Seis anos
Para os nossos avós, foi como um piscar de olhos (lembro da minha dizendo: já tá se formando... não acredito), para nossos pais, algo como um pôr-do-sol (parece que foi ontem...), e para nós..
Para a grande maioria de nós formandos, seis anos eqüivalem a um quarto de toda a nossa vida . E contando que dos primeiros seis não temos quase nenhuma lembrança, e dos seis seguintes uma vaga recordação, quase metade das nossas memórias se deve a esse tempo na universidade. E após todo esse tempo, o que nos fez médicos?
Com que maturidade decidimos que seríamos médicos... Jovens de 17 anos na dúvida entre Medicina, Direito, Engenharia mecatrônica ou Artes plásticas. Eu já nem me lembro se foi no cara ou coroa ou no "mamãe mandou", mas eu não me esqueço do momento do resultado... E como poderia... Minha mãe gritava, meu pai se orgulhava, minhas irmãs diziam: Nossa... , todos a celebrar a idéia de um filho doutor... E eu a me perder entre as idéias de desafiar a morte, viajar pela Europa, aliviar um sofrimento, comprar uma ferrari, corrigir injustiças, morar de frente para o mar, mudar o mundo e nos intervalos, namorar as nossas colegas de sala... E aí, o que me fazia médico? Um sonho e um pedaço de papel jornal com o meu nome na lista de aprovados.
Mas enfim, iniciamos o curso, e no primeiro ano, como crianças aprendíamos vendo. Vendo os cadáveres, e imaginando quem outrora foram... O quanto apanharam, riram, sofreram ou brincaram antes de nos permitir estudar seus órgãos com olhares sedentos como aves de rapina, a se perder entre um cérebro, um pulmão, um estômago ou as moedas nos bolsos de nossas colegas. Existiam ainda as coisas que imaginávamos ver, como os elétrons na mitocôndria, que giravam e giravam, enquanto imaginávamos quantos minutos faltavam para a aula acabar ou como chamar aquela colega para sair... E éramos médicos graças aos grossos livros que carregávamos, as roupas que vestíamos, e a um sonho espremido entre notas e trabalhos.
No segundo ano aprendíamos tocando e sentindo. Tocando os órgãos que tivemos o privilégio de ter em nossas mãos e sentindo os olhos arderem com o formol... Tocando as lâminas com os parasitas e sentindo o cheiro do laboratório de parasito... E principalmente tocando as pessoas, (não, ainda não eram os pacientes) era gente, dentro de casa, que tínhamos a grandiosa tarefa de tentar tocar a mente, transmitir uma mensagem, mostrar a importância de um filtro, ou de uma fossa, que se para nós era algo básico, se tornava difícil na ausência de dinheiro. Foi no CEPAS, com o professor Pedro, nosso homenageado, que talvez tenhamos começado a sentir a dificuldade de sermos médicos. E o éramos graças ao bisû de farmacologia, as palavras difíceis que dizíamos, e a um sonho que começava a se transformar.
No terceiro ano, chegamos ao fim da infância. Saímos do ciclo básico, e aprendemos que de todos os sentidos que usávamos, o mais importante era a audição. E como foi difícil aprendermos a ouvir. Tínhamos medo de atrapalhar o tratamento, medo de não compreendermos o que ouvíamos e de não nos fazer compreender, afinal, três anos depois já não sentíamos dor, e sim algias, não ficávamos mais em pé, e sim em ortostase, e por isso, as vezes acabávamos perguntando ao mais humilde dos pacientes: "O senhor já teve Doença do refluxo gastro-esofágico ?". Além disso, as provas diárias de patologia; "uma errada anula uma certa"; e talvez por medo de faltarem certas para anularem as erradas, estudávamos como nunca. E nesse ano, além do bate-papo com os pacientes, éramos médicos por estudarmos sempre; no ônibus, no restaurante, nos intervalos de aula, e em outras horas mais impróprias, que já não cabe aqui lembrar.
Entre o sétimo e o nono período, atingimos a adolescência médica. Atendíamos pacientes em nossos consultórios, visitávamos enfermarias, discutíamos condutas. E com todo esse estímulo associado ao fantasma da reprovação, conseguimos ampliar ainda mais o ritmo de estudo. Gastro, cardio, pneumo, cirurgia, neuro-endócrino-psico-farmacologia, em 1 ou dois meses ficávamos experts em assuntos que especialistas levam a vida para aprender. Bem, na verdade, nas vésperas das provas, líamos tudo em 1 noite, seja nos famosos serões de vila velha, movidos a gibis e fitas de vídeo de altíssima qualidade, ou em maruípe, movidos a café com guaraná em pó, ou sozinhos em casa. Decorávamos e esquecíamos, prova após prova. E talvez, devido a tanto estudo, ou a uma dessas atitudes inconsequentes, típicas de adolescentes, ocorreu o famoso sumiço da prova. Com os HORMÔNIOS a flor da pele, brigamos, nos dividimos e nos espalhamos.
Em busca de novos limites, ocupávamos os mais diversos espaços, PS, CTI, Hospital Infantil, Santa Rita, HPM, evangélico, pró-matre; parecia que onde houvesse um estágio para acadêmicos haveria um dos meus colegas de sala. Sem esquecer do diretório acadêmico, onde entre coordenação geral e assessorias, lutávamos por um ensino ainda melhor em nossa universidade. Agora, éramos quase médicos. Quase. E esse quase ficava bem nítido quando conversávamos com nossos familiares, que insistentemente perguntavam: "Vai ser médico de que?" Sermos médicos não era o bastante, tínhamos a difícil decisão de escolher uma parte do corpo para cuidarmos... Parecia impossível, mas ainda havia tempo.
Enfim, alcançamos a maioridade no internato, e mais do que nunca aprendíamos fazendo. Divididos em grupos, fortalecíamos ainda mais nossas amizades, seja na galera de vila velha, nos cangaceiros de maruípe ou no grupo de jardim da penha. Éramos indistinguíveis de outros médicos. Prescrevíamos medicamentos, consultávamos, passávamos visitas. Festejávamos o nascimento de novas vidas, enquanto dávamos conselho sobre cuidados; nos empenhávamos para curar, e quando não era possível, aliviávamos o sofrimento da dor ou da perda, enquanto chorávamos e sofríamos. Algumas vezes, assumíamos totalmente o papel de médicos, como quando atendíamos sozinhos, a noite, no plantão do pronto-socorro, ou quando nos tornamos famosos como o médico de anchieta ou guarapari, nos ditos plantões Tabajara.
E ao chegarmos ao terceiro internato, tivemos que escolher, com toda a nossa maturidade. Mas, como escolher ser clínico, gostando tanto de pediatria, ou cirurgião, adorando ginecologia... Foi como no vestibular... Porém, escolhemos e hoje estamos aqui, juntos. Mas, resta-nos a pergunta: O que nos faz médicos? Outra aprovação em concurso, um diploma, um carimbo? Não. Somos médicos graças ao caminho. Por termos o sonho da infância, de continuarmos aprendendo para alcançarmos nossos objetivos; a revolta adolescente que nos fez brigar pelo pronto-socorro, e até nos recusarmos a trabalhar, por o considerarmos desumano, e que certamente nos fará lutar por uma medicina digna de nossos pacientes; e a certeza da maturidade, de que não seremos médicos operadores, ou médicos de receitas, de ossos, de olhos ou ouvidos. Seremos médicos de PESSOAS