Olhos têm mecanismo que ajusta relógio biológico, aponta estudo
31/01/2002
Fonte: Reuters - Folha on-line
Cientistas descobriram na retina de camundongos uma "rede" de células sensíveis à luz que poderiam ajudar a explicar como os mamíferos -inclusive os humanos- ajustam seus relógios biológicos.
Para os pesquisadores, essa rede de células localizadas na parte mais interna da retina é diferenciada dos cones e bastonetes -células especializadas que são sensíveis à luz e permitem às pessoas enxergar. Essa estrutura recém-descoberta parece proporcionar uma percepção menos especializada das mudanças na luminosidade.
É a alternância diária entre claro e escuro (dia e noite) captada pela retina que ajuda a acertar o "relógio biológico", também conhecido como ritmo circadiano. Além de controlar o ciclo sono-vigília, o ritmo circadiano influencia uma série de processos no organismo como a produção de hormônios, a pressão sanguínea e a temperatura corporal.
Há muito tempo, os cientistas tentam compreender como o corpo "reprograma" esse relógio quando o ritmo se torna desajustado -o que ocorre em várias situações da vida moderna, como o trabalho em turnos e as viagens que cruzam fusos horários diferentes.
Anteriormente, considerava-se que as mesmas células da retina que permitem a visão também enviavam sinais para o relógio central do corpo no cérebro.
No entanto, já havia sido demonstrado que em cegos -- tanto seres humanos como camundongos -- os ritmos circadianos podem responder a mudanças na luz. Por exemplo, os roedores que não enxergam seguem os mesmos padrões de dia-noite que os animais com visão normal. Isso porém não ocorre com os camundongos que não têm os olhos. O trabalho atual confirmou que o olho contém uma rede de células distintas das envolvidas na visão que ajuda o corpo a manter o ritmo.
A equipe de Ignacio Provencio, da Universidade Uniformed Services, localizada em Bethesda (Maryland), descobriu que, na retina do camundongo, um sub-grupo de células expressa uma proteína chamada melanopsina. Essa substância, descoberta em 2000 pelos mesmos cientistas, também é encontrada no olho humano. Ela é considerada a "melhor candidata" a mediador que traduz as mensagens de claro-escuro para o relógio circadiano primário no cérebro, segundo Provencio.
Usando anticorpos marcados (que se "iluminam" na presença da proteína), os cientistas identificaram uma delicada malha de células que contêm melanopsina e formam uma rede na retina dos camundongos, de acordo com o artigo publicado na edição de amanhã da revista "Nature".