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Intervenção em Serralves
Dom Duarte de Bragança
Aceitei este honroso convite de um debate com o Sr.
Prof. Arquitecto Souto Moura por considerar que, embora seja um leigo na
matéria, sou um utilizador, um consumidor atento do trabalho dos
arquitectos e urbanistas.
Lembro-me bem que, quando era criança, estranhava
e lamentava o facto de as construções modernas nunca terem a beleza das
antigas, e perguntava aos crescidos porque era assim?
Normalmente respondiam-me que tinha que ser assim
porque hoje já não se sabia construir como dantes. Alguém
disse-me até que desde que a república tomou conta de Portugal perdeu-se
o sentido da harmonia, pois o importante era a revolução. Outros diziam
que a harmonia era o reflexo da obra de Deus e agora Deus tinha sido
expulso da nossa sociedade.
Com este tipo de influências na minha infância não
admira que as tendências reaccionárias se tenham entranhado no meu
subconsciente de então...
Mas com o passar dos anos e a adolescência, pus em
causa muito do que me disseram na infância e procurei perceber a beleza
da arquitectura moderna. E descobri que se tratava às vezes não era de
construir casas mas sim belas esculturas que servissem também para lá
viver e trabalhar. Ainda hoje fico deslumbrado com a perspectiva da
avenida dos ministérios em Brasília e com a beleza dos seus palácios
e da sua Catedral e da Igreja de D. Bosco! E sob essa perspectiva
tenho que admirar muitas das obras dos nossos arquitectos contemporâneos
portugueses...
Não tenho dúvidas de
que a arquitectura, para além de ser uma técnica é sobretudo uma arte,
e é sem duvida a única arte realmente importante para a nossa vida.
Ao contrário da pintura,
da música, etc., as quais podemos escolher ou evitar se nos desagradam, nós
não podemos fugir, não podemos evitar o resultado da obra dos
arquitectos, que na verdade molda o futuro das comunidades humanas que lá
vivem
Durante milénios a
arquitectura foi fruto da cultura dos povos.
Quem construía eram
artesãos que iam aprendendo com os seus mestres.
A extraordinária arte
dos construtores de catedrais, castelos e palácios foi preservada e
desenvolvida pelas Corporações de pedreiros livres cujos mestres
ensinavam o que sabiam aos seus alunos e circulavam por toda a Europa.
Instituições
semelhantes existiram em todas as grandes culturas do velho e do novo
mundo, no Oriente e no Ocidente.
Como em outros aspectos
da vida, a industrialização pôs em causa muitos dos valores das
sociedades tradicionais.
No séc. XX vimos
desaparecerem muitas culturas esmagadas pela globalização.
Felizmente assiste-se
hoje a uma reacção, e pela primeira vez de há muito tempo, as elites
culturais aceitam essa reacção como justa, em vez de insultar os seus
militantes com epítetos tais como retrógrados, reaccionários,
contra-revolucionários, etc.
Felizmente esta reacção
é uma bandeira das esquerdas políticas, desiludidas com o marxismo e
inseguras quanto ao significado do socialismo..
Os partidários da
globalização encontram-se hoje entre os devotos da “religião”
fundamentalista do progresso universal e entre os mais entusiastas
apoiantes do capitalismo liberal e apátrida.
Estranhamente os
intelectuais de esquerda em Portugal só não contestam ainda a globalização
em matéria de arquitectura.
Será que esta atitude
está relacionada com a origem ideológica do modernismo?
O movimento modernista
faz parte da corrente ideológica socialista que pretende criar um homem
novo cortando com as raízes culturais que transmitem todos os vícios e
comportamentos do passado: religião, família, estrutura económica e forçosamente
arquitectura.
O socialismo hoje é
basicamente uma doutrina moral que pretende acabar com as injustiças
sociais e lutar pela igualdade de direitos entre todos.
A vontade de
despertar o proletariado para a luta de classes está na origem do
urbanismo social do séc. XX.
Pela primeira vez na
Europa a população das cidades foi dividida em bairros conforme a sua
condição económica.
Os mais pobres vivem em
“ghetos”, a burguesia remediada na cidade tradicional e os ricos vão
viver para condomínios fechados.
Mas as consequências
dessa lógica urbanística foram desastrosos para as suas vítimas...
Em toda a parte os
chamados “bairros sociais” modernos são focos de infelicidade e
produzem o comportamento marginal dos jovens e agravam as causas da
pobreza.
Não só os regimes
comunistas criaram a sua arquitectura simbólica, também os regimes
fascistas o fizeram e até Portugal teve a sua arquitectura do «Estado
Novo». Vários grandes arquitectos portugueses se entusiasmaram por essa
tendência.
Em reacção surgiu entre
nós o movimento liderado por Raul Lino.
Cito um
artigo do Professor Cornélio da Silva:
“O conhecimento que
adquiriu dos edifícios portugueses mais exemplificadores da nossa arte de
edificar, privilegiou-o face aos seus contemporâneos nacionais, formados
numa arquitectura burguesa dominante de importação francesa. A voz
nacional corrente no domínio da arquitectura não reconhecia os variados
modelos do património formal, tanto erudito como vernacular. Limitava-se
a opor uma tradição construtiva despojada de finais do sec. XVIII
que ainda perdurava, denominada de “estilo pombalino.”
Raul Lino de posse
de uma cultura estruturalmente sólida e europeia, completada também por
uma apreciável formação musical, conseguiu ver mais longe e de forma
idealizada os factores estruturantes e condicionantes da expressão
cultural portuguesa pela sua actividade de arquitecto. Na verdade soube
ver e ler em Portugal os ingredientes que mais tarde uma grupo de
pensadores igualmente viriam a identificar sob outras análises,
como base de uma vocacionada identidade biológica, geográfica, social e
política denominada Integralismo
Lusitano.”
São a arquitectura e o urbanismo contemporâneos,
na sua substancia comparáveis à complexidade dos resultados alcançados
pelas outras épocas? É verdade que uma cidade inteiramente barroca não
revela necessidade de uma presença gótica e que as cidades
renascentistas dispensam os vestígios de outras épocas. Será que as
criações recentes são detentoras da mesma capacidade?
Será que o movimento
moderno, autoproclamado como expressão única da sua época, está à
altura das suas ambições?
Será que a formidável
criatividade mecanicista da era industrial encontrou realmente o seu
equivalente, ao nível da arquitectura e do urbanismo?
Será que o urbanismo do
séc. XX é apenas capaz de se revelar como um “suburbanismo” e este
tornou-se como o próprio símbolo dos efeitos perversos de se
“viver em sociedade” ?
Mas existirá
realmente uma arte de criar e conceber as cidades de hoje ? Cidades
capazes de nos atrair e seduzir, cidades que nós iríamos escolher para
viver ? Existe, de facto, uma escolha em matéria de arquitectura?
Gostaria de citar o Arq.
Léon Krier, que afirma:
“Existem actualmente,
dois tipos de arquitectura. Uma pública, uniformizante, de estilo
internacional, que pode ser interpretada como arrogante, mesmo
provocadora; a outra privada, frequentemente baseada nos modelos
regionais, procurando integrar-se de forma natural e harmoniosa nas
diferentes paisagens.
A primeira é o produto
da arquitectura oficial, das encomendas, e concursos “públicos”
controlados: simbolizam-na em geral os grandes conjuntos, equipamentos e
instituições (hospitais, escolas centros culturais, etc).
A segunda, resultante
unicamente da promoção privada, inclui as habitações individuais e,
mais recentemente, grandes conjuntos de lazer adaptados às regiões, seja
isso na Virgínia, na Provence, na Nova Inglaterra, nas Bahamas, na
Baviera, na Toscânia ou mesmo em Portugal.
Ora, perante esta
realidade democrática maciça, os ideólogos, não se podem dar ao
luxo de a ignorar, tomam uma distância denunciadora. Ao invés de
investirem neste fenómeno da sociedade de maneira inteligente, de o
civilizarem através da critica e da pedagogia, refugiam-se no desprezo.
No entanto nos países
democráticos avançados a arquitectura de lazere do sector residencial não
subsidiado é presentemente dominada por concepções que pertencem à
arquitectura tradicional.
Os grades estaleiros
urbanos de Richmond, Port Grimaud, Gassin Sea Side , Florence, Potsdam,
etc., revelam que os grandes equipamentos modernos, ou seja, bairros
inteiros derivados de uma arquitectura e urbanismo tradicionais podem ser
realizados em prazos extremamente curtos, com capacidade de resposta às
exigências da sociedade industrial desenvolvida. Aqui temos,
talvez, as primeiras grandes realizações de uma modernidade serena e cívica,
ou seja, não alienante, nem Kitsch, nem agressiva.
A liberdade de escolha, a
liberdade de expressão e o respeito pelas leis constituem as virtudes
principais da democracia política. Uma pluralidade de estilos de vida,
de credos e, portanto, de estilos de arquitectura e de cidade constituem
a expressão natural deste conceito. Não pode existir um único estilo
“democrático”, assim como não poderá existir um “partido democrático
único”.
É um erro atribuir a
responsabilidade do aspecto caótico das nossas cidades e dos nossos
campos ao pluralismo democrático. Ele, por si só, também não exprime
de forma alguma o fundamento pacífico, organizado e convencional da
sociedade civil e não facilita o seu desenvolvimento harmonioso.
As diferenças de opinião
podem conduzir a um conflito ou solucionarem-se num debate civilizado. A
pluralidade de visões urbanísticas e arquitectónicas ao invés de
tender para uma desordem generalizada, pode ser canalizada a fim de
produzir uma pluralidade de cidades e aldeias extremamente diferentes na
sua estrutura, na sua arquitectura, na sua densidade; cada uma segundo a
sua própria unidade e harmonia. A sua especificidade.
A exacerbação das
diferenças, por um lado, e a confusão das diferenças, pelo outro,
constituem os limites extremos da virtude democrática. Democracia é sinónimo
de, acima de tudo, convívio de diferenças e o seu desenvolvimento
num quadro de tolerância. A existência de partidos contrastados é
largamente aceite como base constituinte da vida política. Os partidos
políticos não se encaram mutuamente como inimigos mortais, mas como
representantes que procuram a realização de projectos políticos, por
vezes opostos, sem pôr em causa a sobrevivência do sistema político.
Cabe o mérito à Revolução Americana, pelo facto de ter instituído a
tolerância como fundamento do debate democrático. Tolerância não
implica o abandono de certezas: pelo contrário ela oferece às variadas
preposições políticas e, por extensão , às distintas e diferenciadas
concepções de cidade e arquitectura, a sua oportunidade de realização
de forma coerente, sem compromisso depreciador.
Neste final do séc. XX,
o pluralismo arquitectónico parece revelar dezenas de anos de atraso em
relação ao pluralismo político.
A própria configuração
das cidades é uma questão de escolha e não de fatalidade; aqueles que
pretendem o contrário optam por não reconhecer que o aspecto desordenado
das nossas cidades não se deve a um “laisser-faire”
desenfreado, mas à materialização duma ideologia errada de planificação.
A crise das periferias constitui uma ilustração trágica disso.
O vazio teórico e prático
criado durante 50 anos de dogmatismo devastou tanto os espíritos como as
cidades. Ao nível da teoria da arquitectura, os novos dogmas da
incerteza, da ironia, da desconstrução, da ruptura, da
descontinuidade e do substituível opõem-se a todo o pensamento lógico
e explícito.
Aristóteles afirmava que
a democracia não constitui uma forma de governo ideal, mas que ela é, em
todo o caso, preferível à tirania. É necessária uma grande
pluralidade de arquitectos, comparável à imagem dos meios políticos que
se toleram e organizam, para garantir a saída do actual caos das
cidades e das mentalidades.
Se o desenvolvimento da
democracia cultural parece mais lento do que o da democracia política, as
suas manifestações concretas naquilo que se refere à arquitectura,
tornaram-se de tal forma evidentes que é impossível ignorá-las.
Com efeito, pode-se
afirmar que a diversidade na concepção da cidade e da arquitectura
constituem um complemento e uma ilustração necessária à diversidade de
expressões políticas.
A modernidade arquitectónica
não pode ser um fenómeno unitário e indivisível, mas inclui manifestações
contrárias, contraditórias, em todos os campos pluriformes.
A única certeza que
podemos ter quanto à arquitectura futura é a de que o reino da
democracia de partido único foi deposto.”
Este pluralismo incontornável
não conduz necessariamente as cidades ao caos; ele contém o germe de uma
liberdade de escolha fundamental.
Se a existência de
grupos de pressão que procuram influenciar o processo de decisão em matéria
de arquitectura e urbanismo é aceite como um facto, desconhece-se a existência
de um grupo de acção cívica que procure influenciar o
“design” de aviões, frigoríficos ou de cadeiras de dentista. A
autoridade das profissões que cumprem as suas promessas não é
contestada senão raramente.
Com efeito, a reivindicação
de intervenção constitui uma declaração de desconfiança dirigida
apenas ao modernismo, pois não existe um movimento de crítica, contestação
e protesto contra a arquitectura tradicional. Os arquitectos atribuem a
responsabilidade dos terríveis insucessos do pós-guerra ao facto de que
teriam apenas influenciado uma ínfima parte da actividade de construção.
Aqui ignoram-se dois
factos importantes: se os arquitectos tivessem controlado integralmente o
mercado de construção – como era o caso na Ex-União Soviética e nas
cidades novas -, os efeitos do modernismo teriam sido ainda mais graves;
nas grandes culturas arquitectónicas do passado, a maior parte dos edifícios
domésticos não era projectada por arquitectos, mas por mestres
construtores seguindo os parâmetros do costume. A autoridade moral e artística
dos arquitectos não era contestada pois os seus modelos eram imitados,
tanto pelos ricos como pelos pobres.
A autoridade da
arquitectura tradicional, que perdura nos países democráticos, não pode
ser justificada pela ignorância popular, por uma imposição autocrática
ou pela manipulação psicológica. É uma tendência profunda do mercado,
que transcende as flutuações dos gostos e das modas.
As culturas tradicionais
desconhecem, tal como paradoxalmente é o caso nas democracias actuais,
esse fosso intransponível entre cultura de elite e cultura comum.
Os gostos diferem em
qualidade e refinamento, mas não na substância ou na forma. Não
constitui uma ironia o facto de, em democracia, o gosto popular se
encontrar mais próximo dos ideais formais, aristocráticos, do que certas
modas artísticas liberais?
Um dos caso de sucesso da
arquitectura contemporânea é o museu Guggenheim em Bilbao, e até
é conhecida a expressão “Efeito Bilbao”, como exemplo
da reanimação cultural e económica de uma cidade histórica.
Mas a verdadeira história
não é conhecida...
A Câmara Municipal
queria construir o museu numa zona histórica, mas o arquitecto
Gehry recusou-se a alterar o perfil do “casco viejo” e escolheu
uma zona suficientemente afastada da área histórica (onde aliás os edifícios
novos são obrigados a seguir a arquitectura tradicional do bairro).
Ele escolheu uma zona sem
“memórias históricas” pré-existentes, demonstrando um respeito pelo
passado que em Portugal nem sempre é praticado pelos responsáveis autárquicos.
Hoje as visitas ao museu
diminuíram muito, pois o que as atraía era a curiosidade pelo objecto
raro, não o seu conteúdo; mas Bilbao melhorou globalmente devido a
muitos outros projectos: saneamento do rio, um excelente metropolitano,
centro de exposições uma exemplar obra de restauro dos bairros
históricos.
É sabido que 80% dos
turistas na Europa querem visitar cidades e bairros históricos.
Se o dinheiro gasto na
Expo ou no C.C. de Belém tivesse sido investido, em parte, no restauro de
Alfama, o impacto económico teria sido muito mais positivo.
Em Portugal os técnicos
do IPPAR têm trabalhado com entusiasmo e dedicação no restauro
dos nossos monumentos mas seguindo o critério de intervenções por vezes
muito chocantes.
Defendem que “o
contraste fica bem”.
Se alguém realiza uma
viagem longa para visitar um castelo medieval, está interessado em
sentir-se na Idade Média e não em ver as intervenções contemporâneas.
Bem sei que o IPPAR
apoia-se na “Carta de Veneza”, criada em 1964 para dar uma base
coerente e contemporânea à conservação e restauro dos monumentos
antigos. Ela é para os monumentos antigos aquilo que a Carta de Atenas
foi para o urbanismo, em 1931: um manifesto modernista.
Ela conseguiu de tal
forma modificar as atitudes, que os seus princípios são hoje aceites
como dogmas entre os especialistas, que não parecem questionar os
resultados obtidos.
Em resumo: a Carta de
Veneza diz que o restauro deve ser excepcional e que a consolidação de
um monumento pode ser assegurada fazendo apelo a todas as técnicas
modernas.
Artº 11 : a unidade de
estilo não constitui um objectivo a atingir durante o curso de um
restauro.
Artº 12 : Os elementos
destinados a substituir as partes que faltam devem-se integrar
harmoniosamente no conjunto, distinguindo-se das partes originais, a fim
de que o restauro não falsifique os documentos da arte e da História.
Infelizmente, os
resultados destas regras têm levado a que os restauros se tornaram num
instrumento de conservação de ruínas e bocados e não das belas obras
de arquitectura que se deveriam proteger.
Todos os edifícios
precisam de restauros, e o facto de um monumento ou um simples moinho, ter
sido negligenciado e caído em ruínas, não deveria impedir que fosse
restaurado na sua plenitude original.
O Artº 15 diz: “todo o
trabalho de reconstrução deverá ser excluído a priori. Os
elementos de integração serão sempre reconhecíveis...
Ora para uma obra manter
o seu carácter próprio e a sua unidade é necessário usar o
mesmo tipo de materiais e técnicas que se usou na sua construção
original.
De resto, quando se trata
de restaurar edifícios modernistas, o critério é o de absoluta
fidelidade ao desenho original...
Porque será que só os
monumentos modernistas é que merecem este respeito ? Será por
preconceito ideológico ou de classe ?
A Carta de Veneza
transforma os trabalhos de restauro em actos de violação obrigatória,
no caso dos edifícios pré-modernistas.
Parece-me tão absurdo
como querer restaurar um quadro ou um móvel renascentista ou medieval,
usando alumínios e plásticos, para “marcar a nossa época”.
É isto que estão a
fazer aos nossos castelos e mosteiros.
Em vez de restauros temos
“intervenções” que alteram o carácter do monumento.
E o prazer dos
visitantes, que é o de fazer uma “viagem no tempo” é destruído
em benefício da satisfação intelectual e do “ego “ dos técnicos e
especialistas.
Em Castelo Rodrigo ouvi a
revolta da população e dos autarcas perante as obras lá
realizadas . Acusavam os técnicos de serem ditadores. Comentei isso
com um jornalista local e, sem querer , provoquei grande descontentamento
na direcção do IPPAR, expressa numa carta assinada por todos os responsáveis.
Espero que estas minhas
afirmações de hoje sejam aceites como uma divergência de critérios
e não como uma agressão a uma instituição cujos membros muito admiro e
aprecio e que tem feito também muito de bom.
Em geral, as populações
e os visitantes ficam chocados com estas experiências. O caso dos dois
edifícios em forma de paralelepípedos que construíram dentro das
muralhas de Sagres causou grande polémica internacional.
Outras agressões do
mesmo género passam despercebidas.
Pergunto: será legítimo,
em Democracia, alterar os nossos monumentos à revelia dos seus
utilizadores e verdadeiros proprietários? Em países verdadeiramente
democráticos os casos mais polémicos são geralmente resolvidos com
recurso a referendos regionais; esta seria uma boa solução para o nosso
caso, desde que ambas as partes pudessem expor as suas razões com o mesmo
“tempo de antena “...
Mesmo em vilas impecavelmente preservadas, onde aos
habitantes se exigem grandes sacrifícios para não alterar a
traça das suas casas, o Estado permite-se alterar completamente a traça
da localidade construindo uma pousada, uma escola, uma Câmara
Municipal completamente desintegrados !
Nem vale a pena citar
exemplos ... mas a nova torre em frente à Sé do Porto ou a
fortaleza marroquina em frente aos Jerónimos são emblemáticos desta
mentalidade , que considera que a nossa geração tem o direito de
destruir a harmonia e as perspectivas dos monumentos e paisagens que fazem
parte do nosso imaginário colectivo.
Espero que este encontro,
que se deve à disponibilidade, que agradeço, do Sr. Prof. Souto Moura e
da Sra Arquitecta Helena Roseta em dialogar com alguém que não pertence
à profissão, e ao espírito de abertura e criatividade da Fundação
Serralves, sirva para começar um diálogo entre os vários responsáveis
e intervenientes pela arquitectura, urbanismo e restauro em Portugal,
criando um confronto criativo entre as duas tendências que em todo o
mundo dividem os responsáveis pelo sector.
Dom Duarte de Bragança
(Palavras proferidas por S. A. R. no dia 22 de Maio
de 2003 no início de um debate na Fundação Serralves, no Porto, com o Prof.
Arq. Souto Moura)
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