Profecia do século XXI
Numa noite quente de verão tive um sonho estranho. Neste sonho eu estava mais velho, havia uma mulher de beleza comum ao meu lado na cama. Nada em meu quarto era muito sofisticado. Havia uma cortina de renda creme filtrando a luz amarelada que se infiltrava pela janela. Os lençóis que revestiam a cama eram de algodão, amarelos com flores brancas estampadas.
Levantei-me e tomei meu café da manhã. Nada de muito farto, porém, estava satisfeito em comer aquele pão com manteiga, aquele único copo de café com leite. Ao pensar nisso, ao perceber-me pensando nesta divina simplicidade, senti-me bem em saber, sem saber como, que cada um em sua casa, própria casa, estava desfrutando deste mesmo privilégio ¾ não, privilégio não, direito ¾ de ter o suficiente para viver com dignidade.
Ao sair para a rua, não peguei meu carro para ir ao trabalho. Fui ao ponto de ônibus e entrei num veículo muito confortável, poltronas reclináveis, ar condicionado. Durante todo o percurso, de minha casa ao trabalho, numa fábrica de remédios para distribuição gratuita, fui conversando com todos os companheiros de viagem. Todos conheciam todos e se ajudavam, se interessavam pelo bem estar do outro, não de uma forma gratuita, mas porque sabiam que seu próprio bem depende do estado de espírito de seu próximo.
Num outro instante, estava voando sobre a cidade. Não haviam mais igrejas nem templos. Todos rezavam, oravam, comungavam em cada ato cotidiano. Não haviam mais muros que separassem o sagrado do profano. A igualdade estava em todos os cantos da minha Terra. Erros e desamor haviam, porém, tão logo surgiam, ofensor e ofendido se abraçavam e davam-se as mãos para seguirem juntos seus caminhos.
Não haviam salários e nem necessidades, tudo o que era produzido durava um sem-fim de tempo e satisfaziam muito bem as exigências dos usuários. A liberdade era encarada como compromisso com o corpo universal, a unidade em cada alma. Compreendia-se então o perfeito significado da unidade trina, onde três pessoas se faziam em uma para juntas serem um só sonho, um só pensamento, um só coração.
A morte não era temida, não era amada, era apenas entendida como purificação da essência humana e justa recompensa pelo trabalho realizado em vida. Não havia fim, apenas um novo começo, uma passagem de uma existências limitada para uma sem fim. A crença em um Deus único e verdadeiro não era uma unanimidade, porém o homem acordou para a realidade de que qualquer que seja o nome que se dê a esta maravilhosa força criadora, Yhwh, Alah, Vishnu, são sons, cada um em sua língua, para cantarem o amor desta unidade cósmica que acreditou no homem.
De repente vi o céu se abrir em cores e luzes, e uma canção miraculosa encheu meus ouvidos e chorei ao ver que havia acordado no instante em que começava a vislumbrar a face daquele que mais tem esperança na humanidade e dela espera trabalho, união e fé em sua providência.
"... Aquele que tem ouvidos para ouvir, que ouça ..."