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Conto do Bom Senhor

Há muito tempo atrás, existia num reino um senhor muito bom e amável para seus servos, não deixando que lhes faltasse nem comida nem bebida. O povo trabalhava duro no cultivo da terra e na manutenção do reino, a fim de que ninguém passasse necessidades. Um ou outro servo era preguiçoso e reclamava do trabalho, outros eram gulosos e se queixavam de pouca comida, e ainda haviam os que se revoltavam por serem obrigados a trabalhar, exigindo liberdade.

Um desses revoltados contra a servidão era um jovem adolescente. Ambicioso, encheu-se de coragem e partiu para além do reino, em busca da tão sonhada liberdade. Antes, porém, foi comunicar sua decisão ao senhor, que não lhe proibiu mas lamentou sua decisão, dizendo-lhe que se quisesse voltar ao reino um dia, as portas lhe estariam abertas. O jovem impetuoso dispensou malcriadamente a oferta do senhor e partiu sem mais demoras.

Já se fazia tarde quando cruzou os limites do reino. O jovem se viu só naquela noite escura e fria, longe de sua casa, dos imponentes muros da cidade. Teria que caçar agora para comer, mas não tinha armas e o manto da noite havia descido como breu, tal qual nunca vira antes. Logo percebeu que dormiria sem comer. Dormir; para isto ele precisaria fazer uma cabana com gravetos e uma cama de folhas secas. Enquanto trabalhava na construção de sua nova moradia ouvia o assombroso uivo dos lobos da floresta como se estivessem cada vez mais próximos.

O sol se erguia no horizonte quando terminou sua obra. Estava mais cansado do que de costume, quando trabalhava nas lavouras do senhor. Resolveu descansar um pouco mas não conseguiu dormir com os raios do sol batendo intensos em seu rosto sujo e exausto. Acabou ficando gripado por passar a noite úmida do bosque ao relento.

Percebendo que não ia conseguir dormir tentou caçar um coelho mas fracassou repetidas vezes, chegando até mesmo a quebrar a rústica lança que havia com muito esforço conseguido fazer com um galho seco que encontrara no chão do bosque.

Próximo ao crepúsculo, desprovido de todas as forças, caiu ao chão desfalecido de cansaço. Quando acordou, estava limpo e vestido com roupas novas em sua humilde casa, aquecido pelo braseiro na lareira. Um guarda de honra do senhor estava de guarda na porta. O jovem se levantou e áspero ralhou com o guarda dizendo que haviam lhe privado de buscar sua felicidade, que o senhor era unicamente interessado em riquezas e obediência.

O guarda pacientemente, com um sorriso no rosto, contou-lhe que o senhor saíra junto de sua guarda de honra para caçar no bosque nos arredores do reino, e encontraram-no desfalecido, sujo e maltrapilho no chão da floresta. Então apiedou-se do jovem e ordenou que o trouxessem de volta ao reino para tratar de seus ferimentos, dar-lhe comida e uma noite de descanso tranqüilo. Disse também que estava lá apenas para que se necessitasse de alguma coisa a mais ele lhe atenderia, e que, se quisesse, poderia ir embora sem nenhum impedimento.

O jovem pensou bem no quanto havia se precipitado em tirar conclusões e quanto tinha sido injusto com seu senhor. Foi logo pela manhã falar com o senhor e dedicar-lhe sua vida inteira e a de seus descendentes, tornando-se assim um dos maiores defensores da benevolência de seu senhor.

Ricardo Morteira da Cruz



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