De quanta tecnologia precisa um homem
Teve como testemunhas de seus primeiros gritos os refletores da mesa de cirurgia, onde se encontrava sua mãe, com o ventre aberto como a barriga de um carneiro abatido sendo retiradas suas vísceras. Mamou leite de outras tetas, pasteurizadas e hermeticamente encaixotadas com todo o amor e carinho da indústria. Não havia nada mais prático do que aquelas fraldas descartáveis. Era só ele chorar e em poucos instantes, com o auxílio de lenços umedecidos descartáveis e um perfumado talco colorido, já estava pronto para mais uma descarga.
Quando já podia se alimentar de alimentos sólidos, as papinhas enlatadas e quitutes vitaminados davam conta de sua fome fora de hora. Sua babá era divertida e eficaz, captando quarenta e oito canais diferentes em cinco línguas, cada um com uma variedade infinita de gêneros de programas. Todo o sol que necessitava para sua boa formação óssea provinha de uma janela de vidro fumê em seu quarto naquele apartamento do alto edifício de aço e concreto.
A partir dos três anos de idade já freqüentava a escola. Lá brincava com mesas computadorizadas que emitiam sons e luzes coloridas a cada toque — coisa da mais alta tecnologia educacional do momento. Nos finais de tarde ia para suas aulas de natação, judô, futebol, computação e inglês. Nos finais de semana ia para casa do pai, que morava separado de sua mãe.
Sua adolescência foi muito tranqüila. Todo final de semana saia com os amigos, indo a danceterias, fliperamas, bares e todo tipo de antro benéfico a sua formação, recebendo sempre um bom dinheiro para custear suas essenciais necessidades. Sempre andara na moda com relógios de mil e uma funções diferentes, tênis que só faltavam flutuar, tecidos sintéticos de cores cada vez mais chamativas e ofuscantes.
O método de ensino adotado pela escola que freqüentava era o mais moderno que existia, sem provas, sem aulas, sem chamadas, suas salas de aula se pareciam com seu quarto, uma bagunça — para o melhor aproveitamento do aluno como pessoa globalizada, diziam os pedagogos, que haviam assumido o papel de professores. É preciso que o aluno descubra que estudar é importante para sua formação enquanto pessoa humana e cidadão do mundo, era o que dizia o diretor da escola, um arquiteto de vinte e quatro anos de idade.
Após uma juventude problemática, tendo passado pela polícia por porte de maconha — mas maconha não é droga, dizia — e um curto relacionamento com um travesti, ingressou na universidade onde se formou em publicidade. Foi lá que conheceu sua companheira — digo companheira porque casar é careta, com quem não teve filhos — filhos não são caretas, mas só trazem problemas e roubam nosso tempo.
E assim envelheceu, tomando duas dúzias de remédios por dia, assistindo TV o dia todo, sozinho, pois ele e sua companheira haviam decidido morar em casas separadas, para que um não tolhesse a privacidade do outro. Via os dias passarem pela janela comendo comida para microondas e sem saber do câncer que se alastrava por todos os seus órgãos.
Quando morreu, foi enterrado num caixão de fibra e papelão japonês, dentro da mais alta tecnologia em funerária, para ser coberto por terra jurássica e apodrecer, sendo comido por simples e comuns vermes e insetos.