Mente e cérebro, em uma única melodia
06/05/2001
Fonte: Jornal da Tarde
O comportamento humano é abordado de duas formas distintas, que contrapõem mente e cérebro – que poderiam ser vistos como o músico e seu instrumento.
A Lombardia, província do norte da Itália, assistiu, durante o século 17, ao apogeu da arte dos luthiers, nome dado aos fabricantes de violino – esse instrumento tão delicado quanto misterioso e diabólico. As oficinas de Nicollo Amati, Guarneri del Gesú, Giovann Paolo Maggini e Antonio Stradivari criaram verdadeiras jóias, disputadas, até hoje, a peso de ouro.
Nas mãos igualmente mágicas de Fritz Kreisler, Jasha Heifetz, Yehudi Menuhin e outros grandes violinistas, as obras-primas daqueles artesãos italianos atingem o máximo de beleza e sonoridade. Já nas mãos de um instrumentista mequetrefe, nem mesmo a excelência de sua construção consegue impedi-las de infernizar quaisquer ouvintes, num raio de quilômetros.
A razão para essa cruel diferença é simples. O som do violino depende de sua estrutura: da madeira utilizada, do verniz, do formato e de outros pequenos segredos. Esse conjunto dará, àquele violino, uma voz própria e inconfundível até para os ouvidos menos aguçados. Mas este som, embora derivado do material e do modo como foi feito o instrumento, não está ali, dentro dele.
Isto pode ser uma analogia útil para abordarmos uma situação atual e de interesse público: a polêmica, nascida nos meios acadêmicos, e freqüentemente veiculada pela imprensa, entre os estudiosos que defendem a influência psicológica no comportamento humano e os que procuram, na intimidade do nosso organismo, as razões para nosso modo de ser.
Embora esse antagonismo não seja recente, foi no século 20 que ele ficou mais acirrado. De um lado, a abordagem psicológica sofisticou-se a partir da criação da Psicanálise e das demais formas de lidar com as dificuldades mentais nascidas depois dela – a Psicologia Analítica de C.G. Jung, o Psicodrama, a Psicoterapia Reichiana, a Psicodinâmica, as psicoterapias em grupos.
A partir da década de 50, os progressos na Psiquiatria e na Neurologia também foram notáveis. Além da descoberta de medicamentos capazes de atenuar diversas formas de sofrimento psíquico de modo cada vez mais eficiente, também aumentamos muito o nosso conhecimento sobre o funcionamento íntimo do cérebro, que – tudo leva a crer – é a moradia de todas as nossas emoções.
Com esse progresso, formaram-se dois times extremamente fortes e bastante competitivos. Cada um deles, ao dar sua contribuição para o entendimento da vida, acaba puxando a brasa para a sua sardinha, dizendo saber qual a única e verdadeira causa das dificuldades que importunam a nossa mente. Embora ambos lamentem a distinção que fazem entre mente e cérebro, ainda assim eles enxergam em separado aquilo que a Natureza não parece preocupada em distinguir.
É possível que estas duas correntes paralelas e, até o momento, antagônicas, venham a se reunir, no futuro, num curso comum e mais integrado do que já observamos hoje (o próprio Freud, fundador da Psicanálise, acreditava que isso aconteceria, mais cedo ou mais tarde).
Por hora, nada nos impede de pensar que a mente é o som que o cérebro produz. Seus componentes hão de ser decisivos para o resultado final, mas só quando tocado pelas mãos hábeis da vida nosso cérebro será capaz de dar vida e sentido à mente que nele habita, produzindo uma sonoridade tão misteriosa, delicada, diabólica e fascinante quanto o faz um legítimo Stradivarius.
O autor é médico psicanalista formado pela Escola Paulista de Medicina e com formação analítica pelo Insituto Sedes Sapientiae. Email: forones@uol.com.br