O
TEMPO
Esse
molusco
que existe em mim
me entremeia de medo
enquanto vivo.
Tece em
meu corpo
sua teia
enquanto cavo o desejo.
Derrama
em meu sangue
seu orgasmo
enquanto mordo a dor,
Arranha
em meus passos
sua incerteza
enquanto espero a morte.
(Publicado
em "Presença Poética II", Editora Moandi, Campinas, 1992)
GRAFITTE
Árida
a pedra fala
nos muros calados.
Pálida
a mensagem tange
nos olhos em chama.
Cálida
a emoção dilui
nos moldes do tempo.
Ávida
a palavra
exala as cores da manhã.
(Publicado
em "Presença Poética III", Editora Moandi, Campinas, 1993)
Ao dizer sim, Tiê*
não se dava conta do tamanho da viagem. Era novembro de 1922. Quando
embarcou no México Maru, em lua-de-mel, não pensava
que alguns meses depois, rasgaria uma camisa surrada do marido para fazer
uma fralda. A única. A criança estava para chegar e os sonhos
de seus dezoito anos, não existiam mais. Perderam-se na miséria
da casa de sapé. No meio do mato denso e na saudade. Do outro lado
do mundo, Tiê estava só. Sem falar português, sem amigos.
Sozinha, cortou o cordão umbilical da menina frágil, que
acabava de nascer. Nunca tinha imaginado um parto. E terminava de fazer
o seu! O marido, em busca de ajuda, não voltara a tempo.
Quando se está só, aprende-se tudo. O jeito era mastigar
o arroz até transformá-lo em papa. Depois levá-lo,
cheio de enzimas, à boca do bebê! Com esse ritual, Tiê
superava as necessidades porque passava! Era preciso reconstruir o sonho
e o tempo era pouco. O dinheiro, escasso. A exploração
humana - que ela não conhecera em seu país - era uma constante
em sua vida. Das injustiças, perdeu a conta. Mas era preciso
calar e consentir. Senão, o alimento não vinha.
Tiê se sentia uma semente e lutava para germinar. Deixava viva
a chama do amor à terra, por onde passava. Suas mãos calejadas
colheram lírios e palmas. Rosas. Uvas e pêssegos.
Depois de percorrer muitas dificuldades, Tiê, o marido e os filhos
fizeram de Campinas o seu porto seguro. Definitivo.
Humilde e submissa. Contraditória, às vezes. Cheia de
garra e vontade. Enquanto falava da perseverança e da coragem
- conquistas diárias para vencer - ela cozia o fubá e
servia aos filhos famintos.
Com asas sempre abertas para o vôo, esqueceu de contar os anos.
Quando quis fazê-lo, não dava mais tempo de ver o que acontecera
no mundo. Oito, os filhos. Adultos, cada um escolhia o caminho que Tiê
ensinara a percorrer. Ela olhava o futuro sem saber. O marido, viajou
para o infinito. A família, na pátria distante, as cinzas
de Hiroshima haviam coberto para sempre.
Hoje, seus cabelos estão brancos de paz. As mãos tremem
ao segurar a longevidade do crisântemo. Vive trancada em sua sabedoria,
enquanto a morte não vem. Me diz que aceita a condição
de voltar a ser pó. Anônima e cansada, veste seus dias
de lembranças que os netos não querem ouvir. É
fantasia, acham. Do alto dos seus oitenta e cinco anos, ela me conta
sua história com uma lucidez divina. Mesmo se sentindo um pássaro
em extinção, ela ainda acredita na vida. Com um sorriso
amargo e o olhar perdido, lamenta não ter voltado à terra
natal. Sente suas forças exaurindo-se a cada dia. Mas persiste!
Nunca imaginou ser transformada em nome de rua um dia. Digo-lhe que
bem merecia, mas ela fica silenciosa. Emocionada, me diz que as lágrimas
eram gotas, que regavam a terra, em dia de sofrimento.