Os desafios do Ensino
de História no Ensino Fundamental
Maria Estolimar Gasperazzo[1]
Quando se pretende refletir, repensar ou posicionar-se sobre um ensino de história que contribua para capacitar o estudante a entender o processo social em que esta inserido e tomar posições no complexo quadro de disputas e interesses sociais atuais, um ensino que supere a situação que Munhoz afirma:
“que o ensino de história tal como é ministrado na
maioria de nossas escolas é factual e se presta aos interesses das classes
dominantes”.[2]
Diante disso é de fundamental
importância perguntar-se: porque a história faz parte do currículo escolar e
qual a sua importância na formação do jovem.
Para iniciarmos essa
discussão sobre o ensino de história no ensino fundamental é importante
considerarmos os dois marcos desse ensino, ou seja: a primeira metade do século
XIX, com a introdução da área no currículo escolar após a Independência, quando
o objetivo era criar uma “genealogia da nação, elaborou-se uma “história
nacional” quando o ensino era baseado em uma matriz européia e a partir de
pressupostos eurocêntrico. O segundo marco a ser considerado pode ser datado a
partir das décadas de 30 e 40 do século XX quando o ensino é orientado por uma
política nacionalista e desenvolvimentista.
A história surge como área
obrigatória com a criação do Colégio Pedro II em 1837 tendo como referência o
modelo francês, quando predominava os estudos literários com ênfase para o
ensino clássico e humanístico e destinado à formação da elite.
*Mestre em Educação e graduada em História pela Universidade Federal do
Espírito Santo e professora do curso de História do Centro de Ensino Superior
Anísio Teixeira – CESAT.
Como área escolar, a História
é marcada pela convivência da História Sagrada, que tinha o mesmo estatuto de
historicidade com a História Universal e Civil. Ambas eram voltadas para a
formação moral do estudante.
A História Universal dava
exemplo de grandes homens da História, com o predomínio para o estudo do
Oriente Próximo e da Antigüidade Clássica. A História Sagrada concebia os
acontecimento como providência divina fornecendo as bases para uma formação
cristã. Nas escolas já existiam divergências entre as abordagens e na
importância que era atribuída a Igreja na História, dependendo dos professores
leigos ou católicos e o fato das escolas serem públicas ou de ordens católicas.
Foi acrescentado a este
programa a História do Brasil, pois cabia a História Universal dimensionar a
nação brasileira no mundo ocidental cristão. O Estado brasileiro organizava-se
politicamente necessitando assim de um passado que legitimasse a sua
constituição. Os acontecimentos ensinados iniciavam-se com a história
portuguesa que destacava a sucessão de
reis portugueses e seus governos. Em seguida introduzia-se a história
brasileira com as capitanias hereditárias, os governos gerais, as invasões
estrangeiras ameaçando a integridade nacional. Os conteúdos culminavam com os
“grandes eventos” da Independência e da Constituição do Estado nacional.
Criado no mesmo ano que o
Colégio D. Pedro II, o Instituto Histórico e geográfico Brasileiro elaborou a
sua primeira proposta de ensino de história do Brasil,. Essa proposta
enfatizava a miscigenação (branco/negro/índio) mas defendia a hierarquização
destacando a superioridade da raça branca, privilegiava o Estado como principal
agente da História e enfatizava fatos essenciais na constituição do processo
histórico nacional como as grandes navegações, as façanhas marítimas comerciais
e guerreiras dos portugueses, a transferência e o desenvolvimento das
instituições municipais portuguesas no Brasil, o papel dos jesuítas na
catequese e as relações entre a Igreja e o Estado. A história é relatada como
uma verdade indiscutível e estruturada como um processo continuo, linear que determinava
a vida social do presente.
As reformas curriculares
realizadas no final d século XIX evidenciaram projetos que defendiam o
currículo humanístico, com ênfase para as disciplinas literárias, destinadas a
formação do espírito, outros desejavam introduzir um currículo mais científico,
mais técnico e prático, adequado a
modernização que se propunha para o
país. Os dois projetos idealizados pensavam a história como disciplina escolar
voltada para a formação da nacionalidade.
Nas última décadas do século
XIX começaram a surgir críticas à redução da História a uma classificação
cronológica de dinastias ou um catálogo de fatos notáveis dos dois reinados. No
discurso republicano inspirado nas idéias
positivistas, a escola e o ensino
deveriam denunciar os atrasos impostos pela monarquia e assumir o papel de
colocar os indivíduos e a própria nação na rota do progresso e da ordem. O
ensino da História passa a fundamentar uma nova nacionalidade projetada para
modelar um novo trabalhador, o cidadão patriótico. O Estado agora sem a
intervenção da Igreja permanece como principal agente histórico. A História
Nacional junto com a História da Civilização continua a enfatizar o passado
homogêneo, as lutas pelo território e a unidade nacional, difundindo feitos gloriosos
dos bandeirantes como Raposo Tavares e Borba Gato, Militares como Duque de
Caxias, mártires como Tiradentes, etc.
Nas primeiras décadas do
século XX surgem propostas alternativas ao modelo oficial com as escolas
anarquistas que propõe um ensino História voltado para os principais momentos
de lutas sociais como a Comuna de Paris, a Abolição, etc. Esses modelos são
imediatamente reprimidos pelo governo republicano.
A partir de 1930 a História
do Brasil e a História geral formam uma só área, A História da Civilização. O
ensino da História tentava legitimar o discurso da “democracia racial”. Em
meados dos anos 30 a educação adota o escolanovismo que apesar de propor
abordagens e atividades diferenciadas, nas salas de aulas era comum os
estudantes recitarem lições, decorar datas e nomes de personagens considerados
mais significativos para a História.
A partir de 1942 no contexto
do “Estado Novo” era tarefa do ensino de História criar nas novas gerações a
consciência da responsabilidade diante dos maiores valores da Pátria. A carga
horária da disciplina aumenta, a História geral e a História do Brasil passa a
serem áreas distintas. A história brasileira é privilegiada. A ênfase é dada às
comemorações de heróis em grandes festividades cívicas.
Na década de 50 e 60 por
influência do nacional - desenvolvimentismo, a História voltou-se para temas
econômicos, são feitos questionamentos so modelo agroexportador e valorização
da industrialização. O ensino de história passa a focalizar os ciclos
econômicos em suas sucessão linear. A presença norte americana vai dar lugar no
currículo a História das Américas, especialmente a História dos estados Unidos.
No início da década de 60 a
formação de professores na perspectiva da História Nova com estudos sob a
influência da historiografia marxista, que ao invés de valorizar a trajetória
vitoriosa da burguesia, dava ênfase as transformações econômicas e aos
conflitos de classe social destacando essas como agentes das transformações
históricas, o ensino continuou imerso em uma abordagem estruturalista em que a
história era estudada como conseqüência de estágios sucessivos e evolutivos. Nessa época além da
importância da História para a formação do cidadão político, ela passou a ser
fundamental para a formação do pensamento crítico desse cidadão.
O período que vai da Segunda
Guerra Mundial até a década de 70 caracterizou-se por dois momentos de
implantação dos Estados Sociais ( áreas de integração do saber com ênfase para
as questões conjunturais e cívicas) – O fim da Ditadura Vargas e durante o
Governo Militar de 64.
Durante a Guerra Fria e sob a
influência dos Estados Unidos e a concepção tecnocrata houve uma desvalorização da área de humanas
em favor de um ensino mais técnico voltado para a formação de mão-de-obra para
a indústria. Houve redução da carga horária do ensino de História e Geografia e
avanço dos estudos Sociais.
Como advento da Lei 5692/71
no governo militar de 64, ao lado da Educação Moral e Cívica (EMC) e da
Organização Social e Política Brasileira (OSPB) os Estudos Sociais esvaziaram
os conteúdos de História e Geografia e valorizaram conteúdos de uma abordagem
nacionalista destinada a justificar o projeto nacional do governo militar de
1964.
Nas décadas de 70 e 80
profissionais desencadearam lutas por todo o Brasil pela volta da Geografia e
da História nos currículos escolar e extinção dos Estudos Sociais.
A partir da década de 80 com
o processo de redemocratização do país, as diversas tendências historiográficas
passaram a influenciar os currículos sensibilizando para questões relacionadas
a História Social, Cultural e do Cotidiano o que permitiu rever o formalismo
das abordagens históricas sustentadas nos eventos políticos administrativos ou
nas analises econômicas estruturalistas.
Nesse contexto questões como
sujeito histórico, produção histórica, ideologias subjacentes a produção
historiográfica e ao ensino foram questionadas e denunciadas. Ainda nesse
contexto outras questões levantadas foram :
·
Iniciar o ensino
pela História do Brasil ou História geral.
·
Opção por
intercalar conteúdos da antigüidade até a atualidade tendo como ponto de
partida a crítica a abordagem eurocêntrica.
·
Iniciar com a
história das Américas.
·
Introduzir
conteúdos de história regional e local
·
Trabalhar com
temas.
·
Considerar os
estudantes como participantes ativos do processo de construção do conhecimento.
Criticas aos livros didáticos.
Todas
essas questões estão encaminhando mudanças em relação aos objetivos, conteúdos
e métodos do ensino de história no ensino fundamental que como FONSECA afirma :
“deve ser pensado no
interior das mudanças sociais vivenciadas por nós em determinados momentos
históricos”.[3]
Algumas outras questões a serem pensadas são:
·
A distancia
entre o conhecimento escolar e o conhecimento acadêmico.
·
Necessidade de
envolver a escola no debate historiográfico atual.
·
Diferentes
percepções em relação ao processo ensino aprendizagem
·
Função social da
escola e do professor
·
Relações entre
currículo formal e currículo real.
·
As contradições
fundamentais da escola e tantas outras
que poderemos levantar.
O
importante me tudo isso é a necessidade do dialogo. Diálogo no sentido de
recriar as relações de ensino. Relações professor e aluno, conhecimento
histórico e realidade social, em benefício da História na formação social e
intelectual de indivíduos para que de modo reflexivo e consciente, desenvolvam
a compreensão de sí, dos outros e de sua inserção em
uma sociedade histórica e da responsabilidade de todos na construção de
sociedades mais igualitárias, mais justas e mais democráticas.
BIBLIOGRAFIA
FERREIRA, N.T. Cidadania
uma questão para a educação, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.
FERRO, M. A
Historia Vigiada, São Paulo: Martins Fontes, 1989.
FONSECA, S.G. Caminhos
da História Ensinada. São Paulo: Papirus, 1993.
MUNHOZ, S.J. Para
que serve a história ensinada nas escolas ? 3ª ed. IN: Repensando a História. Rio de Janeiro: Marco Zero,
1984.
BRASIL,, MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO.
Secretaria de Educação Fundamental: Parâmetros
Curriculares Nacionais. Brasilia: 1997, pp19-41
NOTAS
[1] CESAT/ Mestre em Educação.
[2]
MUNHOZ, Sidnei José. Para que serve a História ensinada nas escolas ? IN:
SILVA, Marcos A da (orgs.) Repensando a História. 3ª
ed. São Paulo :
[3] FONSECA, Selva Guimarães. O Ensino de História no Ensino Fundamental: Do samba do crioulo doida a produção do conhecimento histórico. IN: VEIGA, Ilma P.A ; CARDOSO, Mª Helena F (Orgs.) Escola Fundamental Currículo e Ensino. Campinas,SP: 1991.pp157-170.