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Sofisticado

Alfredo era um homem moderno, plugado no mundo tecnológico. Alguns amigos falavam que não tinha veias nem artérias, mas apenas cabos serias e paralelos. Nunca usava caneta ou lápis, era um homem do futuro, comparava o uso de tais utensílios com a arte rupestre. "Não somos mais macacos para rabiscarmos com carvão. Para isso é que desenvolvemos impressoras", dizia, "É até anti-ecológico a utilização de tanto papel e grafite!"

Sua cintura era semelhante ao cinto de utilidades do Batman, cingido por pager, telefone celular, palmtop, cartões de crédito, etc. O campo eletromagnético em torno de si era considerável. Era o homem bip. Por onde passava era esperado um barulhinho proveniente de um de seus inúmeros apetrechos eletrônicos.

Certo dia estava a caminho de seu escritório quando, falando ao telefone com um cliente e acessando seu correio eletrônico de seu laptop conectado ao acendedor de cigarros de seu carro último tipo, com direção hidráulica, freios ABS, airbag duplos e câmbio automático, perdeu o controle e colidiu de frente com uma perua Variant que estava parada do outro lado da pista.

A Variant ficou com a dianteira totalmente deformada, mas dentro de seu carro, Alfredo estava inconsciente, pois no momento em que colidiu, os airbags não inflaram, o adaptador escapou do acendedor e furou o tecido do balão de ar que lhe garantia a vida quando começava a inflar. Alfredo bateu com a fronte no volante.

Rapidamente foi socorrido por uma ambulância com todo o aparato médico que a ciência conseguiu desenvolver. Teve uma parada cardíaca, mas as injeções de adrenalina e o defibrilador fizeram que seu coração voltasse a bater. No seu íntimo, acreditava na ciência que lhe tinha devolvido a vida. "Estou ficando com a bateria fraca", pensou, "mas não há nada que um bom equipamento médico não dê conta." Chegando ao hospital foi enviado rapidamente a ala de diagnósticos.

Passou por uma bateria de tomografias computadorizadas, ressonâncias magnéticas, raios X, etc. Ficou num quarto de UTI até que os médicos conseguissem decifrar corretamente seus exames. Sua respiração estava difícil e necessitava de um respirador, mas não havia problema algum em depender de miraculosa tecnologia moderna. Agora estava respirando por pulmões de plástico e aço, cercado dos já familiares bips, bips que representavam gráfica e sonoramente sua vida. Sentia-se mais vivo do que nunca, confiante, curado.

"Mas, o que? O que houve com os bips vitais, com o som da minha existência?", pensou. A última coisa que ouviu em vida foi alguém no corredor de seu quarto dizer que ocorrera um blackout na ala em que se encontrava o paciente acidentado no trânsito.



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