
Este trabalho germinou nos idos 1994, com a aula aberta que a Profª Áurea, de Didática, nos sugeriu ministrar, ao que lhe atendi, dando uma Palestra para estudantes de II Grau na Escola Técnica Federal de Santa Catarina. Em seguida, com a sensibilidade de quem um dia foi torturada pela Ditadura Militar, pediu-nos um ante-projeto baseado em uma das correntes pedagógicas que havia nos ensinado (ainda acredito nos professores que ensinam), onde não titubeei: é do Paulo Freire que quero falar - pensei - e olha que naquela época este autor e a própria Professora eram vistos com certa desconfiança...
A Sra. Áurea, infelizmente não foi efetivada como titular à época e hoje está aposentada, trabalhando com a alfabetização de adultos aqui mesmo na Ilha e tive a honra de receber o seu convite para colaborar no seu trabalho, ao que devo atender no próximo semestre.
Pois é, veio o Professor Maurício, em 1995 e tasquei o rascunho em cima de sua mesa: ele topou e me orientou. A Disciplina? Era Recreação e Lazer.
Com a Professora Iara, ele foi ainda mais aperfeiçoado e deu no que deu: resolvi "weblicá-lo", porque considero que o conhecimento não é propriedade exclusiva de quem o detem, e sim, que somos instrumentos através dos quais este se manifesta para ser usado em prol dos nossos irmãos. Vou mais longe: considero crime omití-lo ou usá-lo para coisas que possam prejudicar um semelhante.
Resumindo: este trabalho ainda não foi publicado, mas está registrado em nome de seu autor, assim como esta página; Portanto, se julgar necessário, faça bom e adequado uso deles!
N.A.: Na conversão
de texto "doc" para "html", desapareceram as notas de rodapé que
esclarecem melhor algumas citações. Com o tempo, elas serão
reincorporadas ao texto original.
O Autor.
03/07/98
Mensagem inicial:
Agradecimentos:
Capítulo
Página
I. O PROBLEMA................................................................................................ 6
Delimitação
Formulação da situação-problema
Questões a investigar
Hipóteses
Pressupostos
Objetivos do estudo
II. REFERENCIAL TEÓRICO........................................................................... 9
O divisor de águas
Futebol, lazer e recreação
A agonística e o futebol
O homem moderno das cavernas
A criança e as regras do jogo
Soldado ou atleta de elite: "o que você vai ser, quando você crescer?"
Recreando a educação à margem de.. quê?
III. METODOLOGIA.......................................................................................... 15
Fundamentação epistemológica
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.................................................................... 18
A opção por este tema se deu em função da preocupação com a cruel realidade em que vive o povo brasileiro: analfabetismo, trabalho escravo, senão desemprego, crianças fora da escola, indo para as ruas.
Este estudo é dirigido a crianças carentes entre 7 e 14 anos, do fictício bairro Baixada, que gostem de jogar futebol. O levantamento de pré-requisitos, sejam os dados das crianças e da comunidade, bem como o aspecto sócio-econômico, será feito por ocasião da entrevista de admissão ao grupo.
Delimita-se aqui o alcance da pesquisa: não se trata de um trabalho dirigido a meninos de rua, aqueles com o elo familiar e social rompido, que dormem e vivem nas ruas, mas a crianças carentes, que ainda possuem este elo, porém são candidatas à vida nas ruas - o que não impede que, eventualmente, possa se dar atenção àqueles - à medida em que a escola os exclui, através da repetência e/ou falta de elementos atrativos e consequente evasão, ou a abandonam por necessidade, para trabalhar nas ruas e aumentar a renda familiar.
Por que crianças carentes? Porque não tiveram acesso ou foram excluídas da escola, como já disse. Excluídas, enquanto um produto defeituoso de uma linha de fabricação em série ou talvez até por incapacidade de produção da própria máquina, mesmo. Os meninos de rua e os adolescentes e adultos, em virtude de haverem perdido o vínculo com a família e a sociedade e adquirido a cultura da rua, apresentariam maior resistência às propostas deste projeto e há que se centrar em algo: ou se tenta eliminar os efeitos de uma causa, ou à própria. É isto que se deseja, através do presente estudo, baseado no seguinte lema: a criança de hoje é o adulto de amanhã - sem desprezar o fato de que é cidadã hoje e sempre - tendo, portanto o direito a sua cidadania.
Neste estudo, a educação é entendida como uma atitude global, capaz de, por meio de uma interdisciplinariedade, fornecer subsídios a uma visão de mundo mais ampla. Vai ser utilizado o futebol como tema gerador, para se abordar as seguintes áreas: Comunicação e Expressão, Literatura, Ciências Sociais, Ciências Exatas e os diversos conteúdos culturais da recreação, na tentativa de se desenvolver a expressão corporal, sociabilização, auto-estima, auto-domínio, harmonia, criatividade, métodos de higiene pessoal e comunitária e principalmente, a ludicidade.
No diálogo a ser realizado com os autores, será abordada a visão funcionalista / utilitarista de lazer, colocada em cheque por alguns, em contrapartida à esperança de se transformar algo tido como utópico em realidade. Aqui, a utopia é vista como um ideal, um sonho e não algo irreal; É algo passível de se tornar realidade desde que haja trabalho, mínimas condições necessárias e esperança, muita esperança, reportando-se a Paulo Freire, em sua Pedagogia da Esperança.
O desafio também é pessoal: como ser instrumento de conscientização, com vistas a uma transformação, se o próprio professor não for capaz de ao menos tentar mudar a sua realidade?
Há esperança de se utilizar o aspecto funcionalista de lazer, porque ele existe, não se pode negá-lo, na educação de crianças carentes; Havendo êxito, elas teriam maior consciência da realidade em que estão inseridas, poderiam mudar de atitude perante a vida e , especificamente, ficarem longe das ruas, com possibilidade de retornarem à escola e, por conseqüência, dizerem não às drogas, à prostituição, à criminalidade. Salienta-se que isto seria uma conseqüência, um fim, e não, um meio na tentativa de se combater a marginalidade, a ignorância, seqüelas profundas da nossa sociedade; Combatê-las, não ao marginal ou ao ignorante, porque são vítimas de um processo, mas às etapas desta processo que geram estes efeitos nefastos, proporcionando as mínimas condições necessárias para que estas crianças possam educar-se, em seu tempo livre, divertindo-se como se estivessem brincando no fundo do quintal.
Este estudo, colocado em prática, proporcionaria um crescimento recíproco, tanto do professor, quanto dos alunos, em virtude de exercitar diretamente a criatividade para resolver-se, através da recreação, os diversos problemas peculiares à realidade tanto de um, quanto de outro. Não se limita ao âmbito escolar, podendo ser aplicado por qualquer educador, em qualquer lugar.
Seria uma retribuição justa à sociedade e uma oportunidade de os alunos exercitarem o seu aprendizado e a caridade, palavra fundamental em épocas de crise.
Conscientizar as crianças de sua realidade em relação ao mundo, utilizando-se do futebol como tema gerador, proporcionando atividades de recreação em seus tempos livres e, por conseqüência, afastá-las das ruas, drogas, prostituição e da criminalidade.
Estimular a leitura; desenvolver
a comunicação e a expressão corporais; dar noções
de ciências sociais e exatas; explorar os conteúdos culturais
do lazer; desenvolver a sociabilização, auto-estima, auto-domínio
e harmonia; estimular a criatividade; propor métodos de higiene
pessoal e comunitária; conhecer a história do futebol; jogá-lo
dentro da concepção lúdica; desenvolver qualidades
físicas e ludo-motoras; apresentar os fundamentos do futebol; formar
dois times e participar em eventos beneficentes.
Na visão pessoal deste autor, lazer seria toda a forma de entretenimento realizada nas horas vagas, proporcionando o prazer de se fazer algo de que se gosta. Recreação, seria esse lazer, realizado com a presença de um educador, em oposição ao que dizem os lingüistas (dicionários do Aurélio, MEC/FAE, etc), para os quais recreação e lazer são sinônimos de ócio, descanso, diversão, alegria e prazer.
Alguns autores entendem, como MARCELLINO (1987), o lazer como sendo a cultura vivenciada no tempo disponível de cada pessoa e PINTO (1991), lazer e recreação com o mesmo sentido conceitual, de vivências lúdicas no tempo disponível das pessoas.
LUDTKE (apud DIECKERT, 1984), acredita no lazer como campo de condição social para atividades esportivas.
Pode-se ver que há um leque de autores e de opiniões que vão desde a visão acadêmica, até a de senso comum, que retrata aproximadamente o que pensam os lingüistas sobre o tema, passando pela científica, até retornar ao senso comum acadêmico, através de entrevista estruturada, realizada em agosto de 1994, sobre as concepções de lazer e recreação de colegas do Curso de Graduação em Educação Física desta instituição, onde, resumidamente, chegou-se à conclusão de que recreação e lazer têm o mesmo significado para eles, isto é, aquilo que se faz nas horas de folga, sem obrigação, com o intuito de se divertir.
Agora, após esta breve revisão de concepções, vai-se tentar justificar o conceito inicial. Por que lazer e recreação estariam separados por um divisor de águas? Por que seria necessário um educador para que houvesse o ato de recreação?
Inicialmente, o educador seria o divisor de águas, para caracterizar o aspecto educativo-formal da recreação: porque há o lazer que se faz a bel-prazer, individual ou coletivamente e aquele feito com a colaboração de um profissional, onde, independentemente da corrente pedagógica seguida por este, são proporcionadas vivências que passam a fazer parte do acervo cultural de quem o pratica.
Segundo MARCELLINO (op.cit.), a atividade que se faz é ou não lazer, dependendo da atitude de quem a pratica e adiante cita GRAMSCI para fazer uma comparação entre a educação sistemática (escola / educador) e a não sistemática (fora do âmbito escolar) e explicar que a relação pedagógica abrange os vários processos de transmissão cultural.
Aqui, tenta-se associar esta atitude à atividade para se saber se o que se pratica é ou não lazer e, esta relação à presença do educador, identificando-se a recreação como forma de educação sistemática, numa visão vanguardista desta, face à evasão escolar por falta de atrativos que o vídeo-game ou a cola, ou a televisão fornecem em demasia. Ou seja: o educador seria uma espécie de recreador.
Ademais, esse lazer bel-prazer a que me referia via de regra é executado da mesma forma, sendo as suas variantes limitadas à tecnologia e à possíveis mudanças superficiais de regras. Quem ouve música por lazer, geralmente o faz de maneira igual, variando apenas o tipo, o equipamento e o local e quem joga uma pelada, geralmente segue as tendências trazidas do futebol profissional: uma pelada é igual aqui ou no Xuí. Enquanto que recreação nesta concepção , seria capaz de proporcionar uma produção de conhecimentos, embasada no conhecimento científico do educador.
Um aspecto relevante neste lazer / bel-prazer que não podemos omitir é o fato de que, mesmo sem a presença de um educador, ele indiscutivelmente pode proporcionar a aquisição e produção de novos conhecimentos, porém estes ficam limitados à iniciativa de quem o pratica, bem como ao meio em que vive essa pessoa, em contrapartida à recreação que aqui se idealizou.
É partindo desta visão de lazer e recreação que poder-se-ia imergir no mundo das crianças, na tentativa de se entender por que a maioria delas se utiliza de apenas uma bola para brincar, no Brasil, e por que esta brincadeira é geralmente o jogo de futebol (entre meninos, diga-se de passagem).
Segundo ENGELS (1980) o trabalho contribui para a criação de laços de amizade , que por sua vez estimulam a ajuda mútua, surgindo daí a necessidade de comunicação entre os envolvidos neste processo social, conceito este que pode ser aplicado neste estudo, correlacionando-o com o jogo, pelo grau de participação exigido para que se possa atingir aos seus objetivos. Outra fonte onde se pode reforçar esta tese, seria OLIVEIRA (1983), que aborda o aspecto sociabilizante do jogo.
Futebol é afrouxar o chute, quando o seu amigo está no gol, ao mesmo tempo que pode ser uma possibilidade de se chutar mais forte ainda, caso não seja ele; É passar a bola para o mais fraquinho ou aproveitar-se de sua fraqueza para driblá-lo com um drible da vaca . É ser criança, mesmo quando adulto, ser moleque (FREYRE ap. GIL, 1994) e viver todas as contradições do ser humano, que as crianças, estes seres tão especiais exteriorizam tanto arbitrária, quanto angelicalmente em seus atos, porque ainda não aprenderam a ser hipócritas, a mascararem os seus sentimentos, porque lá o líder é geralmente o melhor jogador e/ou o mais forte e todos o respeitam; enquanto que o goleiro, este é o dono da bola.
Futebol é a paixão de começar a escrever e retornar à infância, mas ao mesmo tempo estar com a cabeça erguida na condução desta bola.
Revisitando OLIVEIRA (loc.cit.), confirma-se o caráter competitivo do jogo de futebol, onde cita o lema olímpico, que expressa o fascínio pela superação, vindo da Grécia antiga. Poder-se-ia estimular construtivamente a competitividade transformadora, onde o sujeito seria incentivado a superar a si próprio, crescendo enquanto ser humano e não, tornar-se objeto de consumo de acessórios ou de artifícios, com o intuito de sempre ser o melhor, correndo o risco de viver comparando-se aos outros e amargar frustrações ao deparar-se com situações particularmente intangíveis.
Outro aspecto a ser abordado é o fato de que é uma das formas mais simples e de menor custo em matéria de divertimento: requer apenas uma bola, um campo aberto de pasto e duas traves, que podem perfeitamente serem construídas artesanalmente. No mais, basta apenas reunir os garotos da redondeza e começar o jogo, cujas regras são normalmente por eles determinadas e devidamente repassadas aos novos membros eventuais do grupo, que poderão intervir sobre elas, trazendo sugestões de como jogavam no bairro de onde vieram.
Agora, passa-se a falar da agonística, ou liberação de emoções contidas, através da violência, ou canalização de energia.
E o que tem o gol, o grito, a alegria e a raiva a ver com recreação e lazer, com canalização de energia? As crianças, quando jogam no campinho do bairro, o fazem para satisfazer aos seus desejos, para fazerem gols, ao contrário de quando estão na escola ou no clube, onde têm de agradar ao professor ou ao treinador.
Todo este processo se dá, porque inconscientemente querem canalizar as suas emoções e energias, para em seguida extravazá-las num grito de gol, sendo que quando este não vem ou surge em função de uma falha banal, os ânimos podem exaltar-se e surgir desentendimentos e brigas , alimentados ou não por lideranças negativas ou positivas, que no fundo são a insatisfação de ter que sublimar um desejo e torná-lo contido, o que por sua vez gera a frustração, que é justamente o contrário do desejado, o prazer.
Quando isto acontece, o melhor caminho a seguir é acalmar os ânimos e talvez até adiar a brincadeira, pois a partir deste momento o jogo deixa de ser lúdico e passa ao jogo de manobras (PINTO, 1991), no sentido de estratégia, plano, artimanha, que pode servir tanto a interesses internos, quanto externos - moralistas, utilitários ou político-partidários - com princípios totalmente contrários aos iniciais e que só pode ser superado com o amadurecimento do grupo e de suas relações, sob pena de o mesmo rachar e surgir a divisão.
GEERTZ (in: ENGELS, 1980), analisando a transição do homem primata para a humanidade, salienta as vantagens de seletividade que um homem tinha sobre outro pelo fato de possuir em maior grau algumas habilidades , tais como destreza manual e até subjetivamente, quando fala em persistência e paciência, o que retrata a competitividade inerente ao homem desde a sua origem, fator de sobrevivência dentro daquele contexto e que hoje se reflete indiretamente pela necessidade que uns possuem de ter e ser mais do que outros para adquirir status, ou destaque, em detrimento da solidariedade e do companheirismo, qualidade que o homem das cavernas possuía, apesar de lutar pela sua sobrevivência.
Um fato interessante é que as crianças, com o passar do tempo, vão crescendo, moralmente se fortalecem e já não o canalizam mais as suas emoções inadvertidamente; Amadurecem e aprendem que já não podem mais empurrar o adversário para tomar-lhe a bola, porque mesmo que a sua consciência falhe, o grupo não aceita este comportamento; Então aquelas regras escassas e indesejadas vão-se aprimorando junto com os seus modos de agir, até que incorporam as regras sociais ao jogo e a si mesmas.
E por que a criança, esta criatura tão travessa, capaz de jogar e brincar com o maior prazer e descompromisso durante todo o tempo livre de que dispõe, tempo este limitado e organizado por um adulto chato, que já esqueceu o que é ser criança, estaria disposta a mudar o seu comportamento espontâneo, obedecer as regras do jogo das quais tanto foge - porque deseja a liberdade de voar livre como um pássaro - incorporá-las aos seus jogos e brincadeiras e, por conseqüência, a sua vida social?
Porque a criança, lúdica por natureza, intuitivamente sabe que por uma questão de prioridades, tem que assimilar essas mudanças, o que para ela é uma forma de sobrevivência: ou ela abdica de sua natureza bruta, ou ela é excluída do grupo e, para uma criança, ser aceito é fundamental.
Como se falou, elas são tão espontâneas que selecionam quem deve fazer parte do grupo, excluindo aqueles que são diferentes, comportamento que deve ser questionado e trabalhado de forma a eliminar a formação de uma mentalidade pré-conceitual, já que para elas mesmas, ser aceito está acima do prazer de canalizar as suas emoções inadvertidamente - objetivo maior de seu lazer - fazendo com que busquem outras formas de liberá-las, bem como as suas energias, num ciclo ilimitado, sempre que tiverem de mudar o seu padrão de comportamento, porque é este prazer que faz de seu lazer ser o que é: atitude.
Retomando a análise de GEERTZ (ibid), verifica-se que o homem não é apenas produtor de cultura, mas também um produto desta, permeando relações que abrangem toda a sua formação e, especificamente neste caso, as relações entre as crianças, a sua evolução moral, a criação e adaptação às regras que vão-se incorporando ao seu convívio em sociedade, caracterizando o que ENGELS (1980:20) chama de "repetição abreviada da evolução intelectual de seus antecessores."
Há que se ressaltar aqui o inconveniente de se incutir ideologias escusas nesse processo, que colaborem para uma indução no comportamento das crianças, fazendo-as crêr que deveriam agir de tal ou qual modo para serem aceitas na sociedade, serem normais, seguindo o mau exemplo de alguns governantes do passado, seja ao incutir um nacionalismo exacerbado aos seus jovens soldados, seja utilizando-se da imagem do desportista como uma pessoa necessariamente saudável e de sucesso. Não se deseja ver este estudo sendo utilizado ideologicamente, à mercê de paixões políticas, apesar de possuir este caráter ao tentar libertar o homem das amarras do senso comum. Ele é político, mas isso não quer dizer que visa ao "jogo de manobras" (PINTO, loc.cit.:289) e sim, a evitar que esse tipo de jogo aconteça.
Para finalizar, reporta-se aqui ao país em que vivemos a nossa infância para afirmar que ele ainda existe, basta que dele se utilize na tentativa de educar as nossas crianças e dar-lhes a chance de poderem experimentá-lo, como nós, que corríamos por entre descampados e bosques, subíamos em árvores, caíamos no chão, ralávamos o joelho e perdíamos a unha do dedão do pé.
Recrear a educação
significa alegrá-la, educar, proporcionando o prazer àqueles
que vivem à margem da nossa sociedade, especialmente as crianças
carentes. Não se pode abraçar o mundo com os braços
de uma pessoa apenas, por isso este estudo é dirigido àquelas
crianças de comunidades carentes que gostem de jogar futebol. Meninas
poderiam participar? É outra questão a se analisar, mas não
existe maiores implicações para isso.
É sabido que algumas pessoas poderiam visitar esta obra como utópica, romântica, moralista, utilitarista, compensatória, etc, etc, etc (MARCELLINO, 1987). As possibilidades aqui propostas não são colocadas dentro deste contexto, muito menos enquanto cética e sectária: é fundamentado na esperança de algo melhor para as nossas crianças e não, em conceitos científicos e filosóficos que estigmatizam e esmiuçam entrelinhas que não necessariamente fazem parte da análise do autor.
O Dr. José de Paiva Netto, Presidente Mundial da LBV, considera alguns discursos acadêmicos como "diarréia intelectual" e afirma que das universidades sem espiritualidade saem os piores criminosos, o que não deixa de ser verdadeiro, porque os seus valores éticos e morais são distorcidos por um materialismo ateu e excessivo.
HARPER et al. (1980) abordam situações em que se confirma como as crianças são altamente influenciáveis, a ponto de, em certa altura da obra, alunos infra-dotados intelectualmente passarem a ser os melhores de suas turmas apenas porque foram indicados como fenômenos intelectuais pelo antigo professor - um dos pesquisadores da obra citada. Isto demonstra que, da mesma forma que crianças podem ser estimuladas a serem as melhores, outras podem ter o seu futuro desestruturado por um professor inepto. E, diga-se de passagem, não apenas crianças.
Os ensaios sobre meninos e meninas de / na rua que constituem a obra de SILVA (1993) inspiram e dão alento a quem deseja engajar-se pelos mesmos caminhos. Lá se pode conhecer um pouco mais sobre o que é viver nas ruas.
As crianças serão o homem de amanhã! Deve-se refletir bem esta questão, porque é de suma importância: não adianta adotar medidas paliativas como aumentar o número de policiais nas ruas. Têm-se que evitar as causas da criminalidade, não o criminoso.
Que possam jogar, aprendendo conteúdos que lhes serão úteis na vida: aprendendo a escrever, a falar, a ter uma visão escolar da vida, dentro de um contexto crítico, divertindo-se como se estivessem jogando uma pelada. Decorre daí uma nova visão de ensinar, nessa concepção global do saber popular.
O presente estudo é fruto de uma pesquisa de campo, segundo TRIPODI et alii (apud MARCONI, 1990), que se constituirá de: estudos e avaliação de programa, observações, entrevistas, questionários e formulários, na busca de subsídios, sustentação e novas possibilidades de se entender e atuar sobre as questões aqui abordadas.
a) Pesquisa de campo: "tem por objetivo a captação de dados acerca do problema, na busca de soluções e/ou hipóteses para se entender o mesmo." (MARCONI, 1990:75);
b) Observações: serão utilizados dados advindos de observações estruturadas e não-estruturadas, participantes e não-participantes, individuais e em equipe - na vida real. (id. ibid.);
c) Entrevistas: estruturadas e não-estruturadas (ibid);
d) Questionários e formulários: a serem pesquisados junto ao grupo, enquanto sujeitos deste estudo (CARVALHO, 1988);
e) Vivências;
A avaliação de método será feita através do tipo de pesquisa supra citado, estendendo-se à participação de pessoas interessadas / envolvidas no processo ensino/aprendizagem.
Os conteúdos serão pré-determinados, sujeitos à alteração em função das necessidades do grupo, mas a forma como serão encaminhados, embasada na Pedagogia Libertadora (FREIRE, 1992) e libertária.
Os encontros do grupo serão realizados nos espaços disponíveis da comunidade, eventualmente em outros locais, com freqüência de duas a quatro horas semanais, sendo cada encontro de aproximadamente duas horas.
Como forma de se atingir aos objetivos serão ministradas intercaladamente aulas expositivas (com o uso de sala de aula, retro-projetores, slides, vídeos, palestras, discussões em grupo, etc), aulas práticas (atividades que envolvam desde os movimentos naturais à iniciação à especialização, de acordo com as faixa etária e mais: brincadeiras, jogos, etc), aulas de campo (visitas de estudo a bibliotecas, exposições, mostras, museus, monumentos histórico-culturais, etc), aulas de vivência (dramatização, expressão corporal, relaxamento, oficinas de teatro, pintura, reciclagem, etc) e aulas de pesquisa (leitura, interpretação e composição de textos, com o uso de dicionários, baseados em recortes de jornais, livros e revistas, obtidos por membros do grupo), tendo o futebol como tema.
Os recursos materiais necessários para desenvolver os trabalhos variam desde uma bola e um simples campinho até os livros disponíveis que tratam sobre o assunto, material escolar, sala de aula, auditório, biblioteca, sala de vídeo, ginásio de esportes, etc.
Com o apoio da comunidade e dos órgãos competentes, buscar-se-ia a sua disponibilização.
Sendo a minha pesquisa de campo, exploratória, em estudo de caso e pelas diretrizes já traçadas para a mesma, cheguei à conclusão de que se encaixa dentro da abordagem Crítico-Dialética.
Segundo Gamboa (apud Fazenda/Org.:1991:96), ‘estudos sobre experiências, práticas pedagógicas, processos históricos, discussões filosóficas ou análises contextualizadas a partir de um prévio referencial teórico’ são características da pesquisa crítico-dialética.
E o que veremos em ‘Recreando a Educação...’? Exatamente isto: um estudo preliminar sobre o tema, seguido de etapas de pesquisa que coincidem com os parâmetros estabelecidos pelo autor.
Com relação ao tipo de crítica e às propostas de mudança, como foi baseada na Pedagogia Libertadora de Paulo Freire, visa à libertação do ser humano, como o próprio nome diz, das amarras que o prendem ao atraso, à falta de consciência, à falta de criticidade diante dos fatos mais irrisórios da vida. Por isso, busquei encaminhar a pesquisa na direção da estrada da conscientização.
Gamboa (id.:97), classifica a pesquisa crítico-dialética, sendo do terceiro grupo:
Dentro do presente estudo, ver-se-á que, de acordo com o explicado anteriormente, tentou-se conduzir a pesquisa em direção à auto-conscientização, criticidade e localização no contexto em que o sujeito está inserido. Podemos ir mais longe: seria ‘sujeito’ mesmo?
Em relação ao que o autor chama de nível epistemológico, o presente estudo entra em alguma contradição com a teoria, com relação à concepção. Na obra, a concepção causal é típica da pesquisa empírico-analítica, mas no presente estudo, ela é mais evidenciada do que sugere o autor, quando enfatiza o funcionalismo. Apesar disso, também supõe ‘inter-relação do todo com as partes e vice-versa, da tese com a antítese, dos elementos da estrutura econômica com os da super-estrutura social, política, jurídica e intelectual’ (ibid.: 98).
Concepção de ciência: Abordagem Dialética
Basicamente, seriam estas as considerações a fazer em relação às bases epistemológicas utilizadas no presente estudo.
BASTOS, Lília da
R. et alii. Manual para a Elaboração de Projetos e Relatórios
de Pesquisa, Teses, Dissertações e Monografias.
4ª ed. Rio de Janeiro: LTC, 1996.
BUENO, Francisco da Silveira. Dicionário Escolar da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: MEC/FAE, 1985.
ENGELS et alii. O Papel da Cultura nas Ciências Sociais. POA-RS: Vila Martha, 1980.
FAZENDA, Ivani (Org.). Metodologia da Pesquisa Educacional. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 1991.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança: Um Reencontro com a Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
GIL, A. Carlos. Métodos e Técnicas de Pesquisa Social. 4ª ed. São Paulo: Atlas, 1994.
GIL, Gilson. O Drama do Futebol-Arte: O Debate sobre a Seleção dos Anos 70. Revista Brasileira de Ciências Sociais (9) nº 25: Anpocs, 1994.
HARPER, Babette et alii. Cuidado, Escola! Desigualdade, Domesticação e Algumas Saídas. São Paulo: Brasiliense, 1980.
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MARCELLINO, Nelson C. Lazer e Educação. Campinas-SP: Papirus, 1987.
MARCONI, M. A. & LAKATOS, E.M. Técnicas de Pesquisa. 2ª ed. São Paulo: Atlas, 1990.
OLIVEIRA, Vítor Marinho de. O que é educação física. São Paulo: Brasiliense, 1983.
PASTORINO, C. Torres. Minutos de Sabedoria. Petrópolis: Vozes, 1994.
PINTO, Leila Mirthe S. M. A Recriação / Lazer no Jogo da Educação Física e dos Esportes. Revista Brasileira de Ciências do Esporte (12) 1,2 e 3, 1991.
SILVA, Maurício Roberto da (Org.). Iniciação à Pesquisa Científica em Lazer no Âmbito da Disciplina Recreação. Aracajú: CEAV/UFS, 1993.
Este trabalho germinou nos idos 1994, com a aula aberta que a Profª Áurea, de Didática, nos sugeriu ministrar, ao que lhe atendi, dando uma Palestra para estudantes de II Grau na Escola Técnica Federal de Santa Catarina. Em seguida, com a sensibilidade de quem um dia foi torturada pela Ditadura Militar, pediu-nos um ante-projeto baseado em uma das correntes pedagógicas que havia nos ensinado (ainda acredito nos professores que ensinam), onde não titubeei: é do Paulo Freire que quero falar - pensei - e olha que naquela época este autor e a própria Professora eram vistos com certa desconfiança...
A Sra. Áurea, infelizmente não foi efetivada como titular à época e hoje está aposentada, trabalhando com a alfabetização de adultos aqui mesmo na Ilha e tive a honra de receber o seu convite para colaborar no seu trabalho, ao que devo atender no próximo semestre.
Pois é, veio o Professor Maurício, em 1995 e tasquei o manuscrito em cima de sua mesa: ele topou e me orientou. A Disciplina? Era Recreação e Lazer.
Em 1996, afastado da Cidade e da Universidade, por problemas pessoais e de saúde, comecei a treinar o time de futebol onde jogava e a situação me animou a tentar implantar o projeto, então reuni um sobrinho e seus amigos e começamos a treinar, mas eram jovens a partir dos 15 anos, não carentes e apliquei apenas a parte técnica. Dificuldades? Só as Irmãs de um Lar de Meninas nos cederam espaço para treinar e uma sala de aula. Os nossos administradores, com certeza não são estes que nos pedem votos pela televisão... É que na tela eles estão maquiados! "Ah, ah, ah", diria o Macaco Simão, da Folha!
Com a Professora Iara, ele foi ainda mais aperfeiçoado e deu no que deu: resolvi "weblicá-lo", porque considero que o conhecimento não é propriedade exclusiva de quem o detem, e sim, que somos instrumentos através dos quais este se manifesta para ser usado em prol dos nossos irmãos. Vou mais longe: considero crime omití-lo ou usá-lo para coisas que possam prejudicar um semelhante.
Resumindo: este trabalho ainda não foi publicado, mas está registrado em nome de seu autor, assim como esta página; Portanto, se julgar necessário, faça bom e adequado uso deles!
N.A.: Na conversão
de texto "doc" para "html", desapareceram as notas de rodapé que
esclarecem melhor algumas citações. Com o tempo, elas serão
reincorporadas ao texto original.
O Autor.
03/07/98.