Por que é que rio se tenho
tantos motivos para chorar?
Choro porque quem amo não me quer,
porque quanto mais me esforço
maior é o meu fracasso,
chove nos dias em que me alegro,
os amigos são raros e distantes,
por ver que o mal é quem vence o bem,
que os impérios se expandem e aumenta
a miséria em todo o mundo,
sou a voz que clama e Deus não ouve,
meus inimigos me cercam e pisoteiam,
as bocas erguem-se contra mim.
Choro, mas sonho com o sorriso
de amanhã no alvorecer de
uma novíssima realidade azul,
uma nova vida, justa e fraterna;
onde os impérios serão dos sentidos
e o amor é eterno e mútuo.
Sorrio porque chamam-me Esperança!
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Vem comigo meu amor.
Deitemo-nos sobre a verde relva,
entre as sombras dos eucaliptos,
adormeceremos um na pele doutro.
Deixa-me sentir novamente teus perfumes
de rosas, jasmim e bálsamo verde,
esse teu hálito de mel, teu olhar de luz.
Fazei-me extasiar em teus alvos braço frágeis,
respirar os ares de teus cabelos de ébano,
alimentar-me de teus seios tenros e delicados.
Dá-me mais uma vez poder ter a
sensação de tuas mão percorrendo meu corpo,
o calor ardente dos cálidos afagos seus.
Ou arranca-me do peito esta brasa
inda acesa e causticante feito sol,
esconjura-me de teus sonhos insanos,
dê adeus a esse teu anjo caído,
mate-me a alma, pois sem ti mais não vivo.
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14/01/98
O poeta não é um fingidor
é sim um ator versátil que
mau ou bem interpreta
os personagens de seus
profundos sentimentos.
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15/01/98
É ela, é ela!
Tirem ela de perto de mim
não deixem que ela tome
posse de meu pobre coração.
Não, não mereço tal pena
horrenda, vil, arrasadora;
ela que faz matar, suicidar,
doer-se em amargo pranto,
envenenar-se com o próprio
fel, destruindo tudo o que
não lhe agradar totalmente.
Por misericórdia, livrem-me,
libertem-me das falses peçonhentas
desta víbora "paixão".
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17/01/98
Ó amada, és minha fonte de
dor e prazer, liberdade e escravidão.
Por ti faria tudo, sabes bem;
iria aos confins do mais profundo
inferno, para lá me dares somente
um único e eterno beijo doce.
Ah meu amor, por quê insistes
nesta sádica recusa de estar
ao meu lado, dar-me seus seios
para beija-los, sua boca macia
para poder deitar meus lábios.
Se quiseres, arranca do meu peito
este coração que já não é meu
e abraça-me embebida em sangue,
sangue embriagado de ti, só de ti.
Deixa-me deitar mais uma vez
em sua alcova e lá nos acabarmos
no total êxtase, insanos a desejar
um fundir-se ao outro num abraço
infinito de amor, paixão e loucura.
Permita que meu funéreo corpo
tenha como derradeiro leito o teu,
unindo-nos num mórbido matrimônio.
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24/01/98
Quem dera ser como a água
a qual banha o corpo todo
envolvendo-o num abraço morno
beijando lábios, acariciando seios
percorrendo cada curva das ancas.
Ser volúvel de natureza,
puro como cristal, cintilante;
extasiar em vapores, fulgor de
prazer a amar nas entranhas.
Ó musa, quão mais bela és por
dentro quanto por fora desta
carne que vela mortal tua existência
perfeita e única neste mundo de
horrores e prodígios, dúbio como
o quer o diabo — pobre dele!
Sim, ai do diabo que ama qual
fogo vivo; abrasador, arrasador.
Ama destruindo por não se conformar
com a leviandade da beleza
concreta, que envelhece com o tempo
Sua paixão é labareda que
por quão forte e luminosa seja
é superficial e brevíssima.
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25/01/98
O corpo é o templo da alma
assim como o coração vem
a ser a basílica do sentimento.
Assim, o poeta é um sacerdote do
profano vício de amar sentindo,
com todos os seus sentidos,
em todos os sentidos existentes.
Sente a magnitude do obscuro,
a fragrância exalada pela Lua,
o sabor suave de cada estrela.
Ouve o choro das alvas velas,
a canção de adeus de quem ficou,
o grito fúnebre de alegria eterna.
Vê o grande lume da escuridão,
o clarão proveniente dos túmulos,
a luz que vem de trás e escurece a vista.
Existem aqueles que só versificam
o perfume que vem das rosas,
o som de arpas de anjos e serafins,
o brilho do olhar de suas musas.
Esses são cegos pois só vêem o que
a matéria lhes permite enxergar
e sentir o que as suas mãos tocam.
Meu perfume é a dor sem fim que sinto,
a música que ouço é pranto amaro,
o brilho que vejo é de meu sangue
que escorre de meus pulsos a gotejar.
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01/02/98
Que carrasco é esse que me atormenta
noite e dia sem cessar nem um instante,
seja para eu comer ou para sonhar.
Ferroa-me com seu tridente de ferro vivo
de modo que nunca consiga eu esquecer-lhe
a terrível presença a castigar-me por um
crime que nem bem o conheço, ignoro.
Mas me pune até quando estou só;
e principalmente nestas vezes,
que não são raras, vivo solitário sempre.
Quem é este atroz pensamento.
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09/02/98
Todos seres cantam a música celeste
da glória de Deus criador da beleza etérea.
Como poucos, nesse mundo sem sentimento,
ouço atento a canção entoada pelos lírios,
a melodia soprada de dentro dos troncos ocos,
a ode gorjeada pelos pássaros em revoada.
Como também ouço a fanfarra das criptas
esculpidas em gélido mármore morto,
o allegro da funérea sinfonia de Asmodeu,
a marcha triunfante dos que de modo
derradeiro deixaram a vida de sofrimentos.
E o que mais me agrada é poder contar
com a cantiga de ninar de minha única
e inseparável amada imortal por natureza
e infalível por profissão, a morte.
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23/03/98
Duas forças estão a dividir-me,
são elas antagônicas e complementares,
simbióticas, vitais uma à outra.
Revezam-se incessantemente em minh'alma,
prensando-me entre o mar e o rochedo,
dilacerando cada dogma de minha existência.
O ciclo entre a adoração à dolorosa Madona
e a volúpia irresistivelmente infernal de Lilith
— o divino e o profano me encantam.
Tenho um anjo e um demônio dentro
deste meu ser viciado em prazer e incenso,
extasiante em preces e gemidos.
O suor do coito que me escorre do rosto
é o mesmo que, misturado com sangue,
escorreu do rosto do Cristo crucificado.
Idêntica lágrima sorrateiramente liberta
rola-me dos olhos serrados e ardentes
tanto no gozo quanto na tortura.
Quem nunca amou sem ser amado
que me diga sinceramente
se desejo e ódio não combinam.
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15/05/98
Já não sinto mais tua boca
cálida e sumarenta de desejos
a dizer meu nome maliciosa
chamando para a cama macia.
Ainda respiro aquele doce perfume
que fazias questão de passar entre
seus fartos e rosados seios.
Traz-me saudades a lembrança
de teus gemidos de prazer intenso,
de teus olhos cerrados no êxtase,
ápice profundo da fusão de nossos
dois corpos nus e molhados.
Eras um sonho — pudera eu nunca acordar,
viver assim como num devaneio,
sem responsabilidades nem dor,
somente prazeres inesgotáveis,
e a loucura — ah, a loucura
que arrebata o homem ao estado
de graça de um verdadeiro deus.
O meu ópio é a cópula na cátedra,
meu frenesi o corpo convulso e suado
e meus grilhões a eternidade.
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06/07/98
"TEMPUS EDA RERUM"
Maldito é todo o Tempo que
nos arranca da primordial inocência
e petrifica nosso coração.
Ele mata sem piedade a criança
que chapinha nas possas,
corre livre pelos campos e
adormece com um sorriso natural
a adornar-lhe a rosada face.
Pior! Faz brotar do corpo infante
desprezível e egoísta golen
que insiste em tornar feio
o mundo que antes embelezava.
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07/07/98
Por que fizestes isto comigo
ó dama que em meus sonhos habita?
Por um acaso fiz eu mal maior
que desejar-te além do cosmo?
Olhe para mim, diga-me que
sentes, mentes quando dizes
adeus para sempre, e me beijas,
beijas como quem quer dar
naquele instante seu último suspiro.
Não, não me deixe aqui sozinho
pensando, pois para quem ama
pensar dói tanto quanto arrancar
os olhos com ferro em brasa.
Volta, porque se não voltares
ficarei aqui, parado neste cais,
até que meu corpo apodreça
por inteiro e meus ossos não
consigam mais ficar junto.
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02/09/98
Ah, estranha leveza de ser!
Extrema aventura de existir
de modo completo e consciente.
Ó essência animal
que faz dos homens
sonhadores natos e
amantes espasmódicos!
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07/11/98
Hálito,
meu hálito no teu.
Meu suor, teu suor.
Nossos corpos
convulsos chegando
juntos ao êxtase.
Sangue,
teu sangue no meu.
Teu fel, meu fel.
Dois cadáveres
gelados, enrijecidos
unidos na morte …
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Poema a uma Amante ( ?/01/99 )
Noite do resto de minha vida,
sonho do qual jamais acordarei.
O espasmo toma nossos corpos!
Toco tua pele de carrara delicada
percorrendo com meus dedos
cada curva de tuas ancas macias.
Minha boca tem sede de beijar
estes teus lábios de fino rubi
cálidos de desejo e luxúria.
Que me vale o melhor olfato
senão para sentir o perfume
que exala o manto de teus cabelos?
Teu olhar misterioso como a noite
enfeitiça-me como se fosse eu
uma presa a ser devorada.
Sedemos então um ao outro,
unindo nossos corpos suados
num êxtase sem fim.
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13/01/99
O que queres de mim?
Diga, lhe rogo, que queres?
Não machuca este teu menino
que em outra noite ninaste
entre teus tenros seios de Vênus.
Monto frases e odes de paixão eterna,
mas é só ver-te que as palavras somem,
e dizes que o melhor que sai de minha boca é a língua.
Sou inábil e tonto com as mãos,
entretanto perto de ti tua magia transforma-me
no melhor dos artesãos para dar forma a teu corpo nu.
Estou no meu lúdico mundo de sonhos
e com uma única palavra arrebata-me deste devaneio
para teu universo depravado e febril de prazeres.
Dá-me sempre tua presença feminina,
divina pedofilia que tem o dom de transformar,
em noites estreladas, este garoto em homem.