Status elevado modifica cérebro de macacos e eles evitam cocaína
21/01/2002
Fonte: Folha on-line
Um grupo de cientistas dos EUA demonstrou que, ao menos entre macacos de laboratório, o poder pode realmente fazer a cabeça. Eles descobriram que animais que atingem um status elevado no bando sofrem uma modificação na área do cérebro associada ao prazer e ficam menos sensíveis a drogas que agem sobre ela, como a cocaína.
O estudo, liderado por Michael Nader, da Escola de Medicina da Universidade Wake Forest, usou uma técnica de imageamento chamada tomografia por emissão de pósitrons (PET, na sigla em inglês) para observar o cérebro de 20 macacos cinomolgos.
Os pesquisadores descobriram que indivíduos que conquistavam a posição de liderança do bando quando treinados a se injetar cocaína evitavam a droga, diferentemente de seus companheiros de status mais baixo.
Segundo o estudo, publicado na edição de fevereiro da revista científica "Nature Neuroscience"(www.nature.com/neuro), os macacos dominantes sofrem uma alteração no chamado circuito cerebral da recompensa.
As mensagens químicas entre os neurônios nessa área -que controla as sensações de prazer e satisfação- são carregadas por uma molécula chamada dopamina. Ela funciona como uma chave, que ativa moléculas-fechadura (os receptores) no neurônio vizinho e permite que os impulsos viajem de um a outro.
A cocaína simula os efeitos da dopamina, enganando as células nervosas e provocando uma superestimulação do circuito da recompensa -daí a freqüente sensação de euforia dos usuários.
O grupo de Nader realizou PETs nos macacos para medir a função dopaminérgica, ou seja, o funcionamento do circuito da recompensa, em diversas situações. Primeiro, os macacos foram mantidos isolados em gaiolas. Após algum tempo, foram agrupados em pequenos bandos, cuja hierarquia era definida de acordo com a agressividade -o macaco mais agressivo se tornava o chefe.
Depois de oito meses, em média, uma nova tomografia analisou o sistema dopaminérgico dos macacos. Descobriu-se que os animais que haviam se tornado dominantes em cada grupo passaram a ter ativação 20% maior nos receptores de dopamina.
Como os receptores ativados foram os mesmos que respondem à ação da cocaína, os pesquisadores treinaram os macacos para que se auto-administrassem injeções da droga -primeiro em troca de comida, depois como recompensa pela realização de tarefas. Enquanto os subordinados mantiveram um uso constante, nos dominantes a droga não funcionou como meio de troca. Quanto mais receptores ativados, menor é o efeito da enxurrada de sinais.
Embora a distância entre cinomolgos e seres humanos seja grande demais para permitir uma comparação, os cientistas acham que o trabalho pode servir de modelo para entender como as relações sociais podem influir na vulnerabilidade ao abuso de drogas.