Nas creches, ciência começa a superar intuição
09/12/2001
Fonte: Renata Cafardo - Estado.com.br
Boas mães sempre brincam com seus filhos pequenos. Trocam balbucios, fazem caretas, provocam ruídos com chocalhos, estimulam sensações com toques, ajudam a explorar o espaço. Tudo isso tem sido feito há séculos com caráter lúdico, de mera distração. Mas as pesquisas na área neurológica, feitas com recursos cada vez mais sofisticados, que permitem detectar mínimos movimentos cerebrais, estão provando que esses gestos maternais têm um efeito que vai muito além do lúdico. Na fase que vai de 0 a 3 anos, eles são fundamentais e vão influenciar toda a vida da pessoa. É nesse período que o cérebro desenvolve os sentidos, a linguagem, os movimentos, as emoções.
A popularização dessas informações científicas está provocando mudanças em diversas áreas. As mães são orientadas a incrementar aquilo que já faziam naturalmente. Algumas creches mais sofisticadas mudam seus métodos de atendimento. Na área pública, começa a sair do papel uma política que deve transformar o atendimento às crianças numa atividade mais científica do que intuitiva.
Mas como se traz para a prática essa nova visão? Em primeiro lugar, não se trata de escolarização precoce, alertam os especialistas. O objetivo é estimular o cérebro.
Já no útero da mãe, surgem os cerca de 100 bilhões de neurônios do bebê, que passam a fazer contato, a transmitir informações entre eles, nas chamadas sinapses. Ao nascer, a maioria das conexões ainda está à espera de estímulos que darão continuidade a essas sinapses, criarão funções. É como se fosse um violão, prontinho para produzir som, mas à espera de alguém que o toque, afine, enfim, faça música.
As pesquisas indicam que sem esses estímulos muitas das conexões se perdem e dificilmente são recuperadas. Experiências mostram que animais privados de receber luz nos primeiros meses de vida podem perder a visão para sempre.
Com bebês, há o mesmo risco.
"Nos primeiros três anos de vida, quanto mais estímulo, mais e melhores conexões serão escolhidas. As que não são usadas sofrem um processo de regressão", explica a neurologista e pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Margareth Rose Priel.
Repetindo, isso não significa encher a criança de atividades, ensinar matemática, química, música, alemão, tudo antes de completar 3 anos. Muito pelo contrário. Esse tipo de conhecimento não desperta nenhum interesse na criança pequena e não favorece seu desenvolvimento.
"Não tem nada mais saudável para criança do que brincar. É assim que ela aprende as palavras, faz comparações", diz a professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) Marieta Nicolau. Ela também explica que os cuidados rotineiros, como trocar a fralda ou dar banho, não podem ser automáticos. "É importante conversar sempre com o bebê, mesmo que ele não entenda o que está sendo dito. Ele capta a sonoridade e se sente querido, porque tem a atenção do outro."
Projetos - No 11.º andar de um prédio perto da Praça da Sé, em São Paulo, bebês convivem com crianças de 5 anos, ouvem música, histórias, brincam juntos. Ficam no berço só enquanto dormem.
Aquário, salas temáticas, pequenos túneis, fantasias estão lá, para ajudar nas atividades. Nesse espaço inusitado - o quintal é a cobertura do edifício com vista de toda a cidade - funciona a creche mantida pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), considerada modelo por educadores.
"Aqui não tem nada parecido com sala de aula", diz a coordenadora da instituição, conhecida como Centro de Cultura e Educação Infantil (Cecei), Telma Vitória. "Nossos projetos fazem com que a criança aprenda limites, conviva socialmente, cuide de si própria."
Como toda mãe iniciante, a advogada Monica Riga precisou de um tempo para encarar com tranqüilidade o fato de a filha Mirella, então com 5 meses, ficar em uma creche o dia todo. "Aos poucos, comecei a perceber que ela estava bem mais ativa, menos fechada. O contato com outras crianças estava fazendo muito bem a ela." Mirella, hoje com pouco mais de 1 ano, é uma das 53 crianças educadas no Cecei.
O caráter assistencialista das creches tende a desaparecer. "Muita gente já percebeu que não basta trocar fralda, dar comida e colocar o bebê para dormir", diz a pedagoga e uma das responsáveis pela criação de outra creche modelo, a da USP, Rosana Dutoit.
No ano que vem as creches públicas de São Paulo, que atendem cerca de 80 mil crianças, sairão da responsabilidade da Secretaria de Assistência Social para integrar a Secretaria da Educação. A exigência está na Lei de Diretrizes e Bases da Educação desde 1997.
No início deste ano, foi criado pelo governo federal o Comitê da Primeira Infância. A idéia é unir cinco ministérios e entidades não-governamentais para coordenar políticas de educação infantil e saúde, principalmente para crianças pobres. "O bebê bem estimulado terá melhor escolaridade e pode quebrar o ciclo da pobreza na família", diz o deputado federal e neurologista Osmar Terra, idealizador do comitê.
Hoje existem no País 11,4 milhões de brasileiros entre 0 e 3 anos. É mais gente do que toda a população da Bélgica. Bem educados, eles ajudarão a mudar o futuro do Brasil.