns com rendas muito antigas. No
Chiado, em Lisboa, tenho uma inquilina com 110 anos, a D. Maria
Luísa...
Ena! Do tempo da monarquia!
Exactamente. E, de vez em quando, lá vou tomar chá com ela.
Fartamo-nos de conversar. E a D. Maria Luísa não se cansa de falar
da rainha D. Amélia...