Capitalismo autoritário e modernização
Fernanda
Laura Costa[1]
O estudo das questões referentes as
temáticas agrárias é fundamental para se compreender a realidade brasileira.
Primeiro porque o mundo rural sempre se constituiu como lugar de dominação
política e econômica e, segundo, a paisagem urbana, sofre influência e,
molda-se pelos conflitos e transformações advindas do campo. Ronaldo Vainfas enfatiza a contemporaneidade da questão agrária mediante
a constatação que no Brasil 3% da população rural detém 43% das terras
agrícolas, enquanto 57% dispõem de somente 3%. Diante deste caso limite de
altos índices de concentração de terras, o Estado brasileiro posiciona-se de
forma paternalista, a fim de reduzir ou, pelo menos, escamotear, os contrastes
e evitar a eclosão de incontáveis conflitos. Propiciando a formação de um
capitalismo autoritário que engendraria uma modernização agrária conservadora
alijando do poder os trabalhadores rurais.
Na tentativa de definição do modelo
agrário brasileiro, Aspásia Camargo[2] chama
atenção para uma das características mais aguda que seria a de ter secretado
uma classe política simultaneamente vinculada aos interesses agrários e ao
desempenho das funções do Estado. Tendo por corolário a manutenção do
monopólio da terra e o enquadramento
político das populações rurais.
O discurso da necessidade de
dinamizar o setor agrário desponta a partir de 1930, dentro do contexto de um
novo padrão de acumulação capitalista nacional, voltado para o
urbano-industrial, o setor agropecuário redefine a sua importância dentro da
economia ganhando novas funções produtivas. Entrando em cena o discurso da
modernização do campo para que esse não ficasse fora da dinâmica do desenvolvimento
capitalista nacional. Não podemos aceitar a idéia que mudando o novo padrão de
acumulação imediatamente muda-se os donos do poder. As oligarquias permaneceram
imbricadas nos centros de poder e sua manutenção nada teve de incompatível com
a industrialização.
Nas análises de Florestan Fernandes
a modernização “(...) não é em si mesma
um fator de mudanças da situação ou de superação efetiva das iniqüidades
sócio-econômicas, culturais e políticas.” ( FERNANDES apud SZMRECSÁNYI,
1986, p. 173) Isto é, para Fernandes a modernização é estritamente econômica
resultado da cristalização da dependência, dos meios coercitivos por parte das
classes privilegiadas e das desigualdades existentes.
O pensamento desenvolvimentista
relacionava a modernização com o desenvolvimento econômico e ocidentalização,
propiciando o nascimento das disparidades regionais. Porém necessária para a
grande meta que consistia em retirar o Brasil do atraso. Neste caso, a
modernização via industrialização urbana se fazia precípuo para alavancar o
Brasil. Para que o desenvolvimento via industrialização se processasse o Estado
deveria intervir para controlar e precipitar esta industrialização. Luciano
Martins conceitua a modernização pós- 1960 de conservadora, pois ocorre uma
modernização nos meios de produção mas não nas relações de produção. O
desenvolvimento do capitalismo no campo acelerou e intensificou a modernização
chamada de dolorosa, desigual e
conservadora.
A necessidade de modernizar o campo
foi propiciada pelas políticas agrícolas colocada em prática a partir de 1964
com a elaboração dp Estatuto da Terra - Lei no. 4.504 de 1964 – sendo dinamizada
durante o regime militar, principalmente com a abertura da economia nacional ao
capital estrangeiro. O setor agrário ganhava um novo impulso e uma nova
dinâmica dentro da economia nacional.
Um dos problemas deste tipo de
mudança realizada por cima sem levar em consideração a grande maioria da
população, é que se realiza apenas na sua base técnica do sistema produtivo sem
alterar substancialmente a estrutura agrária. Por estrutura agrária entende-se
o conjunto de relações sociais, econômicas e jurídicas que surgem da atividade
agrária e que tem por objetos os bens, os serviços e obras por natureza ou
destino, são indispensáveis para o desenvolvimento da comunidade rural.
Diferenciando do conceito de estrutura fundiária que já supõe a forma pela qual
se distribui no espaço geográfico, a propriedade ou a posse da terra rural.
A estrutura fundiária na percepção de José Graziano engloba o problema agrícola e ao questão agrária. A primeira está relacionada com os aspectos da produção strictu sensu, enquanto a segunda relaciona-se a produção – como e quem produz. Porém, esta divisão, para o autor, é meramente formal, apresentando um grau de relação muito forte. Normalmente, a questão agrícola agrava a questão agrária. ( Cf. Silva, 1986)
A partir de 1960 ao tentar
solucionar a crise agrícola que se apresentava pelas mudanças nas relações de
produção e de trabalho, o Brasil agravou a sua crise agrária ao optar pela
modernização repressiva e agressiva da agricultura transformando a crise agrária brasileira no cerne da crise
urbana das grandes metropóles.
As
análises desenvolvidas por Maria Yedda Linhares e
Francisco C. Teixeira da Silva ( LINHARES e TEIXEIRA, 1999) sobre a questão
agrária no Brasil apresenta a mesma como uma dívida não resgatada. A legislação
varguista por priorizar o setor urbano- industrial em
detrimento do setor agropecuário, marcaria o surgimento de uma questão agrária
no Brasil. “Até então, o campo era
tratado como uma atividade natural, única possível do país, era a época do
Brasil, país essencialmente agrícola; agora o campo passa a ter uma função num
programa, ainda difuso de desenvolvimento nacional.” (LINHARES e SILVA,
1999 p.125) No entanto, é falacioso pensar que Vargas desprezou o campo, neste
momento desprezá-lo significaria virar as costas para a base de sustentação da
economia brasileira.
A
reforma agrária está intimamente vincula a essas reflexões sobre a questào agrária. As labaredas dos conflitos no campo
provocados pela concentração de terras estendem-se a toda a realidade
brasileira. Conflitos estes agudizados pela mecanização no campo e
consequentemente pela expulsão de vários camponeses substituídos pela maquinaria.
Estas questòes permeiam os debates nos “mundos
acadêmicos”, político, na opinião pública, ora depreciando ora enaltecendo a
saga de vários trabalhadores rurais dentro do imaginário social.
José
de Souza Martins é um expoente para dialogar com o problema da socializaçào da terra. O ponto nevrálgico do seu pensamento
parte da compreensão dos conflitos engendrados no campo pela expansão do
capitalismo no setor agrário. Terra e poder estão vinculados na sociedade
brasileira. Sendo o principal inimigo do trabalhador rural a expropriação
conduzida pelo capital. “A simples redistribuição administrativa de terras aqui
e ali recria, na verdade, os germes do latifúndio e sua seqüência de misérias
sociais e políticas: fome, desemprego sazonal, a falta de liberdade de suas
vítimas, a impossibilidade de democracia.” ( MARTINS, 1996)
A
possibildade explicativa para entender a real
natureza da questão agrária brasileira consistiria em captar a relação
dialética, isto é, sua base estrutural ( a propriedade da terra) e os componentes
conjunturais ( as políticas agrárias e agrícolas, reperesentantes
ambíguas de uma mesma relação) elementos que constituem os objetos principais
das lutas entre as classes. A problemática desta discussão deve fixar-se na
tentativa de compreensão da identidade ou dos antagonismos que carrega a práxis
de políticas agrárias e agrícolas numa sociedade como a brasileira.
A
perspectiva de análise do estudo, entretanto, parte do pressuposto de
apresentar Goiás inserido no interior das relações entre o governo central e o
setor produtivo do Brasil. A pesquisa
objetiva problematizar a natureza do
desenvolvimento econômico em Goiás precipitado pela implementação da política
agrícola. Porém, realizando o movimento inverso, refletindo sobre a
modernização aonde não se despontou: no norte goiano. Objetiva-se com a
pesquisa compreender o papel das forças sociais na sua relação com o Estado,
principalmente, quanto as questões conjunturais, como é o caso das políticas
públicas. O Estado pensado aqui não se constitui em um ente autônomo, ele é
parte da sociedade, criado a partir de suas estruturas sociais passando a
representá-las.
Octavio
Ianni em seu livro Ditadura e agricultura (1986)
parte da premissa que durante o regime militar o Estado brasileiro adotou uma
política repressiva e agressiva de subordinação da agricultura ao capital e que os governos militares foram levados a
comprometer profundamente o aparelho estatal com os interesses do capital
monopolista estrangeiro e nacional. Acarretando assim a desnacionalização da
nossa economia. Ianni rompe com o conceito de
centro/periferia , como Francisco de Oliveira, ao estudar o movimento do
capitalismo, inserindo a noção de movimento desigual e combinado. O que nos
ajuda a pensar Goiás não mais como uma região periférica, mas enquanto uma
“criação” do Sudeste, ou seja, que acompanha o movimento de expansão do
capitalismo, impulsionado por este, de uma forma desigual e combinada, inserido
dentro da divisão regional do trabalho.
Estado e Agricultura no Brasil de Wenceslau Gonçalves Neto (1997) problematiza o setor agrário dentro da perspectiva das transformações que ocorreram no Brasil nas décadas de 1960-1980. Para tanto o autor visa recuperar não apenas o debate “(...) que acompanhou as transformações no campo, mas também o conjunto das propostas que se apresentavam para toda a sociedade; (...)” (NETO, 1997,p.23) Um dos pontos precípuos de sua reflexão relaciona-se com a preocupação em entender quais foram as características desta transformação tão profunda num curto intervalo de tempo, problematizando com isso o sentido da modernização e dos interesses que impulsionara as mudanças. Destacando a noção de modernização desigual para se entender o período. O fio-condutor de seu pensamento perpassa sobre o papel do Estado no processo de desenvolvimento e na compatibilização de interesses díspares.
O presente estudo tem nesta perspectiva de abordagem o seu suporte metodológico para a análise do desenvolvimento capitalista em Goiás a partir da década de 1960-1980. Analisando o capitalismo não como a soma dos meios de produção, mas como uma relação peculiar a uma formação histórica determinada. Goiás estava inserido num contexto de relações intersetoriais que aceleraria o crescimento da indústria no Sudeste e esta se beneficiaria com um novo mercado consumidor que despontava no campo e, ao mesmo tempo este forneceria um exército de mão de obra que beneficiaria a manutenção do baixo custo do trabalhador para a indústria.
Não podemos correr o risco de pensar Goiás como periferia do capital, mas sim com um estado que estava inserido dentro de um movimento desigual e combinado de expansão do capital nacional.
A política agrícola consolidou o projeto de modernização no campo, acentuando a preocupação com a produtividade e com o atendimento as necessidades da indústria. A política ligada a terra iria atender em qualquer circunstância, ao processo de valorização do capital, criando liames entre os vários fluxos de capitais, que corroboraria cada vez mais sua interdependência.
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