'Quase morte', objeto de estudo científico
25/12/2001
Fonte: The Washington Post - Estado.com.br
WASHINGTON - O homem de 44 anos, que sofreu um colapso no campo, foi levado ao hospital, inconsciente, sem pulso nem atividade cerebral. Os médicos fizeram respiração artificial, massagem cardíaca e usaram descarga elétrica para recuperar os batimentos cardíacos. Uma enfermeira que tentava introduzir um tubo na garganta do paciente viu que ele usava próteses dentárias e as removeu.
Uma semana depois, a enfermeira viu o homem novamente. Ele a reconheceu de imediato como a pessoa que removera suas próteses dentárias. O paciente também se lembrou de outros detalhes do que acontecera enquanto estava em coma profundo. Segundo ele afirmou, acompanhou os acontecimentos de um ponto situado acima de sua cama no hospital, observando a atividade dos médicos que se esforçavam para salvar sua vida.
Esse relato poderia ser material para ser publicado em algum tablóide de supermercado, mas circulou na edição da semana passada do jornal médico britânico Lancet. É o mais recente esforço para documentar ou contestar a existência das experiências em estado de quase morte.
O novo estudo científico, feito na Holanda, é um dos primeiros chamados prospectivos. Em vez de entrevistar pessoas que relataram experiências de quase morte depois da ocorrência do fato, os pesquisadores as acompanharam durante o processo. Foram 344 vítimas de parada cardíaca, ressuscitadas depois de terem passado pela morte clínica.
Cerca de 18 pacientes estudados relataram alguma recordação do período em que estiveram clinicamente mortos. Entre 8% e 12% relataram ter passado por experiências de quase morte, como avistar luzes no fim de túneis, "atravessar para o outro lado" e falar com parentes e amigos falecidos.
Consciência - De acordo com os pesquisadores, as evidências apóiam a validade das experiências de quase morte. Segundo eles, elas também indicam que os cientistas deveriam repensar as teorias sobre a natureza da consciência humana. Já os céticos sustentam que os pesquisadores não apresentaram provas que pudessem confirmar quaisquer alegações sobre fatos extraordinários nem uma prova de vida após a morte.
A maioria dos neurocientistas acredita que a consciência seja subproduto do cérebro. "Compare a consciência a um programa de TV," disse Pim van Lommel, coordenador da pesquisa e cardiologista do Hospital Rijnstate, da Holanda.
"Quando alguém abre o aparelho de TV, não encontra o programa lá dentro, pois é só um receptor. Ao desligar o aparelho de TV, o programa continua lá, mas não se pode vê-lo. Quando o cérebro de alguém é desligado, a consciência continua lá, mas não pode ser sentida no corpo da pessoa."
Em artigo que acompanha a pesquisa, Christopher French, diretor da Unidade de Pesquisas sobre Psicologia Anomalística do Goldsmiths College da Grã-Bretanha, afirmou que ainda restam múltiplas questões a serem investigadas. "Não me parece que o estudo indique qualquer coisa situada além do processo de morte," concordou Paul Kurtz, ex-professor de filosofia da State University de Nova York e presidente da Comissão de Investigação Científica de Alegações de Paranormalidade. "Na minha opinião, experiências fora do corpo, visão de luz, sensação de estar viajando por um túnel e de encontrar pessoas do outro lado são estados psicológicos pelos quais as pessoas passam quando estão morrendo."
A audição é o último sentido a se desvanecer no cérebro à beira da morte. As vítimas como o homem de 44 anos podem ter ouvido os acontecimentos a sua volta e inconscientemente tê-los reconstituído como eventos visuais.