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Entrevista a S. A. R. o Duque de Bragança
“Diz-se com alguma ênfase
que Portugal está na moda para o exterior, mas é necessário que Portugal
esteja na moda antes de mais para os próprios portugueses”.
1 - Esta frase do Senhor Dom
Duarte traduz a fraca auto-estima nacional. Considera que para atrair o
investimento estrangeiro (uma das preocupações deste Governo) Portugal tem
de reforçar o “orgulho nacional”? A imagem de marca de Portugal lá
fora passa por uma prévia afirmação da imagem para dentro? Em resumo o que é
que Portugal pode fazer para cativar o investimento estrangeiro? Em que
áreas é que poderia apostar?
R: Antes de tudo, devemos
ter uma Administração Pública que ,acautelando os interesses nacionais,
facilite o trabalho dos investidores. Não é ao demorar dois anos a autorizar
um projecto que se encoraja o investidor!
A legislação deve ser
actualizada. Ouvi um ex - Primeiro-Ministro dar o exemplo da Irlanda. Tenho
pena que ele não tenha visto isso quando estava no Governo...
A Irlanda formou a sua população, preparou-a
para a concorrência na União Europeia e criou leis que facilitam a
produtividade.
Em vez disso, nós investimos no cimento em
vez de investir nos cérebros !
Não é desse modo que reforçaremos o orgulho
nacional mas, sim, preparando a nossa gente para sermos melhores que os
outros!
Não podemos esquecer também que sem uma
justiça com meios humanos e materiais, um país não pode funcionar.
A reforma da lei das rendas é também um
passo essencial que felizmente o Governo teve agora a coragem de abordar.
2 – Um regime Monárquico ajudaria Portugal a
ter uma melhor “imagem nacional”?
R: Em todos os países que têm Reis e Rainhas
como Chefes de Estado, estes desempenham um papel muito importante na
promoção da imagem internacional do seu país.
Não é por acaso que estes países são sempre
democráticos e contam-se entre os que têm maior índice de desenvolvimento
humano em todo o mundo. Algumas Repúblicas também podem contar com os seus
Presidentes para este fim mas, geralmente, falta-lhes o carisma que a
Monarquia dá aos Reis, mesmo os de países muito pequenos como o Mónaco e o
Liechtenstein.
Não é só uma questão de imagem, mas de
realidade..
Em resumo, a Monarquia é o regime mais
“ecológico” pois corresponde à estrutura mais natural da sociedade.
3 – Um dos sectores onde Portugal pode ser
competitivo, em termos económicos, é o Turismo. Como é que este pode ser
dinamizado? Consta que a Fundação da Casa de Bragança, da qual S.A.R. é
Presidente, não tem investido na recuperação de monumentos históricos que
estão degradados. Porquê? Não acha que este investimento poderia dinamizar o
turismo? Considera que as autarquias deveriam ter um papel nesta
recuperação? De que forma?
R: A Fundação da Casa de Bragança foi criada
com as propriedades dos Duques de Bragança, nos anos 40, após a morte do Rei
D. Manuel II.
Por mais estranho que pareça não tenho
qualquer ligação a ela mas, ao que sei, tem mantido e restaurado os
monumentos que a constituem.
Esta conservação deveria ser feita pela
Direcção Geral dos Monumentos e Edifícios Nacionais que tem excelentes
técnicos.
Actualmente, há uma certa sobreposição com o
IPPAR, que também tem excelentes técnicos e arquitectos, mas cuja filosofia
vai mais no sentido de fazer “intervenções” modernas nos monumentos antigos.
Por vezes, alteram muito os próprios monumentos...
Não concordo com essa “alteração da nossa
memória colectiva” feita com o argumento de que “ temos de marcar a nossa
época”...
Não condeno os dedicados e competentes
funcionários do IPPAR mas é ao Estado que compete definir a filosofia, de
acordo com a opinião nacional devidamente informada.
4 – O Governador do Banco de Portugal, Vítor
Constâncio, alertou recentemente para a alteração da composição do
crescimento da economia portuguesa depois de conhecidos os dados do segundo
trimestre publicados pelo INE (Instituto Nacional de Estatística). “Temos
agora mais despesa interna, com maior consumo privado e maior consumo
público, e um aumento do desequilíbrio do comércio externo com o forte e
inesperado aumento das importações”, afirmou. O Governador do Banco de
Portugal disse que se assiste a um novo aumento do endividamento das
famílias e do Estado e a uma ligeira quebra da taxa de poupança privada.
Considera que este é o melhor caminho para a Economia portuguesa entrar em
retoma? Acha preocupante a fraca performance das exportações portuguesas?
R: Como não podemos impedir a importação excessiva de produtos
estrangeiros, há que levar os portugueses a perceber que é do seu interesse
pessoal preferir a produção nacional, sempre que possível.
Mas a Administração Pública deveria dar o
exemplo!
Todos os governantes e toda a Administração
Pública deveriam dar preferência a carros fabricados em Portugal, como
acontece em todos os países normais . O carro da nossa família é o excelente
Sharan fabricado em Palmela.
Já as Forças Armadas contribuíram para a
falência da fábrica dos UMM ao preferirem comprar jipes no estrangeiro,
com excepção da GNR.
E a Sorefame-Bombardier quase falia
enquanto a CP comprava as carruagens dos comboios Alfa-Pendular em Itália...
Quando nós compramos fruta importada,
atiramos a nossa agricultura à falência e o mesmo é válido para todos os
sectores. É uma simples questão de raciocínio lógico e de civismo, e ambas
matérias não são ensinadas nas nossas escolas…
Consta-me que a Senhora Ministra da Educação
tenciona criar uma disciplina de “Cidadania “, para tratar desses assuntos e
da ética e moral. Seria excelente !
5 – O fim dos benefícios fiscais (para os
Planos de Poupança Reforma), anunciada pelo Ministro da Finanças, é uma
medida justa? Quando tem que investir as suas poupanças, o que é que mais o
atrai: a Bolsa, os certificados de aforro, imobiliário, outras? Se
dependesse do Senhor Dom Duarte, que medidas (com impacto na Economia)
teriam de ser urgentemente tomadas? Defende a redução do poder do Estado na
Economia? A que funções deveria estar o Estado reduzido numa sociedade? Às
funções sociais, por exemplo? Como se pode conciliar a moral cristã com o
espírito “especulador” dos mercados de capitais? É possível ter uma visão
cristã da economia de mercado?
R: Sempre achei injusto, porque arbitrário,
alguns investimentos terem mais benefícios fiscais que outros.
E se eu quiser economizar para a minha
reforma, investindo em apartamentos? É o que tenho feito, valorizando os
apartamentos que alugo.
Acho que o Estado deve proteger o bem comum,
o ambiente, a soberania nacional, o património cultural, etc.. E colocar os
impostos necessários para isso e para manter as infra-estruturas.
Mas não é justo o Estado espoliar os
cidadãos que trabalham e produzem para sustentar um excesso de funcionários
e, sobretudo, sustentar quem não quer trabalhar.
Precisamos de menos Estado mas melhor
Estado!
Quanto à visão cristã, deveria guiar os
nossos investimentos para empresas e iniciativas que produzam riqueza em
Portugal, e levar-nos a não investir em empresas que actuem de forma
prejudicial para as populações portuguesas ou mesmo estrangeiras.
Por exemplo, as
associações, os sindicatos, etc., deveriam boicotar os produtos provenientes
de países que não respeitam os direitos humanos e laborais de forma grave,
ou os navios de bandeiras de conveniência. Na Europa importamos coisas
fabricadas com trabalho escravo, em campos de concentração onde vegetam
centenas de milhares de prisioneiros políticos…
Toda a gente sabe disso mas fechamos os
olhos. Só a África do Sul e a Líbia é que foram boicotadas, que me lembre...
Dom Duarte de Bragança
Entrevista em Diário
Económico. |