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DESENVOLVIMENTO FONOLÓGICO

Lise Menn e Carol Stoel-Gammon


1. INTRODUÇÃO

1.1. O babytalk e o conhecimento popular

A maioria das culturas possui um registro de fala conhecido como babytalk, que contém palavras especiais para conceitos da vida cotidiana das crianças pequenas (membros da família, higiene pessoal, animais familiares). Ele também se distingue através de certos padrões fonológicos (em inglês, o uso de alveolares ao invés de velares iniciais), e talvez através de regularizações morfológicas (por exemplo, comed, goed)* (Ferguson, 1978a; Haynes e Cooper, 1986). Os itens lexicais são ensinados às crianças e o registro do babytalk é popularmente considerado como "o jeito que as crianças falam". Personagens folclóricos (por exemplo, a figura do malandro dos hauçá (Dresel, 1977) ou o canário "Piu-piu" do desenho animado da Warner Bros.) podem ser representados como falantes do babytalk.

Em inglês, em que se realizou um certo trabalho preliminar sobre esta questão (Menn e Gleason, 1986), os padrões fonológicos deste babytalk estereotipado parecem, de fato, representar alguns dos traços mais comuns da pronúncia inicial das crianças, mas é claro que um estereótipo não pode representar a variação individual extremamente notável entre as crianças (Ferguson, 1986).

  • 1.2. História do campo e das fontes de informação
  • Desde que o estudo da linguagem da criança entrou em sua era moderna, nossas fontes para o estudo da aquisição fonológica vinha de três tipos de dados, cada qual contribuindo com uma perspectiva diferente.

    Estudos de diários

    Os estudos de diários foram a principal fonte inicial: anotações detalhadas escritas pelos pais ¾ que, muitas vezes, eram lingüistas ¾ , interessados no desenvolvimento da linguagem, que eram muitas vezes, lingüistas. Estes estudos apareceram pela primeira vez há mais de um século (por exemplo, Humphreys, 1880) e ainda continuam sendo realizados. Aqueles realizados por lingüistas, com o relato de quatro volumes de W. Leopold sobre desenvolvimento da linguagem de sua filha (1939-49), o artigo de H. V. Velten (1943) e o estudo detalhado de N. V. Smith dos padrões da fala de seu filho dos dois aos quatro anos de idade (1973), ainda são citados com freqüência. Relata-se que trechos dos dados de diários tratam de questões específicas, por exemplo, Menn (1971) sobre as limitações iniciais de seu filho em relação às seqüências de sons, o estudo de Stoel-Gammon e Cooper das diferenças individuais em filhos e os relatos de Donahue (1986) e Stemberger (1988) dos padrões de erro das crianças nos sintagmas e entre eles. Os estudos de diários têm pontos fortes e fracos: se o genitor é um observador treinado, eles podem fornecer conhecimentos exclusivos dos fenômenos evolutivos que os experimentadores jamais conseguirão captar, e eles podem acompanhar padrões evolutivos e dar detalhes sobre a variação na produção individual, que não estão disponíveis em estudos de grupos. No entanto, a falta de estrutura na coleta dos dados e os números reduzidos de sujeitos fazem com que seja difícil comparar os diários de diferentes crianças e fazer generalizações; o genitor como pesquisador introduz a forte possibilidade do viés do observador; e as transcrições on-line tornam impossível determinar a confiabilidade da transcrição, a menos que sejam feitas gravações suplementares em fita. (A maioria dos atuais estudos evolutivos individuais baseia-se em gravações em áudio e vídeo feitas em intervalos semanais ou mais freqüentes).

    Estudos transversais

    Um segundo tipo de estudo, que teve início nos anos 30, baseia-se em dados transversais de um grande número de sujeitos. Nestes, elicita-se a produção de um conjunto predeterminado de palavras, normalmente através da nomeação de figuras. O objetivo deste tipo de investigação não era documentar os padrões evolutivos em crianças pequenas, mas estabelecer um conjunto de "normas" para as idades em que os diversos fonemas do inglês era dominados. Os pesquisadores, em sua maioria educadores e terapeutas da fala, poderiam, então, utilizar estas normas para identificar as crianças que apresentassem atraso ou desvio em seu desenvolvimento fonológico. Os achados de Wellman e colegas (1931) e de Poole (1934) ainda são usados como base para a determinação do desempenho normal. O maior destes estudos é o de Templin (1957), que abrangeu 480 crianças. Estudos mais recentes com uma amostra volumosa incluem os de Prather, Hedrick e Kern (1975) e de Smit et al. (1990).

    Estudos normativos e relatos de diários produzem tipos bastante diferentes de dados. Os estudos de diários fornecem dados longitudinais de uma única criança e normalmente acompanham o desenvolvimento até os três ou quatro anos de idade; as produções são totalmente desestruturadas, ou seja, as que ocorrem nas interações do dia-a-dia. Em contraste a isto, os estudos normativos fornecem informações somente sobre um conjunto restrito de palavras ou sintagmas e nenhum dado sobre padrões longitudinais de uma determinada criança. Juntos, eles se complementam mutuamente e fornecem um quadro mais completo dos fenômenos em questão.

  • Estudos experimentais e naturalistas de grupos de tamanho reduzido
  • A abordagem ao estudo da aquisição fonológica desenvolvida mais recentemente foi chamada de estudo "lingüístico" (Ingram, 1976). Estas investigações são informadas pela teoria lingüística e utilizam análises fonológicas. Na maioria dos casos, trata-se de pequenos estudos de grupo em que os dados são coletados de forma semiestruturada, sendo elaborados para responder uma única pergunta ou um conjunto de perguntas relacionadas. O objetivo não é simplesmente documentar as produções de fala das crianças, mas determinar os fundamentos lingüísticos dos padrões observados. Os dados são gravados e cuidadosamente transcritos; em alguns casos, realizam-se, também, análises acústicas. A maioria dos estudos da fonologia da criança, realizados desde 1960, são deste tipo, incluindo o trabalho, freqüentemente citado, de Charles Ferguson e seus colegas e alunos na Stanford University (por exemplo, Edwards, Ingram, Macken, Stoel-Gammon, Vihman). Recentemente, a abordagem naturalista adotada pelos estudos "lingüísticos" tem sido suplementada por uma série de investigações experimentais cujo objetivo é controlar determinadas variáveis. Por exemplo, Ferguson e colegas observaram o fenômeno da "seleção lexical" através do qual as crianças escolhem a inclusão de certas palavras em seus vocabulários iniciais com base em traços fonológicos da palavra-alvo (Ferguson, Peizer e Weeks, 1973; Ferguson e Farwell, 1975). Parecia que as palavras selecionadas para a inclusão no léxico de produção continham classes de sons ou estruturas silábicas que a criança conseguia produzir de forma bastante precisa, e que as palavras fora do alcance da capacidade de pronúncia da criança eram deliberadamente evitadas. No entanto, a explicação alternativa, de que as diferenças no vocabulário inicial estavam relacionadas a diferenças no input, não podia ser descartada. Schwarts e Leonard (1982) deram o apoio definitivo à noção de seleção lexical ao elaborarem um experimento em que a freqüência do input de classes de sons e formatos silábicos era controlada de forma rígida, ensinando-se as crianças a inventarem "nomes" para objetos desconhecidos. Assim, o uso de procedimentos experimentais no estudo da fonologia da criança permite aos pesquisadores testarem hipóteses de maneiras que não são possíveis, utilizando-se de paradigmas naturalistas. Juntas, as abordagens naturalista e experimental fornecem dados essenciais ao teste de hipóteses e à elaboração de teorias.

     

  • 2. O PERÍODO PRÉ-LINGÜÍSTICO E A RELAÇÃO DO BALBUCIO COM A FALA
  • 2.1. Universais
  • A pesquisa sobre o desenvolvimento vocal pré-lingüístico das duas últimas décadas tem dois temas recorrentes. Primeiramente, independentemente da comunidade lingüística em que são criados, os bebês passam por uma seqüência ordenada de estágios em termos de desenvolvimento vocal. A princípio, suas vocalizações consistem de produções vegetativo-reflexivas, mas, em torno do segundo mês, surgem alguns "arrulhos" e "gu-gus" de conforto; no início do balbucio canônico, seus enunciados tornam-se cada vez mais semelhantes aos dos adultos, com sílabas CV identificáveis e padrões claros de entonação. O segundo tema principal é que as classes de sons e estruturas silábicas características do período do balbucio tardio (10-12 meses) são extremamente semelhantes em diferentes sujeitos e línguas. Por exemplo, em todos os estudos realizados até o momento, os repertórios de consoantes dos bebês no período do balbucio tardio normalmente incluem uma alta proporção de consoantes anteriores (ou seja, labiais e dentais/alveolares), de oclusivas e nasais, e de sílabas CV. O achado que estas características também obtêm na fala inicial com significado levou a uma nova visão da relação entre o balbucio e a fala.

    A controvérsia da descontinuidade/continuidade

    Em sua monografia influente sobre a aquisição fonológica, Jakobson (1968) alegou que as vocalizações dos bebês antes das primeiras palavras não estavam relacionadas ao desenvolvimento fonológico subseqüente. Ele descreveu o balbucio como o "solilóquio egocêntrico, sem objetivo, da criança ..."delírio da língua", de orientação biológica" (1968: 22) e declarou que "o surgimento de fonemas em um sistema lingüístico não tem nada em comum com as produções efêmeras de sons do período do balbucio" (ibid., p. 28). Embora muitas das alegações de Jakobson referentes à aquisição fonológica tenham recebido apoio posteriormente, o mesmo não ocorreu com respeito à sua visão da relação entre o balbucio e a fala. A primeira refutação importante da posição de Jakobson veio de Oller (1976), que mostrou que os sons e estruturas silábicas característicos do período do balbucio canônico se assemelhavam muito aos da fala inicial com significado. Este achado foi reproduzido, desde então, por diversos pesquisadores. Embora os bebês possam, de fato, produzir uma ampla gama de tipos de sons durante o período pré-lingüístico, somente um subconjunto reduzido destes ocorre com freqüência. A revisão de Locke (1983c) de três investigações separadas de bebês americanos mostrou que 12 consoantes: [p, t, k, b, d, g, m, n, w, j, h, s] correspondiam a 92-5% dos fones consonantais produzidos aos 11-12 meses. Este conjunto de consoantes é o mesmo que predomina nas primeiras produções de palavras no inglês (Stoel-Gammon, 1985). Além disso, a estrutura silábica CV característica do período do balbucio canônico também é a mais freqüente nas primeiras produções de palavras. Portanto, o balbucio e a fala inicial compartilham das mesmas propriedades fonéticas em termos de tipos de sons e formatos silábicos.

  • 2.2. Variação individual e interlingüística
  • Mais apoio à continuidade entre o balbucio e a fala é dado por investigações longitudinais de crianças individuais. Análises detalhadas de dados de sujeitos individuais mostram, em primeiro lugar, que há uma variabilidade entre as crianças no tocante ao ponto e modo de articulação, formato silábico e duração da vocalização e, em segundo, que estas diferenças são muitas vezes "transpostas" do período pré-lingüístico às primeiras palavras (Stoel-Gammon e Cooper, 1984; Vihman, Macken, Miller, Simmons e Miller, 1985; Vihman, Ferguson e Elbert, 1987). Vihman (1992) documenta diferenças individuais na ocorrência de "sílabas praticadas" no balbucio e mostra, então, que estas mesmas sílabas formam o fundamento das primeiras palavras das crianças.

    As pesquisas interlingüísticas produziram um pequeno, mas crescente corpo de evidências de que as vocalizações pré-lingüísticas mostram efeitos da língua do ambiente já aos dez meses de idade. O trabalho de Boysson-Bardies e colegas (1989, 1992) mostrou efeitos específicos da língua no sistema consonantal e vocálico. Os efeitos da língua do ambiente parecem ser mais claros na freqüência da ocorrência de determinados tipos (ou seja, no número de ocorrências), do que no repertório de tipos de sons e estruturas silábicas produzidos.

  • 2.3. O papel da prática e do feedback
  • A fala possui um componente de destreza e, como ocorre com qualquer atividade que exige uma destreza, a prática aumenta o controle e a precisão com que um movimento é realizado. Assim, quanto maior a freqüência com que um bebê produz os movimentos que moldam o trato vocal para a produção de determinados sons e seqüências de sons, mais automáticos se tornam estes movimentos e, por fim, torna-se mais fácil executá-los na produção da fala com significado. Como já foi mencionado, Vihman (1992) identificou um conjunto de sílabas CV de ocorrência freqüente (sílabas "praticadas") para cada sujeito e relatou que as sílabas utilizadas nas primeiras palavras eram "extraídas principalmente do repertório de sílabas praticadas". Considerando-se este achado, os bebês que possuem um grande estoque de silabas CV praticadas no balbucio poderiam ter uma vantagem na aquisição inicial das palavras por terem um repertório maior de formas às quais algum significado pudesse ser atribuído. Vihman (1992) observou que os sujeitos com uma aquisição mais lenta do vocabulário eram aqueles que não haviam conseguido utilizar suas "sílabas praticadas" na produção de fala com significado. De forma semelhante, Stoel-Gammon relatou que um dos "falantes tardios" que foram estudados por ela produzia muitas sílabas CV, em sua maioria com início velar, em suas produções sem sentido, mas não utilizava estas formas em suas tentativas de produzir palavras verdadeiras, que tinham, em sua maioria, início labial.

    A prática na produção de vocalizações semelhantes à fala também é importante para o feedback. Os bebês são expostos a dois tipos de input vocal, a fala dos outros e suas próprias produções. Além de melhorar o componente de habilidade motora da produção da fala, a prática permite aos bebês ouvirem suas próprias vocalizações. O circuito de feedback foi descrito por Fry (1966: 189): "À medida que os movimentos produtores de som são repetidos diversas vezes, forja-se um elo forte entre as impressões táteis e cinestésicas e as sensações auditivas que a criança recebe de seus próprios enunciados".

    A consciência dos elos entre seus próprios movimentos orais-motores e o sinal acústico resultante é um pré-requisito ao encontro auditivo-vocal subjacente à produção das palavras. Quanto mais a criança balbucia, maior é a oportunidade de estabelecer os circuitos de feedback necessários à produção e ao monitoramento de sua própria fala. Além disso, o circuito de feedback pode ajudar os bebês a reconhecerem na linguagem adulta as palavras que se assemelham a suas próprias formas balbuciadas. Assim, por exemplo, um bebê que produz [ba] ou [baba] com freqüência, pode estar propenso a adquirir a palavra "ball" (bola) ou "bottle" (garrafa, mamadeira) porque estas palavras são semelhantes às formas para as quais foram estabelecidos os padrões de feedback auditivo e cinestésico.

    A prática e o feedback não são aspectos independentes do desenvolvimento vocal inicial. A prática envolve a produção repetida de sons; o feedback envolve a audição e o monitoramento destas produções praticadas. Ambos são cruciais à aquisição da linguagem adulta: estudos das vocalizações pré-lingüísticas de bebês surdos demonstram que os efeitos de uma falta de input auditivo podem ser detectados aos sete ou oito meses. Bebês com deficiência auditiva possuem um aparelho vocal com desenvolvimento normal que lhes permitiria praticar os movimentos associados à produção de sílabas CV, e eles teriam um feedback tátil e cinestésico dos movimentos orais; no entanto, os bebês com deficiência auditiva apresentam um atraso significativo no início do Estágio Canônico (Oller e Eilers, 1988) e na freqüência e diversidade das consoantes supraglotais em suas vocalizações (Stoel-Gammon e Otomo, 1986; Stoel-Gammon, 1988). Presumivelmente, esta falha está relacionada à ausência do input auditivo, que impede a formação de circuitos de feedback auditivo e a audição da fala dos adultos.

    Ao que parece, a falta de prática motora também afeta o desenvolvimento. Locke e Pearson (1990) examinaram o desenvolvimento lingüístico de uma menina normal do ponto de vista cognitivo que foi submetida a uma traqueostomia e que ficou com "afonia geral" dos 5-20 meses. Durante este período, ela vocalizava de forma infreqüente, produzindo enunciado que normalmente consistia de "um único som vocálico com a duração aproximada de uma sílaba" (p. 7). Embora fosse exposta à fala de adultos, ela não conseguia produzir o balbucio canônico e tinha poucas oportunidades de formar circuitos de feedback auditivo ou tátil com base em suas próprias vocalizações. Após a remoção do tubo que impedia a respiração normal, pouco antes dos 21 meses, ela apresentou um aumento pronunciado na freqüência da produção vocal. Dos 909 enunciados produzidos várias semanas após a remoção do tubo, contudo, somente seis preenchiam os critérios de sílabas canônicas. Além da falta de sílabas bem formadas, ela tinha um repertório limitado de tipos consonantais. Os autores observaram que sua fala era semelhante à de bebês surdos estudados por Stoel-Gammon e Otomo (1986) e por Oller e Eilers (1988). Assim, os achados deste estudo de caso de uma única criança corroboram o papel essencial da prática e da audição das próprias vocalizações no desenvolvimento vocal normal.

     

  • 3. A PRODUÇÃO DAS PRIMEIRAS PALAVRAS
  • 3.1. Características das primeiras palavras
  • As primeiras tentativas das crianças para produzirem palavras são esporádicas, não sistemáticas em sua relação fonológica com a palavra adulta-alvo e extremamente variáveis na pronúncia, podendo haver muitos homônimos. À medida que as palavras tornam-se mais identificáveis, numerosas, sistemáticas e estáveis durante os primeiros meses da fala, as seguintes propriedades básicas tornam-se cada vez mais evidentes.

    Perda de informação

    Sob diferentes aspectos, as palavras das crianças carregam menos informações fonológicas (ou seja, são mais redundantes) do que os alvos adultos correspondentes. O vocabulário total de reconhecimento das crianças é reduzido e o vocabulário de produção é ainda menor; elas também não conseguem manter todos os contrastes fonéticos dos adultos, que seriam necessários para produzir suas palavras de forma precisa. Além disso, o conjunto total de formas de output consiste em grande parte ¾ mas não totalmente ¾ de aglomerados de formas estreitamente relacionadas, que podem ser descritas formalmente em termos de prosódias ou formas canônicas na representação auto-segmental. Individualmente, estas formas também tendem a conter um número menor de elementos independentemente especificados (menos informação) do que as formas adultas correspondentes.

    Sistematicidade dos mapeamentos e dos processos naturais

    As crianças normalmente têm formas sistemáticas de reduzir as palavras adultas a formas que se adequam a suas capacidades de produção. A maioria das palavras das crianças tem relações de mapeamento regulares com seus alvos adultos; estas regras ou regularidades podem ser descritas formalmente com a notação fonológica padrão, caso se desejar. As regras reduzem as informações contidas em cada palavra, produzindo o quadro geral descrito na seção um, acima. Algumas destas regularidades, como o ensurdecimento final (ou seja, não se conseguir manter a vibração das cordas vocais durante a produção de uma consoante como /b, d, g, v, z/ no final de uma palavra) são generalizadas e parecem ter explicações de controle motor fonético; o termo "processo natural" foi aplicado a estas regularidades por Stampe (1983). Outros processos naturais incluem a substituição de fricativas por oclusivas ([ti] por see), a redução de encontros consonantais a uma consoante isolada ([pat] por spot), apagamento do [h] inicial e apagamento de sílabas átonas iniciais e mediais ([næ] ou [‘nænæ] por banana). No entanto, observou-se que uma criança pode não conseguir utilizar estes processos em suas palavras iniciais e, então, começar a utilizá-los um pouco mais tarde. Isto nos leva a considerar estes processos como falha natural ou modos default e não como "regras inatas" em funcionamento. Outras regras comuns em crianças que estão adquirindo o inglês que não são proeminentes (ou, em alguns casos, nem mesmo atestadas) na linguagem adulta incluem desaspiração de consoantes oclusivas iniciais surdas ([do] por toe, ouvida como "sonorização" por indivíduos de língua inglesa) e diversas regras de assimilação parcial que asseguram harmonias consonantais de toda a palavra, especialmente a assimilação do ponto de articulação ([gak] por sock) e assimilação nasal ([minz] por beans).

    Algumas regras utilizadas pelas crianças não são "naturais" no sentido de terem explicações plausíveis de base exclusivamente motora. No inglês, observou-se que uma sílaba átona em uma palavra pode ser substituída por uma sílaba sem sentido (um formato estereotipado quase constante ou uma cópia da sílaba tônica) ao invés de ser apagada ([rita:] por guitar, Smith, 1973). A simplificação do encontro consonantal, normalmente realizada através da preservação do elemento mais obstruinte, também pode ser feita, combinando-se traços dos diversos segmentos (por exemplo, /s+nasal/produzido como nasal surda,/sk/produzido como fricativa velar [X]) mesmo quando a língua adulta não possui a combinação de traços resultante.

  • Regras/processos dependentes do contexto e suas implicações psicolingüísticas
  • As regras/processos podem ser livres de contexto ¾ ou seja, eles podem aplicar-se a um determinado som ou classe de sons em todos os casos ¾ por exemplo, todos os /l/ dos adultos são substituídos por /w/, ou todas as consoantes velares (k, g, n) são substituídas pelas consoantes alveolares correspondentes (t, d, n). No entanto, a maioria das regras/processos são dependentes do contexto: o destino do som alvo depende de sua posição na palavra ou na sílaba e/ou de outros sons na palavra. Por exemplo, as velares em início de palavra podem ser substituídas por alveolares, ao passo que as outras velares são produzidas de forma precisa, resultando, por exemplo, em [tUki] por cookie. Em uma forma de harmonia consonantal indicada anteriormente, a consoante inicial de uma palavra consoante-vogal-consoante é modificada de modo a coincidir com a posição de articulação da consoante final, produzindo [gk] por duck. Além das regras de substituição, livres de contexto e dependentes de contexto, as crianças também podem possuir regras de omissão livres do contexto e dependentes do contexto (por exemplo, omissão de todas as líquidas, omissão das líquidas somente em encontros oclusiva-líquida, como o/r/ em truck).

    Devido ao fato de as regras dependentes de contexto serem tão proeminentes, consideramos que as crianças aprendem a dominar as seqüências de sons dos adultos bem como os sons dos adultos; uma criança pode muito bem conseguir produzir todos os sons individuais de uma seqüência, mas ser incapaz de combiná-las e de produzir a seqüência em si.

    Reduções não-sistemáticas

    Nem todas as formas de produzir sons adultos são sistemáticas. Há também reduções não sistemáticas, "irregradas". Um tipo de mapeamento não-sistemático é normalmente encontrado entre as primeiras palavras: algumas destas podem ser produzidas de forma mais precisa do que em palavras produzidas mais tarde e contêm seqüências relativamente complexas de segmentos. Estas são chamadas de "expressões idiomáticas fonológicas progressivas" (Moskowitz, 1970); o termo "expressão idiomática" é utilizado porque a habilidade de produzir tais seqüências não se generaliza a outras palavras semelhantes. Estas expressões idiomáticas fonológicas podem ser estáveis por um longo período de tempo ou desaparecer cedo.

    Algumas reduções não-sistemáticas são instáveis; ou seja, elas resultam em outputs variáveis. Elas podem aplicar-se a seqüências de palavras: por exemplo, há crianças que mapeiam sintagmas inteiros de diversas palavras a seqüências frouxamente articuladas [por exemplo, I don’t want it (eu não quero) expresso como uma seqüência vocálica nasal [ããã:]; Peters, 1977]. Outras reduções não-sistemáticas reordenam os sons das palavras adultas de formas variáveis de modo a se ajustarem aos moldes (templates) de produção restritos das próprias crianças (Priestly, 1977). A criança neste estudo famoso parecia ter diversas maneiras de mapear certas palavras adultas a uma forma [CVjVC] canônica, por exemplo, [majos] e [mjan] para monster (monstro), [tajak] e [tajan] para tiger (tigre). O exemplo da variação de formas produzidas por ele não nos leva, de forma alguma, a pensar em termos de regras de seleção bem definidas. É como se muitas das formas de output fossem produzidas tomando-se o esqueleto [CVjVC] estável do "léxico de output" e, então, acrescentando-se as especificações instáveis da consoante de acordo com o "léxico de input".

    Algumas reduções não-sistemáticas são relativamente estáveis no tempo. Os moldes das palavras podem incluir padrões "melódicos" como "primeira vogal mais alta do que a segunda vogal", "consoante média = oclusiva glotal", "primeira consoante labial, segunda alveolar" (Macken, 1993). Os mapeamentos estáveis em moldes podem ser específicos de uma determinada palavra ou duas; caso se inscrevam regras ou se listem os processos destes mapeamentos, o resultado é uma coleção bastante diversificada de declarações ad hoc.

  • Mudanças de regras, "inércia" e suas implicações psicolingüísticas
  • Os sistemas de produção de palavras das crianças possuem uma considerável "inércia". Quando as crianças apresentam regularidades da redução de informações, as regras que descrevem estas regularidades podem ser estáveis durante longos períodos. Mudanças nestas regras muitas vezes são vistas em novos itens lexicais, disseminando-se somente de forma lenta a palavras estabelecidas.

    Uma regra pode ter-se originado como uma maneira de modificar ou omitir um som ou uma seqüência adulta que a criança ainda não poderia produzir, mas ela pode continuar a vigorar depois de a criança ter começado a produzir o padrão de som necessário nas novas palavras. Esta mudança lenta deve-se, às vezes, à percepção errônea da palavra-alvo adulta (Macken, 1992), mas muitas vezes não; normalmente, há uma defasagem real na aplicação de novas regras a palavras existentes.

    Um exemplo, utilizado com freqüência, de uma regra que não pode ser atribuída à percepção errônea, e que surgiu apesar da produção inicial correta ou quase correta da criança, vem de Daniel (Menn, 1971). Com cerca de dois anos de idade, Daniel produzia a palavra down (abaixo) corretamente como [dæUn] e stone (pedra) como [don]. Ambas eram palavras muito freqüentes. Algum tempo depois, ele começou a apresentar a regra de assimilação nasal: em palavras novas que continham uma consoante nasal e uma consoante oclusiva não-nasal, ele regularmente modificava a oclusiva não-nasal para a oclusiva nasal correspondente, produzindo dance (dançar) com [n] inicial e beans (feijões) com [m] inicial. Durante algumas semanas depois disto, down e stone foram mantidos em suas formas não-assimiladas, mas, então, as formas [næUn] e [non] começaram a aparecer com pronúncias variantes. Por último, as formas iniciais [dæUn] e [don] desapareceram, e [næUn] e [non} tornaram-se as únicas formas para estas palavras.

    Estes casos de "inércia" indicam que uma criança armazenou algo sobre a forma de dizer pelo menos algumas de suas palavras; em outras palavras, as regras das crianças não funcionam exclusivamente "on-line", como implicam alguns relatos. Este exemplo também ilustra a regressão de uma forma correta para uma forma incorreta à medida que uma regra se generaliza, um fenômeno familiar de outros aspectos do desenvolvimento lingüístico e cognitivo.

    Formas canônicas

    As palavras das crianças tendem a agrupar-se em conjuntos com base fonológica; o padrão de som que descreve um destes conjuntos é normalmente chamado de "forma canônica" ou "molde" (template). Como foi mencionado na propriedade 1, o primeiro tipo de sistematicidade nas palavras das crianças é a organização de seu vocabulário de output em palavras de formato silábico semelhante ¾ e muitas vezes, também de conteúdo fonético semelhante. Por exemplo, uma criança pode ter um grupo de palavras /CVCV/ com a mesma consoante oclusiva repetida, um grupo de palavras /CV/ com vogais baixas e um grupo de palavras que começam com nasais e sem consoante final. Estas abstrações dos padrões de grupos de palavras são chamadas de "formas canônicas", "moldes" ou "prosódias" (Waterson, 1971); como já foi mencionado, este padrão organizacional pode ser claramente observado mesmo no balbucio como "esquemas motores vocais" (Vihman, 1992) e entender por que uma organização deste tipo deveria existir é um dos objetivos da atual construção de modelos na fonologia da criança.

    Resumo

    Reunindo estas observações, podemos resumir os dados apresentados até o momento da seguinte maneira: a criança pequena que faz uso de uma palavra alvo adulta possui meios limitados à sua disposição. Se a palavra-alvo coincide totalmente com uma das formas canônicas, ela provavelmente será produzida de modo correto, mas somente algumas palavras adultas se enquadrarão nesta categoria. Se a palavra-alvo não fizer parte do conjunto de formas canônicas que a criança já domina, ela pode ser tentada ou evitada. Caso faça uma tentativa de produzi-la, a criança pode buscar além do repertório e tentar a nova seqüência de sons, ou adaptar a palavra omitindo, modificando ou rearranjando alguns de seus sons, de forma a ajustar-se a uma forma canônica disponível. (Por exemplo, uma criança com uma forma canônica /CV/ que ainda não consegue produzir duas consoantes adjacentes pode produzir snow (neve) como [nos]). Em muitos casos, esta adaptação pode ser e será feita utilizando-se um padrão regular de mapeamento existente (regra), mas, às vezes, nenhuma regra foi estabelecida.

    Muitos tipos de diferenças individuais são encontrados nesta estrutura geral. Por exemplo, é comum as crianças não conseguirem dizer palavras CVC em que as consoantes iniciais e finais têm posições diferentes de articulação ¾ em termos fonológicos, podemos dizer que as crianças pequenas não conseguem violar uma restrição de "harmonia consonantal". Algumas crianças podem evitar tais palavras, mas elas são demasiadamente comuns em inglês para que esta estratégia seja utilizada por muito tempo. A maioria das crianças trata delas modificando-as de alguma forma ¾ omitindo a consoante final, reduzindo-as a CV; modificando uma das consoantes de forma que fique mais parecida à outra (assimilação), como já foi mencionado; substituindo uma das consoantes por uma oclusiva glotal; ou através de outros dispositivos idiossincráticos regulares ou irregulares. A arte de produzir palavras que violam a harmonia consonantal pode ser aprendida aos poucos ¾ por exemplo, a criança pode desenvolver uma forma canônica "melódica" como [bVk] ou [gVt] bem antes de ser capaz de executar todas as seqüências CVC da língua do ambiente. Limitações semelhantes podem valer para as palavras CVCV (Macken, 1992) no inglês e em outras línguas.

  • 3.2. Unidades da produção inicial
  • A palavra como a primeira unidade

    As primeiras "unidades" fonológicas das crianças parecem ser palavras inteiras. Embora diversos autores tenham tratado a sílaba como uma unidade de construção subpalavra, uma abordagem baseada na sílaba possui aplicabilidade muito limitada. A unidade de análise subpalavra apropriada é a forma canônica ou molde da palavra, que pode ser tratada como se correspondesse ao tier (camada) esqueletal da fonologia auto-segmental adulta (Macken, 1992).

    Uma visão inicial e há muito desacreditada das palavras das crianças é que elas era construídas como seqüências de unidades isoladas de fonemas. Os dados abundantes que mostram que aprender a produzir uma nova seqüência de sons é um desafio tão grande quando aprender a produzir um novo som rapidamente tornou esta idéia indefensável. A hipótese de que a sílaba é uma unidade de construção da palavra teve uma certa aceitação, porque muitas limitações das seqüências de sons podem ser declaradas em termos de sílabas na linguagem adulta e também na linguagem da criança (por exemplo, o inglês possui o /h/ somente em posição inicial de sílaba). No entanto, a sílaba não é uma unidade inicial em qualquer sentido forte, porque as crianças pequenas não conseguem combinar livremente as sílabas para produzirem palavras; as palavras CV-CV iniciais têm restrições quanto aos pares possíveis de consoantes, de forma tão clara quanto as palavras CVC. Além disso, elas podem ter restrições quanto aos pares possíveis de vogais. Assim, por exemplo, as crianças que dominam as duas sílabas diferentes que seriam necessárias em uma palavra adulta como kitty (gatinho) ainda podem ser incapazes de combiná-las para produzir a palavra. Macken (1992) classifica estas restrições à seqüência de sons em padrões "harmônicos" (que exigem que as consoantes/vogais sejam idênticas ou semelhantes) e padrões "melódicos" (que exigem seqüências diferentes específicas de consoantes ou vogais).

    Enunciados de várias palavras

    As limitações de produção podem-se estender além dos limites das palavras (Donahue, 1986; Matthei, 1989; Stemberger, 1988). Tentativas iniciais de produzir sintagmas de duas palavras podem apresentar uma redução na precisão da produção das palavras individuais, e estas não podem, normalmente, ser explicadas como regressão a uma pronúncia anterior.

    ` Donahue (1986) mostrou a assimilação de consoantes além dos limites da palavra e Matthei (1989) demonstrou que as formas nas combinações iniciais de palavras de uma criança eram descritas de modo mais apropriado como mutilações de formas existentes. No estudo de Matthei, mesmo as formas que tinham sempre o formato CVCV, por exemplo mama (mamãe) [m' m' ], eram truncadas: mama’s key (a chave da mamãe) era produzido como [m' ki]. Portanto, as regras/limitações também devem operar on-line ¾ elas não podem ser simples declarações das limitações em formas armazenadas de palavras.

     

     

     

     

  • MENN, Lise e STOEL-GAMMON, Carol (1997). Desenvolvimento fonológico. In: FLETCHER, Paul e MacWHINNEY, Brian. Compêndio da Linguagem da Criança. Trad. Marcos Domingues. Porto Alegre: Artes Médicas. p.277-285.