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Monárquicos entram na campanha sem tomar posição

Fernando Madaíl

A Causa Real pediu a colaboração das Reais Associações Portuguesas (que têm uma implantação geográfica) para reunir as 5000 assinaturas necessárias para se formar como mais um Grupo de Cidadãos Eleitores e assim ter direito aos tempos de antena na campanha do referendo sobre o aborto. Mas, ao contrário do que irá fazer a generalidade dos participantes, o movimento monárquico não irá aconselhar o voto no "sim" nem no "não", dedicando-se apenas ao "esclarecimento" sobre o teor das propostas e dos argumentos de cada parte.

A ideia foi divulgada, na quinta-feira, pelo presidente da Comissão Executiva da Causa Real, António Sousa Cardoso, durante o seu discurso no tradicional Jantar dos Conjurados, com que os monárquicos assinalam o encontro dos 40 conspiradores que, a 1 de Dezembro de 1640, puseram termo à ocupação filipina, após 60 anos de dependência do poder espanhol.

A justificação para este modelo é simples: "Há monárquicos a favor do 'sim' e monárquicos a favor do 'não'", explicaria ao DN Ricardo Abranches, presidente da Real Associação de Lisboa e membro da Comissão Executiva da Causa Real.

O modelo, que ainda está a ser estudado, pode vir a ser inspirado, por exemplo, no programa televisivo Prós e Contras, com moderador e defensores de ambos os lados, mas também pode ter depoimentos dos partidários de cada tendência. De qualquer modo, da forma como está a ser apresentado, este tempo de antena seria um espaço pioneiro em termos de campanhas, uma vez que não aconselharia o sentido de voto.

D. Duarte Pio, que se dirigiu aos monárquicos presentes no jantar em Carcavelos após a intervenção de Souza Cardoso, manifestou inteira concordância com a ideia, defendendo a vantagem de serem apresentados, ao mesmo tempo, os argumentos a favor e contra. Até porque, prevê o duque de Bragança, "deverá haver seis tempos de antena por um lado e só dois pelo outro".

E, embora sem se referir àquele que seria o referendo preferido pelos participantes no jantar - a questão do regime, com os portugueses a serem chamados a pronunciar-se sobre se querem manter a República ou se preferiam voltar a ter uma Monarquia -, D. Duarte sustentou que, em democracia, os referendos deviam ser fáceis de convocar e frequentes. E dava como exemplos consultas sobre se se deve ou não construir um novo aeroporto ou se o aeroporto intercontinental devia ser em Lisboa ou no Porto.

Na sua leitura, os políticos têm argumentado que o povo não está preparado para dar a sua opinião sobre estes assuntos. E, no mesmo registo irónico com que respondia aos que sustentam que seríamos melhor governados por Madrid ou Bruxelas - "nesse caso, porque não contratamos um japonês para ministro da Tecnologia e um escocês para ministro das Finanças?" -, também considerava que, se ao povo não é reconhecida competência para se pronunciar em referendos, então o melhor será "mandar vir um senhor para mandar em nós, como sucedeu em mais de metade do tempo da nossa República" - numa alusão aos 48 anos de ditadura fascista.

 

In Diário de Notícias, 2 de Dezembro de 2006.

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