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Dom DUARTE DE BRAGANÇA EM ENTREVISTA AO
JTM
Preservação da identidade é a “grande luta” de Macau
Seis anos após a transferência de
poderes, D. Duarte de Bragança considera que a “grande luta” de
Macau deve assentar na preservação da sua identidade cultural e
física. Em entrevista ao JTM, o duque de Bragança defende também que
Portugal deve aproveitar o importante papel que é desempenhado pelas
Casas de Macau e instituições de matriz portuguesa do território
VITÓRIO CARDOSO Em Portugal
“A
construção excessiva na área da península e a falta de respeito pela
paisagem fazem com que Macau perca a diferença que lhe dá valor”,
afirmou ao JTM o Chefe da Casa Real Portuguesa, Dom Duarte Pio, ao
sustentar que o território deveria definir como “grande luta
prioritária” a preservação do património e da sua identidade
cultural e física.
O XXIV Duque de
Bragança sublinhou que quota parte da culpa poderá ser imputada ao
sector imobiliário, ao alertar que os vários projectos de construção
podem beneficiar a curto prazo as empresas do ramo, “mas a longo
prazo transformam Macau numa cidade igual a outras tantas da China”.
Esta situação, disse, “já foi infelizmente, iniciada por um dos
últimos governadores portugueses que deixou construir muitas
coisas”.
Na entrevista ao
JTM, Dom Duarte de Bragança, o príncipe herdeiro da Coroa
Portuguesa, começou por recordar que a primeira vez que visitou o
território foi em 1974, a seguir a uma visita ao Vietname durante o
25 de Abril. Desse período, em que se sentiu preocupado com Macau, o
duque de Bragança recorda-se especialmente de um encontro com as
autoridades chinesas, lembrando que “tentei convencê-los,
nomeadamente a pessoas importantes dentro do Partido, que seria
muito mais benéfico para a República Popular da China, manter Macau
com o estatuto que tinha”. “Alguns membros da missão disseram que eu
tinha razão, que era verdade, mas que por uma questão simbólica era
importante a reunificação”, acrescentou.
Depois dessa
primeira visita a Macau, Dom Duarte de Bragança regressou ao
território por mais duas vezes, por ocasião da inauguração do
Aeroporto de Macau e, em 1998, numa viagem organizada pelas Reais
Associações e, desde então, garante que tem acompanhado de perto a
evolução e desenvolvimento da RAEM.
Dom Duarte de
Bragança considera que é “óbviamente importante” o desenvolvimento
da Língua Portuguesa em Macau, mas não acredita que esta possa um
dia desaparecer da actual Região Administrativa Especial da China.
“A Língua aprende-se, desaprende-se e volta-se a aprender. Em Goa
toda a gente tinha esquecido o Português e hoje em dia começa-se a
aprender outra vez”, salientou.
Perante o franco
desenvolvimento económico de Macau e o constante reforço da presença
no espaço lusófono, o Duque de Bragança lembra o importante papel
das Casas de Macau e das instituições de matriz portuguesa do
território para defender que devem ser aproveitadas por Portugal
para reforço da cooperação económica e cultural.
No presente
enquadramento, em Macau ou ligada a ela, o Duque de Bragança
considera designadamente que é importante apostar em instituições
académicas, grupos de trabalho de matriz portuguesa em Macau, Casas
de Macau ou instituições várias, para que realmente se discuta,
preveja e estudem possibilidades de intervir nesta região do mundo,
e em particular na China.
IMPORTÂNCIA DOS MACAENSES.
Outra das preocupações que o Duque de Bragança revelou ter no centro
das suas atenções prende-se com a comunidade macaense. Salientando
que Portugal deveria ter em consideração os macaenses como elo
importante de ligação, D. Duarte de Bragança sugeriu que “o Governo
Português devia ter assessorias macaenses” que contribuissem para
uma melhor compreensão de que como se trabalha na China actual e
“utilizar Macau, de facto, como uma testa de ponte nas relações
entre Portugal e a China”.
“É um lugar comum,
toda a gente diz isso, mas só que na práctica creio que se podia ser
feito muito mais do que está a ser feito”, advertiu, para defender
que “Macau poderia ser um ‘instrumento de propaganda’ de Portugal na
China, em primeiro lugar, e também no Oriente, no Japão e nos países
vizinhos”.
Para o herdeiro da
Coroa Portuguesa, deveria ainda existir uma acção concertada entre
as empresas privadas que “fazem muita coisa” e o Estado, porque
dentro do próprio Estado, “muitas vezes não há coordenação entre os
serviços diferentes, como o IPPAR, o Comércio, o Turismo ou a
Diplomacia”.
Em tom crítico, D.
Duarte Pio de Bragança referiu ainda que Portugal tem uma extensa
rede diplomática, defendendo que seria preferível uma reestruturação
orientada para países tidos como estratégicos. Citando como exemplo
o caso da embaixada portuguesa em Pequim, D.Duarte recorda que “
“quando estive lá, era um terceiro ou quarto andar esquerdo, uma
coisa completamente insignificante, que as autoridades chinesas
consideravam até uma falta de respeito”.
“O problema residia
no facto de Portugal ter uma relação de 500 anos com a China e de
ter uma embaixada tão pobrezinha fisicamente, com mau aspecto. Temos
embaixadas a mais - até em Chipre e Malta - e só mais tarde fomos
capazes de ter uma embaixada em condições em Pequim”, disse.
ELOGIOS A ROCHA
VIEIRA. D. Duarte de Bragança não se escusou também a efectuar uma
avaliação sobre a forma como foram conduzidos os desígnios nacionais
pelo último Governo de Macau, classificando-a de claramente
positiva.
“O General Rocha
Vieira, foi um dos melhores Governadores da história de Macau, pelo
menos desde o século XX. De facto, fez aquilo que podia fazer, que
era utilizar os fundos que tinha, para reafirmar a memória, com
museus excelentes que foram feitos, com os restauros dos edifícios
antigos da praça muito bonita - Largo e Beco do Lilau- e de outros
edifícios históricos, que já estavam com muito mau aspecto”, frisou.
Lembrando ainda que
Macau fomentou um excelente relacionamento entre Portugal e a China,
o Chefe da Casa Real não hesitou em classificar Rocha Vieira como
“um Governador excelente, em todos os aspectos” para confessar que
sente “imensa pena que a República Portuguesa não utilize mais a sua
capacidade, hoje em dia”.
( Vitório Cardoso, "Dom Duarte de Bragança
em entrevista ao JTM - Preservação da identidade é a «grande luta» de
Macau" in Jornal Tribuna de Macau, Janeiro de 2006.) |